Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Susana Feitor: “Já me passou pela cabeça mandar tudo isto à fava, mas só essa ideia dá-me vontade de chorar”

Ela assume: “O pódio vicia”. Por isso, para a menina de Rio Maior que entrou em choque com o pai quando começou a praticar marcha e aos 15 anos já era campeã do mundo de juniores, não está a ser fácil despedir-se do alto rendimento. Deverá ser este ano. Ou não. Ainda não decidiu. A unica certeza é que quer terminar o curso de Gestão, que vai a meio, e continuar ligada ao desporto

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

Partilhar

A marchadora de Rio Maior interveio recentemente no workshop integrado no programa do Athlete Career Programme, do Comité Olímpico Internacional, para alertar os outros atletas para a necessidade de preparar o futuro pós competição. Decidida a terminar a carreira apenas depois de cortar mais uma meta, revela que a polémica com a Federação Portuguesa de Atletismo que a impediu de participar no Europeu de 2014 foi um balde de água fria do qual ainda não se recompôs. Mas não desiste de terminar a carreira depois de cortar, pelo menos, mais uma meta, a marchar.
Susana Feitor faz hoje 42 anos.

O que sentiu quando viu a Inês Henriques bater recorde do mundo dos 50kms?
Achei fabuloso. Deu-me cá uma inveja de não poder estar lá naquele dia a fazer 50 km.

Mas não é a sua distância.
Não, talvez tenha características para isso mas nunca me imaginei a fazer 50km porque aquilo é tão difícil. Mas deve dar um gozo chegar ao fim. Os últimos 5km custaram-lhe mais do que os outros 45. Chegar ao fim deve ser uma sensação... Há muitos anos eu fiz uma coisa com características de ‘feeling’ idênticas. Eu morava a 50km de Fátima e um dia disse à minha mãe e ao meu treinador que ia de casa até Fátima a correr ou a marchar. Naquela altura, onde agora está a basílica, havia um muro com uma porta. Passar aquilo era como se fosse uma meta. Fiz o percurso em 5 horas. Chegar ao fim foi uma coisa indescritível. Talvez fosse também aquela mística de Fátima, mas tudo associado foi uma coisa…

Sente que já tem sucessora?
Acho que sim. Até posso dizer que é um grupo… A Ana Cabecinha tem sido a atleta mais regular que eu conheço no top. Falta-lhe a gaita da medalha. Só lhe falta aquela coisa para ser a cereja no topo do bolo. Ela tem feito marcas e lugares mais regulares à frente, porque eu estava muitas vezes lesionada em grandes campeonatos.

Quem é o seu ídolo?
Em termos de marcha tinha grande admiração pela norueguesa Kjersti Platzer e sou treinada pelo marido dela, porque gostava da postura dela em competição. Não que tivesse a ver com aspetos técnicos, mas a postura dela, a boa onda dela e a forma como ela encarava aquilo tudo. Ao treinar com o Stephan penso que passei a sentir isso, ou seja, que era fixe, era divertido estar a fazer aquele trabalho todos os dias. Ela quebrou muitas barreiras, inclusive barreiras de género, porque vem de um país onde apesar de tudo não há muita gente a praticar. Mas há outros atletas por quem tinha admiração, como o Frank “Frankie” Fredericks. Conheci-o e é um doce.

O que a cativou na marcha?
Eu não achava piada à marcha. O início começa com uma dualidade entre corrida e marcha, porque no fundo era a componente social que me cativava a estar no atletismo. No inverno iamos correr e no verão chegava a altura em que nos dividiamos: ou para o comprimento, ou para o salto em altura, ou para as barreiras. Eu acabei por ir para a marcha. A opção pela marcha surge por acaso, pelo facto do Jorge Miguel ter de encaixar os seus atletas nas várias disciplinas.

Lembra-se da primeira entrevista que deu?
Em 1990, fui campeã do mundo, mas em 1989 foi a minha primeira internacionalização. Ou seja, eu começo em 1988 e um ano depois já estou na seleção, com recordes atrás de recordes, e já se falava de mim, a menina de Rio Maior. Ainda por cima usava sempre um boné porque me inspirei na Gabriela Andersen-Schiess (a suíça que nos Jogos de Los Angeles cambaleou nos últimos 400m da maratona), e comecei a aparecer em vários jornais. Quando vou para o campeonato da Europa, que foi a minha primeira grande internacionalização. Estava em estágio e a primeira entrevista que dou é para o Expresso [risos]. O engraçado é que depois dessa entrevista, sou chamada para uma reunião com o senhor Marcolino Nobre, dono das carnes Nobre. Ele leu a entrevista e chamou o meu treinador porque queria conhecer-me. Quando cheguei ele tinha o jornal em cima da mesa, começou a elogiar-me e depois disse: “Estava a pensar em dar-te um apoio para tu continuares a treinar, mas não deixares de estudar”. Foi o meu primeiro patrocinador. Na altura, deu-me 25 contos por mês. Eu tinha 14 anos. Venho de uma família em que o meu pai era emigrante, a minha mãe doméstica. Aquilo era fabuloso para mim. Portanto, foi à conta de uma entrevista ao Expresso que consegui o meu primeiro patrocínio, que durou 20 anos (risos).

O que comprou com esse primeiro dinheiro?
Umas calças de ganga da Levi’s.

Tem irmãos?
Um irmão mais novo. E tenho dois sobrinhos lindos de morrer! O meu irmão ainda andou no atletismo, mas aquilo não era para ele. A minha veia desportiva deve ter vindo do lado da minha mãe, porque ela andava muito para ir de fazenda em fazenda, cuidar das terras.

Os seus pais sempre a apoiaram na marcha?
Foi controverso. É preciso fazer um enquadramento. Temos que nos colocar em Alcobertas, na Serra dos Candeeiros, numa zona muito conservadora, uma menina de 13 anos a correr de calções pelo pinhal, não é uma coisa muito abonatória (risos). Lembro-me de ir treinar ao fim‑de‑semana e de haver velhotes de enxada às costas que me ralhavam inclusivé, dizendo que devia estar em casa a ajudar a minha mãe. E para o meu pai não foi fácil, porque ele estava em Angola e vem de férias e a Susana que no ano anterior era uma menina sossegada, de repente está no atletismo, vai fazer umas provas ao fim de semana com uns senhores que eram de Rio Maior, do clube de Natação. Foi um choque. Entramos em conflito.

Onde ficou a vida pessoal no meio do percurso desportivo?
Foi-se encaixando.

Nunca sonhou em formar família?
Já senti mais o instinto maternal. Antes de vir estudar para Lisboa, em 1994, tinha metido na cabeça que, aos não sei quantos anos, ia ter não sei quantos filhos. Tinha que ser número ímpar, ou três ou cinco. Que paranóia. Na altura nem sequer tinha namorado e pensar em ser mãe solteira, naquele tempo, ai jesus. Hoje em dia até pondero. Porque não? Se surgir, "why not?". Mas não pressiono. Ainda por cima tenho essa parte preenchida com os sobrinhos.

Há pouco tempo disse na sua página do Facebook que seria interessante haver uma Casa do Atleta, assim como há a Casa dos Artistas. Pondera levar isso para a frente?
Não pensei ainda muito a sério nisso. Pensei é que, tendo ou não tendo família, acontece com muita facilidade um dia ficarmos sozinhos. E ficamos entregues a quem? Mas ainda não pensei nisso a sério. Foi só uma ideia. Tinha piada ser feita aqui ao lado do COP, uma residência ou lar para antigos atletas, inspirado em desporto, com valências desportivas adaptadas.

Tem algum hobi?
Adoro dormir. Adoro viajar.

Qual o sítio onde já esteve que mais a marcou?
Vários, mas há um que fiquei com muita vontade conhecer. A Austrália. Quem me quer ver bem disposta, é dar-me um trolley e um bilhete de avião.

Acha que a marcha está de boa saúde?
Acho que o desporto convencional não está no seu melhor, porque é difícil angariar e cativar os miúdos para a prática do desporto. E para a marcha ainda é mais difícil. Mas podia estar pior, para uma modalidade que requer muita persistência, muita repetição, muito treino.

Porque é mais difícil cativá-los para a marcha?
Acho que tem muito a ver com a conotação que se dá ao gesto técnico, porque é uma coisa diferente, porque não há muita gente a marchar nas ruas. Correr toda a gente corre.

A que tipo de conotação se refere?
Temos aquele jeito estranho, que sobressai quando alguém vai a fazer e as pessoas têm tendência a olhar, a comentar, a rir.

Qual a sua maior ambição?
Ambição material era ter dinheiro suficiente para poder viajar sempre que me apetecesse. O maior desejo é poder ajudar pelo menos as pessoas de quem eu mais gosto e às quais estou intimamente ligada. De resto, haja saúde que o resto virá.

Esta-lhe a custar muito mais largar a alta competição do que propriamente a dúvida do que vai fazer a seguir?
Nem mais. O que vem a seguir, se tiver um objetivo claro e eu tenho o objetivo de terminar o curso, não é por aí. O mais difícil é largar a alta competição.

A Susana está num processo de transição.
Exatamente. Eu nunca imaginei que fosse tão difícil. Dá-me vontade de chorar muitas vezes.

Porque sente que não está preparada para abandonar a competição e que ainda não tem as ferramentas suficientes para seguir outro caminho?
Pode ser. Mas não é só por aí. Eu ainda estou a estudar. Andei na universidade, mas não ia lá, e quando ia fazia apenas uma disciplina ou duas…

Estava num curso diferente.
Sim, quando comecei a minha vida académica fui para engenharia florestal, pelas minhas raízes, na Serra dos Candeeiros, com família ligada ao campo. Mas não era a minha praia e mudei para Ciências e Saúde, que adoro. Só que fui evoluindo em termos de carreira desportiva e não tive a dedicação que devia ter, porque não fiz a gestão que devia ter feito, como alguns colegas fizeram. É o caso do Nuno Delgado, que foi campeão da Europa no último ano do curso da FMH. E eu não fiz a gestão dessa maneira, deixei-me sempre focar só nos JO, campeonato do mundo, campeonato da europa, sendo que todos os anos temos uma dessas provas. Era aquela ambição de voltar ao pódio. Porque eu começo no pódio, é preciso não esquecer. Aos 15 anos sou campeã do mundo de juniores, aos 17 estou nos JO e tudo aparece, assim, de repente. Eu ainda não tinha 25 anos e já tinha sido 4ª no mundial, o que para uma marchadora é uma ascensão rapidíssima. E quis voltar a sentir aquilo e foquei-me muito nos JO, porque era o resultado que me faltava. Isto justifica um pouco a minha gestão.

A atleta de Rio Maior inicialmente não gostava da marcha

A atleta de Rio Maior inicialmente não gostava da marcha

Nuno Botelho

A adrenalina do pódio é viciante?
Muito. E muito cedo perdi aquela coisa do querer só ganhar, o que eu queria era estar lá, na frente, na disputa. Isso é que me dava gozo. Podia perder, mas perder a lutar dá muita pica. Esta emoção fez com que optasse sempre pelo lado desportivo. Ao mesmo tempo, fui tendo problemas físicos que me tomam muito tempo. Ou seja, quando estamos lesionados, hoje em dia, temos tudo no telemóvel, no tablet, mas há uns tempos não era assim. Conclusão: não tinha a capacidade de estar numa recuperação e a fazer outra coisa complementar. Não tive essa capacidade. É uma característica minha. Houve um momento em que pensei terminar a carreira. Ou melhor, em desistir, mesmo. Não terminar, mas mandar tudo à fava. Foi em 2004, nos Jogos Olímpicos (JO) de Atenas.

Porquê?
Depois de todos os bons resultados, 2004 podia ser o meu pico, podia fazer um mega resultado. Ainda por cima, em condições difíceis de clima. Era uma janela de oportunidade para mim, porque muitas atletas sofrem com o calor, principalmente as boas, as russas. Só que eu fiquei doente, lesionada, cheguei a Atenas e... ‘puff’. Fui 20ª com muito custo. Não fui para lá em forma, depois havia a ansiedade por querer muito. Saí de Atenas desesperada. A pensar: vou fazer 30 anos para o ano, não tenho o curso feito... E disse ao meu treinador que precisava de um tempo, mas que se calhar o melhor até era nem contar mais comigo. Pensei mesmo em desistir, em mandar tudo à fava e não tentar terminar a carreira de um modo airoso ou feliz. Não. Era mesmo desistir. Durante esse inverno dediquei-me só à escola e atividades físicas da escola que eram as propedêuticas. Mas entretanto veio o Natal, a troca de mensagens de boas festas e desejos disto e daquilo, e cheghou aquela saudade. Pensei: “Não pode ser, eu não posso terminar isto assim. Gosto de mais disto para terminar assim”. E meti na cabeça que no dia 1 de janeiro de 2005, ia fazer o meu primeiro treino de marcha. E assim foi. Falei com o meu treinador, o Jorge Miguel, mas disse-lhe que tínhamos de fazer algumas mudanças, por causa de algumas coisas com as quais não concordava, ao nível do treino e de estágios. E assim foi. Foi uma forma de arejar, deixei de fazer estágios num sitio e fui para outros, caras novas, companhias novas. O que é certo é que na Primavera de 2005, na Taça da Europa, mostro logo o que é que aquela mudança me estava a fazer e sou medalha de prata, numa prova para a qual não sabia bem ao que ia.

Começa logo a pensar nos Jogos seguintes?
Claro. Venho de lá super animada. Nesse verão há o campeonato do mundo, em Helsínquia, onde consegui a minha medalha de bronze. Perante isto, já só pensava em Pequim. Até apareceram nos media os grandes chavões: “Esta medalha de bronze está no caminho de Pequim”. Em 2007 sou 5ª no mundial, portanto nos JO esperava fazer uma coisa parecida.

E em Pequim desiste. O que é que não correu bem?
Não sei explicar. Sei que estava em forma, só que naquele dia parece que foi tudo um “não”. Estava uma tempestade terrível, chovia, o dia transformou-se negro. Para umas atletas foi o melhor dia da vida delas; para mim foi o pior. Aos 13km dou por mim no chão. Colapsei. Não sei se foi a ansiedade porque estava a antever aquilo.

A verdade é que nos JO, por uma razão ou por outra, nunca conseguiu um bom resultado. Nunca conseguiu encontrar uma razão?
Nunca.

Mas acha que foi mais do foro psicológico?
Provavelmente. Porque mesmo com lesões, noutras circunstâncias eu consegui dar resposta. Em Helsínquia, por exemplo, entrei em competição depois de ter estado na marquesa durante não sei quanto tempo para recuperar uma lesão que tinha tido – e que ainda estava a chatear – e cheguei lá e fui terceira classificada. E em Pequim não estava lesionada.

Não seria a pressão de ter o mundo inteiro de olhos postos naquele evento?
Não. No meu caso a pressão nunca foi externa foi sempre intrínseca. Foi sempre minha. Eu é que queria muito, muito. Para mim. Não me importava se as pessoas ficavam contentes comigo ou não. Isso era um valor acrescentado. É bom ser reconhecido por um feito que fizemos. Mas para mim o que mais gozo me dá é estar no chuveiro a seguir a uma competição e sentir isto: “O trabalho está feito. Missão cumprida. Agora, posso relaxar”.

Festejos após a conquista da medalha de bronze nos mundiais de Helsinquia, em 2005

Festejos após a conquista da medalha de bronze nos mundiais de Helsinquia, em 2005

© Reuters Photographer / Reuter

Nunca trabalhou o lado psicológico?
Não, nunca trabalhei com um profissional da área da psicologia.

Porquê?
Não sei explicar. Havia sempre outras coisas mais urgentes, como as lesões. Andávamos sempre à procura de uma equipa de fisioterapeutas que nos desse uma resposta para tratar aquele que é, afinal, o instrumento de trabalho para podermos voltar ao trabalho. Por outro lado, durante o meu percurso, fui sempre tendo um equilíbrio nestas coisas da ansiedade e do nervosismo. Porque assim que dava o tiro da partida, a ansiedade e nervosismo transformavam-se num resultado.

Menos nos JO.
Pois, mas só em Pequim é que não encontro uma explicação, nem física nem outra, a não ser a psicológica. Porque em Sidney fiz uma rotura de dois centímetros. Era um buraco de 19mm que tinha na coxa esquerda, feito dez dias antes da prova. Se estivesse na Europa, tinha vindo para casa. Não estava capaz de competir, mas o que é certo é que ligaram-me a perna e terminei em 14º.

Resumindo, trabalhar o lado mental não era importante nessa altura.
A verdade é que o nosso dinheiro no desporto é como os cobertores curtos: se puxamos de um lado destapamos o outro. E sempre procurámos dar resposta às coisas que eram mais urgentes. E essa componente sempre ficou para trás.

O que a impede de desistir depois de Pequim?
Voltei a pensar: “Eu não quero terminar a minha vida desportiva com um colapso aos 13km nos JO”. E cheguei à meta em 10º no campeonato do mundo, em 2009. Depois, a história repete-se, com alguns problemas físicos. Entretanto, mudei de treinador.

Outra vez a necessidade de refrescar?
Sim. Já havia um certo desgaste e algum cansaço e eu e o Jorge já estávamos a entrar em choque. Não era nada em concreto, foram muitos anos de relacionamento e acho que numa determinada fase comecei a tentar arranjar escapes e não estava a conseguir viver um ritmo de vida que fosse focado para o alto rendimento, que era a minha opção. Precisava de uma injeção de nova energia.

Vai ter com o Stephan Platzer.
Sim. Ele tem uma filosofia muito diferente, mais descontraído no treino e muito mais voltado para: “Tens de fazer aquilo que gostas, porque se não gostas, vais-te embora. Queres ou não queres? Queres? Então, ‘let’s have fun’”. Com o professor Jorge Miguel era um pouco mais sério, mais escola Moniz Pereira: trabalhar, trabalhar. E não estou a dizer mal, porque isso foi bom, a disciplina que ele me deixou. Aliás, basta ver a Inês Henriques que acabou de bater o recorde dos 50 km. A herança do Jorge Miguel é muito boa, mas eu precisava de refrescar. E passei a gerir ano após ano, deixei de fazer planos a longo prazo, ou a pensar nos JO. E em 2011 sou 6ª no mundial (acabo por ser 5ª porque a outra atleta foi desclassificada por doping). Ou seja, estou a repetir 2007, em 2011, véspera dos JO.

Voltou o entusiasmo dos JO.
Nem mais. Só que já não tenho 20 anos. E as lesões dessa vez já não são lesões simples, quando atacam são poderosas. Em 2012, na qualificação olímpica, contraí uma lesão que deitou tudo a perder durante quase dois anos e meio. E penso novamente: “Vou terminar a carreira assim? Naaa, não pode ser”. Quem manda no fim da minha carreira sou eu.

Nessa altura, estamos a falar de 2013/14, resolve voltar a fazer de Rio Maior a sua base.
Exato. O meu pensamento foi: tenho de fazer recuperação todos os dias, estudar e treinar num sítio onde possa fazer tudo a pé, sem o desgaste do carro e do trânsito.

Muda de curso e vai para Gestão. Porquê?
Por causa do meu envolvimento todo com o COP. Já estava ligada à Comissão de Atletas, e à federação de atletismo. E porque todas as outras áreas de que eu gosto necessitam de muita prática e de muita experiência. Esta área de gestão já vou fazendo aos poucos, porque vem muito da partilha, da conversa, da observação. Numa área ligada ao corpo humano é preciso meter as mãos, é preciso prática. Foi uma opção consciente. Em 2014, por causa desta opção, consegui fazer a melhor marca (1h28m51s) dos últimos nove anos, na Taça do Mundo. Estava a ganhar ânimo novamente, e pensei que era nessa altura que ia acabar a carreira, porque havia o Europeu de Zurique. Só que deu-se a bronca com a FPA.

Conte lá essa história.
Eles tiveram vários procedimentos e incompetências, entrei em conflito. Não pensaram que eu pudesse ainda ir à equipa, ou seja, representar a seleção, e não me inscreveram. Entrei em conflito. Pedi a demissão do meu cargo na federaçao e tudo.

O que aconteceu em concreto?
A história nunca me foi contada direito. A dedução que faço é esta. Nós temos várias etapas durante o ano para enviar o nome dos atletas para as organizações. Enquanto na IAAF pode ser até quase à última hora, na Associação Europeia de Atletismo não é assim. Têm datas e não deixam inscrever fora das datas. E, no início do ano, em janeiro, fiz provas com péssimas marcas, e se calhar na FPA não anteviam que eu viesse a subir de forma. Só que uma atleta com tantos anos de experiência, de quilómetros de treino, estando num ambiente que seja propício a treinar e a descansar, ainda por cima em altitude…a minha forma normalmente dispara. E disparou. Era aquela a capacidade que eu tinha. No início do ano, quando foram feitas as inscrições, se calhar nenhum deles pensou que eu pudesse recuperar. Ninguém me perguntou nada. E aí é que está o erro. Como eu não estava inserida no grupo de top – tinha saído por causa da lesão – e quem está fora desse grupo não tem obrigação de preencher contrato, mandar planeamento. Não vieram ter comigo. Se me tivessem procurado, eu podia ter dito que continuava com ambição e que a lesão estava praticamente debelada e que em breve podia trabalhar ritmos, etc.

Acha que foi intencional?
Não. Isso não acredito porque Portugal quer levar a melhor equipa e com três lugares disponíveis só levou duas mulheres na marcha. Não acredito que tenham feito de propósito.

Pediram desculpa?
Sim, o presidente Jorge Vieira. Reconheceu o erro. Não podiam fazer nada sentiam-se de mãos atadas.

Sentiu-se injustiçada?
Muito. E senti muita frustração e tristeza. O que me ajudou foi ter amigos fora do âmbito desportivo, porque, logo a seguir, durante o Europeu, fui para Espanha de férias e foquei-me no curso. Mas foi um balde de água fria. Porque tínhamos planeado tudo. Eu queria voltar melhor.

Em que ano está no curso?
Estou no segundo ano, tenho três semestres feitos faltavam-me outros três do curso de Gestão das Organizações Desportivas.

Então ainda não terminou a carreira desportiva?
Não.

Susana quer manter-se ligada ao desporto depois de terminar carreira no alto rendimento

Susana quer manter-se ligada ao desporto depois de terminar carreira no alto rendimento

Nuno Botelho

O que é que ambiciona?
Em termos desportivos já não ambiciono muito. Estou em fase de crescimento em termos de treino, depois de ter recuperado da lesão. Ambiciono fazer a minha última competição de 20km como atleta de alto rendimento. Agora, vai haver outras provas? Talvez. É o que me dá gozo.

Esses últimos 20km serão onde?
Gostava que fosse numa competição internacional. Mas não posso exigir isso.

Tem alguma competição em mente, alguma data?
Não, não quero marcar nada. O meu corpo já não rende como antes e não preciso de mais uma frustração. Estou focada em que hoje foi melhor do que ontem e assim sucessivamente.

Quantas horas treina?
Já há muitos anos que na maior parte do ano só treino uma vez por dia. Em três horas faço tudo o que tenho a fazer. Quando estou em estágio, se tenho tempo e o meu corpo aguenta, então treino duas vezes e ocupo o resto do tempo a estudar.

Não havendo data nem hora para essa competição final…
Bem, há um documento oficial que me atribui o estatuto de alto rendimento até maio deste ano. Portanto daqui até lá ou renovo ou faço a tal competição.

Então vai mesmo ter de competir em breve se quiser renovar.
Sim.

E quer renovar?
Não sei. Já levei tanto na cabeça que agora quero acabar o curso, quero o canudo.

Mas diz que não quer sair de qualquer maneira da alta competição...
Claro que não. Depois deste percurso todo, quero cortar uma meta. Mas não sei quando é que isso vai acontecer.

Depois da marcha, o que vai fazer?
A única certeza que tenho é que quero continuar ligada ao desporto. Depois de ter descoberto há muitos anos este mundo, o mundo olímpico, dos Jogos, das competições, dos atletas, na verdade gostava de continuar a ajudar os atletas.

Gostava de voltar à federação?
Depende. Estar ligada aos organismos só por estar já estive e nunca me senti satisfeita com esses desempenhos. Mas não ponho de parte. Não me vejo sentada numa secretária todos os dias, mas se tiver que estar durante um período, estou. Não me imagino estar ligada a dinheiros e a budgets e a planejamentos desse género, mas se tiver de estar durante algum tempo também sou menina para fazer isso.

Nunca lhe passou pela cabeça ser treinadora?
Já. Já pensei que seria giro passar a alguém a experiência e conhecimentos que adquiri. Também não está de parte, porque pode ser feito em part-time. Pode ser algo complementar, não há muitos treinadores que conseguem viver só do treino e eu tenho de pensar nisso.

Neste momento qual é a sua fonte de rendimento?
As minhas economias e algumas palestras que vou fazendo, de formação ou motivacionais. Tenho o apoio da FPA por estar no nível 4, que são €250 por mês. Mas na verdade aquilo que fui angariando ao longo da minha vida é que me sustenta. No momento em que disser adeus posso solicitar ao IPDJ o apoio pós-carreira previsto para os atletas que estiveram no projeto olímpico. Como estive no projeto olímpico durante oito anos, terei direito. São 30 mil euros que pagam em tranches mensais.

A marchadora a caminho do pódio em 2005

A marchadora a caminho do pódio em 2005

© Reuters Photographer / Reuter

É mais difícil ser marchador do que atleta de corrida?
Acho que sim. Enquanto marchadores temos que treinar outras componentes que os corredores não dão tanta importância. Desde muito jovens que treinamos mais a componente da força. Há alguns teóricos que dizem que a marcha é como se tivéssemos a treinar para 800m e 1500m, só que quando vamos competir fazemos fundo; ou seja, como quem faz maratona ou 10 mil metros, mas temos de ter a força do meio fundo. A marcha é transversal, dos 800m à maratona.

A avaliação durante as provas de marcha é muito subjetiva porque é feita através do olho humano. A tecnologia ainda não permite colocar nada nas sapatilhas para averiguar de forma mais rigorosa se, por exemplo, o atleta esteve com os dois pés no ar ao mesmo tempo?
Não, ainda não há essa tecnologia. O que acontece é que temos um circuito fechado e espalhado pelo circuito existem juízes e são esses juízes que a olho nu observam a nossa técnica. Existem cartões amarelos ou o vermelho, que está no juiz chefe, que podem ser mostrados. Posso levar dois amarelos e, ao terceiro, sou desclassificada.

Esse grau de subjetividade faz com que os atletas se sintam muitas vezes injustiçados?
Claro que sim. Eu passei por isso. Em 2001, bati sete recordes nacionais e um deles era recorde do mundo de pista dos 20km. E nas competições principais, Taça da Europa e no campeonato do Mundo, fui desclassificada. Estávamos todos numa fase de transição a nível de técnica, mas principalmente de juízes, porque tinha havido grande escândalo em Sidney com a australiana que, ao entrar no estádio, foi desclassificada.