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Elpídio Silva, as pistolas e o dia que tremeu as pernas a Nani: “Os miúdos põem muita coisa na cabeça”

Chegou ao Sporting e marcou num dérbi (2003/04) contra o Benfica, na Luz. Falava “muito” com Fernando Santos, que já o queria no FC Porto, e tem orgulho em ter jogado “com as feras” dos leões na altura. Elpídio Silva, que foi campeão no Boavista e festejava como um pistoleiro quando marcava golos: “A turma ia pedindo. “'Vá lá, mata a gente, mete tiro para cima'”

Diogo Pombo

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© Reuters Photographer / Reuter

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Sabes porque lhe estou a ligar?
Por causa do Benfica-Sporting, imagino.

Exacto. E o Elpidio sabe o que é marcar num jogo destes.
É, tive a sorte de jogar no primeiro jogo contra o Benfica dessa época, na Luz, e de marcar um golo. Nesse jogo até joguei muito bem, graças a Deus.

Estava à espera de ser titular?
Bom, é um dérbi em que muitos querem estar dentro de campo. Há uma adrenalina muito grande, a rivalidade entre Benfica e Sporting é enorme. Os jogadores que gostam dessa adrenalina querem sempre estar. Estes eram os jogos que eu mais gostava de jogar: Benfica-Sporting, Guimarães-Braga, Braga-Boavista… Esses é que a gente gosta de jogar.

Não ficava nervoso antes, durante a semana?
Isso vai depender do momento que você está a viver e da maneira como o treinador te prepara. Mas a ânsia do jogo é normal. Aquela adrenalina que faz você tentar fazer tudo certo no começo do jogo e estar em sintonia com os seus companheiros.

Mas você já tinha uma certa experiência, por ter sido campeão pelo Boavista, não?
Olha, sinceramente, eu gostava muito de jogar contra os grande. Quando cheguei ao Braga, o meu primeiro jogo foi contra o FC Porto e fiz um jogo especular lá nas Antas. Sempre me habituei a querer jogar bem contra os grandes. Nunca tive problemas de tremer as pernas, como a gente fala no Brasil.

O Elpidio era daqueles que acalmava quem tinha as pernas a tremer?
Claro que sim. Do meu tempo no Sporting eu lembro muito a estreia do Nani, até falo isso para o meu filho. A gente jogou um torneio em Alcochete, era a pré-estreia do Nani, e ele estava todo tremido. Falei para ele: “Calma garoto, tu tens a vida toda para jogar, isto é só um jogo para você”. Eu conversava muito com ele, dizia-lhe que tinha potencial e que ia rebentar. “Põe isso na cabeça, não vai correr mal”. E nesse jogo ele jogou muito bem, mesmo.

E num jogo grande?
Os miúdos põem muita coisa na cabeça, pensam que têm de fazer coisas que, no momento, não dá para fazer num clássico. Lembro-me do Ronaldo contra o Manchester United, em Alvalade. Notava que tinha um lado psicológico muito bom, fez aquelas coisas porque estava muito bem mentalmente. E os meninos que estavam subinda na base, como o Nani, o Miguel Veloso e essa turma toda, muitos queriam seguir o Ronaldo. Mas, para isso acontecer, tinham que estar com o psicológico muito forte.

Voltando ao Sporting, como foi a época que passou lá?
Digo sempre que foi das piores épocas para mim, em termos de resultados. Tive uma lesão muito séria na cabeça, muito grave. Não tive sequência e também não tive muita sorte no Sporting. As bolas não queriam entrar. Aquela ansiedade que sempre digo, porque os avançados têm de fazer golos, foi aumentando. Não conseguia fazer golo: a bola batia na trave, passava de raspão, o goleiro fazia muitas defesas… Nesse ano as coisas também não correram bem ao Sporting, mesmo com a insistência do Fernando Santos, uma pessoa que admiro muito. Está aí o resultado do trabalho dele. Sempre lhe agradeci o facto de me ter dado tantas oportunidades e de eu não ter conseguido retribuir com golos [marcou cinco], mas contribuí com outras coisas. Portugal tem um grande treinador e um grande homem ao serviço da seleção.

© Reuters Photographer / Reuter

O Fernando Santos falava muito consigo?
Sim, ele já me queria levar para o FC Porto, quando lá estava. Gostava muito dele, nunca foi de virar a cara à luta. No Sporting, a única coisa que não me correu bem foi não ter feito golos como fiz no Braga, no Boavista e, depois, em Guimarães. E o facto de não termos sido campeões.

Mas ainda deu para jogar com malta mais velha como o João Pinto, o Pedro Barbosa e o Rui Jorge.
Claro, era um orgulho e um prazer jogar com essas feras, como lhes chamava. Tinha um respeito muito grande por eles, e eles por mim, felizmente. Dava-me muito bem com o Rui Jorge, o Pedro Barbosa e o Beto. Adaptei-me muito bem a Portugal e aos portugueses porque sempre me adaptei bem ao trabalho de toda a gente, nunca fui de passar por cima de ninguém. Por isso estou sempre disponível para ajudar em alguma coisa, até com vocês [jornalistas], para alguma análise. Ainda hoje acompanho muito o futebol português.

Costuma ver muitos jogos?
Olha, a semana passada vi dois jogos seguidos do Benfica, vi o do Sporting, o FC Porto contra o Leicester agora. Vejo muito.

Qual dos grandes tem gostado mais de ver jogar?
Sinceramente, o Sporting é o time que joga mais bonito. O Benfica está na frente, mas acho que é inconstante, joga um jogo bom, outro mais ou menos. O Marítimo não ganhou por três ou quatro porque não calhou, principalmente pelo que aconteceu na primeira parte. Acho que essa derrota do Benfica deu um alentozinho ao FC Porto e ao Sporting, agora está tudo em aberto.

Ainda vê os jogos com mente de jogador ou já é com cabeça de treinador?
[Ri-se] Das duas maneiras. Passei muitos anos em Portugal e vejo a evolução do futebol português. Também está a ser muito mais divulgado aqui no Brasil, passa em três ou quatro emissoras. No tempo em que eu jogava não passava, diziam que era um futebol que só tinha os três grandes. Hoje a gente vê o Braga a fazer frente e o Guimarães lá em cima, brigando. Não se vê tanto o Boavista, porque passou por aquela luta toda, mas um dia vai voltar. Sempre digo aos meus amigos que queria ver o Braga a ser campeão, por ser um clube que investe muito e traz muitos jogadores, apesar de não ter tido um dia muito bom na Liga Europa.

Esta tenho que perguntar: porquê o festejo de pistoleiro?
Surgiu porque gostava muito de filmes de cowboy e dessas coisas. Na altura em que fui para o Boavista falava muito para o Duda: “Se começar a fazer golos, vou festejar como um pistoleiro e você vai na onda comigo”. Aí foi pegando, foi pegando e, no primeiro jogo do campeonato, fiz golo e festejei como um pistoleiro. Toda a vez que marcava a turma ia pedindo. “Ah, vá lá, mata a gente, mete tiro para cima”. E ficou. Hoje todo o mundo me chama Pistoleiro, ninguém me chama Elpidio Silva. E, se Deus quiser, em breve vai ter um pistoleiro junior por aí.

O seu filho tem jeito para o futebol?
Também é avançado, muito parecido comigo, é bom finalizador e cabeceia muito bem. Em breve vou levá-lo para a Europa.

Vai ser melhor que o pai?
Não é por ser meu filho, mas, em termos de qualidade com a bola no pé, ele tem muito mais qualidade do que eu tinha com 15 ou 16 anos. Tem uma visão de jogo muito boa, só não é muito rápido, porque não tem treinado, ainda está a estudar. Já há uma pessoa que o quer levar para o Bétis de Sevilha. Ele não é gordo, mas é um menino que precisa de treino, quero que ele passe uns seis meses a treinar só. Sinceramente, nem queria que ele fosse.

Porquê? Saudades de pai?
Ele tem muito qualidade e as pessoas aqui até me perguntam como é que eu estou a deixar passar tanto tempo. É mesmo muito bom jogador. Mas a minha infância como jogador de futebol foi muito complicada. A minha família não me apoiava muito, sofri muito no futebol, e digo isso ao meu filho: “Filho, quanto tive glória já tinha sofrido muito, é por isso que não quero esta vida para você”. Mas, vendo de outra maneira, o futebol já evoluiu muito, os clubes têm outras condições e ele vai sempre continuar a estudar. Conversei com a minha mulher e a gente está muito otimista. Ele é uma excelente pessoa, um bom aluno e um garoto muito bom, isso é o que importa.

E quem é ele?
Chama-se Lucas André e tem uma coisa boa: nasceu em Portugal e tem nacionalidade portuguesa.