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Manuel Machado: “Li Tolstoi mas não me acho intelectual”

Em 30 anos de carreira, sempre foi ‘professor’, mas foi a partir de um sketch dos Gato Fedorento que passou a ser visto como um treinador diferente, pela linguagem eloquente que utiliza. Depois de cinco anos à frente do Nacional da Madeira, regressa ao continente – onde já treinou o Vitória de Guimarães, o Sporting de Braga, a Académica e o Moreirense – para liderar o Arouca, atual 11º classificado da Liga, e falou com a Tribuna Expresso

Mariana Cabral e Tiago Miranda

Manuel Machado tem 61 anos

tiago miranda

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Costuma ler os desportivos?
Costumo. Não de uma forma exaustiva, mas passo os olhos neles todos.

Além disso, gosta de ler?
Gosto. Não tanto quanto já li, porque já tenho isto aqui [aponta para os óculos] e cansa um pouquinho.

Um treinador tem tempo para ler livros que não sejam de futebol?
Tem tempo para tudo, e aqueles que dizem que vivem 24 horas para o futebol estão a mentir. Não acredito. Acho que as pessoas que vivem no futebol têm uma espécie de ruído de fundo, se quiser, um pensamento intruso, vamos chamar-lhe assim, ou seja, mesmo quando estamos a fazer outras tarefas há sempre um pensamento que tem a ver com a nossa profissão e que nos assalta.

Consegue desligar-se, mesmo durante a época?
Sim, durante o período competitivo, mesmo o mais intenso, é possível ter períodos para nós.

Quando se deita, está a pensar no treino ou no jogo?
Há sempre aquele ruído de fundo, às vezes até de forma bastante vigorosa, por muito que não queiramos. Mas há momentos em que desligamos. Mal estaríamos, até por uma questão de equilíbrio, se de facto, além do futebol, não tivéssemos outros fatores que criassem esse tal equilíbrio que é necessário para que qualquer pessoa seja saudável. A obsessão não é uma coisa muito salutar, muito higiénica, seja qual for.

O professor Manuel Sérgio costuma dizer que o treinador que só sabe de futebol não é um bom treinador.
Sim, não há muito a acrescentar ao que diz o professor Manuel Sérgio. Há uma diferença entre aquilo que é um treinador e um técnico. Aquele que só sabe de futebol é um bom técnico, mas não é um bom treinador, porque a parte social e humana e a própria sociedade em que nos movemos fazem parte do contexto, do quadro que precisamos de saber gerir. Quando só estamos preocupados com a parte técnica e nos escapam as restantes partes, não passamos de técnicos. Um bom técnico isola de facto o conhecimento do jogo e das suas nunces, mas fica-se por aí. Um treinador preocupa-se com isso, mas também com os aspetos que podemos dizer que são acessórios, colaterais, mas que sem eles não conseguimos caminhar para o sucesso.

Mas o Manuel Machado que começou a ser treinador há 30 anos não pensaria assim.
Não, não. Nós somos dinâmicos, não é? Estamos sempre em mutação, sem perdermos princípios e raízes.

Consegue exemplificar?
O jogador está connosco quatro horas, mais coisa, menos coisa, mas o dia tem 24. Se ele dormir umas oito horas, ainda ficam 12 soltas para fazer montes de coisas, e nessas não sabemos o que se passa. Houve o caso de um jogador que deixou de ter rendimento, e às duas por três alguém que vivia no mesmo prédio vem dizer que às quatro da manhã andava uma grande confusão no corredor, porque fulano de tal e a respetiva esposa estavam num confronto verbal, e por isso ele perdeu essa noite... É uma situação que se arrasta e é cíclica. As nuances de rendimento, muitas vezes, têm a ver com fatores deste tipo. Depois também há coisas que têm a ver com a cultura, porque lidar neste âmbito com um jogador europeu é uma coisa, com um sul americano é outra e com um africano é outra. São formas de estar no mundo muito diferentes e não podemos ver as coisas da mesma maneira e usar, digamos, a mesma mezinha para todos os problemas, porque as pessoas são realmente diferentes, com raízes culturais e educativas diferentes.

Ainda planeia o treino?
Planeio, com certeza. Não de uma forma tão rigorosa e detalhada como há 20 anos, mas continuo a pensar naquilo que é um microciclo, uma fase preparatória, uma fase competitiva.

Mas está envolvido ativamente?
Estou no treino. Não ao nível do futebol inglês, em que o técnico principal delega de uma forma muito grande nos seus assessores, mas de facto sento-me com os meus colaboradores e sei que cada um tem uma tarefa para desempenhar, e eu também tenho uma fase em que me envolvo diretamente com os jogadores, mas fora isso estou de alguma maneira livre para supervisionar. Ou seja, a presença física é uma constante. A execução direta é distribuída pelo conjunto de técnicos à minha disposição.

E sente-se confortável com essa delegação?
Muito.

Mas quando começou a treinar não fazia isso.
Não. Quando comecei, para já, não tinha uma equipa técnica tão numerosa. Era eu e outro, quando era possível. Portanto tinha tudo de ser desenvolvido pelos dois, não é? Hoje, quando se tem quatro ou cinco, as coisas mudam muito de figura, não é? São realidades que se vivem e ainda bem que as coisas se alteraram positivamente. Hoje há muita gente, de formação muito diversa, a contribuir para o treino e que tem um papel importante a desempenhar.

Hoje, acha que terá mais sucesso um treinador ou um técnico?
O treinador, sem dúvida nenhuma. O treinador, conhecendo o lado técnico do jogo e tendo uma perspetiva muito mais angular daquilo que é o ser humano que está à sua disposição, que naquele momento é jogador, mas além de ser jogador é um ser humano, é um cidadão, é um homem social, é um homem familiar...

Rui Vitória é mais treinador e Jorge Jesus mais técnico?
Não queria falar dessas duas pessoas de forma muito específica.

Tiago Miranda

Um treinador de uma equipa pequena preocupa-se com o espetáculo ou joga só para o resultado?
Entende-se a qualidade do jogo de uma maneira abrangente. Tem mais a ver com bom desempenho. Quando se joga bem, normalmente o desempenho é melhor do que quando se joga mal, mas isto é uma regra que não tem uma aplicação cega. Quando me está a falar da qualidade, está-me a falar do bonito, e isso muitas vezes não compensa. Há muitos anos, um agente, quando eu estava no Moreirense e ia jogar com um dos grandes, perguntou-me se eram equipas que jogavam bem. E eu disse que sim. Então, ele disse-me: “Joga tu mal.” Como quem diz: se essas equipas querem a bola, então joga pum, pum... Por isso, muitas vezes, jogar mal é uma ferramenta que se pode utilizar. Não é que esteja a promover esse produto, não estou. Mas a estratégia para cada um dos momentos tem de ser tratada de acordo com aquilo que temos e com aquilo que está do lado oposto.

Mas quando se senta para ver futebol, quem é que gosta de ver?
Não vejo muito futebol, a não ser aquele que tenho mesmo de ver. Vejo de forma exaustiva o campeonato nacional, como é óbvio. E vejo algum futebol dos maiores campeonatos, porque são sempre aprendizagens, são os melhores técnicos e os melhores jogadores e fazem as melhores equipas. Vejo mais o Barcelona, o Real Madrid, o City, o United, o Chelsea... normalmente esses dois campeonatos.

Mas não há nenhum futebol em especial que goste mesmo de ver.
Não. Por exemplo, o futebol alemão não aprecio muito. Dou uma olhada às vezes nas equipas médias espanholas, onde se costuma jogar bem, e no futebol italiano. Mas vejo mais o campeonato espanhol e o campeonato inglês, até por terem intervenientes portugueses.

Iria para o estrangeiro treinar?
Com certeza. O mundo está na cabeça de um alfinete. Entre estar a 1500 quilómetros, no meio do oceano, na ilha da Madeira, ou estar a 3 mil noutro sítio qualquer... Não me fecho em termos de fronteiras.

Faz diferença treinar numa ilha?
É diferente. Cobra-se muito, diz-se que o Governo Regional ajuda, mas aquilo que se dá recebe-se depois em dobro em impostos. Há muitas desvantagens. É o isolamento da ilha. As relações de proximidade entre os clubes locais — Nacional, União, Marítimo — também não são muito boas, e aquilo que se faz com frequência no continente, que é encontrar adversários a qualquer altura, não dá para fazer. Há o desgaste das viagens, além dos custos e dos horários das companhias de aviação. Por exemplo, para jogar às 16h num domingo, sai-se às 19h de sábado, para chegar ao Porto às 22h. Mais bagagem, autocarro... Já não é horário para um atleta jantar e dormir de barriga cheia. Há um conjunto de transtornos. Na pré época os clubes continentais têm seis semanas para fazer o seu trabalho e criar momentos avaliativos duas vezes por semana. As equipas da Madeira têm de fazer duas semanas na Madeira, depois vir para cá duas semanas e fazer um compilado de jogos para fazer sete ou oito jogos em dez ou doze dias, o que não é a mesma coisa, e depois voltam a estar mais semanas sem competir, outra vez no isolamento da região autónoma. Há um conjunto de coisas que atrapalham a vida às equipas que são mais periféricas.

Já apanhou algum jogador como o Bergkamp, com medo de voar?
Não, porque isso seria impossível numa região insular em que o meio de transporte quinzenal é o avião.

Gostou de viver na Madeira?
Muito. Tem um conjunto de vantagens, não nos aspetos desportivos, como já vimos, mas no aspeto social é uma região muito interessante, muito bonita, montanhosa mas com uma envolvência marítima que é uma coisa difícil de conciliar. Temos o Gerês, por exemplo, que é muito interessante, mas não tem o mar ali ao lado. Na Madeira está à distância de um olhar. Portanto há ali um binómio montanha e mar que é muito interessante. É uma ilha com muita luz, por isso o sol predomina ao longo de todo o ano, tem uma amplitude térmica muito baixa, e isso também leva a que as pessoas tenham um caráter de um certo otimismo.

Os adeptos...
[interrompe] São afáveis. Estive na Madeira sete anos e não me recordo de uma única palavra mais azeda ou de uma atitude menos elegante. “Ah, ganhou ao meu Marítimo, seu malandro.” Sempre neste tom amistoso.

É o oposto de Guimarães?
É. O adepto do Norte, de uma maneira geral, mas de Guimarães em especial, é muito mais exigente e contundente na forma como aborda. A seguir aos três grandes, os dois emblemas são o Braga, que neste século tem tido um percurso interessantíssimo, e o Vitória. É uma terra que gosta muito de si mesma. Conheço vimaranenses que gostam dos grandes, mas não há duplicidade nenhuma, se gostam desses não gostam do Vitória. Diria que 90% dos vimaranenses são vitorianos de corpo e alma.

Já teve algum problema de maior gravidade com um jogador?
Há momentos em que, de facto... O importante no meio disto tudo é ter sempre um sentido de justiça no tratamento dos jogadores, quer se fale de uma forma muito adocicada para corrigir um ou de uma forma mais agreste para corrigir outro. Se houver justiça na base da minha atitude de correção, quer um quer outro vão entender e não ficar minimizados. O que é preciso é saber para quem estamos a falar. Que caráter é que tenho pela frente, como é que a minha mensagem passa para esta pessoa. Temos de perceber o homem que há para além do praticante, para tornar o discurso adequado para uns e outros. Mas tem de haver sempre esse sentido de justiça, se não vai-se perder o respeito de quem está do outro lado. Agora chatices, nós temos chatices todos os dias. Problemazinhos. É preciso dizer ao Joaquim, ao Toni, ao Manel que isto ou aquilo não está bem, mas só temos é de perceber como é que temos de dizê-lo para a mensagem passar sem criarmos atritos e desgastes.

Há jogadores com quem janta fora?
Nem jantar nem tomar café. Trabalhei com um treinador, o [Raymond] Goethals, muito lá para trás, na primeira vez que entrei no futebol profissional, que dizia que nem gostava de esticar a mão aos jogadores. Era “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.

Não tem relações com jogadores?
Tenho. Vou dar-lhe um exemplo do plantel... Sabe que plantel é uma palavra que define, em Espanha, um conjunto de gado. Havia um senhor que já faleceu, que foi vice-presidente da Académica, chamava-se Reis Torgal, que de cada vez que eu dizia plantel, numa flash ou numa conferência, me ligava: “Manel, outra vez? Plantel quer dizer manada. Não digas isso, diz conjunto.” [risos] Dizia eu: mesmo quando se fazem jantares, normalmente não vou. Quando são jantares oficiais do clube, em que está lá toda a gente, é claro que vou. Mas isso não é obstáculo a que desenvolva relações de afetividade. Tenho o privilégio de entrar em Braga, Coimbra, Guimarães, e julgo que quando entrar de novo no Nacional, e de poder cumprimentar desde o porteiro ao tratador da relva, ao motorista, aos técnicos de rouparia e aos presidentes, com muito prazer, sentindo-me gratificado pelo reconhecimento dos meus comportamentos nas passagens por essas coletividades. Se for a Fafe hoje, que foi o primeiro clube onde estive em autonomia, tenho as pessoas que ainda lá trabalham com grande prazer de me verem e é mútuo. Só tenho como exceções, ao longo destes anos todos, dois pequenos conflitos que forma públicos e também não quero estar a soprar na brasa para não fazer fogo, mas fora isso estou no jogo com a maior cordialidade e facilidade de relacionamento possíveis.

Ficou-lhe colada a imagem do treinador intelectual...
Sou normalíssimo. Não tenho nenhuma imagem de intelectual, a minha formação académica é mediana, sou leitor de coisas relativamente simples, desde Jorge Amado a García Márquez, e posso ler Tolstoi ou Dostoievski, quando tenho pachorra para isso, que não é o caso agora, mas já li... Tanto oiço Roberto Carlos como U2. Tanto oiço Pavarotti como... ia dizer Marco Paulo, mas Marco Paulo não oiço. [risos] Mas fiz-me entender? Não tenho cá manias de que sou intelectual e só leio e oiço coisas elaboradas. Leio e oiço o que me dá prazer e não tenho fetiches nem dogmas.

Já perdeu a esperança de ir para um grande?
Nunca tive esperança de ir para grande nenhum, minha amiga. [risos] A pergunta que costumam fazer-me é: gostava? E normalmente digo o contrário: gostava era que um grande gostasse que eu fosse. Mas nunca me perturbou, a sério. Se não fui, é porque nunca viram em mim o perfil adequado para isso. E tenho de respeitar. Ponto. Desde que tenha uma equipazinha arrumadinha para trabalhar, com gente que gosta de futebol, estou preenchido. Sempre ganhei o suficiente para ter uma vida limpinha e uma folgazinha.

Então o que é que gostava mesmo, mesmo de fazer no futuro? Há alguma ambição em particular? Ir para a China, por absurdo.
Por exemplo. Quem diz China diz França ou Japão ou Nigéria... Acho que o futebol é universal. É claro que há contextos diferentes e é bom ver como é que as pessoas reagem e desenvolvem o mesmo jogo, debaixo do mesmo regulamento, em sítios diferentes, com povos diferentes. É uma curiosidade.

Já esteve a treinar na Grécia.
Só saí de Portugal uma vez, para a Grécia, não ganhei um tostão e ainda paguei a minha viagem de volta para Portugal. E achei fantástico.

Achou?
Achei. E, como disse, não trouxe um tostão. Foi uma experiência muito interessante. A abordagem que o grego faz do jogo, quer ao nível da estrutura do clube, quer da envolvente, é muito diferente. O grau de entusiasmo e conflito é muito diferente, portanto foi uma aprendizagem.

É verdade que o presidente do Nacional entendia que a equipa deveria ter jogadores de perfil mais técnico, mas o treinador queria outro tipo de jogadores, mais fortes fisicamente?
Isso tem a ver com a ideia que os treinadores têm daquilo que é o seu modelo de jogo. Nunca olhei para o futebol brasileiro como algo muito atraente. Mas o futebol inglês ou o futebol belga quando estava pujante ou o futebol holandês ou alemão foram sempre modelos mais interessantes para mim, pela objetividade. Menos crochê e mais malha grossa. Faço-me entender ou não?

HOMEM DE GOUVEIA/ Lusa

Então não gosta do estilo tiki taka.
Não me parece. Gosto de um futebol mais objetivo, mais vertical, e isso leva a que o praticante para o desempenho desse tipo de futebol tenha um conjunto de características. É preciso um jogar mais robusto e consistente do ponto de vista atlético e físico, mais pragmático no seu pensar do jogo, e esse tipo de jogador não é um jogador do norte do Brasil. Não será muito um jogador da Venezuela... Falando mais desse continente porque não temos acesso a trazer holandeses, alemães ou ingleses para Portugal.

Como é que se entra em concordância com um presidente que não pensa assim?
Tudo se negoceia. É um processo, como tudo na vida. A vida é um processo de cedências. Quem tem bom senso, senta-se à mesa e parte a pedra que tem para partir. No fim, chega-se a um consenso e operacionaliza-se e não há mais discussão sobre isso. Todas as épocas foi assim. O engenheiro Rui Alves é uma pessoa que, quer do ponto de vista profissional quer pessoal, merece-me todo o respeito. Independentemente da questão profissional, é uma pessoa pela qual tenho grande estima. E ele tem o seu conceito. É o líder do clube e tivemos de nos sentar para ver se este sim e aquele não, e eu cedi aqui e ele ali, e a gente conseguiu na maior parte das vezes encontrar grupos, nem sempre, e a prova disso é que este ano as coisas estão como estão, mas consegue-se um equílibrio entre os jogadores que eu pensava serem mais importantes para o meu futebol e aqueles que ele também pensava serem importantes para darem algum perfume ao jogo, algum bonitinho. E na construção dos onzes também se consegue um pouco disso. É estar de calças de ganga e camisa de renda, diria que é cimento e graça, e o jogo também é feito disso, cada uma das linhas precisa de jogadores mais estruturados mentalmente e mais técnicos e outros mais guerreiros, mais fortes fisicamente. E é nesses equilíbrios que se consegue construir um onze equilibrado, capaz de ter robustez para o combate, mas também talento e criatividade para desatar nós.

O que faltou então ao Nacional esta época?
Isso é uma outra conversa. Relativamente ao Nacional o problema neste momento já não é meu e seria até uma deselegância da minha parte, uma indelicadeza, estar a fazer juízos de valor sobre aquilo que correu bem ou menos bem. Por isso não vou falar sobre isso. O que digo é que faço muita força e continuo a estar tão ou mais ansioso, acompanhando jogo a jogo, do coração, a situação do clube e espero que consigam reverter a posição menos simpática que têm na tabela e assegurar o objetivo primeiro de uma coletividade daquela dimensão, que é a manutenção na melhor das ligas portuguesas.

Gostaria de ser diretor ou presidente? Vê-se com esse perfil?
Não, não me parece. Embora um treinador hoje, no âmbito daquilo que falámos mais para trás, já tenha algumas competências nessas áreas, como o diretor tem de ter algumas competências técnicas. A parte desportiva hoje em dia cruza-se muito com a parte comercial, o futebol é um negócio como tantos outros. Portanto é preciso equilibrar os vários saberes e Portugal tem sido um bom entreposto nessa questão. o futebol tem metido muitos milhões na economia do país, porque esse cruzamento entre os técnicos e as admnistrações têm permitido criar equilíbrios entre a parte desportiva e o produto que depois se vende. Mas despir o meu fato de treino para meter a gravata, isso não faço.

Que jogadores é que gostou mais de treinar?
O melhor é difícil dizer, porque tive o privilégio de trabalhar com grandes jogadores, mas há algumas referências, claro. De trás para a frente: Diego Benaglio, que trouxemos com 20 anos e rapidamente chegou à seleção suíça, mas também o jovem Rui Silva, de quem muita gente duvidou. Mas estive com guarda-redes muito bons ao longo destes anos.

Não falou do Nuno Espírito Santo.
Isso já foi bem mais para trás. O Nuno foi um miúdo que fui buscar a um clube chamado São Pedro da Torre, ali perto de Melgaço, com 16 anos, e levei-o para Guimarães. Felizmente, hoje, é um amigalhaço e faço muita força para que lhe corra bem a carreira desportiva, ainda tem uma longa viagem pela frente. Jogadores como o Maicon, que chegou com 19 anos ao Nacional, Rúben Micael, Pedro Mendes, Fernando Meira... enfim, jogadores que atingiram níveis muito elevados. Nos atacantes, houve o Nené, que chegou já não sendo menino, com 24 anos, e sagrou-se o melhor marcador da Liga. Mas vou dar-lhe a última referência, que se chama Tiquinho Soares, que foi agora para o FC Porto e tem feito de facto, degrau a degrau, uma caminhada muito vigorosa no sentido ascendente e que adivinho que vai ainda dar grandes passadas. Isto iria por aqui adiante e não teria fim, porque em tantos anos tive o privilégio de jogar com muitos bons jogadores e boa gente também.

A reforma passa-lhe pela cabeça?
Nem pensar. Enquanto tiver saúde, motivação e mercado, continuarei. Principalmente saúde, porque é muita hora ao sol, à chuva, ao frio, ao vento, àquilo que calha... Chega uma idade em que deixamos de suportar. Não é o caso ainda.

Versão alargada da entrevista publicada na edição de 18 de fevereiro de 2017 do Expresso