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Zé Carlos: “O Quinito tinha a mania de cantar um bocadinho, pôr álcool nas mãos e passá-las pelas barbas antes das palestras”

Sven-Göran Eriksson gostava dele, pô-lo a jogar e foi titular na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus que o Benfica perdeu com o AC Milan. Anos depois, foi para o Vitória porque o treinador que chegava atrasado às palestras “fez questão”. Já não era o tempo em que as pessoas de Guimarães davam “ouro, lençóis e faqueiros aos jogadores”. Antes de um fim de semana com um V.Guimarães-Benfica (sábado, 18h15), falámos com Zé Carlos, que jogou nos dois clubes

Diogo Pombo

JACQUES DEMARTHON

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Como é que foste parar ao Benfica?
Fui muito cedo, juvenil ainda. Jogava no Domingos Sávio, um clube aqui de Lisboa, de bairro, dos Salesianos. E, através do Vítor Martins, que era quem andava a ver jogadores, acabei por ir para lá. Fui convidado, cheguei lá como juvenil, fui campeão nacional de juniores e subi a senior.

E depois?
Tive dois anos com o [John] Mortimore sem jogar, praticamente, só a fazer reservas e equipa B, que na altura foi criada. Como não jogava, quis e pedi para sair e fui emprestado dois anos ao Portimonense. Só depois é que regressei, com o Eriksson. Chamaram-me para ir fazer o estágio à Holanda e acabei por ficar.

Essa primeira época a sério no Benfica corre-te bem.
Corre, corre. Não jogo até à nona ou décima jornada, acho eu, até o Fonseca ter um mau jogo nas Antas. Depois jogo sempre.

O Eriksson gostava de ti?
Ele dizia que sim [ri-se]. Mas acho que sim. Tivemos uma fase pós-Barcelona [duas épocas volvidas, quando o Benfica joga com os catalães na fase de grupos da Taça dos Clubes Campeões Europeus], em que as coisas não foram bem geridas, mas tudo bem. Ele foi muito importante no que eu fiz no Benfica. No fundo, eu fui uma aposta dele. O Veloso começou a jogar à esquerda e eu à direita.

Até te mete a titular numa final europeia, contra o AC Milan.
Sim, as coisas fixaram-se assim. Nesse ano [1989/90], o da final, estive em praticamente todos os jogos. Fui correspondendo, de alguma forma, ao que ele me pedia.

Que idade tinhas na altura?
Humm, uns 23, 24 anos.

Talvez ainda não fosses velho o suficiente para não acusares uma final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
[Volta a rir-se]. Fiquei nervoso, claro. Aquilo mexeu com todos. Um ou outro tinham estado na outra final, em Estugarda, contra o PSV, mas, para a maior parte de nós, era uma novidade. Para mim então, que na época anterior estava a jogar para não descer com o Portimonense… Aconteceu tudo muito depressa. Tenho ideia que estávamos todos muito nervosos e que, depois, o jogo até acabou por não ser grande coisa. Havia muito respeito da nossa parte, da deles também.

Ainda por cima, o Gullit ou o Van Basten podiam cair ali no teu lado.
Sim, sim, foi mais o Gullit. Eram todos muito altos, também o Rijkaard. Tenho essa ideia de estarmos todos no túnel,de olhar para eles e todos me parecerem enormes [ri-se].

Fazia muita diferença, na altura, jogar contra craques desses?
Penso que sim. A nossa qualidade, dentro de campo, provou o contrário. Mas é óbvio que estávamos a olhar para uma equipa que ainda tinha o Baresi. A nossa preparação para o jogo foi feita no Estádio da Luz, durante uma semana. Eles estiveram duas ou três semanas na Suíça e até fizeram uma limpeza ao sangue, só para as pessoas terem uma ideia da forma como eles já trabalhavam e como se trabalhava por cá. Nós preparámos a final como se fosse mais um jogo, mas um jogo grande. Eles estiveram numa clínica, quase numa mini-pré-época. Eles sempre estiveram muito à frente, claro que sabíamos quem estávamos a defrontar. Mas esperava muito mais deles.

Então?
O respeito e o receio que tínhamos por eles esbateu-se, depois, no campo. As diferenças foram poucas.

Saído do Benfica, fazes uma época no Estrela da Amadora antes de chegares a Guimarães.
Exatamente. Fui dispensado, veio o Abel Xavier para o Benfica e fomos uns quatro ou cinco jogadores para o Estrela, foi um negócio assim. Eu, o Paulinho, o Mário Jorge e não tenho ideia do outro.

Porquê o Vitória?
Olha, era para ter sido o Marítimo [ri-se]. Tinha tudo acertado com o Marítimo, mas o Quinito gostava de mim.

Foi ele quem fez questão?
Sim, falou com o Pimenta Machado, ele telefonou-me, ofereceram-me melhores condições e também não tinha muita vontade de ir para o Marítimo, porque era casado e já tinha filhos. Tinha que ir para a ilha. Quando apareceu o Vitória não hesitei.

O que tens a dizer sobre o Quinito?
Só tenho a dizer bem. Foi um treinador totalmente diferente de todos os outros, um dos melhores com quem trabalhei. Tinha bem mais virtudes do que defeitos. Era uma pessoa que tinha uma forma diferente de estar e olhar para o futebol, o treino e o jogador.

Era bom nas conversas de balneário, como se diz?
Esse era o ponto forte dele, a conversa, além da leitura de jogo que tinha, claro, e de saber escolher bem os jogadores. Mas a forma como preparava os jogos, as conversas que tinha connosco e a relação que conseguia manter com o grupo. Dava muita liberdade, mas muita responsabilidade ao mesmo tempo. Isso criava bom ambiente. Era fantástico, não o esqueço, nunca.

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Lembras-te de alguma conversa em particular?
Aquilo que mais me lembro é que ele fazia questão em chegar sempre atrasado às palestras. Criava ali uma pressão enorme em nós. Tinha um adjunto que estava sempre muito preocupado a olhar para o relógio. Depois, chegava lá nos jogos mais complicados, e dizia-nos: "Mas o que caras são estas? Vamos para algum funeral? Vamos jogar com o Benfica ou com o FC Porto, eles são iguais a nós!". Dava-nos muita moral e confiança. Depois tinha aquela questão do álcool.

Questão do álcool?
Sim, do álcool na cara, atenção. O Quinito tinha a mania de, antes de começar a palestra, cantar um bocadinho, pôr álcool nas mãos e passá-las pela cara, pelas barbas. Tinha muitas coisas destas engraçadas. E, como chegava sempre atrasado, fazia com que a palestra fosse sempre feita sob pressão. Não falávamos nos hotéis, era ali, no balneário, antes do jogo. Tudo muito pressionado, o que nos fazia subir a adrenalina. Era um bocadinho a correr, mas acho que ele fazia de propósito. Acho, não, tenho a certeza, porque eu era muito amigo do adjunto dele e sei que ele fazia questão que assim fosse.

Os anos que lá passas são o tempo do Vitória europeu.
Em cinco épocas, vamos quatro à Europa. Foram anos muito bons. Só não fomos na última temporada, e por um ponto.

Fizeram dois 3.º lugares e um 5.º.
Exatamente. O clube cresceu imenso e acho que teve ali tudo para dar o passo e ser aquilo que eles queriam: o quarto grande. O que o Braga hoje é, o Vitória poderia tê-lo sido na altura. Não o foi porque o presidente [Pimenta Machado] que lá estava, na altura, não conduzia as coisas da melhor forma. Se o tivesse feito, o Vitória tinha todas as condições para o conseguir.

Jogadores e equipas não faltaram.
Sim, tivemos sempre. Apareceu o Capucho, o Paneira, o Pedro Martins, o Pedro Barbosa, o Zahovic, também. Passou por ali muita gente que acabou em clubes grandes. E também recebíamos algumas boas dispensas de clubes grandes. Fomos sempre fazendo boas equipas ao longo desses cinco anos.

Obra do Jaime Pacheco?
Sim, temos um período muito bom com ele. Havia uma rivalidade forte com o Boavista, não era com o Braga. Era com o Boavista, que depois vem a ser campeão nacional.

Com o Jaime Pacheco.
Exato. Foram anos bons. Tirando os grandes, éramos o único clube com um centro de estágio. O Pimenta Machado teve essa visão. Ele andava muito pela Europa, queria criar quartos, falava muito que queria que a gente passasse lá o dia [mais risos]. O grande sonho dele era que o atleta entrasse ali de manhã e saísse à noite. Os treinadores, na altura, não olhavam para isso da melhor forma. Isso nunca avançou porque não calhou. O complexo do Vitória, para a época, já era muito avançado. Tínhamos ali boas condições.

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Como o estádio, que estava quase sempre cheio, não?
Cheio não digo, mas tínhamos sempre muita gente. É uma cidade que vive muito o futebol. Quando corria bem, o pessoal dava tudo à equipa. E eu não sou dos anos do Paulinho Cascavel e do Ademir, em que as pessoas da cidade ofereciam ouro, lençóis e faqueiros aos jogadores. Ouvi histórias dessas. Aquilo era uma loucura, a sério. As pessoas gostavam muito do Vitória, que também era forte nessa altura. Quando lá estive, a relação das pessoas connosco era sempre boa, sentia muito apoio.

Já era um campo complicado para as outras equipas?
Havia a rivalidade com o Boavista, sim, e com o FC Porto também era complicado. Mas isso era mais a questão das claques. Tenho ideia de jogos em que houve muitos problemas.

Há quanto tempo não vais ao estádio do Vitória?
O último jogo que vi foi da seleção [ri-se]. Ainda não tinha tido oportunidade de lá ir ver um jogo do campeonato.

Pois, ia-te perguntar se notaste um ambiente diferente do teu tempo.
Acho que agora é melhor ainda. Para o adversário é pior, claro. Mas parece-me que hoje, pela forma como o estádio está construído e pela acústica que tem, e pelo que vejo na televisão, a claque parece que cresceu imenso. Nesse aspeto está bem melhor. Acho que o estádio está fantástico para a cidade que é.