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O vídeo-árbitro, por Duarte Gomes: “A FIFA foi um bocadinho gulosa”

O ex-árbitro português, apesar de apoiar a nova tecnologia, defende que a FIFA arriscou demasiado por, numa fase tão precoce do vídeo-árbitro, escolher testá-lo no Mundial de Clube. Uma competição “tão mediatizada” e com equipas como o Real Madrid, que “que arrastam a opinião pública” de muita gente. Falámos com Duarte Gomes e esta é sua visão, na primeira pessoa

Diogo Pombo

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O ex-árbitro completou mais de 400 jogos desde que passou a ser árbitro de primeira categoria, em 1997

Nuno Botelho

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O vídeo-árbitro surge na sequência de um pedido, de há muitos anos, de todo o universo do futebol. Jogadores, dirigentes, e até os próprios árbitros, toda a gente falava em ter a televisão como um meio de apoio. A questão é que as pessoas têm de perceber que uma coisa é a vontade, outra coisa é a operacionalização.

De facto, este período de dois anos é sensato. Quem ficou a cargo deste processo percebeu que introduzir uma alteração tão grande e aplicá-la, na prática, são duas coisas bem diferentes. Requer tempo, muito acerto e muito ensaio pelo meio. Há vários países que ratificaram o acordo para o vídeo-árbitro ser testado. Portugal foi um deles, além de Itália, França, Holanda e EUA.

Mas também a FIFA.

O problema é que a FIFA não tem competições para testar a tecnologia. Já a testou em jogos de seleção A, como foi o caso do que o Artur [Soares Dias] arbitrou [o Itália-Alemanha, realizado a 15 de novembro], com o Jorge Sousa a vídeo-árbitro. Mas, quanto a mim, a FIFA cometeu um erro ao querer arriscar o vídeo-árbitro num torneio tão mediatizado como é o Mundial de Clubes. Porque, estando ainda em fase de testes, o mais normal seria que acontecessem erros, erros na tomada de decisão.

Os próprios árbitros que estão a testar isto nunca tiveram esta dinâmica, esta prática de interromper o jogo e ir ver as imagens. Isto também é tudo novo para eles. E, numa prova destas, o escrutínio é muito maior, ou seja, qualquer pequena falha - que é perfeitamente normal nesta ciclo -, fere de morte este projeto, em termos de opinião pública. O que é pena. Acho que houve alguma leveza da FIFA em não testar o vídeo-árbitro em outros jogos particulares de seleções, ou até mesmo em jogos de jovens, mas não em caráter oficial.

Acho que a vontade em querer que isto corresse bem, foi boa, mas será normal num período de testes, que ainda vai durar até 2018, existam erros. Tanto nas decisões que os árbitros tomem, como no tempo de espera. Estamos em fase de testes. Para próprios árbitros, que são de elite, uma coisa é arbitrar bem o jogo, outra é fazer uma boa análise de imagens. Requer outro tipo de experiência, de atributos e de treino.

Tudo isto é novo para eles.

Quando deteta um lance, o que o árbitro tem de fazer é pedir a análise das imagens daquele lance. O técnico tem de perceber qual é o lance que ele quer, tem que lhe dar as imagens com os melhores ângulos e repetições, e só depois de o técnico ter certeza absoluta que há alguma decisão que não foi tomada - ou um erro que foi cometido -, é que ele fala com o árbitro. Depois, o árbitro tem duas hipóteses: confia e aceita a decisão, ou prefere confirmar ele próprio as imagens, no relvado. O que faz com que tudo isto demore ainda mais tempo.

Estamos a falar de dinâmicas que têm de ser lubrificadas e que demoram o seu tempo a agilizarem. Estou convencido que, quando tudo tiver agilizado, o vídeo-árbitro será muito rápido e muito natural. O problema é que ainda não está.

As confederações nacionais, incluindo Portugal, estão a testar isto muito bem. Começaram em jogos particulares e, primeiro, com o sistema offline, em que não há comunicação entre árbitro e vídeo-árbitro, que serve apenas para testar a tecnologia. Portugal ainda nem passou para o online, mas os países que já o fizeram, continuaram os testes em jogos particulares, ou de miúdos. Desta forma, o impacto de um eventual grande não é grande.

Embora com boa-vontade, a FIFA foi um bocadinho gulosa.

Se isto corresse tudo bem, era um espetáculo. Mas era expectável que não corresse. Outro problema é que as pessoas do Real Madrid, que têm peso, já começaram a criticar. Até o presidente da UEFA já foi obrigado a fazer uma declaração.

É pena, não há necessidade nenhuma, porque o vídeo-árbitro está a começar agora e tinha tudo para correr bem. Esperemos que este período de testes continue, que as pessoas consigam perceber que terá havido alguma precipitação na escolha da competição, mas que, de facto, a tecnologia tem tudo para crescer de forma sustentada. E, em 2018, fazemos um balanço.

A FIFA não podia ter feito um teste numa competição tão mediatizada e importante, como é o Mundial de Clubes. E com clubes que arrastam tanta opinião pública atrás. Eles correram este risco numa fase muito precoce dos testes e tiveram azar. É preciso que o vídeo-árbitro cresça sustentadamente e, da próxima vez que for testado a sério, que o seja quando já estiver muito bem oleado, com margem de erro mínima e eficácia de tempo máxima.