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Rui Jorge: “Chamo jogadores às onze da noite para lhes dizer que não gostei que tivessem deixado comida no prato”

Rui Jorge não é um treinador comum. São os resultados - os sub-21 portugueses não perdem um jogo há cinco anos - e é o discurso que o comprova. “Para mim, jogar exclusivamente para o resultado é inconcebível”, diz, em entrevista à Tribuna Expresso

Mariana Cabral

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Nuno Botelho

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Os Sub-21 vão defrontar a Espanha, a Sérvia e a Macedónia no Euro-2017, e Rui Jorge tem consciência das expectativas sobre uma seleção que não perde há cinco anos — a final do Euro-2015, frente à Suécia, por ter sido decidida em penáltis (para o lado sueco), conta para a história como empate. Mas, na cabeça de Rui Jorge, não são os números que importam, são os jogadores e a forma como interpretam um lema: 'joga bonito'.

A última vez que te entrevistei, no final de 2014, depois de uma qualificação com 10 vitórias em 10 jogos, perguntei-te se te lembravas da última derrota que tinham sofrido.
Na Rússia, 2-1.

Agora faço exatamente a mesma pergunta. E a resposta...
[interrompe] ...é a mesma.

Cinco anos sem derrotas é um marco incrível. Como é possível?
Explica-se por diversos fatores, inclusive a sorte. É inquestionável que esta série que temos mantido é anormal. Os números, por si só, chamam a atenção, mas, por outro lado, ofuscam muito aquilo que é a mensagem principal: para nós, o importante é o que está por trás, a forma como trabalhamos, como encaramos todos os estágios e jogos, como pensamos ajudar os jogadores na sua constante evolução.

São 30 jogos sem perder. Mas há também uma certa unanimidade em torno da qualidade do futebol apresentado. Sentes isso?
Há uma qualidade enorme nos jogadores, à qual tentamos dar alguma organização. E depois há um princípio que para nós é muito importante: gostamos de ser uma equipa vibrante, gostamos que quem está a assistir ao jogo não fique indiferente ao nosso futebol e à qualidade dos nossos jogadores. É isso que procuramos e é o que dizemos aos atletas. Queremos que quem vê os nossos jogos fique com uma imagem positiva.

Isso em termos concretos, quando a equipa se junta, traduz-se em quê? Treinar mais a organização ofensiva do que a defensiva, por exemplo, ou não é por aí?
Numa seleção é claramente diferente. Em termos de tempo não direi necessariamente que passamos mais tempo no processo ofensivo. O processo defensivo é algo ao qual até dedicamos mais trabalho.

É mais "treinável"?
Também é mais treinável. Sabemos também, por estarmos num espaço de seleção, que os jogadores tecnicamente estão todos a um excelente nível e com capacidade para criar desequilíbrios a nível ofensivo. Claro que a fase ofensiva também necessita de alguma organização, mas não posso dizer que passamos mais tempo nisto ou naquilo. Acho que tem é muito a ver com a mensagem da dinâmica que queremos dar ao jogo, com a mensagem do jogo positivo, que no fundo é aquilo que eles gostam de fazer. Não temos tido muito trabalho a convencê-los disso [risos].

Esse jogo positivo ainda parece ser pouco visível em Portugal...
Não sei se existe essa mensagem, pois tudo será diferente por parte de cada treinador e cada clube. Já se nota alguma preocupação, porque as coisas vão evoluindo, inclusive as formas de antijogo. A minha mensagem — e aqui posso ir até aos tempos dos juniores do Belenenses — é sempre neste sentido: independentemente do adversário, o futebol é uma indústria que requer que as pessoas gostem dela, e nós, dentro daquilo que é o nosso trabalho, devemos fazer o máximo para que isso aconteça, sob pena de, daqui a alguns anos, deixar de ser um desporto amado por tanta gente. É isso que enquanto treinador tenho procurado fazer ao longo destes anos: convencer os jogadores de que é importante que as pessoas gostem daquilo que estão a ver. Isso reflete-se depois, acredito, nos desempenhos que as equipas têm e na forma como muitas vezes as pessoas se sentem agradadas com o nosso futebol.

Já és treinador há 10 anos. Sempre tiveste essa filosofia?
Como jogador, o facto de ter passado quase toda a minha carreira, desde os 9 anos, em clubes grandes levou-me a ter uma visão daquilo que pretendia do jogo. A verdade é que gostava de jogar, de estar em equipas que empolgavam o público. E quando comecei a carreira de treinador fiz disso um propósito, porque é frequente ouvirmos dizer que a Liga inglesa é espetacular, e toda a gente gosta da Liga inglesa, mas depois não praticamos aquilo que eles lá têm como essência: a paixão que põem no jogo, o querer jogar... Sei isso porque fui treinador da formação durante muitos anos e vivi situações que me alertaram para esse facto. Vi treinadores a não quererem jogar, a desejarem passar tempo, a jogarem exclusivamente para o resultado... Para mim, isso é completamente inconcebível, principalmente na formação, quando queremos mudar mentalidades e numa altura em que podemos ter alguma influência nos jogadores que temos.

Mas tens noção que se elogia muito o teu trabalho nos sub-21 se calhar tendo mais em conta os resultados do que outra coisa qualquer.
Claro, precisamente. Os números só chamam a atenção, mas ofuscam a mensagem principal. Como te disse, se calhar por ter começado com 9 anos a jogar no FC Porto, fui habituado a querer ganhar sistematicamente, porque estava em equipas em que isso era possível, mostrar que éramos sempre os melhores em jogos e treinos. Isso é algo que vem desde a base, mas o importante é o que se faz para que isso aconteça. Não o resultado em si, mas tudo o que fazemos para lá chegar. E ao centrarmo-nos exclusivamente nos resultados e nas não sei quantas vitórias - ou não derrotas -... por trás há muito mais coisas das quais nos orgulhamos enquanto equipa técnica de fazer prevalecer, que vão muito para além dos números. Mas que acreditamos que têm muita influência no alcançar desses números.

Entre 2006 e 2010, Rui Jorge foi treinador dos juniores do Belenenses

Entre 2006 e 2010, Rui Jorge foi treinador dos juniores do Belenenses

Nuno Botelho

Podemos dizer que os Sub-21 jogam melhor do que a seleção A?
Não, nem gosto que digam isso. A seleção A não se pode comparar a nada, é algo diferente, em termos do que acarreta. Se ganharmos, o que isso traz atrás; se perdermos, o que isso traz atrás... E não há perspetiva de formação, que existe nas outras seleções. Digo isto desde que aqui entrei: o nosso primeiro objetivo não será ganhar, será formar jogadores para colocar na equipa principal, onde, aí sim, os resultados são realmente importantes.

Como é que a Federação pode dizer aos clubes que se calhar o mais importante na formação não é ganhar?
Não é fácil. Mesmo a nível da Federação, não gosto de me imiscuir naquilo que são as políticas dos clubes. Teremos o nosso papel junto dos jogadores, que sensibilizamos para algumas coisas. Agora, a política dos clubes... Podemos dizer qual é a nossa ideia, mas a legitimidade de os clubes seguirem a ideia que têm existe sempre, e é difícil pensar que outros podem mandar na nossa casa.

Portugal já está num nível semelhante à Alemanha e à Espanha, que habitualmente vemos como referências da formação?
Acho que vamos precisar sempre da consistência. Eles têm um poder económico que nós não temos, têm um número de jogadores que nós não temos... Mas nós, dentro daquilo que é a nossa realidade...

...temos tido grandes resultados: vice-campeões europeus em Sub-21, campeões europeus em Sub-17...
...na seleção A, no futebol feminino... Tentamos rentabilizar aquilo que temos, e temos conseguido fazê-lo bem. Mas, mais uma vez, centrarmo-nos apenas nos resultados para validar algo que estamos a fazer não me parece a ideia mais correta. É uma forma também de certificar aquilo que tem sido feito, mas vamos imaginar que não tínhamos ganho nenhum dos títulos que alcançámos no último ano. Não penso que o trabalho tivesse sido mal feito. É certo que dá outro brilho, mas o trajeto tem de ser valorizado.

Falavas de teres crescido como jogador num clube grande. Notas nos jovens que passam por ti dificuldades de adaptação quando são emprestados a clubes mais pequenos, já que estiveram habituados a jogar de determinada forma, provalvemente mais ofensiva, durante todo o processo de formação?
São realidades diferentes e esse é um problema com que nos debatemos muitas vezes. E isso ainda era mais grave para nós quando não existiam as equipas B, que vieram atenuar um bocadinho essa situação. Acontecia com mais frequência, no passado, jogadores de seleção habituados a determinadas condições de jogar e de treino passarem para um estilo de jogo completamente diferente. Quando passaram para realidades diferentes sentiram muita dificuldade. O futebol de formação é totalmente diferente e muitas vezes a realidade seguinte com que se deparam vai noutro sentido e alguns deles perderam-se.

Achas que o jogador português está diferente?
Acho que a nível de mentalidade sabe e tem hoje consciência que é preciso estar a um grande nível para se poder afirmar. Sinto mais isso agora do que sentia no passado. Há uma maior consciência de que não é fácil atingir o patamar que eles acham que podem atingir. Aí está diferente. Hoje vemos um miúdo de 19 anos, 20 anos, 21 anos a ter cuidado com a alimentação e com o físico, que era uma coisa impensável no meu tempo.

Isso terá algo a ver com o Ronaldo, enquanto exemplo de trabalho?
Em alguns aspetos, com certeza que sim. Ele é um elemento altamente visível a esse nível, quem o conhece sabe que ele é assim, e essa informação passa sistematicamente. Mas acho que eles têm uma consciência geral dessa situação. Enquanto jogador, vivi, por exemplo, jogadores que na altura iam para Itália e quando depois nos encontrávamos na seleção eles eram jogadores totalmente diferentes em termos desse profissionalismo, do que andava à volta do campo, porque nós não tínhamos tanto esses princípios.

No teu tempo era mais normal irem beber umas cervejas?
Não digo que agora também não o façam, mas acho que têm outra perceção do que isso lhes pode trazer. Se bebem mais cerveja, água ou Coca-Cola não sei [risos], mas acho que eles sabem que isso pode pesar bastante naquilo que é o seu rendimento.

Notas também diferenças em termos de relações interpessoais?
Costumamos dizer que sim, mas é uma coisa em que temos de ter cuidado, porque se calhar dizíamos o mesmo quando chegámos ao patamar superior, é quase aquela conversa de pai para filho: "No meu tempo"... [risos] Não me lembro da Playstation ser a distração preferida, lembro-me das cartas. Hoje em dia, as cartas não são o passatempo mais comum entre os nossos jogadores.

Se calhar também já não é a Playstation, é o telefone ou o tablet.
Neste grupo acho que é mais a Playstation [risos]. Mas claramente que a questão informática e a forma como eles hoje estão no mundo é diferente, mas há uma evolução normal da sociedade e eles também acompanham.

Continuas a preferir treinar jovens, em vez de seniores?
Sim... Quer dizer, quando dizes seniores... Nós temos aqui jogadores já com três anos de sénior. Muitas vezes é essa a ideia que passa, mas numa fase final de sub-21 temos jogadores que estão na sua quarta temporada de sénior. O Bruno Fernandes tem três anos na Liga italiana, já com estatuto. Há jogadores que têm carreiras mais curtas do que três anos numa Serie A italiana [risos]. Já estamos a falar de jogadores com um excelente nível e com alguma maturidade. Mas gosto, respondendo à pergunta que me fizeste, desta fase de transição, porque tanto treino um jogador já sénior como outro que ainda é júnior e que também tem este espaço aberto. São idades em que nós sentimos que pode existir uma influência ainda grande sobre eles, falando sobre o modo de encarar o jogo... Acreditamos que no íntimo ficará alguma coisa. Se quiserem segui-la, depois, seguirão, se não quiserem seguir, não seguem, mas acredito que não seja uma batalha perdida.

Um treinador tem mais prazer com estes jogadores jovens, que ainda se podem moldar, do que com os seniores?
Baseio-me muito na minha experiência e acredito que mesmo com 30 anos continuava a querer ouvir o treinador. Logicamente, absorvemos as coisas de outra forma. Ensinar ou dar uma perspetiva diferente — porque não digo que tudo o que lhes transmito é que está correto — é a minha forma de pensar. Eles até podem não fazer uso nenhum daquilo no resto da vida. No entanto, quero acreditar que, por pouca influência que possa ter, pode sempre ficar alguma, até abrindo a malha. Tive um jogador nos juniores do Belenenses que nesta altura é treinador dos Sub-15 do Sporting.

O Pedro Coelho?
Exatamente. Mais do que eu, é uma boa pessoa para falar sobre isso [risos]. É alguém que apanhei na formação e a quem transmiti coisas que para mim faziam sentido. E se calhar ele hoje em dia também as transmite a mais não sei quantos jogadores. Assim, a coisa pode ir passando, se as pessoas acreditarem na mensagem.

Um efeito borboleta no futebol...
Exatamente [risos]. Acredito que são mensagens que não caem em saco roto. Poderão ter seguimento. E é isso que me leva a acreditar que as coisas podem ir mudando.

Rui Jorge lidera os Sub-21 portugueses desde 2011

Rui Jorge lidera os Sub-21 portugueses desde 2011

Nuno Botelho

Contaram-me que, nos juniores do Belenenses, quem refilasse com o árbitro não jogava no jogo seguinte, eras inflexível. E nos Sub-21 ainda não há um único cartão vermelho...
[risos] Isso é informação privilegiada, não vale. Acho que toda a gente está um bocado farta de pessoas que falam muito mas cujas ações depois não corroboram as palavras. É um facto que eu tenho essas palavras [risos], e a mim satisfaz-me esse número, dos zero vermelhos, porque sei o que está por trás disso. Não quer dizer que, mesmo fazendo o trabalho que fazemos, estejamos livres de ter vermelhos, por uma pancada, por agarrar um jogador... Isso poderia de facto ter acontecido. O contrário é que era difícil acontecer. Mas a essência tem a ver com a tal defesa do jogo, com o respeitar o adversário — coisas das quais nos orgulhamos e que não são visíveis à primeira vista. Mas acho que muito do que é o nosso jogo reflete os nossos comportamentos. Para mim, pode ser tão importante chamá-los às onze da noite para falar sobre os erros que cometemos no treino da tarde e mostrar o vídeo daquilo que quero corrigir como chamá-los às onze da noite para lhes dizer que não gostei que tivessem deixado comida no prato, por exemplo.

Fazes isso?
Faço. Porque é importante eles perceberem quem têm à frente e aquilo que é valorizado por quem está à frente deles. Acho que depois isso se reflete no carácter da equipa e na forma como ela aparece em campo e fora dele. Isso é tão importante para aquilo que é a minha equipa, para a sua essência, como falar em relação a um erro no treino.

Já tinhas essas ideias enquanto jogador?
Já. Gosto de desporto desde miúdo, fui habituado a ter ídolos das mais diversas modalidades, desde o Jordan, ao Sampras, ao Tiger Woods, ao Waldner, do ténis de mesa, ao Vitor Hugo, do hóquei em patins... Gosto de desporto, acompanhei muitas modalidades e a educação familiar que tenho em termos do que é a verdade desportiva leva-me a pensar desta forma e levou-me também a fazê-lo enquanto jogador. É claro que, enquanto jogador, poderá ter havido situações em que não cumpri exatamente desta forma. Não sei até que ponto teria sido importante alguém ter tido esta postura comigo. Se calhar muitos jogadores são influenciados na forma contrária. Vi treinadores a mandar jogadores chutar a bola para fora, etc, etc. Não estou a dizer que aconteceu no meu caso, mas este reforçar pela parte positiva, que é o que tento fazer com eles, não me lembro de uma forma clara que isso tenha sido feito comigo.

Mas achas que hoje em dia os treinadores já têm mais essa filosofia positiva?
Não sei. Repara, o resultado imediato leva muitas vezes a que se tente apenas o resultado. Não sou apologista do ganhar a qualquer preço. Mas entendo que possa existir quem pense assim.

Recentemente o Conselho de Arbitragem da FPF enviou uma carta aos clubes notando o "aumento do número de paragens e a crescente duração das mesmas" e recomendou aos árbitros que aumentassem os tempos de compensação.
Já se nota alguma preocupação, porque as coisas vão evoluindo - inclusive as formas de antijogo. Tudo vai evoluindo. Acho que tem de partir da outra parte. Sei que é uma tarefa extremamente difícil, que se calhar o conforto de vida de uma pessoa pode alterar completamente com algumas decisões dentro deste género, mas enquanto conseguir pensar desta forma vou tentar continuar a defendê-lo.

Fazer a convocatória para os Jogos Olímpicos foi o teu momento mais difícil?
Enquanto treinador da seleção olímpica foi sem dúvida a convocatória mais complicada, porque uma convocatória obedece a um pensamento prévio. Há uma série de fatores que levamos em conta e que a partir de certa altura não foi possível ponderar. De um dia para o outro houve jogadores que deixaram de poder ir, e num determinado momento ficou um bocadinho comprometido esse equilíbrio que nós procuramos.

Em que altura começaste verdadeiramente a desesperar?
Não desesperámos, porque antecipámos um pouco todo aquele cenário e fomos falar com os clubes para tentar perceber com o que poderíamos contar. Foi um processo difícil, mas não foi para desesperar.

Como jogador, farias força para ir?
Tem tudo a ver com esgrimir argumentos com os treinadores e presidentes, trocar ideias, apenas isso. Nós sabemos o que as regras dizem, os jogadores devem saber também o que as regras dizem. Depois, se falarmos de fazer força como uma questão de sensibilizar para determinados aspetos, falar aos clubes das coisas positivas que podem advir de uma presença nos Jogos Olímpicos, isso com certeza faria. Tentaria falar com quem dirige e toma as decisões no clube para argumentar de forma a que o resultado fosse diferente e me libertassem os jogadores. Mas também, como faço sendo treinador, com a consciência perfeita de que a última palavra seria sempre dos clubes, seriam eles a tomar a decisão final. É evidente que eu, enquanto treinador de jogadores que sei que se esforçaram muito para disputar os Jogos, entendo que muitos deles possam ter ficado desiludidos.

Como foram os Jogos Olímpicos?
Lá está, era um sonho de menino. Tive a felicidade de lá ir enquanto jogador em 1996, mas não vivemos mais do que o torneio na altura, porque ficámos a quilómetros da aldeia olímpica e foi mais um torneio de futebol. Este ano fomos para a aldeia olímpica, estivemos com os atletas das mais diversas modalidades, sentimos o desporto na sua essência. Levantares-te, abrires a janela e veres, às sete e meia da manhã, não sei quantas pessoas a correr lá fora, de todos os países...

É verdade que não foste à cerimónia de abertura porque os jogadores também não podiam ir?
Como te disse, desde pequeno que sabia o que é uma abertura dos Jogos. Eu digo que o importante é fazer aquilo que apregoamos, e achei que era uma dessas situações. Os jogadores estavam lá, alguns deles, com uma ideia semelhante à minha, ou seja, participar numa cerimónia daquelas poderia ser uma oportunidade única na vida. Mas estávamos lá com intenção de fazer boa figura. E não seria benéfico, disso tenho a certeza, fazer os jogadores ficarem quatro horas de pé na cerimónia. Portanto, se não seria lógico eles irem, também não seria correto da minha parte, perante o grupo, ir. Por isso, não me custa. Se calhar, nunca mais terei uma oportunidade igual, mas foi por um bem maior. O que digo muitas vezes, seja numa fase final de Campeonato da Europa, seja nuns Jogos Olímpicos, seja num jogo particular, é que não quero terminar a preparação a pensar que poderia ter dado um bocadinho mais.

A 30 de junho de 2015, Portugal perdeu a final do Europeu sub-21 para a Suécia, nos penáltis (4-3, depois de um 0-0 no final do prolongamento)

A 30 de junho de 2015, Portugal perdeu a final do Europeu sub-21 para a Suécia, nos penáltis (4-3, depois de um 0-0 no final do prolongamento)

MICHAL CIZEK/GETTY

Dormiste depois de perder a final do Euro contra a Suécia?
Custou-me, obviamente. E continua a custar, porque ainda hoje não me passou. Mas o meu grande objetivo e o da minha equipa é acabar a dizer, mesmo que o resultado não seja aquele que nós gostaríamos, que fizemos tudo o que conseguimos. Não quero que ninguém da minha equipa técnica e do meu staff ou dos jogadores, no final do jogo, esteja a dizer: “Se eu me tivesse deitado às dez em vez das dez e cinco, ou se tivesse chegado a horas ao treino, ou se me tivesse empenhado...” Isso não quero.

Vamos estar no Euro com Espanha, Sérvia e Macedónia. É um grupo complicado.
Estamos num bom grupo, como seriam os outros. Numa fase final de sub-21 não há muito por onde escolher, portanto teria de ser assim. Acredito que as equipas que lá conseguiram chegar são de excelente nível. A experiência também nos diz isso. No ano passado, quando vimos Itália, Suécia e Inglaterra, teoricamente Itália e Inglaterra seriam as equipas de maior historia e acabaram por ser Suécia e Portugal a conseguir a melhor classificação. Vamos ver todos os jogos dessas equipas e preparar a equipa - isso é o que podemos fazer.

Vês-te como um selecionador de quem toda a gente gosta? Se calhar mais antes do Euro...
Disseste bem, antes do Euro [risos]. O facto de estar neste mundo há tantos anos permite-me ver isso com clarividência. Vejo e sinto que toda a gente aprecia o trabalho que tenho vindo a fazer, até pelas reações que tenho das pessoas na rua e internamente também, mas também sei [ri-se], atendendo ao que é o futebol, que o resultado pode mudar tudo isso. O que não vai mudar nunca é tudo aquilo de que estivemos a falar até agora. O empenho que pusemos em tudo o que fizemos e o dedicar do nosso tempo para ajudá-los a serem um bocadinho melhores jogadores. Agora, os resultados não vamos conseguir controlar, vamos tentar manter os resultados, mas sem qualquer garantia, porque isso não conseguimos dar.

Como analisas a tua carreira de treinador até agora?
Estou muito satisfeito.

Ficavas feliz a ser selecionador dos Sub-21 o resto da carreira?
Não sei. Nesta altura claramente estou mais do que satisfeito, porque sinto que as pessoas me querem aqui. Mas amanhã poderá não ser assim. Sempre fui muito estável, e a verdade é que estou aqui há seis anos e parece que foi ontem. Ser selecionador dos Sub-21 é um cargo com responsabilidade e que acima de tudo tem os jogadores numa fase de transição muito complicada, em que podemos sentir que temos alguma influência e importância na carreira deles. E isso realiza-me. Realiza-me tanto isso como a história do Pedro Coelho. Ou do Ricardo, que é um miúdo que ninguém conhece e que se calhar foi das maiores deceções para mim, porque o via nos juniores do Belenenses como podendo ser uma grande estrela do futebol nacional e agora não sei o que é feito dele. Ou do Diogo Rosado, que via como um jogador para atingir algo transcendente e nesta altura não está com a carreira que eu achava que ele poderia ter. Isso são coisas que também marcam, ainda que de uma forma negativa, mas marcam.

Da última vez que falámos, disseste que nunca tinhas pensado ser treinador. Agora pergunto-te ao contrário: vês-te a fazer outra coisa que não ser treinador?
Não, não. A base é a mesma: enquanto estou num local, dedicar-me a 100% ao que estou a fazer. Isso não me dá tempo para pensar noutras coisas. É tão volátil isto do futebol e do treinador de futebol que a ideia a longo prazo é algo que não existe e é importante nós sabermos isso. Sei que me vai acabar a carreira de treinador, é inevitável. Isto pode de alguma forma chocar, mas é preciso estarmos preparados para isso, porque é isso que acontece, daí não fazer planos a longo prazo. No futebol, longo prazo são três semanas e se tivermos dois jogos entretanto... [risos]

Ser selecionador A será um objetivo, por exemplo, daqui a 20 anos?
Não, nada, zero. Nem é coisa que goste que se aborde. No futebol, as coisas são diferentes. Acho que estamos muito bem servidos a nível de selecionador e que conquistámos uma coisa que ainda hoje as pessoas não têm realmente consciência do que é. Ser campeão europeu por uma seleção principal é algo estrondoso, e nós só vamos perceber daqui a algum tempo como foi importante e meritória essa conquista.

Versão alargada da entrevista publicada na edição de 30 de dezembro de 2016 do Expresso