Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“Os atletas portugueses continuam a ser muito queixinhas”

José Manuel Constantino, único candidato às eleições do Comité Olímpico, vai criar uma direção clínica e o cargo de diretor desportivo para evitar que a desilusão de resultados nos Jogos do Rio 2016 se repita em Tóquio 2020, explicou à Tribuna Expresso

Alexandra Simões de Abreu

Presidente do COP é o único candidato para o quadriénio 2017/2020

Nuno Botelho

Partilhar

Apesar de nos últimos quatro anos ter sofrido três internamentos hospitalares - um por acidente e dois por intervenções oncológicas -, José Manuel Constantino, 66 anos, encontrou força e apoio suficientes para candidatar-se a mais um mandato à frente do Comité Olímpico de Portugal (COP). Diz que as palavras dos atletas José Costa e Telma Monteiro (que não revela), após os Jogos Olímpicos (JO) do Rio 2016, deixaram-no muito sensibilizado, embora na altura não tivesse vontade nenhuma de continuar no cargo. O apoio de 27 das 33 federações olímpicas, de uma delegação de atletas, e da própria comissão executiva, acabaram por convencê-lo e transformaram esta na única candidatura para o próximo quadriénio 2017/2021.

Quando decidiu recandidatar-se, a seguir aos JO do Rio?
Não. A seguir aos JO se tivesse de responder à questão, diria que não. Imediatamente a seguir aos JO estava numa posição muito desconfortável porque a minha avaliação relativamente ao que tinha ocorrido não coincidia com as narrativas que se construíram na altura. Por outro lado, também vivia no plano pessoal uma situação complicada porque estava em pleno tratamento a um processo oncológico e portanto sentia-me bastante fragilizado, com pouca força e pouco motivado para iniciar um período de mais quatro anos.

O que o levou a mudar de opinião?
Mudei de opinião quando recebi o apoio de uma delegação de atletas que tinha estado presente no Rio, quando percebi a posição de muitas federações desportivas, troquei impressões com parceiros institucionais e comerciais, com a própria comissão executiva e senti da parte de todos um grande apoio para que me recandidatasse. Nessa altura tomei a decisão. Recompus-me e encontrei a força suficiente naqueles que me acompanham para voltar a recandidatar-me. As palavras de José Costa e da Telma, no aeroporto de Lisboa (e que ficam entre nós), também me sensibilizaram muito.

Que avaliação diferente é essa que diz ter feito logo a seguir aos JO?
Rompi com aquela melopeia tradicional que justifica os insucessos desportivos por razões de natureza estrutural e política. É para mim muito difícil compreender que, por essas razões, um conjunto tão significativo de atletas consiga marcas e posições durante o período de quatro anos imediatamente anterior dos JO e depois nos Jogos não confirme esses resultados e fique, nalguns casos, muito aquém das marcas que estiveram na origem do seu apuramento. A explicação para este facto, do meu ponto de vista, não é de natureza política, mas de natureza técnica e desportiva, que tem a ver com aquele momento e com a circunstância que o atleta e o ato competitivo lhe suscitou.

Acha que todos os atletas deram o melhor?
Não tenho quaisquer dúvidas de que os atletas que estiveram no Rio deram o melhor de si, mas o melhor de si naquele momento ficou aquém do melhor de cada um deles noutros momentos. Tradicionalmente sempre que ocorriam estes insucessos encontrava-se esta melopeia e esta narrativa desportiva que atribuía à política, ao sistema, ao financiamento, ao desporto na escola, à ausência de um plano estratégico a três ciclos, enfim, uma série de lugares comuns que não ajudavam a utrapassar o problema. Não é que não haja problemas de natureza política que ajudam a explicar por exemplo, porque só vamos em 16 modalidades e não vamos mais, porque é que a nossa participação é de 90 atletas e não são mais, porque não conseguimos levar mais modalidades coletivas, porque é que a nossa elite é tão circunscrita. Claro, aí há uma explicação de natureza estrutural e política.

Que explicação é essa?
Tem a ver com o insuficiente grau de desenvolvimento que o país tem no plano desportivo. Isso naturalmente condiciona as nossas capacidades competitivas. Mas as nossas capacidades competitivas naquele momento concreto, com aqueles atletas que conquistaram posições de pódio em campeonatos do mundo, da europa, em taças do mundo, e que depois não conseguem confirmar nos JO estas suas performances têm de ter outra explicação de natureza técnico desportiva.

PEDRO UGARTE

Está a dizer que os atletas deverão reduzir a competição em ano de JO para não chegarem muito desgastados aos Jogos?
Não quero especificar quais são as fragilidades que desse ponto de vista existem. Sou presidente do COP e tenho de ter algum grau de reserva e de respeito por aqueles que estando no terreno, nomeadamente os treinadores, os selecionadores nacionais e os diretores técnicos, têm no apuramento desta realidade. Agora, acho que eles próprios e os atletas serão os primeiros a verificar se o quadro de competições imediatamente anterior aos JO é suficiente, é excessivo ou fica aquém daquilo que é necessário. Compreendo também que para um número muito significativo de atletas o apuramento ocorre já numa data muito próxima dos Jogos e que não é possível prolongar para os Jogos picos de forma que foram projetados para que se obtivessem os apuramentos. Creio que não há uma explicação única para este problema.

Mas também há atletas que ficam aquém daquilo que era expectável e que estão no seu melhor momento de forma, como nunca estiveram. Para esses tem de haver outras explicações, ou não?
Do meu ponto de vista, nesses casos tem a ver com a forma como mentalmente se encara o ato competitivo e aquela circunstância em concreto.

Isso leva-nos ao apoio psicológico, ao trabalho mental. Essa continua a ser uma lacuna no desporto português?
O apoio psicológico para o alto rendimento é um elemento absolutamente indispensável no sentido de otimizar as performances desportivas. Mas essa intervenção tem que ser bem feita, ao longo de um período dilatado no tempo, não é no período dos JO. Mas nós somos muito carentes de recursos humanos qualificados para o alto rendimento.

Porque existe essa escassez?
Pelas razões de debilidade da estrutura desportiva. Mas não temos dificuldade só na área da psicologia, temos também na área da medicina. O número de médicos especialistas em medicina do desporto é relativamente diminuto no que concerne às necessidades que o país tem. E muitos deles estão acantonados no futebol.

É por isso que vai criar durante no próximo mandato uma direção clínica?
Exato. E atenção que não é uma direção médica no sentido mais literal da expressão, é uma direção que tem áreas de especialidade da medicina, mas também da fisiologia, da psicologia, do nutricionismo, ou seja, todas aquelas áreas que são hoje indispensáveis ao alto rendimento. Estamos a falar de um universo, grosso modo, de 20 federações que ambicionam participar nos JO e o grau de desenvolvimento destas federações é muito desigual. Deve o COP dentro das suas possibilidades de algum modo suprir as insuficiências daquelas que têm mais fragilidades.

Vai também constituir uma comissão de ética. Porquê?
Porque há uma recomendação do Comité Olímpico Internacional (COI) no sentido dos comités nacionais disporem de um organismo que possa monitorizar aquilo que é a boa governação da organização desportiva dos comités. Esta recomendação faz parte da agenda 20/20 e decorre do conjunto de fenómenos que têm posto em causa a reputação moral das organizações desportivas, como o que se passou na FIFA, na UEFA, na Federação Internacional de Atletismo, o que se está a passar na Rússia, o que se passou nos CO europeus com a prisão, no Brasil, do seu presidente. Tem de haver mecanismos que permitam sinalizar esses desvios. A sua função será avaliar conflitos de interesses, incompatibilidades e defender os três pilares fundamentais da boa governação: a democraticidade, a integridade e a transparência.

E o lugar de Diretor Desportivo, que papel vai ter?
Acompanhar a preparação desportiva, junto dos diretores técnicos das diferentes federações, dos atletas que estão integrados no programa olimpico.

Terá apenas o papel de reportar e fazer ponto de situação ou também papel ativo na escolha dos atletas?
Não. É para acompanhar. A responsabilidade da preparação desportiva é exclusivamente das federações, mas o COP deve ser informado sobre o estado da arte. O COP era informado dos reportes financeiros, contabilísticos, etc, mas o acompanhamento e a avaliação de natureza desportiva estava ausente.

Logo a seguir aos JO, assumiu a responsabilidade pelos resultados. Chegou a colocar lugar à disposição?
Não necessariamente. Não sou o culpado pelos resultados terem ficado aquém daquilo que era expectável, mas sou o responsável. Não compito, não treino, mas tenho a obrigação de assumir a responsabilidade daqueles que competem, daqueles que treinam, daqueles que organizam as competicões, daqueles que organizam a preparação. Não tenho culpa, mas sou o responsável.

Nuno Botelho

Os apoios financeiros para o último ciclo olímpico foram suficientes?
No âmbito da preparação olímpica, sim. Onde eles não foram suficientes foi no âmbito do apoio ao alto rendimento e às federações na relação direta que a administração pública desportiva tem com as federações e que fez com que muita dessa insuficiência fosse colmatada com o financiamento para a preparação olímpica. O projeto tinha uma dotação que era razoável, maior do que para o ciclo olimpico de Londres e que era aquilo que as condições do país permitiam na altura. Nunca me queixei. Mas a montante, as federações viram reduzir significativamente os seus orçamentos sobretudo nos primeiros dois anos.

Metade dos atletas que receberam bolsas olímpicas não conseguiu o apuramento. Como se resolve este problema?
Não conseguiram o apuramento por duas razões. Por um lado por limitação de cotas e não por ausência de resultados, mas noutros casos foi por ausência de resultados. A percentagem de atletas apoiados e que conseguiu confirmar a participação nos Jogos foi superior aos ciclos olímpicos anteriores, mas apesar de tudo ainda é de 50%. Creio que o modo de evitar esta situação é sermos mais rigorosos do ponto de vista dos critérios de atribuição das bolsas.

Quando assumiu o mandato anterior disse que uma das tarefas mais delicadas que ia ter pela frente era a falta de recursos financeiros. Mas agora não se queixa. Mérito seu?
Mérito meu, sensibilidade do governo na altura. Houve possibilidade de juntar as duas vontades. A seguir a Londres foi feito um estudo por uma empresa de consultadoria que demonstrava que se os recursos tivessem sido geridos de outra forma os resultados poderiam ter sido diferentes e nessa peregrina tese prevalecia o entendimento de que o COP não devia ter um papel determinante e liderante neste processo. É com isto que inicio o mandato e sem qualquer pacote financeiro. O início das conversações foi dificil e foi duro, mas quer por flexibilidade da nossa parte quer da parte dos nossos interlocutores, encontrou-se uma plataforma de convergência que de algum modo acolheu o essencial das nossas preocupações, com a garantia de que esse pacote financeiro tinha um período de vigência para além do ciclo olímpico que estava a iniciar-se de modo a que os atletas que tivessem resultados nos JO do Rio transitassem automaticamente para o ciclo seguinte, o que está a acontecer, sem quebra de qualquer financiamento.

Vai haver mais dinheiro para Tóquio 2020?
A minha expetativa é que o espírito de colaboração e de cooperação que existiu nos quatros anos anteriores se mantenha para os quatro seguintes.

Mas vai ser preciso mais dinheiro.
Acho que vai ser necessário encontrar um subprograma que apoie as federações que têm um conjunto de atletas que, não estando integrados nas esperanças olímpicas nem no projeto de preparação olimpica, têm um histórico que faz prever que a curto prazo possam integrar esses quadros de preparação olímpica. Esses recursos devem servir para estar presentes nos quadros competitivos internacionais onde se encontram os resultados e apuramentos, que permitem essa integração.

Temos cada vez mais gente a praticar desporto, mas isso traduz-se em mais desporto a nível federativo e de alto rendimento?
É verdade que nunca houve tanta gente a fazer desporto, atividade física, a fazer exercício. O problema é que a diferença que tinhamos relativamente àqueles com quem competíamos era muito significativa e nalguns casos não se encurtou, porque os outros também cresceram. O desporto não vive numa ilha isolada dos restantes problemas sociais e nos últimos anos vivemos sob a influência de uma intervenção externa, com fortes constrangimentos em todos os setores. O desporto não podia deixar de sofrer os efeitos negativos disso. Pese embora a circunstância de nos últimos anos em diferentes modalidades, como no futebol, no judo, na canoagem, no atletismo, no hipismo, no ténis de mesa, no taekwondo, trialto, no tiro, termos resultados excecionais. Ou seja, apesar de tudo conseguimos resultados excecionais num país com esta dimensão com esta escala e com esta cultura desportiva. Onde porventura ficamos aquém do valor desportivo dos atletas foi nos Jogos do Rio. Daí o meu desencanto, o meu desconforto e desalento.

Quem foram as maiores desilusões para si?
Preferia falar das maiores alegrias. Mas posso dizer que estava à espera de medalhas na canoagem. Fizeram resultado excecionais mas eles têm valor mais do que evidenciado para terem posições de pódio. Mas também estava à espera de posições de pódio no hipismo. O futebol era uma incógnita, não porque Portugal não tivesse valor mas pelas circunstâncias em que a equipa participou. Admitia a possibilidade de haver mais uma medalha no judo. O Jorge Fonseca fez uma competição excecional e perdeu em circunstâncias também pouco habituais e naturais, mas que são decorrentes da própria competição.

O selecionador da equipa olímpica de futebol esteve até ao último minuto com dificuldades em construir uma equipa, por causa da recusa de clubes e atletas. Que armas é que o COP tem para evitar situações como aquela?
A solução do problema passa pelo COI se pôr em campo e definir regras, que não podem ser as atuais, junto da FIFA. A FIFA põe constrangimentos no futebol masculino, que no feminino não tem, porque o campeonato olímpico na área feminina é talvez a maior exposição mediática da disciplina. A FIFA tem de decidir se quer estar no campeonato masculino e tem de cumprir regras que são comuns à generalidade das modalidades, não pode é estar numa situação ambígua porque é muito penalizante não só para a competição como para as próprias seleções.

Quando o canoísta Fernando Pimenta referiu que foi prejudicado por causa das algas e houve quem achasse que estava a arranjar desculpas para o desaire. Concorda?
Ele estava a falar verdade, mas naquele momento essa verdade não era entendida como tal mas como uma desculpa. Acho que o Fernando e o seu treinador já pensaram mil vezes nesta situação e se a competição fosse hoje se calhar encaravam de forma diferente do que fizeram naquele momento.

Houve excesso de confiança?
Tem muito a ver com a forma como o Fernando compete. Se se verificar o histórico de participações do Fernando percebe-se que ele compete sempre à frente. Pode haver circunstâncias onde o ir à frente não seja a melhor forma de abordar a competição. A questão não é por falta de valor porque ele tem mais do que valor para ser medalhado olímpico e estava, como ele próprio reconhece, num momento de forma extraordinário. Não foi feliz a forma como ele abordou a competição, mas ele vai compensar isso nos próximos JO.

Acha que os atletas portugueses continuam a ser muito queixinhas?
Sim. Mas isso faz parte de nós, portugueses. Os atletas não são diferentes de nós, enfim, é um traço idiossincrático da nossa personalidade.

Somos ainda um país de futebol?
Temos um país de futebol, com grande qualidade de futebol, é uma tradição dos países latinos. Nao vejo isso como um fator de atrofiamento do desenvolvimento das restantes modalidades, acho até que elas devem olhar para o futebol para aprender aquilo que nele corre bem e que permite que Portugal esteja na posição que está no ranking internacional.

Que leitura faz da politica desportiva na última década? Há política desportiva em Portugal?
Bom, haver há. A ausência de política é em si mesma uma política. Tem havido uma linha de continuidade, de manutenção do “establishment” desportivo. Não há factores de inovação. E há linhas estruturantes da política que transitam de uns governos para os outros em matérias que, do meu ponto de vista, justificariam rupturas.

Por exemplo?
Os centros de alto rendimento.

Estão mal geridos?
Não, não. Não são é centros de alto rendimento. Mas mais penalizante do que tudo isto, e aí sim há uma alteração significativa que não posso deixar de referir, foi a fusão entre o Instituto Português da Juventude (IPJ) e o Instituto do Desporto de Portugal (IDP). Foi profundamente lesiva. Podem-se ter economizado alguns dinheiros, mas do ponto de vista quer da massa critica existente, quer do saber acumulado relativamente à gestão de questões desportivas, particularmente na àrea das infraestruturas desportivas, quer na formação dos técnicos, o país perdeu muito. Ao juntar tudo não acrescentamos valor, destruímos valor. A questão da juventude é uma questão transversal, pode estar nos assuntos sociais, porque é que tem de estar no desporto? Hoje o segmento mais significativo da população que pratica atividade física e que pratica desporto é a população adulta e a senior, nem é a juventude. Com a fusão quem saiu claramente prejudicado foi o desporto.

Alguma vez foi convidado para um governo?
Fui sondado, há algum tempo. Mas estas coisas devem ficar reservadas. É dificil fazer vida politica não tendo partido. Já levo o número de anos suficientes para perceber isso.