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Barroso, o homem do pontapé-canhão: “98 km/h? Isso eram os meus melhores remates com o pé esquerdo!”

Esteve no tri e no tetra do FC Porto e foi um dos mais marcantes capitães do Sp. Braga. Barroso, hoje com 46 anos, vai ser por isso um dos mais atentos espectadores do jogo que vai opôr dragões e minhotos este sábado, no Dragão. Dono de um dos pontapés mais fortes do nosso futebol, chegou a lesionar colegas em treinos (sem intenção, claro) e acredita que só não foi mais vezes à Seleção Nacional porque era o “Barroso do Braguinha”

Lídia Paralta Gomes

CAPITÃO. Barroso, aqui a defender João Vieira Pinto, é uma das figuras da história do Sp. Braga. No imaginário de todos ficou o pontapé-canhão do médio, que passou pelo FC Porto, onde foi campeão duas vezes. Mas este sábado o coração é todo arsenalista

FOTO ANDRÉ KOSTERS

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Esse coração está dividido?
O meu coração nunca está dividido, está sempre pelo Sp. Braga. Mas tenho o maior respeito pelo FC Porto, um clube em que deixei a minha marca e ajudei ao tri e a tetracampeonato. A minha tendência é para o Sp. Braga, mas sempre fui muito acarinhado no FC Porto, nunca cuspo no prato onde comi.

O Barroso faz parte da história dos duelos entre FC Porto e Sp. Braga. Há algum desses jogos que lhe tenha ficado na memória?
No ano em que vou para o FC Porto tínhamos uma grande equipa, cheia de grandes jogadores portugueses, com uma mística enorme. Era eu, o Sérgio Conceição, o Paulinho Santos, Jorge Costa, Rui Barros, Fernando Mendes, entre outros. Jogávamos de tal maneira que o meu amigo Manuel Cajuda, que treinava o Sp. Braga, antes de ir às Antas disse: “Ou não aparecemos e levamos 3-0 por falta de comparência, ou arriscamos uma goleada”. E o certo é que o FC Porto ganhou por 5-0. Nesse ano fomos campeões, se não me engano, com 13 pontos de vantagem e fomos aos quartos-de-final da Liga dos Campeões.

Sendo bracarense…
E braguista. Sou bracarense e braguista [risos]!

Sendo bracarense e braguista, no FC Porto não sentia aquele aperto no coração quando jogava contra o Sp. Braga?
Não, não. Uma coisa é gostar, outra é ser profissional. Quando entrava em campo não havia o mínimo de dúvidas: era para ganhar pelo FC Porto. Nem se punha em causa. Nessa época [1996/97], por acaso, até se juntou o útil ao agradável: o FC Porto foi campeão e o Sp. Braga foi à Taça UEFA, o que na altura era um grande feito, até porque o clube passava grandes dificuldades financeiras.

Por falar nisso: quando saiu do Sp. Braga falava-se também do Benfica, mas acabou por escolher o FC Porto também para ajudar o clube.
Sim, sim. Lembro-me que na altura se falava de propostas dos três grandes, FC Porto, Benfica e Sporting e o Benfica até era o mais interessado. Ao ponto de ter gente a ligar-me antes do treino a tentar convencer-me a ir para lá. Mas o Sp. Braga estava numa situação muito complicada e o presidente disse-me que o Benfica não oferecia dinheiro, que fazia o negócio mandando quatro jogadores para Braga. O FC Porto oferecia o equivalente na altura a 500 mil euros, o que há 20 anos era muito dinheiro, por isso escolhi ir para lá. E fiquei muito contente: fui campeão nacional, ganhei uma Taça e uma Supertaça e, como já disse, fui muito bem tratado e acarinhado. Lembro-me do primeiro ano depois de sair do FC Porto, em que joguei na Académica. Nas Antas, quando fui substituído, tive um estádio cheio a aplaudir-me. E isso deixa uma marca profunda num jogador.

E golos? Qual foi o melhor que marcou ao FC Porto?
Acho que é na época 1994/95 que marco um livre ao Vítor Baía, no 1.º de Maio, de um sítio complicadíssimo. A bola fez um grande arco e entrou. Foi o golo mais bonito que marquei. Mas não foi o mais importante.

Qual foi?
Foi em 2002/03, em Setúbal. Estávamos em perigo de descer de divisão e a 10 minutos do final perdíamos por 2-0. Marquei dois golos e empatámos. Foi um jogo em que fiquei no banco e quando entrei, na 2.ª parte, disseram-me: “Vai controlar o jogo”. Disseram-me isso porque estava 2-0 mas podíamos estar perfeitamente a perder por mais. Mas para quem gosta do Sp. Braga, ouvir um “vai controlar o jogo” quando se está a perder por 2-0 e em risco de descer de divisão… foi forte.

Falando do jogo deste sábado: estava à espera que nesta altura o Sp. Braga fosse ao Dragão à frente do FC Porto na liga?
Sinceramente não esperava. Não que o Sp. Braga não tenha boa equipa, mas é estranho o FC Porto estar há três anos sem ganhar um título. É que não é não ganhar um campeonato, é não ganhar nada… Parece mentira. O FC Porto deveria estar acima, mas o futebol é imprevisível.

O que pensa do trabalho de Peseiro? Ouvem-se críticas, mas a verdade é que vai no 3.º lugar.
Respeito o trabalho de Peseiro. Teve de enfrentar uma série de saídas da última época, de jogadores do onze como o Boly ou o Luiz Carlos, e este ano tem tido problemas com lesões, nomeadamente na defesa, e isso não impede que esteja a fazer um excelente trabalho. É claro que há jogos em que se diz que não tem jogado tão bem quanto os adeptos gostariam, mas ainda agora na vitória por 6-2 com o Feirense viu-se uma grande melhoria. Os jogadores estão mais soltos, mais agressivos.

E, ao contrário, o que tem faltado a Nuno Espírito Santo?
Não é por culpa do Nuno, que tem feito um bom trabalho. Repara, no meu tempo, um miúdo como o André Silva, com aquela idade, primeiro ia rodar num clube mais pequeno para ganhar experiência. E ele foi lançado logo a titular. Talvez falte alguém com mais experiência ao lado dele. Mas acho que também falta alguma qualidade ao plantel. Quando estava no Braga e íamos ao Porto só pensávamos: “Vamos lá levar um massacre...”. Eram equipas que pressionavam muito o portador da bola, muito agressivas, que tinham uma alma enorme. Só quando o Braga tinha boa equipa é que conseguia fazer alguma coisa lá. Acho que o FC Porto este ano está melhor, mas mesmo assim muito longe de outros anos.

Esteve no FC Porto numa altura de glória. Não estranha esta crise?
Estranho sim, são três anos sem ganhar. E acho que vai levar algum tempo até tudo se compor.

MEMÓRIAS. No FC Porto, com Mário Jardel

MEMÓRIAS. No FC Porto, com Mário Jardel

Sergio Grandeiro

A culpa é de quem está lá mais em cima?
Quando se está mal a culpa é de toda a gente. Há sempre gente que tenta meter o rabinho de fora, mas a responsabilidade tem de ser repartida. O Nuno está a tentar, e bem, manter a cultura do FC Porto e felizmente foram agora buscar o João Pinto [é adjunto do diretor geral]. Fiquei contente, sempre foi um exemplo para mim. É pena só ter chegado agora.

E prognósticos para o jogo?
Eu gostava que o Sp. Braga ganhasse, mas vai ser um jogo muito complicado. O FC Porto sabe que não pode perder, porque pode ser o adeus ao título, e por isso vai entrar com uma pressão enorme. Vai ser incerto. O que espero é que seja um bom jogo de futebol de ataque.

Quando se fala em Barroso, automaticamente nos vêm à cabeça o pontapé-canhão. Quando é que percebeu que tinha esse dom?
Desde miúdo que tinha um remate forte e fui melhorando com os anos. Os golos de fora da área deixaram marca, mas sempre fui competitivo e acho que era um jogador acima da média. Mas sem vaidades!

O seu tiro era natural ou muito trabalhado?
Trabalhávamos um bocadinho, mas não é nada como agora, em que as condições são muito melhores e até há máquinas próprias para se treinar o remate. Agora é tudo mais fácil: costumo dizer que os jogadores de agora não sabem sofrer, está tudo facilitado para eles, têm tudo à mão e por isso não há espírito de sacrifício. Nos meus tempos no Sp. Braga, às quartas-feiras tínhamos a nossa Liga dos Campeões, que era correr pelo Bom Jesus acima. Era cada arranque… Agora Bom Jesus só para passear.

O que diziam os adversários dos seus remates?
Lembro-me do Michel Preud’homme me elogiar nos jornais e também o fez pessoalmente. Recordo-me porque era um guarda-redes que admirava, dos melhores que passaram por cá. Há outro grande golo que marco, frente ao Sporting do Queiroz, um dos melhores plantéis do Sporting que me lembro, com Figo, Peixe, Balakov, Iordanov, entre outros. Há um livre quase a meio campo e o Costinha vê-me e pede mais homens para a barreira. E o Peixe diz-lhe: “Três chegam, ele não vai fazer golo daqui”. Rematei mesmo ao ângulo, o Costinha nem sequer reagiu.

E nunca aleijou ninguém?
Há duas situações. Uma num treino do Sp. Braga: estava a treinar livres, o Cajuda mandou fazer barreira mas ninguém queria ir. O Cajuda lá insistiu e o Paulo Monteiro virou-se de costas por causa do meu remate. Acertei-lhe numa coxa de tal maneira que os gomos da bola ficaram marcados. No dia seguinte tinha a coxa toda preta, toda pisada! Já no FC Porto, também num treino, rematei e o Secretário foi tentar a interceção e colocou o pé. O impacto foi tão forte que rompeu o menisco do joelho. Ficou um mês de fora…

Alguma vez tentou medir a velocidade do seu remate?
Nunca consegui. Nos meus tempos não havia maneira de o fazer. Às vezes olho para a televisão e vejo os gráficos a indicar que um remate foi a 97 ou 98 km/h e também gostava de ter tido aquilo.

E acha que os seus remates tinham mais de 97 ou 98 km/h?
Isso eram os meus melhores remates com o pé esquerdo [risos]!

Lembro-me melhor do pé direito, mas estou a ver que também era nada mau de pé esquerdo!
Não, não! Costumo dizer que chutava com o pé que tinha mais à mão. O pé direito era o melhor, mas uma coisa é certa: não era cego de pé esquerdo. Há um vídeo com os meus melhores golos na internet, tens de ver. Tem todos, o do Sporting, o tal que marquei ao Vítor Baía. Nessa altura tinha o cabelo à MagGyver, assim comprido atrás! Depois no FC Porto cortei-o curto e nunca mais mudei, está sempre na moda.

Chegou a ser chamado algumas vezes à Seleção Nacional, mas só jogou uma vez.
A Seleção naquela altura era muito complicada. Costumava chamar-me a mim próprio o Minhoca. Tinhas o Paulo Sousa da Juventus, todos os jogadores do Sporting, Benfica e FC Porto e depois o Barroso do Braguinha. O que me chateava é que às vezes colocavam jogadores de outras posições a médio e eu, que era médio, não entrava.

Há um jogo contra a França, em Braga, que marca a sua carreira na Seleção Nacional.
Sim, em janeiro de 97. Tinha ido para o FC Porto e era o meu regresso ao 1.º de Maio. Nessa semana, na televisão, só via gente a dizer que ia ao estádio para ver o Barroso e eu tinha a certeza que ia entrar. Pois chega o jogo, aquilo corre muito mal, o Artur Jorge começa a receber lenços brancos e quem é que ele não põe a jogar? O Barroso, que era de Braga, e o Rui Correia, que era guarda-redes do Sp. Braga. Isso não se faz. Depois falei com um jornalista e contei-lhe que estava triste por não ter jogado em Braga. No dia seguinte o título era “Barroso revoltado com Artur Jorge”, que não tinha nada a ver com o que tinha dito. Nunca mais fui à Seleção.

Antes desse jogo de Braga tinha havido uma confusão entre jogadores e a Federação, certo?
Era a primeira vez que a Seleção ia equipar Nike e com publicidade na camisola. Publicidade à Expo 98. Houve uma confusão enorme durante a tarde porque os jogadores não queriam entrar em campo com publicidade porque queriam ter uma parte do que a Federação estava a ganhar. Na altura o presidente do sindicato de jogadores, o José Couceiro, foi ao hotel da Seleção, os jogadores receberam uma parte e lá se jogou. Mas esteve complicado. É claro que ninguém descansou nada. Lembro-me de estar do lado de fora do campo durante o jogo e a pensar “metam-me que eu jogo de borla!”.

Disse que se considerava um jogador acima da média. Acha que podia ter dado mais à Seleção?
Sem dúvida. Admiro o que o Scolari fez na Seleção porque deu a primeira internacionalização a jogadores do V. Guimarães, do Gil Vicente e, além disso, nos particulares metia toda a gente a jogar. Só assim se valorizam os jogadores e os clubes portugueses. Na altura que ele esteve cá ainda se falou do meu regresso à Seleção, vários jornalistas diziam que era mais que justo, mas eu era o Barroso do Braguinha… Mas fico muito contente com a minha carreira, tudo o que consegui foi com o meu esforço, com o meu trabalho.

Chegou a trabalhar antes de ser jogador de futebol.
Sim, estudava para ser marceneiro de manhã, à tarde trabalhava e à noite ia para os treinos das camadas jovens do Sp. Braga. Comecei a trabalhar aos 9 aninhos e só deixei aos 18. Por isso é que digo que a malta agora não sabe o que são sacrifícios. Ganhava o equivalente a 145 euros como marceneiro e fui ganhar 300 para o clube satélite do Sp. Braga, o Arsenal de Braga.

Tem o curso de treinador.
Tenho tudo. Tirei tudo o que há para tirar. Há por aí tanto treinador a trabalhar sem curso… eu tenho o nível IV da UEFA, o máximo.

Já treinou clubes de divisões inferiores mas agora está parado. Espera por uma oportunidade?
Sim, comecei por baixo mas fiz bons trabalhos. Mas por cá são sempre os mesmos a treinar. Vês treinadores que passam por dois, três clubes por ano. Por mim, só se podia treinar um clube por época. Estou à espera de uma oportunidade. Agora não estou a fazer nada e não é fácil. Se calhar volto a ser marceneiro…

  • O vídeo dos novos desenhos de Nuno Espírito Santo

    vídeo

    O treinador do FC Porto usou hoje de novo o marcador para desenhar e assim tentar explicar-se melhor. Foi na conferência de imprensa de antevisão do jogo com o Sporting de Braga. "Sei que isto vai ser motivo de brincadeira, crítica e análise", disse. "Não reparem no desenho, prestem atenção ao conteúdo"