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Dakar, a última fronteira, por Hélder Rodrigues. “A magia está no desconhecido”

Hélder Rodrigues parte para a edição 2017 do Dakar com a consciência de que fez o trabalho certo, capaz de o levar à vitória. Com oito vitórias em etapas do Dakar e dois pódios, o piloto português líder da Yamaha, revela que, para ele, a magia desta grande maratona de todo-o-terreno continua a ser a partida para o desconhecido

Alexandra Simões de Abreu

Hugo Silva /Red Bull Content Pool

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A preparação para este Dakar foi muito diferente das anteriores?
Não. Tentei ser o mais profissional possivel e por isso começamos o mais cedo possivel. Depois do Dakar, tirámos duas semanas de férias e começámos logo a trabalhar e a organizar o ano. A primeira corrida do mundial foi no Dubai, depois fizemos o Qatar, depois Sardenha. Só não fizemos uma prova do mundial e ser 4º com a ausência numa prova é bom. O objetivo não era ganhar o campeonato mundial, mas fazer o mundial para treinar, desenvolver a moto, fazer alguns resultados em algumas corridas.

O que faz parte dessa preparação/treino para o Dakar?
O principal é fazermos durante o ano um campeonato competitivo em termos de ralis, depois a parte dos campeonatos nacionais em que estamos quase todas as semanas numa prova de enduro ou uma prova motocrosse ou todo-o-terreno, em que estamos a rolar e a competir. Isso é muito importante para o atleta. Tirando claro a parte de organização de equipa e mental. Eu tenho uma equipa pequena em Portugal, de três/quatro pessoas, que permite que eu consiga todos os dias de manhã andar de moto, à tarde ir ao ginásio, no outro dia fazer bicicleta e andar de moto, ou seja, que me permite fazer um trabalho diário com o meu preparador fisico e um trabalho da mota, a treinar.

Também trabalha o lado psicológico?
Sim. Quando quero e preciso tenho o Pedro Almeida, que é o meu psicológo e que me ajuda na parte desportiva e na parte psicológica. Quando tenho uma dúvida falo com o Pedro e discutimos sobre o que se passa.

Essas dúvidas surgem quando, em cima da prova ou antes?
Antes do Dakar não há duvidas. Tentamos trabalhar durante o ano. Antes do Dakar só se pensa em treinar, melhorar, estar bem fisicamente e acelerar.

No fundo treina o ano inteiro para esta prova rainha.
Nós tentamos que não seja assim, mas no final é. Quando estou a preparar-me para uma corrida do campeonato nacional, que para mim não tem significado nenhum, tenho quase a mesma motivação que tenho para ir treinar o Dakar.

Mas o Dakar é sempre o mais importante…
Claro, o Dakar é sempre o mais importante, mas tento todas as semanas, quando faço uma prova, que a preparação seja importante. Não posso fazer só por fazer.

Há uma grande diferença entre esta mota e a do ano passado?
A marca tentou evoluir a mota. Melhoraram um pouco o chassis da mota, o depósito, o próprio motor com mais um bocadinho de potência, mas este ano a parte importante foi tentar ter mais fiabilidade na nova mota.

Nunca pensou em desistir de correr o Dakar, nem mesmo depois do acidente grave de 2007, em que foi obrigado a retirar o baço?
Não. Esse acidente foi um ponto da minha vida que aconteceu a andar de mota mas podia ter acontecido noutra situação qualquer. Eu não estava preparado para fazer corridas naquela altura. Eu terminei o Dakar 2007 em 5º mas depois estive seis meses um bocado perdido porque não tinha equipa, não tinha as minhas coisas organizadas para esse ano a seguir. Então fiz seis meses sem organizar-me, sem treinar, sem me preparar. Quando fui fazer essa corrida não estava preparado e pior que isso ao fim do quinto dia estava em 2º da geral, só que sem preparação fisica nem mental, tive esse acidente. As causas foram essas.

Isso mudou alguma coisa na forma como passou a encarar a competição?
Sempre fui muito profissional desde o início. Venci 14 campeonatos nacionais seguidos por alguma coisa. É muito para um atleta. Não estamos a falar de uma equipa, um atleta é ele, não pode falhar. Durante quase oito anos seguidos venci o nacional de enduro, mesmo a disputar o mundial, que era mais dificil. Tive sempre um trabalho muito focado e profissional e nesse ano em 2007, não fui profissional e paguei caro.

Serviu de lição.
Serviu. Porque a paritr daí tive ainda mais a certeza de que para estarmos num desporto, seja ele qual for, se não estiver focado e a trabalhar a 100% depois aparecem as lesões ou outro tipo de problemas e acidentes.

O que é que esta edição do Dakar tem de especial?
A diferença maior é que vamos ter muitos dias, em altitude, quase o Dakar todo a 3500, 2500m de altitude. É muito para nós, para mim, para a minha equipa, para a mota, até para o massagista é dificil. E vamos ter alguns problemas porque andar em altitude é dificil. Depois vamos ter um ponto na navegação que este ano é diferente. É um WPC inivisível, que é um ponto que temos de passar mas que o GPS não indica. Só vai indicar quando passarmos a 300m desse ponto, ou seja num raio de 600m vai-nos validar um número, mas que é um número pequeno que só conseguimos ver no GPS quase com a mota parada e a olhar. Isso vai dificultar muito a navegação. O Marc Coma, novo diretor do Dakar, que foi meu adversário estes anos todos, vai tentar marcar a presença dele como diretor e já disse que este vai ser o Dakar mais dificil de sempre na América do Sul. Vamos ver.

Houve alguma preparação especifica por causa da altitude?
Este ano não. Preparei o meu Dakar em altitude durante cinco anos, em câmara, em tudo, mas este ano decidi com o meu preparador fisico, mas mais eu, que não ia fazer porque o meu corpo adapta-se bem em atltude. Simplesmente treinei bem o meu fisico.

Quem serão os seus maiores adversários?
Primeiro sou eu e a minha mota. A este nível não podemos estar a pensar nos adversários, porque são tantos, há tantos pilotos e tantas equipas que se começamos a pensar nisso a nossa cabeça já é fraca. Sempre pensei: o meu adversário sou eu, a minha mota e a minha equipa. É uma estrutura, um bloco, que não pode falhar. Depois todos os outros são jokers que aparecem, desaparecem e eu só quero estar no meio e lutar até ao fim. Não penso nos outros adversários.

O fator sorte é determinante no Dakar?
Podemos dizer que é o fator sorte, mas se calhar é encobrir a incompetência ou a falta de foco que às vezes há em algumas áreas. Podemos dizer, “tive muito azar, parti a mota”. Eu já tive, há dois anos, apesar de ter sido o meu pior Dakar em termos de resultado, foi o meu melhor Dakar. Eu podia ter vencido esse Dakar de há dois anos. Parece impossivel mas é verdade, eu arranquei doente, com gripe, aguentei dois, três dias mal, sem dormir, a sofrer. Ao meu quarto dia tive um problema na mota, em que não tive culpa nenhuma, um fio que saltou fora e perdi mais de 20 minutos e mesmo assim lutei, lutei, lutei, e a meio desse Dakar num dos dias em que a minha mota avariou eu podia ter passado para a frente da geral. Por isso, acho que a sorte é relativa, tudo isso aconteceu por falta de trabalho e concentração nos pontos cruciais e acho que isso também se passa na vida. As equipas são muito grandes e às vezes pode haver uma falta de concentrção num momento crucial e ideal.

Mas sente que este pode ser o seu Dakar?
Pode. Vai ser dificil, mas pode ser o meu Dakar.

Não vai desistir até conseguir ganhar um Dakar?
Tenho motivação para ainda andar de mota todos os dias, treinar…sim, é um sonho. Já concretizei o sonho de ser campeão do mundo, nos juniores fui campeão do mundo de enduro, já fiz dois pódios, sei que já podia ter feito muito melhor se não tivesse tido todas estas dificuldades durante estes anos todos em que fiz um 5º no meu 2º Dakar mas só fui piloto oficial no meu 7º Dakar. Tive muita dificuldade em chegar ao patamar em que estou a nível de equipa, não pelo meu trabalho, porque fiz sempre as coisas bem, mas pelo mercado e porque o nosso país tem a dimensão que tem, é pequenino e temos que pensar que as marcas são só duas ou três e ter um português como líder não é facil. Tem que engolir muitos sapos para conseguir que seja um português o Nº 1 na equipa, a lutar para vencer, e esse foi um dos grandes problemas que tive ao longo de muitos anos, anos em que podia ter vencido o Dakar certamente.

Prefere a versão sul-americana do Dakar ou preferia a africana?
Comecei o Dakar em África, fiz dois anos em África, adorei, foi mágico, mas a América do Sul é muito forte. É mais profissional. Temos uma corrida dura, difícil, mais do que em África e ao mesmo tempo temos os Media muito forte e isso é importante para nós e para as equipas. A nivel de público temos quatro milhoes de espectadores a ver o Dakar, presentes. E isso em África não tinhamos. Para além da segurança.

A família não tem ficado um pouco para trás?
Não, não fica para trás. Este ano fui pai de uma menina, a Valentina.

A escolha do nome teve alguma coisa a ver com o Valentino Rossi?
Não. A mãe queria um nome, eu outro e no final calhou aquele. O meu ídolo é o Stéphane Peterhansel, o Rossi é alguém que eu admiro muito, que trabalhou muito bem, é também meu ídolo, mas o número um é o Stéphane.

Qual foi a etapa mais difícil que já fez?
Há dois anos quando a minha mota avariou no salar boliviano de Uyuni e até ao acampamento faltavam 400 ou 600km e eu estava lá no meio com a mota avariada… foi muito longo esse dia para mim.

Sentiu medo?
Medo não, sentia o helicóptero em cima de mim, queriam que abandonasse porque não queriam deixar-me ali. A minha mota arrancava e parava passado cem metros e voltava ao mesmo. E eu fui teimoso e consegui chegar ao final. Esse foi o dia mais longo, cheguei à noite o que nunca tinha acontecido.

Quanto pesa esta mota WR450F?
É até bastante leve, pesa 136kg, mais 30kg de combsutivel mais GPS, chega aos 168/170kg.

Se cair, para a levantar não será fácil…
É bom que não caia. Já fiz muitos Dakar em que não caí uma única vez. Mas se for na areia, pode ser difícil levantá-la.

Além de si, quem são os outros candidatos à vitória neste Dakar?
O candidado Nº1 foi quem venceu o ano passado, o australiano Toby Price, mas depois toda a equipa KTM e mesmo a equipa Honda são grandes rivais.

Não sente que está a colocar muitas esperanças nesta edição?
Não. Nestes últimos cinco anos em que falhei sempre o meu objetivo (há cinco anos fiz pódio e depois queria sempre melhorar), posso dizer que eu próprio nunca impliquei o meu resultado. Tive outros fatores que implicaram o meu resultado, mas eu próprio não tive muitas falhas. E se em 11 Dakar falhar um, também acho que não é nenhuma coisa grave.

Qual é a magia do Dakar para si?
É irmos para o desconhecido. Não conhecemos o percurso, não sabemos o que vamos ter no dia a seguir, a dificuldade que vamos encontrar. Toda a gente fala agora dos WPC, mas não temos a certeza do que se vai passar, dizem que vamos ter muito calor (50 graus), na etapa de Belém, mas realmente não sabemos o que vai acontecer. Sabemos que na etapa nove vamos arrancar com os camiões e com os carros misturados e não sabemos o que vai acontecer. Um camião vem atrás de nós e pode não nos ver ou vai à nossa frente e deita muito pó… é isto que torna o Dakar uma coisa diferente.