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Como ser campeão? Ele explica: “Os combates ganham-se fora do ringue”

Campeão da Europa, campeão do Mundo, campeão Intercontinental, Fernando Fernandes é uma das maiores referências do kickboxing em Portugal e lançou recentementeo livro “Ser campeão - no ringue como na vida”, que além de contar a história da sua vida é também um manual sobre a modalidade. Em entrevista à Tribuna Expresso, o ex-atleta e treinador do Sporting confessa que nesta altura está a travar um combate desigual do qual só não sairá completamente derrotado por acreditar que esta vida é uma passagem

Alexandra Simões de Abreu

António Bernardo

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Começou a trabalhar muito cedo. Porquê?
É verdade, tinha 13 anos. Em minha casa havia o hábito de jantar às sete horas e um dia resolvi ir jogar à bola com os meus amigos, pouco antes dessa hora. Quando cheguei a casa os meus pais já tinham jantado e o meu pai não gostou muito da brincadeira. Ele tinha dois trabalhos, era montador de molas nos autocarros de dois andares que havia antigamente e trabalhava também no mercado abastecedor da 24 de julho. Virou-se para mim e disse: "já que tens tanta energia, amanhã vais começar a ir comigo para o mercado".

Isso obrigava-o a levantar-se muito cedo...
Às duas da manhã. Na altura era mercado abastecedor e eu descarregava as caixas das camionetas que chegavam com as frutas e as hortaliças. Depois seguia para a escola. Dormia quase nada porque à noite ainda ia treinar.

Quando e onde começa a treinar?
Com 12/13 anos, no Judo Clube de Portugal. Comecei no karaté.

Porquê?
Eu vivia em Campolide e ao fim de semana ia ao cinema com os meus amigos. O que mais passavam era filmes de artes marciais. Gostei logo. Sempre fui muito dinâmico, sempre gostei de desporto e sempre tive a necessidade de ser bom, de ser campeão. São coisas que nascem connosco, não se conseguem explicar. Por isso queria aprender mais sobre aquilo que via e gostava, e fui à procura. Como aquele clube ficava perto de casa e tinha karaté, comecei ali.

Mas não gostou muito do karaté.
Não. Achei que aquilo não era real. Havia qualquer coisa que não mexia, que não me preenchia, que não me completava. E quando vi o filme “Luta de Gigantes” com o Chuck Norris percebi que era aquilo que queria fazer. Vi o filme umas 30 ou 40 vezes. Foi o despoletar de tudo.

Como ficaram os estudos no meio disso?
Ficaram para trás. Fiz o 9º ano e parei. Depois fui estudar à noite, na escola secundária Maria Amália. Mais à frente aos 30 anos fiz unidades capitalizáveis. Foi tudo feito aos bochechos. Agora, aos 50 anos, em julho, é que acabei o 12º ano. Daqui para a frente não quero mais nada, mas este era um dos objetivos de vida que tinha.

Voltando às artes marciais…
Tinha um colega de escola que estava a treinar Full-Contact, na Faculdade de Ciências, e fui experimentar. Encontrei uma pessoa espetacular, o mestre Carlos Pais que ajudou-me imenso ao nivel da metodologia de treino e a nivel técnico. Não deixei mais a modalidade.

Quando ganha o primeiro título a sério?
Em 1990. Fui campeão da Europa de Amadores. Quando me vi na final… é uma sensação que não dá para explicar. Só pensava, ganhei até aqui, agora não posso perder com o italiano. São emoções positivas que não dá para esquecer.

Lembra-se do primeiro combate de todos?
Lembro, foi em Sesimbra. Ganhei. Quando comecei a fazer competição, já tinha um longo percurso de treino porque comecei com 13 e só competi aos 19.

Em 1994 é campeão do mundo e intercontinental. Até essa altura o que conquista?
Há vários combates. Há vários titulos nacionais, há dois europeus pelo meio. Há também uma iniciação ao boxe amador a nivel competitivo.

E em 1994 na nave de Alvalade…
Atingi o meu grande objetivo, ser campeão mundial. Em outubro ou novembro do mesmo ano venço no Brasil o titulo Intercontinental. Mas aqui, em Alvalade, foi especial porque foi perante uma Nave cheia e julgo que foi a partir desse combate que a modalidade cresceu.

Mas logo a seguir abandona a modalidade. Porquê?
Eu não quis abandonar. A vida é que nos arrasta para determinado tipo de coisas. Comecei a modalidade porque era uma necessidade interior e as oportunidades foram surgindo. Só não continuei porque houve um certo conflito com o promotor dos combates na altura, entretanto nasceu o meu filho Francisco. Eu ganhava dinheiro dos combates, dos treinos e do material que ia buscar a Espanha (proteções, luvas, caneleiras, etc.), que não havia cá naquela altura. O dinheiro chegava enquanto era só eu e a minha mulher, mas depois… Foi tudo junto. Senti que tinha de parar. E parei entre os 30 e os 37 anos.

O que fez nesses sete anos?
Sempre fiz recuperações em mim quando tinha lesões, depois comecei a dar aulas e comecei a recuperar as lesões dos atletas e entretanto começaram a aparecer-me mais pessoas e acabei por dedicar-me a tirar cursos e a aperfeiçoar essa parte.

Que cursos tirou?
Cursos de massagens e recuperação desportiva. Este livro que lancei agora foi projetado nessa altura. Não havia internet, não havia nada sobre estas materias, mas eu mandava vir livros de fora, cassettes VHS, e como ninguém tinha a informação que eu tinha pensei logo em fazer uma manual assim. Só que não havia ninguém interessado em investir. Agora é que houve alguns apoios e pude publicá-lo.

O que é necessário para ser campeão?
Além da vontade, determinação, capacidade e saúde física para ultrapassar muitos obstáculos, é preciso ter ajuda a outros níveis e conhecer as pessoas certas. Ninguém nasce ensinado. Eu tive pessoas importantes, primeiro o mestre Raul Cerveira no karaté, depois o Carlos Pais que me ajudou imenso e tive a sorte de me cruzar com o Francisco Ferraz, que ensinou-me imenso sobre tanta coisa, filosofia oriental, yoga, como meditar, como respirar, etc. Foi um mestre. Ele foi a pessoa que me motivou a tirar os cursos de massagens. Sem ele e sem a ajuda de outras pessoas seria impossivel ter sido campeão e ter feito o percurso que fiz.

O que o fez regressar novamente à competição?
Foi um ímpeto. Só dava treinos, quase não treinava e um dia estava em casa de um amigo, olhei para ele fiz uns movimentos e disse eu vou voltar a treinar e vou voltar a combater. Assim, do nada. São flashes que temos. Fui surpreendido por mim próprio, já não contava voltar e acabei por regressar aos 37.

Voltou para provar alguma coisa?
Acho que havia coisas que não estavam bem resolvidas. Senti que parei de repente e devia ter continuado. Mas, como disse, as circunstâncias da vida tinham-me levado a parar. Tinha que tirar essa pedra do sapato. Não foi por querer mais títulos porque já tinha ganho aquilo que tinha desejado. Entretanto disputei dois títulos do mundo e da europa, dois nacionais, não os ganhei, mas costumo dizer que é importante termos uma coisa muito boa e outra menos boa para equilibrar.

Quando e porque termina a carreira de atleta?
Acabei aos 45 anos. Senti que já não valia a pena continuar. Até aos 30 anos eu só me dedicava ao treino, a partir dos 37 já era por prazer, o desfrutar do ringue, das viagens, sentir a adrenalina, a pressão… era uma questão de prazer, já não era de conquista. Era de realização.

Há tantos desportos de combate que é difícil fazer distinção entre eles. Qual a diferença entre kickboxing, taekwondo, muay thai…
Costumo dar o exemplo do atletismo. Na corrida, por exemplo, temos os 100, 200, 400, 800, 1500, 5000, 10.000m, maratona, temos as barreiras, os 3000m obstáculos. É tudo a correr. Aqui é a mesma coisa, é tudo a socar e a pontapear, só que há coisas que podes fazer e outras que não, conforme as modalidades. Há umas disciplinas que são de contacto e outras que não são de contacto.

Qual a sua opinião sobre a evolução do kickboxing em Portugal?
Entre 1990 e 1994 houve o implementar da modalidade. Depois houve uma evolução do número de praticantes e de algum nível técnico. Há três anos ou quatro anos houve um decréscimo, mas neste momento a modalidade está em fase de crescimento novamente, houve mudança de direção na federação, o que ajudou.

Quantos alunos tem no Sporting?
Entre 70 e 80.

Quem são as novas esperanças da modalidade?
Há muitos atletas novos. É dificil dizer quem são os melhores, há vários com nível elevado.

Este livro é mais do que a história da sua vida.
Sim, aborda vários assuntos. O meu percurso como atleta e treinador, tem artigos médicos, páginas sobre condicionamento fisico, que dá para qualquer modalidade desportiva, aborda também a parte técnica e outras coisas. Este é o primeiro manual da modalidade em Portugal. E é um produto oficial do Sporting.

Ficou algum título por conquistar?
Acho que ganhei tudo o que queria ganhar, porque a partir daí era só repetir. Há atletas que gostam de repetir, muitos cintos, muitos titulos, muitas coisas, mas depois esprememos aquilo e não sai nada.

Qual foi o combate mais importante da sua vida?
Foi o querer vencer. Não é um combate em cima do ringue. Os combates ganham-se fora do ringue, as vitórias são feitas fora do ringue. O trabalho tem de ser feito em casa, em cima do ringue é só pôr em prática. A vitória é a vontade, a determinação, o querer ganhar, o desejo que tenho dentro de mim, de vencer todos os obstáculos.

Alguma vez foi aliciado por outros clubes?
Houve algumas coisas. Mas quando vim para o Sporting comprometi-me com o clube e os seus valores.

Qual o maior desafio da sua vida?
Continuar a viver o agora, intensamente. E dar o meu melhor.

Os seus filhos praticam kickboxing?
Não, estão no atletismo do Sporting. A minha filha Catarina tem 18 anos e faz disciplinas técnicas (comprimento, triplo, salto altura, etc) e o meu filho Francisco tem 20 anos e é lançador. Eles costumam dizer que não continuaram na modalidade pporque eu ia buscá-los para o infantário e trazia-os para aqui (sala de treinos de kickboxing).

Quando chegava a casa esmurrado a sua mulher nunca lhe pediu para desistir?
Ela sempre me apoiou. Ela também gosta de desporto, praticou atletismo, corria, gostava de participar nas corridas populares.

Neste momento qual é o seu maior combate?
(Pausa) A minha mulher, que nunca fumou e sempre praticou desporto, descobriu em maio passado que tem um cancro no pulmão, entretanto já passou para os ossos e a cabeça. Portanto, neste momento estou a travar uma luta desigual (emociona-se) contra um adversário que não dá hipótese. Quando soube estive 15 dias quase sem dormir, mas agora sinto que já estou preparado. Já aceitei. Não é uma derrota porque para mim a vida não acaba aqui. Nós estamos numa passagem, senão a vida não tinha significado. A vida não para. Para a alma não há morte.