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Sereno: “Sempre que saía à rua tinha de ser com seguranças. Não é que alguém me fosse fazer mal, o problema é que eles são muitos”

Chegou ao Atlético de Calcutá há três meses e no último domingo sagrou-se campeão da Superliga da Índia, ao lado de Hélder Postiga. E apesar de ser central, Sereno foi essencial ao empatar a final frente ao Kerala Blasters, que acabou decidida nas grandes penalidades. Depois de aventuras em Espanha, Alemanha e Turquia, o alentejano agarrou o desafio indiano onde encontrou outro futebol e outras formas de estar na vida. Correu melhor do que estava à espera, mas agora é tempo de voltar à Europa

Lídia Paralta Gomes

SAJJAD HUSSAIN/Getty

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Apanhamos Sereno menos de 24 horas depois de aterrar em Portugal e 48 horas após ser decisivo na vitória do Atlético de Calcutá (filial do Atlético de Madrid) frente ao Kerala Blasters, que deu o título da Superliga indiana à equipa onde também joga Hélder Postiga. O central de 31 anos, na Índia há três meses, marcou o golo do empate (1-1), que levou o jogo para o prolongamento. O campeonato acabou decidido nas grandes penalidades, com muito sofrimento à mistura.

Além do título, Henrique Sereno, natural de Elvas e que já passou pelo V. Guimarães, Famalicão, Valladolid, FC Porto, Colónia, Kayserispor e Mainz (quase um globetrotter), trouxe da Índia amigos e muitas histórias para contar. E uns quantos agrafos na cabeça. É aliás a seguir a uma sessão de fisioterapia que falamos com ele.

Olá Sereno. Então esses agrafos na cabeça, foi dos festejos?
Não, não [risos]. Magoei-me numa jogada no último jogo.

Chegou a Portugal na segunda-feira, depois de ser campeão no domingo. Foi mesmo jogar, festejar, fazer as malas e partir.
Foi mais jogar, festejar só um bocadinho e viajar, até porque eu e o Hélder [Postiga] já estávamos atrasados para apanhar o voo para voltar para cá. Acabámos por vir diretamente de Cochim [cidade no Sul da Índia onde jogaram a final] para a Europa, nem sequer fomos a Calcutá para os festejos. Foram 20 horas de viagem, de Cochim para o Qatar, daí para Madrid e depois para o Porto.

Imagino que esteja muito cansado…
Muito cansado! Mas agora já estou em casa e espero nos próximos dois dias recuparar. É sempre bom voltar depois de três meses na Índia.

Ainda por cima a tempo do Natal.
Sim, é uma sensação única, é quase como se nascesse outra vez, ver as minhas filhas e a família passados três meses. As minhas filhas estavam na escola e por isso não me acompanharam. A Índia tem o problema de ser longe e também não é o melhor país para levar a família. Mas as pessoas são das melhores que conheci.

Foi o Hélder Postiga que o chamou para a Índia ou, pelo contrário, foi o Sereno que lhe telefonou a pedir conselhos?
Fui eu. Quando soube da hipótese de ir para a Índia telefonei-lhe e ele falou-me muito bem do clube e não parou até convencer-me a ir.

E vai voltar para o Atlético de Calcutá?
Não, não. Fui mais porque tinha tido lesões, estava sem clube há cinco meses e precisava de uma equipa para treinar e jogar. A verdade é que as coisas acabaram por correr bem na Índia. Agora estou de volta para no mercado de janeiro encontrar uma nova equipa: pode ser que com o título fique mais fácil e tenha mais opções.

Como é sair da Índia como herói de uma cidade com 5 milhões de habitantes?
Cinco milhões são os que estão registados, porque há quem diga que a cidade tem mais de 18 milhões de habitantes! É muita gente, mas é gente boa e as coisas correram melhor do que eu estava à espera.

Sereno chegou ao Atlético de Calcutá em outubro e sagrou-se campeão no passado domingo

Sereno chegou ao Atlético de Calcutá em outubro e sagrou-se campeão no passado domingo

BIJU BORO/Getty

Marcou o golo que deu o empate ao Atlético de Calcutá e levou o jogo para prolongamento. Foi um dos golos mais importantes que marcou?
Não sei se foi dos mais importantes, mas foi sem dúvida especial. É engraçado, andava perto de fazer golo há vários jogos mas não estava a conseguir e no dia da final disse aos meus colegas: “Vai ser hoje!”. E aconteceu. Foi um jogo em que falhámos muitos golos e o Kerala marcou na primeira vez que foi à baliza. Felizmente, 10 minutos depois fiz o empate.

Sofreu muito nas grandes penalidades?
Sofremos um bocadinho, até porque falhámos a primeira grande penalidade. E eu aí pensei: “Isto vai dar para o torto”. Mas depois eles falharam duas. Um título é sempre um título, mesmo num campeonato daqueles. Mas é bom festejar perante tantas pessoas, tão contentes com um título. Vencemos no estádio do Kerala, com mais de 60 mil nas bancadas - mais as que eles não contaram… Foi uma alegria única, pela alegria dos adeptos. Em Portugal, por exemplo, ganhei a Liga Europa pelo FC Porto, mas na Índia a festa é outra coisa.

Na Índia até se liga mais ao críquete. Mas já começam a gostar de futebol?
Ui, muito! O primeiro desporto lá é de facto o críquete, depois um desporto de combate asiático e em terceiro vem o futebol. A liga de críquete é a 3.ª mais rica do mundo e se colocarem todo esse investimento no futebol poderá até, quem sabe, ultrapassar os valores da China.

Já lá estão vários jogadores europeus ou com passado no futebol europeu, como é o caso de John Arne Rise, Diego Forlan, Florent Malouda. A tendência é para o campeonato indiano crescer mais?
Vai crescer muito. Por exemplo, na última temporada foram 150 milhões a ver a final, este ano já chegou aos 200 milhões. A tendência é para ser cada vez mais visto.

Do ponto de vista financeiro já vale a pena tentar a Índia?
Sim, paga-se bem aos jogadores estrangeiros. Em três meses pagaram-me aquilo que em Portugal só os três grandes conseguem. E mesmo assim nem sempre…

A ideia é agora a partir de janeiro continuar no estrangeiro?
Sim. a ideia é continuar lá fora. Portugal tem as suas dificuldades e não se pode pedir muito. Já estou no estrangeiro há muito tempo e é para continuar.

E como foi a adaptação a Calcutá, complicada?
A minha vida era muito hotel-treino-hotel. Ao longo destes três meses tive duas folgas, que deram para visitar a cidade, mas ficávamos muito nessa bolha. Até porque a realidade lá fora não é muito agradável: há muita riqueza, prédios e hotéis como se vê em Singapura, mas também há muita pobreza, muito lixo, muita poluição, muitas crianças na rua.

Com as filhas a milhares de quilómetros de distância, imagino que ver crianças na rua era o que lhe custava mais.
Exatamente. Era a primeira coisa que me vinha à cabeça. Acho que é normal para quem tem filhos. Somos uns privilegiados, às vezes não fazemos a mínima ideia de como se vive lá fora.

Hélder Postiga é o outro português que ajudou o Atlético de Calcutá a conquistar o título indiano

Hélder Postiga é o outro português que ajudou o Atlético de Calcutá a conquistar o título indiano

SAJJAD HUSSAIN/Getty

Era reconhecido quando saía à rua?
No princípio não, mas no final já era. Sempre que saía tinha de ser com seguranças. Não é que alguém me fosse fazer mal, o problema é que eles são muitos!

Além de Calcutá, conseguiu ver outras cidades?
Em Nova Deli não conseguimos treinar por causa da poluição e por isso deu para visitar a cidade. Também visitei Mumbai. Mas gostei mesmo foi de Goa.

Em Goa sentiu-se em casa?
Sim. As placas estão todas em português e as casas são todas no estilo colonial. Senti-me em casa.

Quando pensamos na Índia vem-nos à cabeça as cores, a confusão, o trânsito…
Ui, o trânsito e as buzinas. O meu hotel era mesmo ao lado de uma rua muito movimentada e ainda sinto as buzinadelas nos meus tímpanos [risos]! Tal como nós aqui usamos as luzes, eles lá usam a buzina.

E a comida, adaptou-se?
Com a comida também foi complicado. Normalmente só comia cozinha internacional nos restaurante onde ia. Para mim, comida indiana só dá para aguentar mesmo uma vez por mês, é demasiado picante!

Qual foi assim a situação mais bizarra que viu num estádio de futebol na Índia?
Há uma engraçada. Acho que foi ao meu terceiro jogo. Choveu muito antes do jogo e o relvado ficou todo inundado. Então foram às bancadas e chamaram umas duzentas pessoas, deram uma esponja a cada uma e começaram todos a enxugar o relvado… e aquilo ficou enxuto!

Deve ter demorado uma eternidade!
Não, foi pouco tempo! Os indianos são um povo muito humilde. Enquanto nós por cá parece que quanto mais temos, mais queremos, eles são com pouco são muito felizes.

Gostava de voltar, nem que seja de férias?
Sim. Quero voltar para visitar amigos indianos que lá deixei. Foram três meses, mas sinto que fiz amizades para a vida inteira, quer com pessoas com quem me cruzei no hotel onde vivia ou com quem trabalhei no clube.

Já jogou em Espanha, na Alemanha, na Turquia e agora na Índia. Qual destas experiências deixa mais saudades?
Na Turquia também fui muito feliz. Estava em Kayseri, no centro da Turquia, uma cidade muito religiosa, onde se leva o Islão muito a sério. E fui extremamente bem tratado, tanto eu como a minha família. As pessoas muitas vezes têm uma ideia errada dos países muçulmanos. Por exemplo, na Ásia as crianças estão em primeiro lugar, são muito bem tratadas e podemos estar descansados. Na Alemanha, se estava num restaurante e alguma das minhas filhas falava um pouco mais alto olhavam logo de lado. Se fosse preciso davam mais primazia a um animal do que a uma criança e eu não gostava disso.