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Orlando Sá: “Só a minha família e alguns amigos sabiam o que eu fazia em Israel”

Ele já jogou em cinco países e seis clubes diferentes, uma aventura que lhe valeu, por exemplo, ter conhecido Johan Cruijff, semanas antes de o holandês falecer. Orlando Sá está agora no Standard de Liège e vai com 15 golos marcados, que o fazem o segundo melhor marcador português no estrangeiro esta época, apenas atrás de quem nós sabemos. Aos 28 anos, acha que hoje é mais fácil ser-se miúdo e português e jogar em Portugal, do que no tempo em que ele apareceu

Diogo Pombo

Dean Mouhtaropoulos

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Costumas ver os jogos de todas as equipas em que já jogaste?
Todas não, mas quando tenho oportunidade, quando estou em casa e não tenho nada para fazer, sim. Em especial o Legia. Este é contra uma equipa com quem jogámos este ano, o Ajax [a conversa com Orlando Sá começa no intervalo do Ajax-Legia]. O treinador deles foi o treinador que me levou para o Maccabi Tel Aviv, o Peter [Bosz]. Fiquei com ótima relação com ele e já joguei contra eles este ano, na Liga Europa. E, como estão a jogar contra o Legia, onde tenho vários amigos…

É um jogo especial.
Sim, e eu, conhecendo bem as duas equipas, é um jogo que tinha interesse em ver como iam encaixar uma na outra.

Já jogaste em seis países e nunca ficaste mais do que dois anos no mesmo clube. Não é difícil manter contacto com as pessoas?
Nem sempre. A maior parte das vezes, o contacto é feito ocasionalmente. Cada um segue caminhos diferentes. E nem é com toda a gente. Porque, sempre que se está numa cidade e num clube, há pessoas que são mais próximas que outras. No Legia fui muito feliz e tenho lá bastantes amigos, a gente continua em contacto. Tal como este treinador do Ajax, que me levou para Tel Aviv e que, já antes, me tinha tentado contratar. É uma pessoa, e um treinador, que admiro bastante. Por isso estava a ver o jogo.

Achas fácil ter amigos no futebol?
Muito sinceramente, penso que é muito fácil fazer contactos. Uns bons, outros maus. Amigos de verdade, fazem-se poucos.

Porquê?
É assim, se jogares num clube durante oito ou dez anos, ou toda a tua vida, como o Totti e o Gerrard, que são casos excecionais, de certeza que eles têm amigos para a vida. Mas, quando passas por um clube durante um ou dois anos, podes ficar ali com quatro, cinco ou meia dúzia de amigos, bons amigos. Depois, vais mantendo o contacto de forma ocasional, por telefone ou por Skype, mas nunca é a mesma coisa. Para fortalecer uma amizade é preciso contacto diário, é diferente. Amigo, para mim, é uma palavra forte. Amigo é aquele que está presente todos os dias, nos bons e maus momentos. No futebol, vamos fazendo amigos, sim. Mas, derivado ao facto de mudarmos de clube constantemente, é natural que a gente não tenha a mesma confiança do que com eles amigos que conhecemos na escola e que frequentam a nossa casa. Contudo, e felizmente, posso dizer que fiz alguns amigos no futebol que vão ficar para a vida.

Em que clube sentiste que deixaste mais pessoas próximas?
No Braga, que é o clube mais marcante, é o meu clube, é o clube da maior parte da minha família, que me criou como homem e jogador. E no Legia, em Varsóvia.

Que coincidiu com a fase em que começaste a marcar mais golos?
Sim, desde aí, esta é a época em que estou a superar todos os meus registos. Já na altura em que saí do Legia, para o Reading, era para ter saído para a Bélgica. Mas pronto, por vezes, no futebol, não podemos definir o nosso próprio caminho. Muitas coisas acontecem e o que é hoje já pode não o ser amanhã. No futebol as coisas mudam com bastante facilidade, tanto para o bem, como para o mal. Pronto, felizmente vim para a Bélgica, estou feliz e adaptei-me bem ao clube e à cidade.

Essa parte do nem sempre as coisas acontecerem como os jogadores querem, é por causa dos empresários?
Por vezes, mas nós é que tomamos sempre a última decisão. No caso da minha saída do Legia, ganhei os títulos todos no tempo que lá passei, e tive a felicidade de ganhar títulos individuais. Fui o jogador do ano no clube. Na altura, senti que precisava de um novo desafio, num sítio diferente, também para me testar.

Mas, de um sítio em que jogavas para ser campeão na Polónia, passaste para o Reading, da segunda divisão inglesa.
Sim, se fosse hoje, talvez não tivesse tomado essa decisão. Mas, no Reading, as coisas correram muito bem até dezembro, até à saída do treinador. Estivemos sempre nos primeiros lugares, só que, com a saída do Steve Clarke, passaram-se umas coisas no clube que me fizeram sair. E aceitei o desafio do Maccabi, principalmente pelo Peter, o atual treinador do Ajax, e pelo Jordi Cruijff.

Pois, também te ia perguntar por ele.
São duas pessoas que já me conhecia e fizeram bastante força para eu sair do Reading. Eu tenho casa em Londres e tinha três anos de contrato com o Reading, estava confortável no clube. Mas, com a entrada do novo treinador, as coisas mudaram e acabei por aceitar o desafio do Maccabi. Bem ou mal, foi a decisão que tomei. Aconteceu em janeiro, quando não temos muito tempo, nem opções, para definir o que é melhor para nós. Aceitei o desafio por essas duas pessoas. Mas disse-lhes se, no verão, aparecesse um clube bom que me desse oportunidade de voltar ao centro da Europa, como estou neste momento, que esse era o meu pensamento. Eles aceitaram. Fui, estive lá cinco meses, ajudei o clube a ser campeão e depois surgiu a oportunidade do Standard.

Ben Hoskins

Quiseste logo ir para a Liège?
Apesar de o Maccabi ser o maior clube de Israel e de me dar todas as condições para lá ficar - financeiramente, a vida no dia a dia, as condiçoes de treino, só tenho a dizer bem -, não me sentia feliz naquela liga. Queria uma coisa mais competitiva, algo com maior visibilidade. Como te disse, queria voltar para o centro da Europa. Só a minha família e alguns amigos sabia o que eu fazia em Israel [ri-se, um pouco]. Não é uma liga fácil, mas tem pouca visibilidade. Não era isso que queria, de todo.

Já não sentes isso na Bélgica?
Não, sinto completamente o oposto. Sinto que estou num campeonato muito competitivo, onde é muito difícil fazer pontos e ganhar jogos. Aqui, quando jogas contra uma equipa, supostamente, pequena, não tens o jogo nem a posse de bola assegurados. O Standard não vai ter 10 oportunidades para marcar e a outra equipa duas. Não é como acontece com os grandes em Portugal quando jogam contra o Tondela ou o Feirense, com todo o respeito pelas equipas, supostamente, pequenas. É só para as pessoas não se admirarem se, na Bélgica, virem uma equipa pequena a, consecutivamente, ganhar pontos aos ditos grandes. Em Portugal, isso acontece uma ou duas vezes, é raro. Em Israel, mais raro era. Por isso tenho este pensamento - ao estar aqui, sinto que todos os dias é um desafio. Mudei hábitos que tinha no passado e que já não tenho. Estou mais focado, mais motivado e sinto-me feliz.

Que hábitos eram esses?
De alimentação, principalmente. Antes dos jogos e durante a semana. Um dos hábitos que tinha em Inglaterra era fazer bastante ginásio. Mas, derivado às minhas condições físicas, sou um jogador que não precisa muito. Pelo menos com uma regularidade diária. Mudei isso. Por exemplo, no Maccabi, treinávamos à tarde, na maior parte das vezes, e não tinha a mesma motivação.

Preferes acordar e ir logo treinar.
Sim, e quando não te sentes motivado, é difícil conseguires dar o teu melhor e mostrar todas as tuas qualidades.

Como era conviver com o Jordi Cruijff?
Felizmente, já conheço o Jordi há alguns anos. Sempre tivemos contacto e, quando fui para Israel, tive a oportunidade de conhecer o pai dele. Uma das maiores lendas do futebol.

Eish, que sorte.
O que posso dizer é que o Jordi é uma pessoa muito profissional e que percebe muito de futebol. Está a fazer um excelente trabalho no Maccabi. Foi, talvez, um dos maiores pilares para meter o clube, destacadamente, como o maior de Israel. No nosso ano, inclusive, jogou a Liga dos Campeões. É uma pessoa que tem um nome de referência no futebol e reconheço-lhe muitas qualidades, mas não só por ser filho de quem é.

Chegaste a falar com o pai dele?
Sim, sim. Duas ou três semanas antes de falecer, ele passou muito tempo em Israel. Viu vários treinos nossos. Ficava lá sentado a ver, falava bastante com os jogadores e com o mister Peter. Aquilo que ele dizia… Estamos a falar de uma pessoa que, para muitos, é um sonho conhecer. E nós, ali a treinar, e ele a ver.

Não ficavas nervoso por teres o Johan Cruijff a ver-te treinar?
Não, mas era especial vê-lo ali. No mundo em que vivemos, em que ele teve a importância que teve, era muito especial tê-lo ali, num sítio tão pacato e humilde, a ver os nossos treinos.

Dean Mouhtaropoulos

E há quanto tempo não revês aquele jogo em que marcas um hat-trick à Espanha, nos sub-21?
Ah, sim, é verdade. Por acaso já não o vejo há muito tempo.

Já foi há quase 10 anos.
Foi, sem dúvida, um dia marcante. Lembro-me como se fosse hoje. A Espanha, na altura, era campeã da Europa e, apesar de não sermos favoritos, sabíamos que tínhamos qualidade suficiente para jogar de igual para igual - tínhamos o Rui Patrício na baliza e o Daniel Carriço a central. Eles tinham o Sergio Busquets e o Javi Martínez, por exemplo. A maior parte dos jogadores espanhóis estão nas melhores equipas do mundo. A maior parte dos nossos estão em escalões secundários. Porque será? Falta de qualidade não me parece... Mas esse dia lá me correu bem, estava inspirado.

Foi o primeiro sabor a fama que tiveste? Só tinhas 18 anos.
Muita gente falou desse jogo, na altura. Mas, antes, já tinha, sei lá, umas 30 e tal internacionalizações pelas seleções, e vários golos. O facto de aquele jogo ter sido transmitido em direto, e contra a campeã da Europa, claro que teve outro impacto nos media.

Com essa idade, é fácil um miúdo deslumbrar-se?
Sim, completamente. Vamos ser honestos. Na altura, jogava no Braga, estava a fazer o meu primeiro jogo pelos sub-21, era um dos mais novos em campo, porque estava a jogar com os da geração acima, e correu como correu. Depois, comecei a ter mais oportunidades no Braga, surgiu o interesse de alguns clubes, e concretizou-se a minha transferência para o FC Porto. Foi, sem dúvida, uma fase muito boa da minha vida. Mas, se soubesse o que sei hoje, e tivesse a mentalidade que tenho, as coisas teriam sido diferentes.

Eras demasiado novo?
Era novo demais, era imaturo, não era o profissional que sou hoje, não tinha a experiência que hoje tenho. E, se calhar, não tive ao meu lado aquelas pessoas que me fizessem acordar e dizerem: “Olha, o que estás a viver é a realidade. Aproveita, porque são pouquíssimos os que têm esta oportunidade”. Se calhar também fui um dos culpados para as coisas não terem corrido bem. Mas passado é passado e, felizmente, aprendi com os erros.

O Jesus, no Braga, não te tentava aconselhar?
É assim, vamos ser honestos. As qualidades do mister Jorge Jesus são a nível tático, em campo. Ele não olha para os jogadores como amigos ou familiares. Olha para o jogador como um meio para ele trabalhar e atingir os objetivos, tanto do clube, como os dele. Não estou a criticar ou a dizer que isto são defeitos. Mas o mister Jesus não tem as características de um treinador que se senta com um jogador e tem conversas como amigo, ou conselheiro. Tem o seu próprio estilo. Ele vive muito treino, tem uma forma de trabalhar muito intensa, não olha a caras, a cores ou a nacionalidades. Ele só quer que o jogador melhore, mas é ali, no campo. Quando um miúdo, com a minha idade, já tinha o que eu tinha, e vai para o FC Porto com o contrato que eu assinei e com todas as facilidades que tive, talvez penses que tudo vai ser fácil e cair-te aos pés. Mas o futebol não é assim, muito pelo contrário.

De repente, foste para uma equipa em que olhavas para o lado e tinhas o Falcao e o Hulk.
Pois, e passado umas semanas de assinar, tive uma rotura de ligamentos, ainda no Braga. Fiquei parado durante seis meses e recuperei no FC Porto. Quando voltei, o Falcao já era, destacadamente, o melhor marcador do campeonato. E ainda havia o Tecla, o Farías, que nas poucas vezes que jogava, marcava. Era difícil. Na altura, a mentalidade da estrutura do FC Porto era diferente. Hoje em dia é melhor, na minha opinião. Apostam mais no jogador português e da liga portuguesa, olham mais para dentro. Antigamente, o FC Porto contrava sempre referências para o ataque. No meu ano havia o Hulk, o Falcao, o Cristían Rodríguez, depois veio o Jackson Martínez e muitos outros que passaram por ali.

Hoje é bem diferente.
Com todo o respeito pelos jogadores, hoje há o Soares, o Depoitre, que fez menos golos do que aqueles que tenho neste momento na Bélgica, e o FC Porto comprou-o por sete milhões.

Sim, foi caro.
Não é que seja caro. Uma coisa é teres o Depoitre, outra é estarem lá o Jackson, o Hulk ou o Falcao. Ou teres o Soares ou o Diogo Jota. Uma coisa é teres valores seguros e titulares das suas seleções, onde é difícil um miúdo de 20 anos roubar-lhes o lugar. Outra, com todo o respeito, é estares a competir como o Diogo Jota, o Soares, o André Silva e o Depoitre. Não é a mesma coisa, nem os plantéis são os mesmos de há três, quatro ou cinco anos, e por aí fora.

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Dão mais margem para progredir, atualmente?
Muito mais. E hoje não há, destacadamente, a primeira e a segunda opção. No Sporting, por exemplo, existe o Bas Dost, que é titular e tem feito golos em todos os jogos. Não há outro jogador ao mesmo nível. Antigamente, as equipas grandes em Portugal contratavam referências para jogar e o resto seriam jogadores mais novos, que poderiam ir tendo minutos e oportunidades, fazendo jogos da Taça da Liga ou da Taça de Portugal, como eu os fiz. É isso que estou a salientar, hoje é mais fácil um jogador português chegar a uma primeira liga.

E no teu tempo?
Eu jogava sempre nas seleções nacionais e tive que passar pela Segunda Divisão B, que equivale à terceira divisão atual. Eu e 80% dos meus colegas que jogavam nos sub-21. Hoje, um jogador que jogue nos sub-20 ou sub-21, tem oportunidade, de caras, numa equipa da primeira liga. Os orçamentos não são os mesmos, os investimentos também não, o pensamento está completamente diferente. As pessoas, felizmente, começaram a entender que o jogador português tem qualidade. Preferem olhar para dentro do que para fora. Antigamente, contratavam-se quatro ou cinco brasileiros com o pensamento que um ou outro, pelo menos, seria bom. Mas eles iriam tapar o lugar a portugueses que eram iguais ou melhores.

Ajudou o facto de as seleções conseguirem mais resultados nos últimos anos? Vencemos um Europeu e chegámos à final de outro, com os sub-21.
Sem dúvida. Acho que, acho não, tenho a certeza, que isso foi fruto do muito bom trabalho que é feito na formação dos clubes, onde existem excelentes treinadores que trabalham na sombra e ninguém os conhece. Quando tive oportunidade de defrontar as Espanhas, as Inglaterras e as Suécias, todos os jogadores estavam em clubes de primeira liga, a terem oportunidades, e nós andávamos em clubes de segunda e terceira divisões.

Não tinha nada a ver.
Nada mesmo. Enviavam-nos para plantéis da primeira liga com 10 ou 15 brasileiros. Pronto, era difícil. Felizmente que isso está a mudar aos poucos. Mas, penso que ainda haveria mais margem caso existisse a limitação de jogadores estrangeiros, como existe em alguns países.

Achas que isso faria bem ao campeonato português?
Sim. Neste momento, já somos um campeonato de um nível muito bom. Mas, financeiramente, não podemos competir com Inglaterra, França ou Espanha. Mesmo a Bélgica, no geral, paga muito mais do que a liga portuguesa. Não estou a dizer que a limitação devia ser a quatro ou cinco estrangeiros, como em Israel, na China ou nos Emirados. O jogador estrangeiro acrescenta qualidade muitas vezes. Mas, se houvesse um 50/50, ou caso se proibisse situações, como existem em alguns clube, onde há cinco portugueses e 20 estrangeiros no plantel, um jogador de segunda liga ou de divisões secundários, teria oportunidade para evoluir muito mais rápido. Teria mais qualidade e maior visibilidade caso jogasse na primeira liga.

Sobretudo, se lá chegasse mais cedo.
Teria melhores condições, jogaria com jogadores com maior qualidade, o que o faria subir o nível. Tu, como jornalista, se trabalhares com jornalistas bons, vais aprender muito mais.

Certíssimo.
Quando eras um jogador português, a competir no nacional de juniores, como eu estive no Braga, uma equipa top, eras obrigado a sair para uma segunda ou terceira divisão porque, realmente, não tinhas espaço na primeira liga.

Para acabar, achas que hoje estás mais perto de voltar à seleção nacional?
É assim, olhando para a época que estou a fazer, estaria a mentir se dissesse que não sinto que estou mais perto de voltar. Mas pronto, somos campeões da Europa, o mister Fernando Santos está a fazer um excelente trabalho, como tinha feito na Grécia, e ele saberá o que é melhor para a nossa seleção. Eu, tal como fiz até hoje, vou, humildemente, aceitar todas as decisões e a trabalhar no meu clube, para continuar a melhor enquanto homem e jogador.

Já falaste alguma vez com o Fernando Santos, desde que ele é selecionador?
Não, nunca diretamente. Já falei com pessoas que trabalham com ele e sei que já acompanhou jogos meus no passado. Mas o facto de não ter voltado antes à seleção também é culpa minha. Precisava de ter a regularidade que estou a ter este ano. E, como disse, vamos ver o que acontece.

FRANCISCO LEONG