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Yannick Djaló: “Acabava o treino, pegava no carro, ia tomar banho a casa e punha o equipamento a lavar”

Passou uma época numa equipa do interior da Tailândia, onde teve medo de andar de moto, lavou o próprio equipamento, jogou nos treinos com o presidente do clube (dois anos mais velho que ele), que “dá uns toques” e agradeceu, no final dos jogos, às claques adversárias. Há quase um ano, Yannick Djaló, hoje com 30, estava a ir para a Tailândia. Encontrámo-nos com ele, sorridente e bem-disposto, em Lisboa

Diogo Pombo

Yannick Djaló, nos tempos em que jogou pelo Sporting, algures entre 2006 e 2010. Depois do imbróglio com o Nice, jogou no Benfica, Toulouse (França), San José Earthquakes (EUA), Mordovia Saransk (Rússia) e Ratchaburi (Tailândia). Agora, está sem clube.

FRANCISCO LEONG

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Temos que falar sobre a Tailândia.
Exato.

Como acabaste a jogar lá?
Fui parar à Tailândia através de um agente que trabalha lá. Entrou em contacto comigo e informei-o que tinha agente, que as coisas se tinham de processar com o Paulo Barbosa. Falaram entre eles e arranjaram a melhor solução para mim. Havia outras soluções, mas acabámos por optar pela Tailândia.

Não pensaste muito sobre o assunto?
A princípio fiquei um pouco na expectativa. Um colega meu tinha lá jogado, o Zezinando, ele deu-me boas informações, disse-me que aquilo era pouco evoluído. Chegou a uma altura em que pensei que ia estar a treinar e a ver elefantes a passar ao lado [ri-se, timidamente]. Mas, quando lá cheguei, não vi isso. Aquilo está num processo de evolução muito bom, as coisas acabaram por correr bem. E gostei.

O choque foi muito grande? Ou maior do que estavas à espera?
O maior choque que apanhei foi na alimentação. Sou um pouco esquisito com a comida, então tive de encontrar rapidamente uma solução, sítios onde houvesse comida italiana. Encontrei dois restaurantes e fiquei safo: almoçava num e jantava no outro. Depois foram as temperaturas, que eram altíssimas, havia bastante calor à hora do treino. Estavam 40º, 41º ou 42º graus à hora do treino, sempre bastante quente.

E mais.
Éramos nós a levar a própria roupa, depois do treino. Eram quatro ou cinco equipamentos de cores diferentes. Todos os dias tinha que enviar uma mensagem a perguntar qual era a cor e tinha de estar à espera da resposta para ver qual a cor que tinha de levar. Depois, no fim, nós é que o tínhamos de lavar. Mas também estávamos perto, as nossas casas ficavam a cinco, dez minutos do campo. Acabava o treino, pegávamos nos carros, íamos tomar banho e casa e punhamos a roupa a lavar [vai-se rindo um pouco, à medida que conta isto]. Só voltávamos a precisar dessa roupa passados uns cinco ou seis dias.

Ou seja, bem longe do que estavas habituado.
Sim, não tem nada a ver com a Europa, em que chegamos ali todos bonitinhos, treinados, tomamos banho, vestimo-nos e vamos à nossa vida. Ali não, sais de casa já equipado. Foi diferente, são culturas diferentes e há que respeitar. Muitas vezes, chegava ao treino e não estava lá ninguém. “Então, mas o pessoal não vem?”. Eles chegavam em cima da hora e vinham de mota. Ao início pensava que eram do staff, mas não.

Thearon W. Henderson

Não é mais normal os tailandeses andarem de moto?
De mota e sem capacete. Lá vale tudo!

Não experimentaste?
Não, não. Tenho medo de cair. Um dos colegas com quem tinha uma relação próxima, que era brasileiro, tinha mota, mas eu nunca quis. É um risco muito grande. Um tailandês pode andar à vontade, mas se for um estrangeiro a andar e a cair é uma grande chatice. A responsabilidade na equipa é diferente. Há que ter um pouco de cuidado.

Ouvi dizer que o presidente do Ratchaburi, o clube em que jogaste, tinha quase a tua idade.
É, ele tem uma paixão enorme pelo futebol. Aliás, não há um único treino em que ele não esteja presente. Está lá em todos, até participa nas peladinhas. Acho que o sonho dele é ser jogador de futebol.

Safava-se bem?
Dá uns toques. Para jogar a nível profissional não, mas dá uns toques. Gosta de bater livres. Às vezes, bate um livre ou outro bem.

Houve mais coisas que estranhaste?
Assim de repente, é difícil lembrar. Mas houve situações engraçadas. Quando os jogos acabam, cá é impensável irmos ter com os adeptos adversários, no final. Com a claque. Lá, quando o jogo termina é obrigatório ir ter com o treinador e o staff da outra equipa, perfilar os jogadores e agradecer à comissão técnica. Acontece em todos os jogos, os treinadores ficam à espera. Depois, vai-se dar uma volta olímpica ao estádio e fazemos o mesmo perto da massa adepta da outra equipa. E eles cantam uma música para nós. Só depois vamos aos nossos adeptos, quer tenhamos ganhado ou perdido por 5-0.

Os estádio estão cheios?
Há um jogo ou outro que estão mais bem compostos. No nosso, por norma, havia uma boa casa, uns sete ou oito mil espetadores.

E os jogadores tailandeses?
São bons, mas para jogar na Europa só umas exceções se podem aproveitar. São jogadores rápidos e aguerridos, a nível tático é que lhes falta mais conhecimento. Os estrangeiros é que têm de fazer a diferença ali. Há muitos com qualidade a jogarem lá.

Veem futebol português?
Eles conhecem. Até foram contratar um jogador do Paços de Ferreira, o Bruno Moreira, estão atentos. Veem muitas ligas e tentam ir buscar jogadores com nome. Também têm capacidade financeira.

FRANCISCO LEONG

Portugal já tinha sido campeão europeu quando lá chegaste?
Ainda não. Foi muito giro porque tinha um polaco na equipa e nos jogos de Portugal reuniamo-nos em minha casa. Nos jogos da Polónia, íamos para casa dele. Quando foi o Portugal-Polónia fomos para minha casa e ele estava cheio de confiança. No fim, quando eles perderam, só dizia: “Não, não, vocês tinham obrigação de ganhar”. Mas se, por acaso, a Polónia tivesse ganhado, estava tudo tramado com o polaco. Apostámos 1000 baht nesse jogo, cerca de 25 euros.

O dia da final?
Foi tudo em minha casa, claro, uma grande festa.

Ficaste um rei entre os tailandeses?
Sempre a darem-me os parabéns pela seleção nacional. Foi muito giro.

Quando foste para a Tailândia, não houve amigos ou colegas que te perguntaram o que estavas a fazer?
Não, nunca. Aliás, depois tive foi muita gente a falar-me porque queriam ir para a Tailândia. A perguntarem-me se eu conseguia arranjar contactos. Muita gente a pedir-me ajuda, mesmo.

Já ajudaste alguém?
Ó, como amigo, tento passar os melhores nomes e as melhores referências. A decisão de contratar não passa por mim. Mas tento ajudar ao máximo, não só por serem meus amigos mas por acreditar que têm qualidade para jogarem na Tailândia.

Estavas no centro do sudeste asiático, aproveitaste para viajar?
As viagens e os hotéis são bastante baratos, de facto. Tive essa oportunidade de poder ir, mas tenho uma grande paixão pelo Dubai. E, como estava cinco horas, aproveitava sempre para ir ao Dubai [ri-se].

Não foste ao Vietname, ao Laos ou ao Cambodja.
Não cheguei a ir para lado nenhum, o meu destino era o Dubai [volta a rir-se]. Mas espero ter a oportunidade de vir a conhecer Hong Kong.

Achas que a Tailândia se pode vir a tornar no que a China se está a transformar?
Neste momento, ainda não. Têm um clube ou outro com muito poder financeiro. O Buriram, que é o clube que mais cresceu e ganhou muitas ligas, não está tão virado para investimentos como os que têm sido feitos na China, onde se pagam valores incríveis. A Tailândia, nesse sentido, ainda não. Quem sabe no futuro. Mas lá na Ásia há campeonatos muito competitivos. Dizem que os melhores são o sul-coreano e o japonês.

Ainda vais regressar à Tailândia?
Não. Assinei um contrato de um ano, eles queriam renovar, mas não chegámos a acordo. Terminou agora, dia 31 [de dezembro]. Tenho outros clubes tailandeses interessados, vários na MLS [Major League Soccer, dos EUA], na Turquia, no Qatar, no Dubai. Estamos a ver.

Não estás com saudades de jogar mais neste lado do mundo?
Estar na Europa é sempre melhor. Estou mais perto da família e de poder estar com as pessoas de quem gosto. Mas a condição financeira que nos proporcionam noutro lado faz-nos ir para esses países. Nunca se sabe, mas, como é óbvio, gostaria de estar mais perto.

De onde gostaste mais de estar: nos EUA ou na Tailândia?
EUA, é fantástico. A cultura identifica-se mais com aquilo a que estou habituado. A forma de ver a vida é diferente. Vais trabalhar e só aí é que as pessoas te pedem autógrafos e tal. Fora dali és uma pessoa normal, levas a tua vida de forma tranquila. A pessoa tem liberdade. Antes de um dia de jogo, por exemplo, podes ir jantar fora, a liga até dá dinheiro para os jogadores irem comer fora. Voltas às 23h e no dia a seguir tens jogo. Depois do jogo, os jogadores estão livres. É outra forma de ver o desporto, não é tão regrada, não há aquilo de não poder sair e ter de ficar fechado. Depois o futebol é aberto, não é fechado ou muito tática. Lá tem de haver golos e espetáculo, as pessoas vão ao estádio para isso, para verem um show. Gosto disso.

E a comida era normal.
Sim, e tive a sorte de estar no estado, a Califórnia, onde o clima era fantástico. Tinha sol o ano inteiro, só choveu umas três ou quatro vezes. Impecável.

Não gostavas de voltar a jogar agora em Portugal?
Para já, não. Um dia, quem sabe.

Foste vendo os jogos de cá?
Sim, tinha um programa no computador em que conseguia ter os canais todos de Portugal.

E como estão as coisas para ti?
Vejo uma equipa completamente afinada, uma máquina, o Benfica, que está a fluir. É um grupo a jogar ali, todos a remarem para o mesmo lado, bem formado e bem orientado. E vejo um Sporting com melhores nomes e individualidades mais fortes, mas que, em grupo, não funciona tão bem. Como o FC Porto. Não têm consistência.

Conhecendo o Jorge Jesus, não achas isso estranho?
No primeiro ano notou-se mais a diferença do mister Jorge Jesus. Pegou na equipa e viu-se que ficou com mais ritmo de jogo e agressividade. Neste segundo ano não se está a ver continuidade na evolução da equipa, parece que parou. Se puxarmos a cassete um pouco atrás, podemo-nos lembrar que o Jesus ficou três anos sem ser campeão no Benfica. Depois, a máquina entrou ali em piloto automático, aquilo embalou e nunca mais parou até hoje. As coisas levam o seu tempo e se calhar ele precisa de mais, mas sabemos que é um excelente treinador. Só que, pronto, no futebol não há tempo para ninguém, ou é, ou não é. As coisas terão de entrar nos eixos.

GLYN KIRK

Se ele agora te telefonasse agora a dizer que te queria lá?
O futebol é assim. O Busquets jogava na equipa B do Barcelona com o Guardiola, quando ele subiu à equipa principal, levou o Busquets, e hoje é o melhor do mundo. Isto para dizer que, se isso acontecesse, via-o com normalidade. As coisas funcionam assim no futebol. Hoje não contamos, amanhã já contamos. Se fosse bom para mim e para ele, não via problema nenhum.

Estás a par das confusões com a arbitragem, que voltaram à baila?
Não tenho acompanhado muito. O que acho é que, se em 90 minutos, um clube for superior e fizer golos limpos, ninguém vai ter onde pegar. Mesmo que o árbitro queira prejudicar, não vai conseguir. Mas nunca acho que um árbitro queira prejudicar ou o faça deliberadamente. Nós, os jogadores, fartamo-nos de errar durante o jogo. É normal que o árbitro vá errar aqui e acolá. É um ser humano, não é nenhuma máquina. Há que dar tolerância aos árbitros para que eles possam evoluir e fazer o seu trabalho. Os clubes têm é de fazer o seu trabalho durante os 90 minutos.

Mas, no jogo, o normal é toda a gente reagir a quente quando eles erram.
Exatamente, e isso tudo acaba por condicionar os árbitros, que já vão com uma pressão tremenda para os próximos jogos. Os erros vão acontecer mais facilmente. Um jogador, sob pressão, também não toma as melhores decisões. Deve-se proteger mais o árbitros.

Na Tailândia, havia jogadores, treinadores e dirigentes a falarem com, e sobre os árbitros?
Eles não falavam, mas os árbitros eram muito maaaaus [solta uma gargalhada]. Muito maus, muito maus.

Quando querias falar com um árbitro a meio do jogo, como era?
Tinha de ser em inglês. Mas apanhei árbitros bons, também, de quem gostava.

E falar tailandês?
Não aprendi asneiras nem coisas más, vá lá. Aprendi a cumprimentar, a despedir-me, a agradecer, essas coisas. Estava numa cidade no interior, a uma hora e meia de Banquecoque, um sítio bom e tranquilo para se jogar. Quando se queria estar num ambiente europeu, com mais turistas, ia-se à capital.