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Naide: “Disse à minha mãe: estás a ver aquela atleta? Um dia hei de ser como ela. Ela respondeu: vai para a cama que o teu mal é sono”

A recordista nacional do salto em altura, do pentatlo e heptatlo e do salto em comprimento optou há dois anos por se dedicar à família e ao seu novo trabalho como fisioterapeuta, no Sporting. Aos 37 anos, está encantada com a maternidade, confessa que ficou de boca aberta com a saída de Nelson Évora do Benfica e admite gostar do estilo de Bruno de Carvalho

Alexandra Simões de Abreu

Jose Carlos Carvalho

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Naide Gomes ganhou 11 medalhas e deixou as pistas, há dois anos, como co-recordista nacional do salto em altura, como recordista do pentatlo e heptatlo, para além do salto em comprimento. Agora fisioterapeuta no Sporting, a ex-campeã do mundo de salto em comprimento em pista coberta conta como a mãe e o treinador a impediram desistir da alta competição em 2008.

Em março faz dois anos que deixou de ser atleta de alta competição. O que mudou nestes dois anos na sua vida?
Não ter o compromisso com o treino diário nem os objetivos das competições é uma grande mudança. Obviamente tenho outros objetivos e compromissos, ser uma fisioterapeuta melhor, uma mãe melhor, uma esposa melhor. Dediquei-me mais à vida familiar.

Quando anunciou o final da carreira já tinha garantido trabalho como fisioterapeuta no Sporting?
Já estava a trabalhar no Sporting. Terminei o curso em 2014 e comecei a trabalhar na pista, a fazer algumas horas com alguns atletas, especialmente os mais jovens. Depois abriu o projeto olímpico e integrei esse projeto, que já tem ano.

Pretende prosseguir estudos, para mestrado ou doutoramento?
Não, mas faço cursos de formação porque é uma área que está sempre a desenvolver e temos de estar atualizados. Por isso estou sempre a estudar. Tirei também o curso de treinadora mas falta concluir com um estágio. Já só tenho mais um ano para o fazer.

Ser treinadora é um objetivo?
É. Mas não é prioritário. É algo que gostaria de fazer porque dava-me muito prazer poder transmitir o que aprendi como atleta. Acho que seria uma mais valia para a disciplina e para a modalidade.

Qual seria o seu primeiro ensinamento?
Que nada é fácil. Temos de trabalhar muito para alcançar algo. Quando era miúda queria muito ser campeã do mundo, mas vi logo que não era fácil. Tive que trabalhar muito, muito mesmo. Por isso, o que digo aos jovens é: “Tens objetivos? Ok. És bom, Ok. Mas não basta, temos de trabalhar muito para alcançar o que queremos”. Por outro lado, um bom atleta tem de saber lidar não só com os momentos bons, mas sobretudo com os maus e saber superar. E isso eu fiz.

Qual foi o pior mau momento da sua carreira?
Os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim.

Falhou a qualificação para a final. Já sabe o que aconteceu?
Aconteceu o que tinha de acontecer, foi um infortúnio. Tudo na vida tem um porquê. E aquilo teve uma causa e um porquê. Não sei o porquê, mas certamente que aquilo não era para ser meu. Passei à frente. Hoje já não perco o meu sono com isso. Já perdi na fase inicial.

Mas sente que foi algo mais psicológico, devido à pressão do momento, do que físico?
Eu já estava habituada à pressão, era líder mundial, era a melhor do mundo naquela altura. Só que eu estava lesionada, tinha uma fratura de stress no calcanhar e no quinto meta, no mesmo pé. Durante a minha estadia na China não consegui treinar, estive quase três semanas sem treinar, só fazia manutenção porque não conseguia correr. Tinha de tomar comprimidos para induzir o sistema nervoso central, tinha que fazer tratamento antes do treino, depois do treino, à noite. Andava sob pressão, só pensava 'será que consigo ir ao apuramento ou não'? Lidar com isto foi muito cansativo física e psicologicamente, não saber se conseguia competir. E não consegui treinar a 100% sabendo que estava nos JO. O meu treinador, o professor Abreu Matos, foi muito inteligente porque conseguiu gerir a minha forma física com a certeza de que na eliminatória o médico me daria um analgésico potente que me aliviava a dor. Foi o que aconteceu. No apuramento foi-me dado um analgésico, deixei de sentir a dor. Nos JO os níveis de adrenalina são só por si superiores, eu chego lá e dou por mim sem dores, em boa forma fisica, pronta para saltar… Fiz um aquecimento fantástico, onde saltei acima da marca de qualificação (6,75m) e o meu treinador disse: “Ok, está ótimo, não mexe mais”. Quando comecei a corrida, fiz o primeiro nulo. Acontece, nada de extraordinário. Puxámos a corrida para trás. Voltei a fazer o mesmo nulo, o que é um bocado esquisito porque fui mais lenta. Não sei o que aconteceu. Mas aí o nervosismo começou a vir ao de cima porque já só tinha mais uma oportunidade. E à terceira, acho que exagerámos e puxámos muito o pé para trás, porque tive de parar a corrida e tentar ajeitar para conseguir saltar com o pé de chamada que supostamente é o meu. Obviamente não consegui saltar como deve ser. Fiz 6,29m. Não dava, de todo, para a eliminatória. Aconteceu, como acontece com grandes desportistas. Infelizmente aconteceu comigo.

Custou-lhe muito.
Se custou. Não só a mim, como às pessoas que me apoiavam. O meu treinador tinha o sonho de ganharmos uma medalha olímpica. Tinha tudo para ganhar aquela prova, mas não era o meu momento. A medalha não era para ser minha.

Lembra-se das primeira palavras do treinador?
“O que é que aconteceu”? E desatamos os dois a chorar abraçados um ao outro. Não sei o que aconteceu, ainda por cima a minha irmã e o meu marido [namorado na altura], tinham acabado de aterrar em Pequim porque iam para assistir à minha final. Quando chegaram e deram a notícia de que eu não tinha passado, ficaram incrédulos. É que nunca me tinha acontecido, eu sempre passei às finais, foi muito estranho. Não estava nervosa para tal acontecer. Mas aconteceu.

Como olha para a forma como os portugueses reagiram?
Foram ótimos. Não me criticaram, acho que fui muito bem tratada tanto pelos media como pela população. Eu própria massacrei-me mais do que as pessoas. Fui muito bem acolhida. E agradeço por isso, porque foi uma fase muito complicada. Até porque tinha assumido compromissos após os JO, outros meetings e a Taça do Mundo. Tinha que ir, mas não estava em condições, porque simplesmente não me apetecia. Para mim tinha acabado ali.

Pensou em desistir da carreira nessa altura?
Pensei. Pensei: “Acabou. O meu sonho acabou”. Porque treinei tanto, sacrifiquei tanto para chegar aqui e acontecer-me isto. Pensei mesmo em desistir.

O que travou esse ímpeto?
Lembro-me de ter falado com a minha mãe, que, coitada, deve ter chorado bastante, e ela teve a calma suficiente para me acalmar. Ao telefone, do outro lado do mundo, ela disse-me: “Filha, acontece, eu sei que é chato, é triste, é o teu sonho, mas ninguém morreu, tu não tiveste nenhum acidente grave, não estás paraplégica, não tens cancro, tens pessoas à tua volta a quem aconteceu isso”. E, realmente, estava ali a queixar-me e graças a Deus tenho duas pernas, estou viva, tenho saúde, posso continuar a treinar e voltar a trabalhar. A oportunidade não vai voltar a ser a mesma, mas vamos em frente, a vida continua. Obviamente que o meu treinador também teve um papel muito importante. Disse-me: “Menina, aconteceu, acontece, mas temos de seguir em frente. Tu és grande, vamos continuar a trabalhar porque ainda tens muitos anos pela frente”. Passadas três ou quatro semanas dos JO fui a um meeting onde ganhei à campeã e à vice-campeã olímpicas, ganhei a toda a gente. No final do meeting fui ter com o meu treinador, ele deu-me um abraço, voltámos a chorar e ele disse-me: “Estás a ver, tu és a melhor, infelizmente naquele dia não foste, acontece”.

Apontou logo para os JO de Londres?
Sim. Percebi que tinha hipótese de chegar aos JO de 2012 e claro que em Londres era o tudo ou nada. Vamos trabalhar para Londres. Pelo meio fui vice-campeã da Europa, fui campeã da Europa, não baixei os braços, continuei a minha luta. Consegui recuperar psicologicamente, sozinha, sem ajuda de psicólogo, voltei à ribalta, às medalhas, e no entanto no ano dos JO, em 2012, veio a lesão outra vez.

Outra frustração.
Outra frustração. Dois meses antes dos JO rompo o tendão de Aquiles total e, aí sim, percebi que o sonho tinha terminado. Porque por mais que eu quisesse, vi que um problema no tendão de Aquiles numa saltadora… Era complicado voltar ao nível a que estava habituada. Mesmo assim, depois ainda acreditei.

Foi operada...
Tive seis meses muito duros de recuperação. Lutei com todas as minha forças, recomecei a treinar novamente, mas as dores não terminavam. Consegui voltar às competições, mas os resultados eram muito fracos, as dores eram constantes. Eu chorava em cada competição em que fazia 6,20m, 6,09m. Não pode ser, não é para mim. Estava a duvidar das minhas capacidades. Mas eu tinha uma dor. E resolvi voltar a falar com o médico porque não aguentava as dores. Fui operada outra vez, limparam-me a calcificação que tinha. Foram mais três meses de recuperação e as dores não terminavam. Cada treino era um massacre, não conseguia ser feliz naquilo que estava a fazer e comecei a desacreditar que era possível ficar melhor. Até que, via Facebook, chegou até mim o nome de um médico espanhol especialista do pé. Falei com ele, enviei-lhe a ressonância magnética e ele disse que eu tinha o síndrome de Haglund, ou seja, uma deformação do calcâneo que estava a pressionar o tendão. Sem avisar ninguém, paguei do meu bolso e fui até Espanha para ser avaliada por ele. Marcámos nova cirurgia.

Foi operada lá?
Sim. Ele foi incansável e disse-me que tinha de fazer o Indiba, um método de tratamento que na altura não se usava muito em Portugal. E comecei a fazer o tratamento cá, a tecaterapia, até que comecei a melhorar. Comecei a ganhar confiança outra vez, a saltar bem, comecei a ver a luz no fim do túnel… No entanto, surge-me outro problema, no joelho. Uma osteofite que me impedia de correr e obrigava a ser operada novamente. Aí eu disse: “Já chega. Mais uma operação em quatro anos seguidos. Não.” Entretanto fui para Angola de férias, fui ter com o meu marido, e vim de lá grávida. E pronto, foi o empurrão final para terminar a carreira.

Estar grávida do Mateus suavizou a decisão?
Muito, mas o que me deu mais força foi ter que voltar à faca outra vez. E depois o médico disse que não podia treinar mais a 100% só a 70%. Impossível. Sempre treinei a 200%. Eu não quero simplesmente participar nos mundiais e europeus, quero ser campeã, ser finalista não me chega. Ser campeã nacional também não me chega. E isso tudo pesou.

Naide Gomes no seu trabalho como fisioterapeuta

Naide Gomes no seu trabalho como fisioterapeuta

Jose Carlos Carvalho

O dia-a-dia mudou radicalmente. Como era a rotina antes e agora?
Praticamente vivia para o treino. Levantava-me por volta das 8h, fazia fisioterapia, treinava, fazia fisioterapia outra vez, ia para casa, almoçava, descansava um bocadinho, voltava a treinar, a fazer fisioterapia, às vezes ia à faculdade, estudava, depois tive o estágio na faculdade. Vivia só para aquilo. Hoje, acordo às 7h30, trato do Mateus, tomo o pequeno-almoço com o meu marido, vou trabalhar para o Sporting, saio à uma, vou para casa e fico com o meu filho. Às vezes por volta das 19h vou treinar com o meu marido e a minha mãe fica com o Mateus.

Como é um treino seu hoje?
Depende. Às vezes vou correr 5km na Marginal, outras vezes faço corrida ou treino de escadas na pista e outras vezes vou ao ginásio de cross fit do meu cunhado e faço o treino que eles fazem.

O tendão e o joelho nunca mais se ressentiram?
O joelho dói, tenho mesmo que ser operada, mas enquanto andar e correr [risos].

Quantos atletas trata enquanto fisioterapeuta?
Depende. Da parte da manhã tenho cinco ou seis atletas. Um de judo, de trampolim e de atletismo.

Vai muitas vezes à pista ver os atletas?
Evito. Como fisioterapeuta do Sporting tenho de ir à pista, mas evito porque ainda não fiz o luto a 100%. Sinceramente ainda me custa imenso ver os outros atletas a treinar e eu não estar lá com eles, a treinar. E a competir também.

Sente falta da adrenalina da alta competição?
Sinto.

Como compensa isso?
Neste momento ainda não escolhi nenhum desporto para substituir porque o Mateus dá-me trabalho suficiente. Ele é a minha adrenalina, sem dúvida, porque é um bebé super ativo. Tenho muitas coisas para fazer, estudar, trabalhar, cuidar dele, estou ocupada e enquanto assim for, tudo tranquilo. Depois logo vejo. O cross fit está a ser estimulante porque competimos entre nós. E já fiz a minha primeira competição de cross fit, entre amigos, fiquei em 3º, o que é fantástico para quem não treina, porque aquilo é das 9h até às 18h sempre a bombar. Depois fiquei três dias com dores musculares, mal conseguia andar [risos].

Não se vê a fazer competições de atletismo para veteranos?
Não, não tem piada. Quem já saltou os 7m e já esteve lá em cima, não está para isso. Pelo menos eu não estou para isso.

Gostava de ser treinadora de salto em comprimento?
Ou de outras modalidades. Fiz todas, fiz provas combinadas. Posso ensinar muito bem a lançar peso, a lançar dardo, sei ensinar a saltar barreiras, sei velocidade, sei ensinar isso tudo.

Acha que se tivesse começado a saltar em comprimento mais cedo, não teria tido tantas lesões?
Já pensei nisso. Não sei se a nível de resultados seria diferente, ao nível de lesões se calhar tinha menos porque as provas combinadas são muito duras, treinava muito, muito forte, são sete disciplinas, não era fácil. Mas acho que também resultou assim. Tive fantásticos resultados, no tempo certo, por isso foi uma boa decisão.

Dava-se melhor na pista coberta do que ao ar livre. Descobriu porquê?
Costumo dizer que sou a rainha da pista coberta. Ganhei tudo [risos]. Não sei porquê. No ar livre também tive bons resultados. Só que tinha mais azar. Nos campeonatos do mundo perdi uma medalha por 1cm. Fui vice-campeã em ar livre duas vezes.

Tinha algum tipo de rotina e/ou amuleto em competição?
Pintava as unhas de vermelho, tinha a minha santa, Nª Srª Fátima, que beijava, falava com ela e ouvia música à frente do espelho e falava comigo como se do outro lado estivesse uma adversária: “Vou-te ganhar, sou melhor que tu, não me escapas, o titulo é meu” [risos].

E na pista recreava isso? Intimidava as outras atletas?
Não. Na pista falava comigo própria. Nunca intimidei nem fui intimidava. Porque a minha principal adversária sou eu própria. Se no treino consegui passar os obstáculos todos que passei, na prova também vai ter que ser assim, ou seja, ser melhor que eu própria.

Que música ouvia?
Variada. Mas a que ouvia mais era o “Simply the Best”, da Tina Turner. Ouvia nos treinos, em competição. Ainda hoje oiço. Quando estava grávida, quando ia fazer a minha caminhada ou corrida punha a música muitas vezes e dizia: “Filho, estás a ouvir esta é a música da mãe, sente lá a vibração”. [risos]

A sua retirada deixou um vazio muito grande na modalidade. Já tem sucessora?
Temos algumas atletas que têm talento, que podem fazer bons resultados, e têm feito. Mas não sei até que ponto é que elas podem chegar ao nível que eu cheguei. E não estou a falar só de marcas. Gostaria que alguém se destacasse.

José Carlos Carvalho

Está a falar de quem em concreto, da Teresa Carvalho?
A Teresa é muito boa, temos agora a Denise, de Leiria, que começou a época com 6,20m. Temos a Shaina Mags, do Sporting. Mas não sei até que ponto elas vão chegar. Também não sou eu que tenho de avaliar isso. Não posso compará-las comigo. Às vezes trato da Shaina e nas nossas conversas, digo-lhe: “Não gostes de ser comparada. Nunca gostei de ser comparada com ninguém e vocês também não queiram, nem queiram ser igual a mim. Naide Gomes só vai existir uma. Ponto final.” Pode existir uma melhor que a Naide, uma fora de série, excelente, mas igual a mim, não. Detesto ser comparada. Mas espero, a bem do desporto, que haja jovens com talento que consigam evoluir com o tempo e que não apareçam só agora e depois estagnam.

O facto de não ter ainda sucessora tem mais a ver com a matéria-prima ou com as condições de treino e falta de apoio?
A matéria-prima é boa e hoje em dia não se podem queixar de falta de condições de treino. No meu tempo eu queixava-me, mas acho que me fez bem. Como dizia o professor Moniz Pereira, reforçava o caráter. Acho que é isso que hoje em dia os miúdos precisam, reforçar o caráter. São muito levados em mãos, têm muitos apoios. Apoios são importantes, apoios de treino, temos de ter condições de treino, mas há coisas que eu vejo… Acho que os miúdos têm que se esforçar mais, têm que valorizar mais o que têm. E não vejo isso a acontecer. Para mim foi muito importante, valorizava muito cada conquista.

Da forma como fala parece que o atletismo está condenado.
Não. Não está condenado, já há muitos atletas jovens com talento, que têm boa educação e têm bons treinadores que os orientam bem, mas…

Falta-lhes o quê, garra?
Talvez. Alguns até têm garra, mas… é o que digo, não posso compará-los comigo ou com o Nelson Évora, que para mim é um atleta fora do normal, que tenho o prazer de ter conhecido. Como ele não sei se vai existir igual, certamente que não, cá em Portugal.

Porquê?
Porque não se vê. O Nelson apareceu e quando se vê um talento como ele, percebe-se que é um fora de série. Por exemplo, a irmã da Teresa Carvalho, a Marisa Carvalho, para mim é uma fora de série. Acho que se for bem encaminhada….

Gostava de a treinar?
Não queria ter essa responsabilidade porque ela já é muito boa. Ela está muito bem entregue, mas pode ser um talento. Mesmo a Teresa também, tem é que trabalhar, porque o talento trabalha-se. Foi o que eu fiz desde os 13 anos e só consegui medalhas aos 22 anos, leva anos.

A propósito de Nelson Évora, como viu este mercado de verão, da trocas de atletas entre o Benfica e Sporting?
Fiquei de boca aberta.

Com o quê em concreto?
Com a saída do Nelson do Benfica para o Sporting. Não esperava. Mas o Nelson é que sabe da vida dele. Sendo o atleta que é sabe perfeitamente o que faz.

Acha que o Benfica tem melhores condições que o Sporting ao nível de atletismo?
Não sei. Sinceramente não sei. Não posso falar sobre o que aconteceu porque o Nelson deve ter muito boas razões para o ter feito. E ele que seja feliz, acho que é o mais importante.

Nunca foi tentada ou fizeram convites para sair do Sporting?
Não. E nem eu sairia.

Porquê?
Dependendo da fase da minha carreira obviamente. Se tivesse no 1º ou 2ª ano e se tivesse recebido um convite extraordinário de um outro clube, ok. Mas tenho um nome, estou no Sporting há muitos anos, fui criada aqui no Sporting, a atleta que fui dou graças também ao Sporting, tenho uma história no clube. Toda a gente sabe que a Naide Gomes é sportinguista e que é uma atleta do clube e eu não queria perder essa história, quero manter no Sporting a minha história.

Já falou com o Nelson sobre a saída dele?
Não, nem vou falar. Acho que se ele tomou essa decisão é porque tem uma razão muito forte, certamente. Ele é um rapaz sensato.

A saída do Rui Silva também a chocou?
Também. Muito. São atletas que não esperamos que saiam. Mas só eles sabem o motivo. E só quero que sejam felizes onde estiverem.

Se agora lhe fizessem uma proposta melhor enquanto fisioterapeuta, não saia do Sporting?
Ser fisioterapeuta é diferente, é um trabalho. Como atleta, tenho um clube, durante a minha carreira nunca pensei sequer em sair do Sporting. Também nunca tive uma proposta milionária. Uma proposta milionária no atletismo não existe [risos]. Mas nunca se pode dizer nunca.

Que opinião tem do presidente Bruno de Carvalho? Gosta do estilo?
Gosto, gosto muito. Vão dizer que estou a dizer isto porque estou no Sporting, mas não. Sinceramente gosto dele porque é uma pessoa muito disponível, muito acessível. Tenho muitos anos da casa e posso dizer que em relação aos outros presidentes com que fui lidando ele é muito mais aberto, moderno. Estamos num jantar e ele fala connosco, brinca connosco, não tem aquele distanciamento que os outros tinham. E está a fazer alguma coisa pelas modalidades do Sporting. Vê-se a mudança. Quer investir no desporto em geral, não só no futebol.

Sente falta da exposição mediática que a alta competição lhe dava?
Não. Gosto de estar mais tranquila.

Continuam a reconhecê-la na rua?
Sim, ainda hoje fui ao supermercado e um senhor dirigiu-se a mim: “Peço desculpa por estar a incomodá-la mas quero agradecer-lhe por tudo o que fez por Portugal”. É isto que gosto de ouvir e que me deixa feliz. Mas há muitos jovens que já não sabem quem eu sou.

Isso deixa-a triste?
Não. Obviamente que uma pessoa gosta de ser reconhecida por aquilo que faz mas também houve tempos que só queria que me deixassem em paz porque entrava numa loja e toda a gente virava a cabeça para olhar para mim.

Continua a considerar a Fernanda Ribeiro a melhor atleta de sempre?
Para mim é. Ela ganhou tudo.

Entretanto desapareceu de cena…
Ou a federação não trabalhou para promover a atleta ou a atleta também não quis ser promovida. Não sei. Espero que as pessoas não se esqueçam daquilo que fez por Portugal. Para mim foi a atleta que me inspirou. Lembro-me de estar deitada no sofá a ver os JO de Atlanta’96 e ver a Fernanda Ribeiro a ganhar, às 4 da manhã. Disse à minha mãe: “Estás a ver aquela atleta? Um dia hei de ser como ela e hei de ganhar”. A minha mãe respondeu: “Está bem filha, mas vais ter de trabalhar muito. Vai para a cama que o teu mal é sono”. Lembro-me disso perfeitamente, tinha 16 anos. Arrepiou-me. E depois mais tarde em Sidney ter visto, ao vivo, ela ganhar a medalha de bronze…é inspirador. Saí de lá com a sensação de que conseguia chegar lá.

Teve a sorte de conviver com o professor Moniz Pereira. Qual a maior recordação que guarda dele?
O saudoso professor Moniz Pereira… Tenho muito boas recordações, mas gosto muito das histórias que ele contava antes de competirmos. Ele tinha sempre uma história, era impressionante. Uma das que me lembro, porque fartei-me de rir, ele contava na pista. Um jovem atleta chegou um dia ao pé dele e disse-lhe que achava que podia ser atleta e por isso queria fazer um teste. O professor pediu-lhe então para ele correr à volta da pista. O atleta começou a correr e passado um bocado numa das vezes que passa por ele, o professor pergunta:

- Cansado?

- Não, solteiro.

- Não é casado, é cansado?

[risos] Outra coisa que ele costumava dizer era: “Se partirem uma perna vão com a outra, se partirem as duas vão a rastejar, o importante é chegar à meta”. E eu interiorizei isso.

Jose Carlos Carvalho

O número 7 é especial para si.
É o meu número.

Porquê?
Sempre gostei do 7, desde miúda, por causa do Luis Figo, que era o número 7. Adorava o Figo, tinha posters do Figo no meu quarto. E adorava o Sporting, chorava quando o Sporting perdia. Era a única sportinguista na família, gozavam comigo e eu chorava.

Como é que descobre ou decide que é do Sporting?
Em S. Tomé e Príncipe não sabia o que era futebol, não viamos televisão sequer. Quando cheguei a Portugal e fui estudar para o 6º ano, os meus colegas falavam todos do Sporting e do Benfica. E eu perguntei a um amigo meu, acho que se chamava Frederico, o que era e ele disse que eram clubes. Como esse meu amigo era sportinguista eu disse-lhe: “está bem, vou ser do Sporting”. Foi assim. Tinha 13 anos. E passei a delirar com o futebol e com aquela geração do Figo, Sá Pinto, etc. Depois cheguei a conhecer o Figo pessoalmente pertenci à Fundação dele. Mas tarde eu queria chegar aos 7 metros no salto em comprimento. Sempre sonhei com essa marca. Em todos os treinos eu punha uma marca de areia em cima dos 7m e sempre que saltava tentava ir buscar aquela marca. Um dia, num treino, consegui. Ficamos eufóricos. Quando consegui alcançar pela primeira vez a marca em competição foi no dia 22 do mês sete de 2007.

E também se casa em julho.
A 23 de julho de 2016, porque o Pedro, meu marido, faz anos a 22 de julho!

O nome do seu filho também tem um significado e foi a Naide que escolheu.
Sim, o meu marido estava inclinado para Miguel, inicialmente também estava inclinada para Miguel ou Mateus, mas preferi Mateus porque segundo o significado dos nomes, é “um presente de Deus”, é um nome bíblico e ele tem o número 7 no seu mapa astral. Convenci o meu marido.

Ainda tem o sonho de ter uma clínica própria de fisioterapia e uma escola de atletismo em S. Tomé e Principe?
Sim, gostava muito de fazer alguma coisa pelo meu país de origem porque acho que há lá muito talento mas não há condições. Estive lá há três meses e continua a ser a mesma coisa, não têm uma pista, não têm grandes materiais. É triste. Gostava de fazer algo em prol do país onde nasci.

Já inicou contactos nesse sentido?
Não porque eu não conheço nada e tenho pouca gente lá. Tenho a minha avó. E fomos lá de propósito vê-la, está com 91 anos . Fui com a minha mãe, marido e sogros, ela conheceu o bisneto, o Mateus. Foi muito giro e deu para matar saudades.

Mas é reconhecida lá.
Sou, mas eles não me abrem muito os braços. Acho que ainda estão zangados por ter escolhido Portugal para representar. Sinto que há esta mágoa, durante a minha carreira eles podiam ter aproveitado mais a minha imagem, eu nunca fechei as portas, sempre falei em S. Tomé. Podiam ter aproveitado mais a minha imagem para promoção do desporto por exemplo, mas nunca entraram em contacto para esse efeito, infelizmente. Mas estou disponível se quiserem que faça alguma coisa.

Quer ter mais filhos?
Quero e já não posso esperar muito porque já tenho 37 anos. Gostava de ter uma menina. Gostava de ficar com um casal. Quero que o Mateus tenha um irmão ou irmã. Porque eu tenho uma irmã e não vejo a minha vida sem ela, é a minha melhor amiga, ela é tudo para mim.

Quem escolherá o nome?
O meu marido [risos]. Já está combinado. Estou para ver o que vem dali.

Vê algum talento desportivo no Mateus?
Vejo. Ele já salta a pé juntos, joga a bola, corre muito rápido. Corre mesmo rápido para a idade que tem. Começou a andar aos 9/10 meses. Começou a correr muito cedo, já fala, sobe escadas, desce escadas e só tem 15 meses. É um bebé muito precoce.

Gostava que ele fosse atleta profissional?
Gostava. Seja do que for. Ele tem de passar pelo atletismo porque é a base de todos os desportos, mas preferia que seguisse outra modalidade porque o retorno no atletismo não é compensador.

Não?
Não. Mesmo que seja muito bom não é recompensador a nível financeiro. E mesmo a nível de visibilidade e de patrocínios, cá, não é. Eu vi por mim. Só em países como os EUA, Espanha e Inglaterra é que os atletas são idolatrados. Cá aproveita-se pouco a imagem dos atletas.

Por culpa de quem?
É cultural. A nossa cultura é mais futebolística. Enquanto isso não mudar…

Mas acha que podia ser feito outro trabalho a nível de federação e governo?
Sim, mas vai demorar anos e anos mudar a mentalidade das pessoas.

E tem de começar onde?
Dentro dos clubes, das federações e obviamente passa pelo governo. Mas sobretudo as nossas federações têm de trabalhar um pouco mais a promoção das modalidades. Embora eu sei que seja muito difícil porque muitas vezes organizam provas cá e mesmo cobrando apenas um euro, as pessoas não vão.

Ser dirigente não a estimula?
Não tenho perfil para isso. Não ia tolerar muitas coisas e se calhar ia bater em toda a gente [risos].

Tem mau feitio?
Não. Só um bocadinho.

O que é que a tira do sério?
A mentira. Acho que nunca menti na vida. Mentir, mentir, não estou a falar daquelas mentirinhas pequeninas. Mentir olhos nos olhos não consigo.