Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Luís Filipe, sobre JJ: “Como se costuma dizer, burro velho não aprende línguas”

O Marítimo joga este sábado (18h15, Sport TV1) com o Sporting e lembrámo-nos de quem, há 12 anos, esteve na maior vitória de sempre dos madeirenses frente aos leões. Luís Filipe diz que não é fácil jogar na Madeira, “por causa da humidade”, como também não o é ser treinado por Jorge Jesus: “A própria forma dele trabalhar, que é intensa, acaba por saturar. Porque os campeonatos são longos e esta exigência dele, sempre, faz com que os jogadores fiquem fatigados psicologicamente”. Hoje, com 37 anos, dedica-se a uma quinta de framboesas no Algarve

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

Partilhar

Recorda-se de um 3-0 do Marítimo ao Sporting, em 2005?
Lembro-me vagamente, sim. Lembro-me do resultado. Agora, se me perguntar mais pormenores do jogo, não me recordo, sinceramente.

Nem de com quem jogava na altura?
Disso recordo-me, perfeitamente. Estive só um ano no Marítimo e tínhamos uma boa equipa, isso era uma verdade. O Silas, o Chainho, o Tonel, o Van der Gaag, o Alan, o Manduca… A equipa era muito boa. Depois tínhamos um ou outro madeirense. O Eusébio, que era lateral esquerdo, o Zeca, que era o capitão. O próprio Briguel. Tìnhamos jogadores já experimentados, a equipa era boa, sim senhor. O Pena não era o nosso avançado?

Era sim, ele até marca nesse jogo contra o Sporting.
Pois, olhando para os jogadores, a realidade é que a gente tinha uma equipa bem jeitosa.

Os madeirenses, de quem falou, transmitiam mística?
Sim, alguma. Mas, ao fim ao cabo, não eram só eles, mas também o pessoal que já lá estava há algum tempo. O Mitchell Van der Gaag era um dos capitães, apesar de ser estrangeiro, e também passava essa mística. Sobretudo quando estávamos no nosso estádio, onde era sempre muito difícil de jogar. E não era só por causa do estádio. Nos primeiros dias em que estive lá, lembro-me perfeitamente que, a treinar, dava uma corrida e parecia que já tinha feito 10 quilómetros.

Porquê? Altitude?
Talvez, e também pela humidade. Mas pronto, nem sempre é assim. E claro que as equipas que lá vão acabam por sentir um bocado essa dificuldade.

Acha que as equipas que lá vão jogar pensam nisso?
Ó, estamos a falar de uma coisa que se nota, sim, mas à qual o nosso organismo, ao fim de 10 ou 15 minutos, rapidamente se adapta. Com um bom e forte aquecimento, o corpo adapta-se aquele ambiente. Não é como se estivéssemos a jogar em altitudes enormes. Há uma pequena diferença, mas à qual uma pessoa se adapta rapidamente. Agora, se não se preparar, pode, logo de início, sofrer um revés. Depois fica difícil. Mas, hoje em dia, muitos dos clubes já vão no dia anterior e fazem um treininho de adaptação. Já pensam um bocado nisso porque sabem que há ali qualquer coisa diferente. Não muito, mas que pode ter alguma influência.

Ainda por cima num estádio que enche quando lá vão os grandes e levou obras.
Sim, então agora, com as condições melhores, a tendência é para que as pessoas vão mais ao estádio. Claro que perdeu aquela beleza que tinha, quando víamos o mar enquanto estávamos a jogar, mas pronto, ficou um estádio muito mais capaz. É um clube que as pessoas apoiam bastante.

Rebobinando muito a cassete, como é que o Luís Filipe vai da Académica para o Atlético de Madrid?
Aconteceu como acontece hoje em dia. Na altura, já jogava nas seleções. Foi na época a seguir ao Mundial de sub-20, ainda fiz meia temporada como sénior na Académica. Ainda antes do Mundial, já havia interesse por parte do Atlético, que surgiu por causa de um torneio de sub-20 que houve em Las Palmas, nas Canárias, acho eu, onde fui visto pelos responsáveis do Atlético. A partir desse momento, as coisas seguiram o percurso normal de um processo de negociações.

Eles achavam que estava ali o novo Futre?
Não não sei o que eles acharam, não faço a mínima ideia. Mas pronto, é óbvio que, apesar de ser pé direito, jogava numa posição idêntica à do Paulo Futre. Mas ainda estava longe de se poder dizer o que seja. Tinha 19 ou 20 anos, estava muita coisa a acontecer, e antigamente era tudo bem mais difícil.

Na altura não ia muita gente jogar para fora com essa idade.
Exatamente. Hoje em dia é muito mais normal. Na altura, não era fácil um estrangeiro ser aceite no clube que o recebe. Tinha que ter já um certo andamento e estatuto para se poder aguentar. Eu acabei por não resultar também, em parte, por causa disso.

Foi sozinho para Madrid?
Sim, sem nada. Os meus pais tinham a vida deles e não podiam deixar o trabalho por causa disso. Acabou também por fazer mossa. Foi um dos segredos de as coisas não terem resultado, o facto de estar um pouco sozinho e de não estar habituado a isso. Depois, quer queiramos, quer não, não é fácil ser aceite num clube em que a maioria dos jogadores são espanhóis. Hoje em dia já é mais aceitável, mas não é fácil. Fui posto um bocado de parte, até mesmo pelos colegas. Isso acaba por custar. Hoje em dia há televisão e internet, consegues ver qualquer coisa que seja portuguesa, antigamente não. Era complicado. Mas pronto, faz parte da aprendizagem e acaba por ser positivo, porque crescemos com as dificuldades que temos. Não resultou, ok, não há problema, a gente aprende com isso.

Quem jogava no Atlético em 1999?
Nesse ano, por acaso, o Hugo Leal também foi para lá. Eu, inicialmente, apesar de não ser o que estava previsto, fui para a equipa B. Isso tornou as coisas ainda mais complicadas. A equipa B estava ainda menos habituada a receber estrangeiros. Era praticamente feita por miúdos dali, e alguns graúdos. Era difícil entrar no meio do grupo. O Hugo Leal, que veio do Benfica, foi para a equipa principal. Nesse ano eles até acabaram por descer de divisão. Em janeiro acabei por vir embora, porque estar sem jogar, numa idade daquelas, não era positivo. Achei que era preferível dar dois passos atrás para, depois, dar quatro para a frente.

FRANCISCO LEONG

Esses passos, depois, deram o primeiro golo na história do novo Estádio de Alvalade.
Não foi imediatamente a seguir. Fui para o Braga, estive no Sporting, ainda fui emprestado à União de Leiria, e quando regresso ao Sporting é que se dá esse primeiro golo. Já foi passado algum tempo. Mas sim, é óbvio que os dois passos atrás me acabaram por dar o reconhecimento para ser contratado pelo Sporting. Foi importante.

Acha que esse golo é o que as pessoas recordam mais do Luís Filipe?
Julgo que sim, é natural. Infelizmente, não fui um jogador que tivesse sido preponderante ou feito muitos jogos. Acabei por ficar marcado, pela positiva, por esse golo, e de hoje em dia as pessoas me reconhecerem por esse facto, e não pelo que fiz durante os anos em que estive no Sporting. É por esse momento. Acabo por ficar ligado à história, o que é um marco importante. É a inauguração do novo estádio, o que é sempre um início de um novo ciclo no clube. Vai ficar marcado. E ainda bem, fico contente por estar ligado a um clube com uma história como a do Sporting.

E depois vai parar ao Benfica.
Entretanto, no Sporting, vou antes parar ao Marítimo, onde fiz a época em que esse tal jogo acontece. Curiosamente, estava emprestado pelo Sporting, na altura ainda se podia e acho que se devia poder sempre. Mas, enfim, tudo bem. Compreendo os argumentos das duas partes, mas, no final, o prejudicado é sempre o jogador, e não devia ser. Depois disso, quando acabo contrato com o Sporting, regresso ao clube que me tinha dado maior notoriedade até ao momento, o Braga. Felizmente, as coisas voltaram a correr bem e isso fez com que fosse para o Benfica.

Através do Fernando Santos, correto?
Sim, ele já me tinha treinado no Sporting. Mas, à primeira jornada, ele foi mandado embora, e aí as coisas tornam-se, outra vez, muito complicadas. Quer para mim, porque era o treinador que me tinha ido buscar, quer para o clube, que nesse ano caiu quase no fundo. Houve uma série de troca de treinadores, acabámos com o Chalana a treinar… Foi um ano muito difícil. Para um jogador que vai para o clube onde se quer tentar afirmar e para todos os jogadores. Era difícil sair dessa época com o reconhecimento de algumas coisas boas. No ano seguinte, acabei por sair. Houve uma tentativa de renovar o plantel, de forma a que as coisas mudassem, e fui cedido ao Guimarães.

Aí começa a ser lateral direito?
Nã, nã, nã, comecei a ser lateral direito no Marítimo. Já tinha sido experimentado no Sporting, pelo Fernando Santos, mas com três centrais. Depois, o professor Mariano Barreto é que insistiu comigo ali. Pronto, tínhamos o Alan como médio ala direito e ele entendeu que, se calhar, podíamos fazer uma ala direita fortíssima.

Achou piada a essa troca?
Achei, até me senti bastante confortável na posição. Até porque os tempos evoluíram. Com a forma como eu jogava - era, como diziam, um extremo à antiga, de ir à linha e cruzar - não consegui acompanhar os patamares para os quais o futebol evoluiu naquela posição. Acabou por ser mais benéfico ir para lateral direito. As coisas corriam bem, portanto, não vi razão para não continuar e fiz praticamente todo o resto da minha carreira a lateral direito. Joguei às vezes a extremo e até a médio centro, no Braga, porque, com a idade e a experiência, chegas a uma altura em que te consegues adaptar e conhecer o jogo em qualquer posição. Aconteceu com o Jesualdo Ferreira, porque tínhamos o Abel a lateral direito, e porque ele já me conhecia das seleções. Acabei por fazer umas boas épocas no Braga, o que fez com que fosse para o Benfica.

O Jorge Jesus fez muita questão de o ter lá?
[Faz uma pequena pausa] Olhe, pois, não sei. Depois de ter sido emprestado ao Guimarães fiquei numa situação indefinida. Não sabia se regressaria ao Benfica, ou não, nesse ano em que o Jesus entra. Entretanto, houve alguns jogadores contratados sem o intermédio dele, e um deles até era um outro lateral direito. Chamava-se Patric, salvo erro. O Jesus não contava com ele e a informação que eu tive é que lhe disseram que eu tinha contrato com o Benfica, estava numa posição indefinida, e ele disse: “Então, se temos aqui em casa, não vale a pena estarmos a ir buscar fora”. Pelo menos, foi isto que me transmitiram. A partir daí, trabalhei da melhor forma e as coisas foram acontecendo, normalmente. Não joguei tanto quanto gostaria de jogar. Acredito que podia ter jogado mais, mas pronto, são ideias de treinador.

Mas ainda passou duas épocas no Benfica.
Acabei por nunca ser cedido porque, de certa forma, as pessoas provavelmente terão sentido que eu era importante. Independentemente de jogar muito, ou não, eu trabalhava bem e era um bom profissional. Nunca tive razões de queixa e isso também fez com que me mantivesse ali, apesar de, muitas vezes, não estar satisfeito, por não jogar. Mas a vida é feita disso. Acho que merecia ter jogado mais, porque trabalhei para isso. Mas pronto, o que foi, foi, não há aqui nada para lamentar. Achei que houve algumas alturas em que podia ter jogado e o treinador acabou por adaptar jogadores à posição que, nem de perto, nem de longe, era a deles. Preterindo-me de uma forma que não achei correta. Tirando isso, estando os dois laterais disponíveis, jogava quem o treinador queria. O que não achava correto era, quando um dos laterais não estava disponível, ele adaptava alguém. É uma coisa que me magoou, mas faz parte do futebol.

O Jesus presta muita atenção à linha defensiva. Ele dava-lhe muito na cabeça?
A mim, diretamente, não, era mais geral. Ele era intransigente, exigia muito da defesa. Nos treinos, treinávamos todos. Não sinto que era um jogador a quem ele desse "duras", mas também não era um jogador a quem ele gabava muito. Nem era bom, nem era mau, percebe? Às vezes é bom que nos chateiem mais, é sinal de que estão a olhar para nós, do que não dizerem nada. Em muitos momentos, fui um jogador ao qual ele nem dizia mal, nem bem. Partia do princípio que, como ele não dizia mal, estava a fazer o meu trabalho corretamente. Mais uma razão para não perceber o porquê de não jogar mais vezes. Não era corrigido... Mas sim, o Jesus é uma pessoa exigente para com a defesa, que faz com que se percam muitas horas de treino para que as coisas funcionem da melhor forma.

MIGUEL RIOPA

E como é que o Jesus era quando as coisas não corriam bem? Como estão agora, por exemplo, no Sporting?
Acho que ele tem um bocado esse defeito: quando ganha, ganha ele, e quando perde, perdem os outros. Hoje em dia, os jogadores vão sentido isso. O que, quer queiramos, quer não, acaba por afastar os jogadores do treinador. Inconscientemente, a equipa deixa de funcionar como uma equipa. Tudo isso acaba por se refletir nos resultados. Acho que é por aí que ele teria de mudar. Mas o Jesus é uma pessoa já feita, com a personalidade feita, não é fácil de mudar a forma de ser. Agora, tem de saber que, quando perder, vai perder pelas ideias e pela personalidade dele, pronto. Na minha opinião, podia ter muito mais sucesso se, realmente, melhorasse essa vertente. Mas, como se costuma dizer, burro velho não aprende línguas. Portanto, é difícil.

Mas ele, no balneário, culpava os jogadores, ou dava a entender isso?
Não diretamente. Mas, no final do jogo, as mensagens que ele passava para o público ou para a comunicação social ainda eram bem piores do que dizê-las no seio do grupo. É óbvio que isso depois acaba por saturar os jogadores. Mesmo a própria forma dele trabalhar, que é intensa, acaba por saturar. Porque os campeonatos são longos e esta exigência dele, sempre, faz com que os jogadores fiquem fatigados psicologicamente. E isso, depois, reflete-se a nível físico, também. Quando a cabeça não está bem, o resto fica muito mais difícil. O Sporting tem qualidade, tem bons jogadores, mas que há ali qualquer coisa que faz com que eles não consigam estar a dar mais. E não acredito que seja porque não queiram. Às vezes é mesmo isto: quando a cabeça não está bem, está desgastada ou saturada, é mais complicado.

Bom, depois, o Luís Filipe acaba a jogar no Algarve. Porquê?
Na altura, o Olhanense foi o clube que se mostrou interessado. Acabei por vir para o Algarve, fiz aqui três anos e chegou a um patamar que, vindo de várias lesões, podia ter continuado, mas pesou mais o lado da estabilidade da família. Durante muitos anos andei sempre de um lado para o outro. A certa altura, isso já não fazia sentido. O que estava feito na carreira, estava feito. Não era por ir jogar mais um ano ou outro, para qualquer lado, que a minha carreira ia ser melhor ou pior. Financeiramente, as coisas para os clubes também não estavam boas. E achei que era altura de terminar. Já estava com 35 anos. Sentia-me em condições para continuar, mas estava cansado das lesões. De estar estar e, de repente, aparecer uma lesão do nada e ficar afastado durante muito tempo. Isso acabou por me desgastar.

E decidiu ficar por aí.
Sim, para dar estabilidade. Os meus filhos gostavam de estar aqui, portanto, mudar por mudar não valia a pena. Acabei por continuar aqui no Algarve para lhes dar a estabilidade que, até então, eles não tinham tido. Andaram sempre de um lado para o outro.

Hoje dedica-se ao quê?
Bom, quando ainda jogava, acabei por conhecer pessoas relacionadas com este negócio. Ao querer manter-me pelo Algarve, tinha que pensar em alguma coisa que pudesse fazer. Olhando para o que o Algarve oferece, esta foi melhor via que vi para aquilo que pretendia. É uma quinta de produção de framboesas. O Algarve oferece o melhor clima que há na Europa para isso e, como conhecia já algumas pessoas no ramo, acabei por aproveitar. Não é uma coisa sazonal, apesar de o Algarve ser uma região que vive da sazonalidade. Isto não, vive do bom clima e das boas temperaturas que aqui há para produzir este tipo de fruto.

Gosta do que faz?
Sim, gosto. É uma área completamente diferente, mas muita da minha família também vem da agricultura. Não deste tipo, mas uma mais tradicional. Esta é mais moderna. Mas sim, é uma coisa que, enquanto criança, sempre vivi. Portanto, não me assusta. E gosto, porque continuo a trabalhar ao ar livre e não é tão rotineiro como outro trabalho qualquer. Acaba por ser diferente todos os dias, há sempre novidades e temos que estar sempre a tomar decisões. Acaba por nos deixar sempre motivados para virmos trabalhar e fazer as coisas andar para a frente. Estou satisfeito e gosto, realmente, daquilo que faço. Isso é o mais importante.

Fartou-se do futebol?
Hum, de certa forma. No início, quando deixei de jogar, comecei este negócio imediatamente a seguir. Estava completamente focado nisto, tinha timings a cumprir. Sinceramente, nos meses seguintes, praticamente não me lembrava que tinha sido jogador. Estava tão focado nisto que não me recordava. Claro que, aos poucos, quando o trabalho começou a acalmar e a cabeça vai relaxando, acabei por me lembrar que joguei futebol durante muitos anos e que gostava de ter continuado. É óbvio que nós jogadores, e provavelmente não falo só por mim, jogaríamos até quase ao fim das nossas vidas. É disto que a gente gosta. O importante é encontrar alguma coisa que continuemos a gostar de fazer. Mas claro que o bichinho do futebol vai estar sempre aqui dentro.