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Carlos Lopes: “Houve um momento em que decidi que o Mamede não era meu amigo e acabou ali”

Como ele próprio diz, a sua maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles foi tão perfeita que "deu a ideia que era a coisa mais fácil do mundo". Não foi, não é. Carlos Lopes sabe que "atletismo é um jogo de paciência" e conta como aquela medalha de ouro foi pensada ao pormenor. Em entrevista à Tribuna Expresso, o campeão olímpico admite que era sarrafeiro a jogar à bola, confessa que foi difícil sair debaixo das saias da mãe, recorda o dia em que, com sete anos, teve de ir à procura do corpo da irmã no rio que passava à beira de casa e levanta o véu sobre a zanga com Fernando Mamede

Alexandra Simões de Abreu

Carlos Lopes junto do renovado Pavilhão que tem o seu nome

Nuno Botelho

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No dia em que completou 70 anos, o pavilhão que ostenta o seu nome foi reaberto, com uma exposição sobre o percurso do campeão olímpico. Carlos Lopes não esconde estar orgulhoso e feliz com o esforço feito pela Câmara de Lisboa. Numa visita ao seu passado, revela à Tribuna Expresso como preparou e viveu até agora a maratona da sua vida.

O que é que ainda está por contar sobre o mítico dia 12 de agosto de 1984, em que conquistou a primeira medalha de ouro olímpica portuguesa?
Acho que já se falou e inventou tanto que não sei o que possa dizer mais.

Foi o dia mais feliz da sua vida?
Não vou por aí, porque se dissesse que era o dia mais feliz da minha vida se calhar estava a cometer algumas inconfidências. Até chegar aos Jogos tive sempre coisas muito boas e perfeitas, que me deram também um prazer tremendo. Agora esta é aquela que foi mais bem concluída, que fez com que os portugueses se orgulhassem, que deu a conhecer ao mundo que em Portugal também se fazia atletismo e projetou o desporto português para outros patamares, que deu a ideia de que somos capazes de fazer tudo e mais alguma coisa e que não somos inferiores a ninguém. Penso que aquele feito teve esse peso, essa confirmação, esse valor acrescentado.

Foi para lá convencido de que o ouro era seu?
Acima de tudo tinha quase a certeza de que ficava nos três primeiros lugares. Mas claro que o objetivo principal era ser o primeiro. Isto porque andei dois anos e meio a preparar a maratona. Repare que até aos Jogos nunca ganhei maratona nenhuma.

Antes pelo contrário, desistiu em Roterdão, seis meses antes dos Jogos. Foi propositado?
Toda a gente sabia, principalmente eu próprio, que queria ser campeão olímpico. E a maratona que antecedeu os Jogos, em Roterdão, não era a prova que me dava mais gozo participar naquele momento. Mas com tanta insistência da organização eu disse que ia mas com uma condição, que estivessem lá os melhores atletas africanos.

Porquê?
Porque já os conhecia dos 5.000 e dos 10.000 metros e dos crosses, mas nunca tinha feito maratonas com eles. E queria perceber bem a sua função, em função da maratona, dos 42km. A determinado momento aquilo era uma corrida para loucos e pensei “quero ser campeão e isto não me vai servir para coisa nenhuma, portanto a melhor forma é inventar aqui qualquer coisa porque vou desistir”. E introduzi outras fórmulas para haver um maior desgaste, sabendo eu que a ação desse desgaste nos meses seguintes não seria a melhor para os Jogos. Foi isso que eu fiz.

Mostra argúcia e estratégia da sua parte.
Mas eu quando ia para uma competição sabia como é que ia correr, sabia como é que os meus adversários corriam, onde eles atacavam, etc. Tinha sempre na cabeça a minha competição. Muita gente dizia “o Carlos Lopes corre de trás para a frente”. Eu não corria de trás para a frente, impunha um ritmo equilibrado e que me permitia brincar um bocadinho. Por isso é que o professor Moniz Pereira dizia: “Tu a 50% és melhor dos que os outros”. Porque ele sabia que eu geria muito bem as minhas competições. Da mesma forma que eu tinha essa noção de ritmos isso também me dava a capacidade de gerir bem os momentos menos bons e os maus. Por isso quando a prova não estava correr como eu imaginava, essas eram situações pontuais que eu conseguia gerir.

Quando é que percebeu que era capaz de chegar ao ouro?
Quando fui para Los Angeles também tinha uma estratégia e tudo correu dentro daquilo que eu queria e como queria. Fiz para que isso acontecesse, porque de vez em quando ia para a frente para não deixar morrer o ritmo. Convinha-me que o ritmo fosse sensato e equilibrado e de certa forma um bocadinho rápido porque preparei a prova para os últimos cinco quilómetros e sabia que quando chegasse aos 37km era eu que ia decidir. E porquê? Porque eu era só melhor atleta do mundo dos 10.000m e um dos melhores em 5.000. Tinha uma vantagem tremenda sobre todos. Com estes elementos é facil gerir bem a coisa.

Foi só nos últimos 5km que percebeu que ia ganhar?
Não, da mesma forma que por volta dos 20/25km percebi quem é que ia para ganhar. Sabia que o Alberto Salazar não era de certeza, quando vi o Castella oscilar percebi que não estava nas melhores condições, sabia que o Nzau e o Ikangaa também não iam estar nas melhores condições, precisamente por causa da prova em Roterdão, e tudo isso correu a meu favor. Da mesma forma que por norma, em JO, os favoritos raramente ganham. Há sempre uns estranhos que aparecem e eu estava incluído nesse lote. Sabia que os manos Takeshi So e Toshihiko So também não me faziam grande mossa. E portanto, o momento estava decido, era a partir dos últimos 5 km. Era ali que eu ia atacar. Até achei estranho, porque foi muito rápido, estava à espera de mais dificuldade da parte dos meus adversários, do Spedding e do Treacy. A partir do momento em que dei o esticão final, para decidir de vez e aumentar o ritmo, quando olhei para o lado e não vi ninguém, pensei, “já?” E aí continuei no meu ritmo, não foi preciso dar mais. Depois disso fui tentando tranquilizar-me a mim mesmo.

Como?
Só pensava: “Tranquiliza-te, tem calma, não te apresses, há muito tempo, vais longe dos outros, tem calma”.

Emocionou-se?
Não. Não era uma pessoa de emoção mas que aceitava bem as coisas, tanto aceitava a vitória como a derrota.

É verdade que refreou as voltas que deu à pista, depois de ganhar, por respeito aos adversários?
Sim. Depois de ter acabado a prova e de ter dado uma volta à pista, quando começo a ver os meus adversários chegar sem quase se poderem mexer, como humano que sou, pensei que era uma falta de respeito eu estar ali a correr tão fresco.

Mas deu-lhe gozo…
Claro, a quem é que não dá gozo, sendo um momento histórico, que eu queria muito, sendo o momento mais alto da história do desporto português, quem é que não se sente orgulhoso?

Ainda se lembra quais foram as primeiras palavras do professor Moniz Pereira?
Ele não tinha palavras para aquele momento. Nem ele nem ninguém. Porque aquilo parecia uma coisa tão natural e tão à vontade, que deu a ideia que era a coisa mais fácil do mundo fazer uma maratona. Eu preparei a maratona ao milímetro, tudo saiu na perfeição, sentia-me naqueles momentos em que quanto mais corria mais queria correr. Perante isto quem é o treinador que não está feliz? Que palavras é que tem, para dizer o quê, depois de uma prova daquelas? Ele agarrou-se a mim a chorar. Não havia mais nada a fazer ali. Da mesma forma que a minha mulher também começou a chorar e eu lhe disse: "Ah, quer dizer, eu é que corri e tu é que choras?" (risos). Aquilo é para a gente viver o momento, não é para chorar.

Mas nem nessa altura se emocionou?
Não.

Emociona-se mais hoje?
É normal. Porque eu sei que já não volto a fazer aquilo que fiz (risos).

Depois de viver um momento daqueles, com todo o simbolismo que acarretou, aos 37 anos e meio, não teve vontade de deixar de correr logo a seguir?
Depois disso bati o recorde do mundo da maratona, fui campeão do mundo em Lisboa. Não era um prejuízo ter abandonado logo a seguir? Também temos de saber viver. E para se saber viver temos de tirar partido daquilo que se fez. Foi o que fiz. Tentar ganhar dinheiro depois daquele feito.

Diploma da medalha de ouro de Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984

Diploma da medalha de ouro de Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984

Nuno Botelho

E conseguiu?
Nem por isso. Contava ganhar mais dinheiro para a minha velhice. Só que tudo acaba muito depressa. Nos meus melhores momentos, em que ganhei medalhas e fiz grandes resultados, normalmente aparecia uma lesão. E perdi muito dinheiro com isso. Podia ter ganho mais medalhas em JO, mas as lesões…perdi muito dinheiro, hoje podia ser um tipo rico e não sou, continuo a trabalhar.

Os tempos também eram outros, não havia tantas marcas a patrocinar como há hoje.
Já havia, não havia era para os portugueses. Quantos e quantos atletas não viviam disso, nos EUA, por exemplo.

Fez o seu melhor contrato nessa altura com a Nike, não foi?
Foi. Começou em 1982 ou 83, mas não fiquei rico com isso.

Mas foi esse contrato que lhe permitiu em 1984 ficar instalado num hotel com a sua mulher e não na aldeia olimpica. Porque fez essa opção?
Eu já tinha tido a experiência de dois Jogos, em 1972 e 76. E sei o que se sofre quando se esta numa aldeia olímpica.

Conte lá isso.
Ao fim de oito dias toda a gente se zanga por tudo e por nada. Quando se aproximam as competições, começam: “olha a janela”, “não batas com a porta”, “olha a corrente de ar”. Enfim, acontecem as coisas mais incríveis. E para o meu feitio e maneira de estar, que não ligava nada a essas coisas. Nunca me preocupei se a porta estava aberta ou fechada ou se a janela estava entreaberta… Depois, muitos acabavam as provas e faziam uma barulheira a noite toda, não deixam descansar ninguém. Passei por isso duas vezes. Daquela vez disse: "Não". Não vou estar vinte e tal dias numa aldeia olímpica em que é sempre a mesma comida, as mesmas caras, sempre as mesmas chatices. Não quero. Se tenho a Nike que me dá todo o apoio, que me arranja o hotel, que me dá condições esplêndidas para treinar, junto ao mar, onde posso passear, tenho a minha mulher comigo, porque é que me hei-de estar a chatear? Foi a melhor coisa que fiz. Além do mais, por norma, os melhores atletas do mundo, que vão para ganhar medalhas de ouro, não ficam na aldeia olímpica. E eu é que era diferente dos outros? Não. Também tentei criar as mesmas condições, para que tudo corresse bem. Além do mais tinha os melhores médicos e massagistas por minha conta, patrocinado pela Nike. Isto são condições que um tipo não pode desperdiçar em momento nenhum.

O professor Moniz Pereira apoiou-o nessa decisão?
Numa primeira fase fizeram tudo para que eu fosse para a aldeia olímpica. Mais tarde compreenderam este meu raciocínio e vontade. Mas não foi fácil. Fugir à rotina do que é normal nestas situações… Compreende como somos, arranjamos todos os argumentos para chatear. Mas eu estava muito vacinado e o meu objetivo era só um e levei por diante aquilo que eu achava que era o melhor para mim e para o momento da maratona.

Qual foi o maior ensinamento que reteve do professor?
Rigoroso, extremamente pontual, disciplinado. A disciplina é que cria o ambiente e a carreira de qualquer atleta. Quando um técnico não chega a horas, não liga nenhuma, quando se dispersa e não consegue equilibrar o atleta com o treino, é muito complicado. O prof. Moniz Pereira era extremamente rigoroso e sabia o que é que queria e isso cria em nós uma disciplina tremenda levamos a sério as coisas e passamos a acreditar nas suas capacidades e nas nossas próprias. Por isso é que nós, atletas, aceitavamos as regras do jogo.

Foi treinador, mas acabou por não seguir a carreira. Porquê?
Gosto muito da honestidade, trabalho com honestidade, gosto de colaborar, às vezes sendo maltratado… e andar a trabalhar, criar jovens para outra dimensão e de um momento para o outro ficar sem os atletas, custa muito.

Está a referir-se em concreto a quê?
Fui treinador no Belenenses, no Maratona, no Sporting, no Núcleo Sportinguista da Lourinhã e um tipo está a fazer uma equipa e de repente ver ser destruído todo o seu tranbalho em prol de…

Mas quem é que lhe tirava os atletas?
Isso agora não interessa. O último foi no Núcleo Sportinquista da Lourinhã, em que andava a treinar um miúdo e quando começo a perceber que havia ali manobras de outros treinadores, não gostei e disse “meu menino vai treinar com quem quiseres” e abandonei a carreira de treinador. À minha custa não, à custa do meu trabalho ninguém vai mais ter atletas. É injusto e como não gosto de injustiças sou muito radical. E como não me quero ofender com ninguém, porque eu estou aqui é porque gosto de viver a vida, é muito simples. Perderam um treinador e perderam se calhar um dinamizador do atletismo para o futuro.

Hoje quando olha para o nosso meio fundo e fundo, o que sente?
Uma grande tristeza. Uma grande tristeza por culpa própria, porque o grande problema hoje em dia é que os treinadores não falam entre si, não criam equipa. Toda a gente acha que sabe tudo, toda a gente quer ser melhor do que o outro.

Há muita competição.
Competição estúpida. Toda a gente quer ser o melhor do mundo, toda a gente quer ser um professor Moniz Pereira, mas Moniz Pereira só houve um, como Carlos Lopes só havia um. Não vale a pena irem por ai. Em vez de se unirem, discutir ideias, fazer trajeto para o futuro, não, toda a gente quer ser o melhor. E porquê? Porque se não houvesse muito dinheiro envolvido possivelmente as coisas aconteciam mais naturalmente.

Foi treinador do seu filho Nuno Lopes.
Sim, e por isso fez os resultados que fez. A partir do momento que saiu de mim, deixou de os fazer.

E porque é que ele deixou de ser treinado pelo pai?
Por causa das tais guerras de bastidores. Você é mãe de um menino ou menina, e dentro das suas condições dá-lhe aquilo que acha que é o ideal, mas se vier outra mãe e disser ao seu filho, se fizeres isto, eu arranjo forma de ter darem isto, mais isto, mais aquilo, o que você vai fazer? O miudo não aceita? No desporto joga-se muito com o factor de quem manda e quem manda às vezes tem muita força, não é pela razão mas pelas convicções. E depois perde-se tudo. E tem-se perdido muitos jovens nestas condições.

Os clubes, a federação, estão todos coniventes com isso?
Claro que estão. E toda a gente sabe disso. Depois temos os resultados que temos.

É frustrante para si?
Não, é um alerta para as pessoas pereberem os erros que estão a cometer. Não ganho nada em sentir-me frustrado. Se eu fosse professor de educação física, se calhar era o melhor treinador do mundo e ninguém me tocava. Mas não sou professor de educação física.

Está a dizer que olha-se demasiado para os cursos superiores que as pessoas têm ou não?
Para o elitismo. Funciona assim em todos os setores da vida. O Moniz Pereira aprendia com aquilo que os atletas faziam e nunca pôs isso em causa. Ele também aprendeu muito com os atletas que treinava. Penso que foi daqueles homens que mais soube tirar partido das características de cada um dos seus atletas.

Então não teve uma carreira de treinador por não ter um curso superior? Não lhe reconheciam valor por causa disso?
Em parte sim. Em parte. E eles sabem que eu sei.

Mas tem um “know how”, uma experência que muitos treinadores não têm.
É verdade e eu sei disso.

E isso não pode ser aproveitado de alguma forma?
Já tenho 70 anos para ter juízo. Mas ainda não perdi a esperança de fazer a minha escola de meio fundo/fundo com o nome Carlos Lopes.

Onde?
Gostava de começar em Lisboa, mas se calhar depois ser transversal a outras regiões do país.

Está dependente do quê?
Da minha vontade.

Já tem apoios?
Estou a tratar disso. Não é fácil, digo já. Jovens com valor em Portugal nós temos. Por aí estamos descansados. E é uma pena perderem-se tantos valores.

E perdem-se também porque os jovens não têm paciência para correr distâncias mais longas?
Isso é outro problema, ninguém tem paciência, toda a gente quer resultados imediatos e o atletismo é um jogo de paciência. Se percebermos que um atleta de meio fundo/fundo demora sete a dez anos a fazer… é muito tempo. Ter capacidade de gerir durante quatro, cinco, seis anos, não é facil. A exigência é enorme. Agora não podemos ter um jovenzinho e fazer logo dele campeão e depois, dentro de três ou quatro anos, já deu tudo o que tinha a dar. Isso é que não pode ser.

O Carlos afirmou que o Rui Silva era um dos nossos melhores atletas, que podia dar muito ao meio fundo e fundo. Não se concretizou.
Eu esperava muito mais do Rui Silva como atleta. Agora, se calhar não foi muito bem aconselhado ao longo da sua carreira. Ele é um atleta extraordinário, tinha uma base de velocidade do melhor que havia no país, basta ver os resultados em 800 e 1.500m, e parece-me que ficou extremamente preso a estas duas disciplinas. Devia ter crescido com o tempo, devia ter ido para os 5.000m, para os 10.000m, mas quis fazer uma travessia tremenda dos 1.500m para a maratona. Ora isso é quase incompatível, porque para chegarmos à maratona temos de conhecer muito bem a distância dos 5.000 e conhecer melhor ainda os 10.000m, conhecermo-nos a nós com a distância, perceber onde é que é a nossa falha e onde é que é o nosso melhor momento, crescer com os quilómetros e crescer com os resultados e então sim depois dedicamo-nos à maratona. Porque aí as coisas tornam-se mais fáceis e viáveis para um grande resultado. Acho que esse trabalho não foi feito. Não é por fazer um bom resultado uma vez que lhe permite ser muito bom naquilo que ele acha ser capaz. Não é assim. E repare, quem são os melhores atletas do mundo na maratona hoje em dia? São aqueles que fizeram 5.000 e 10.000m muitas vezes e que fizeram grandes resultados.

Compreendeu a transferência dele para o Benfica?
Há momentos da nossa vida em que nós próprios não entendemos muito bem como é que as coisas acontecem. Depois, a vontade familiar também pesa um bocado na nossa decisão. Penso que foi um bocado por aí. Vontade familiar, se calhar com ofertas que o Sporting na altura não podia dar. Embora, como diretor do atletismo, eu queria o Rui Silva mais tarde como o treinador principal do clube. Eu queria. Mas se calhar não foi o suficiente. Estas mudanças custaram. Fiquei um bocadinho surpreendido mas não posso fazer nada.

Falou com ele?
Falei. A decisão dele já estava tomada, não valia a pena. Foi uma decisão dele com alguma antecedência. Não havia nada que o fizesse mudar de ideia. Temos que aceitar, se calhar com um custo elevado no futuro.

Nunca lhe passou pela cabeça meter-se na federação?
Ser diretor do atletismo do Sporting permite-me dar mais ao atletismo do que na federação. A federação tem de gerir todas as associações. No Sporting estou em contacto mais direto com os atletas. Dá-me mais prazer, mais gozo.

O Sporting tem neste momento uma boa equipa de atletismo?
O Sporting sempre foi muito grande na modalidade.

Mas o Benfica está a dar luta…
O Benfica, por muito que custe ouvir, tem de perceber que o Sporting esteve sempre muito à frente. As pessoas e os atletas têm essa perceção. O Sporting continua a ser aquele que melhores condições dá aos atletas para crescerem.

Gosta do presidente Bruno de Carvalho?
Tenho de gostar do presidente que tem dado às modalidades alguma credibilidade. Quando ele chegou ao clube as modalidades estavam muito mal financeiramente. Aos poucos e poucos tem vindo a aumentar o orçamento. Não é por acaso que as modalidades estão a crescer e estão mais visíveis.

Houve uma altura em que se sentiu maltratado pelo Sporting.
Há filosofias de presidentes que tem muito a ver com a forma como são aconselhados. Eu não sou pessoa de andar a chatear, porque isso não me traz nada, ou sou bem recebido e cumpro ou não me dizem nada e eu passo bem também.

Como foi crescer com seis irmãos, sendo o mais velho?
Não foi uma infância fácil, mas fome nunca passei. Quanto a ter muitos irmãos… há sempre zaragata ou com um ou com outro, mas são zaragatas que nos fazem crescer. Tínhamos que nos dar bem, era uma aldeia pequena, toda a gente se conhecia.

Sempre foi magricela…
…Até aos 13 anos era um pisco a comer. Comia muito pouco. Não gostava. Então tudo o que levasse cebola, era um problema. A única coisa que comia bem era um bife com batata frita. Era guloso. Mas a partir dos 13 anos, quando comecei a trabalhar, parecia um leão, tudo o que vinha marchava (risos). Ainda por cima a minha mãe era boa cozinheira. Lembro-me que ao domingo, a minha avó paterna, fazia sempre coelho com arroz e eu tinha que arranjar um bocadinho para lá ir comer aquilo. Sabia-me tão bem.

Qual foi o seu primeiro trabalho?
Servente de pedreiro. Mas ao fim de oito dias achei que era muito pesado e que não era aquilo que queria. Fui para uma mercearia, mas como também o que fazia era levar coisas a casas dos senhores, também vi logo que não era aquio que queria. Depois fui para uma ourivesaria, queria ser relojoeiro. Já me agradava. Mas o patrão pôs-me a colocar os vidros nas armações dos óculos e não gostava. Fui para serralheiro civil. Era um saltitão. Fiz a quarta classe e o meu pai disse-me que tinha de ajudar os meus irmãos porque só um a trabalhar não chegava e foi por isso que comecei a trabalhar.

A corrida surge por acaso.
Sim, eu queria ser futebolista, porque já naquela altura era o que dava mais “guito” (dinheiro).

Mas não lhe viram grande talento!
Não, porque eu tambem era um bocadinho sarrafeiro. Eu não tinha corpo, tinha que arranjar…quem não tem cão, caça com gato. Mas tinha alguma habilidade. Juro que tinha.

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O atletismo começa no Lusitano de Vildemoinhos com um grupo de amigos. Quando é que vai para o Sporting?
Quatro meses depois.

Mas primeiro foi sondado por outros clubes e recusou.
Pela Académica e depois pelo Benfica, mas não quis.

Porque já era sportinguista?
Já era do Sporting, mas não foi por isso, foi porque no Sporting estava o meu ídolo, o Manuel Oliveira, que tinha sido 4º nos JO. Gostava da sua maneira de estar e de conviver com as pessoas. E o Sporting já tinha a melhor escola de meio fundo/fundo. Mas foi o Sporting que veio bater à minha porta.

Foi uma mudança grande, sair de um aldeia perto de Viseu com 17 anos para ir para a capital, sozinho.
Foi um bocado doloroso porque nunca tinha saído debaixo das saias da minha mãe. Quando cheguei à zona da Batalha comecei a pensar “No que é que te vais meter?” e as lágrimas começaram a cair. Mas também depressa me recompus e disse: “Eu não quero voltar à minha terra como um falhado”. E isso criou em mim um espírito e uma força tremenda.

Foi viver para onde quando chegou a Lisboa?
Fui mesmo para a casa do diretor que me foi buscar, o Firmino Afonso. Depois arranjaram-me um quarto, junto da sede do Sporting, na Rua do Passadiço. Éramos um grupo, eu, o José Lourenço e o Eduardo Simões.

E começou logo a trabalhar?
Claro. E levantava-me muito cedo porque tinha de apanhar dois autocarros para chegar à fábrica na Marechal Gomes da Costa. Era serralheiro civil, coisa que detestava. Depois fui para a J. Cartaxo, na Paiva Couceiro, como torneiro. Estive aí dos 18 até aos 21 anos. Entretanto fui para a tropa.

Esteve três anos na tropa.
A tropa é que me obrigou a lá estar três anos (risos). Havia o problema da guerra do ultramar. Assim que entrei na porta de armas disseram-me que já estava mobilizado para o norte de Angola. Nesse dia voltei a chorar. Mas o atletismo safou-me. Nunca gostei da tropa, porque sempre entendi que aquilo não era uma guerra minha. Não era nada meu. Andei na tropa por obrigação, porque se não fosse era preso.

Quando saiu da tropa o que foi fazer?
Como não dava para viver só do atletismo voltei a trabalhar. E comecei a trabalhar uma semana antes de um campeonato nacional de equipas. Quando cheguei à competição não podia com as pernas. Oito horas de pé, como torneiro mecânico… . Até que cheguei junto do prof. Moniz Pereira e disse-lhe, “está na hora, ou me arranjam um emprego capaz ou desisto do atletismo. Eu até ganho bem no meu ofício”. Já naquela altura ganhava 140 escudos por dia. Isto em 1971. Então arranjaram-me emprego no Diário Popular, como paquete. Depois fui para o Credito Predial como continuo, depois para o Banco do Algarve, que era do João Rocha, e depois fui para o BCP. E foi assim o meu percurso de trabalho.

Sentiu-se muitas vezes injustiçado com a forma como o Sporting e o Estado o trataram em alguns momentos?
Se fosse um tipo rancoroso, dizia que sim. Mas como sou uma pessoa liberta e penso por mim, não entro em choros compulsivos. Portanto não posso entrar por aí.

Mas não sente alguma mágoa por não o terem aproveitado melhor?
Será que eu também não sou um bocadinho responsável por isso?

Em que medida?
Se eu fosse uma pessoa teimosa que quisesse muito, se calhar tinha outras coisas. Mas como sou um deixa andar, também pago essa factura.

A sua mulher era atleta do Sporting, foi lá que se conheceram. Ela deixou o atletismo por causa da família. Nunca lhe cobrou por isso?
Ainda hoje (risos). Não cobra, mas de vez em quando lembra-se que se tivesse continuado a trabalhar hoje tinha uma reforma. É normal.

Houve uma altura que corria o boato de que o Carlos Lopes andava a vender de porta em porta com a mulher…
A minha mulher foi agente de uma marca de uma máquina de limpeza. E ela não gosta de andar sozinha, sempre andou acompanhada. E pedia-me para ir com ela. Muitas vezes não fui, mas outras lá ia fazer de chofer. Nessa altura eu até era treinador do Sporting. Tinha a minha missão, mas à noite quando ela tinha que ir para aqui e acolá, não queria ir sozinha e lá ia eu.

Tem pena que nenhum dos seus filhos tenha seguido mais de perto as suas pisadas?
O Nuno esteve a 32 centésimos dos mínimos para os Jogos de Atlanta. E não foi porque entenderam que ainda não estava na altura. E depois perderam dois atletas. O João Abrantes que estava a acabar e perderam o Nuno Lopes que abandonou também.

Porque é que ele abandonou?
Porque sentiu-se injustiçado. E perante isto o que posso dizer? Os meus filhos têm uma personalidade muito vincada também. E quando vêem que há maldade ou que não estão a ser corretos, também não perdem muito tempo.

Conte lá a história do churrasquinho que pediu a Mário Soares antes de partir para Los Angeles?
Ele era primeiro ministro na altura e quando a comitiva foi despedir-se, eu fiquei para último e perguntei-lhe: “Oh Dr. se eu ganhar uma medalha, não temos direito a um churrasquinho de cabrito aqui no nosso quintal?”. Ele virou-se para mim e respondeu: “Eh pá, você tem uma lata do caneco. Olhe, mas traga lá a medalha que não é um cabrito, é um boi”. E assim foi. Com a comitiva toda e mais alguns convidados. Foi giríssimo.

Emocionou-se ao falar de Mário Soares. Teve pena que ele não estivesse na reinauguração do Pavilhão Carlos Lopes?
Há situações e momentos que nunca nos podemos esquecer. Da mesma forma que eu fiz aquele discurso, mas falhei. Tinha algumas coisas em mente e depois falhei.

Está a referir-se a que discurso?
Agora, o que fiz na inauguração da minha exposição no Pavilhão. Falhei, mas não posso voltar atrás, não há nada a fazer. Era uma homenagem merecida a minha mulher e os meus filhos subirem ao palco para estarem comigo naquele bocadinho. Pensei nisso, mas na altura passou.

A exposição sobre a carreira e vida do primeiro campeão olímpico português pode ser visitada gratuitamente no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa

A exposição sobre a carreira e vida do primeiro campeão olímpico português pode ser visitada gratuitamente no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa

Disse-lhes?
Não disse diretamente. Mas disse que falhei nalguns pontos.

Eles perceberam?
Não.

Quando decidiu terminar a carreira, custou-lhe?
Nada. Isso já vinha a ser pensado.

Qual foi o momento em que disse para si “É agora. Acabou.”?
Já tinha pensado nessa eventualidade, porque sempre soube que isto tem um início e tem um fim. E quando comecei a perceber que a minha energia e recuperação já não eram as mesmas, vi que estava a começar a criar um problema e eu não queria entrar em sofrimento. Há sofrimentos e sofrimentos. Entretanto o mestre Kobayachi tinha-me dito “Carlos, ou páras ou cadeirinha de rodas!”. Pensei “sofro que nem um cão, já oiço coisas que não devo, já fiz o que fiz, andas aqui a fazer o quê?”. A última prova que fiz, em Faro, quando acabei senti uma picadelazinha e pensei “mais um mês parado? Não. É hoje”. Cheguei ao palco e disse: “Meus amigos agradeço-vos por tudo, mas acabou aqui a minha missão”. Foi logo ali. Sem avisar ninguém. Houve muita gente que estava convencida que eu estava a brincar, mas nunca mais corri.

Ao longo da vida meteu-se em varios negócios que não correram bem...
Em negócios sou um zero à esquerda. Perdi muito dinheiro.

Em que negócios é que se meteu?
Variadíssimas coisas. Sabe, quando um tipo tem amigos e eles começam a desafiar para fazer isto e aquilo… só que o tempo vai passando e a gente vê que aquilo é tudo uma mentira pegada. E quando começa a investir e depois não quer desistir e quer avançar, mas não consegue…um tipo perde muito dinheiro nisto. Tive lojas de desporto, tive cabeleireiros, lojas de roupa, etc. Perdi muito dinheiro com estas brincadeiras.

Conseguiu reunir algum património ao longo dos anos?
Com o tempo foi diminuindo. O dinheiro não me cai do céu. Hoje em dia tenho a minha casa em Santa Cruz, que estou a pagar. Tenho uma lojinha que está arrendada. E mais nada. O dinheiro que eu gastei nessa coisas se tivesse comprado um ou duas lojas para arrendar…

Quanto dinheiro perdeu?
Não faço ideia, mas não foi tão pouco como isso. Para cima de 100 mil euros.

Hoje vive da sua reforma, do cargo que tem no Sporting e do rendimento dessa loja?
Sim e de uma avença do Estado para andar nas escolas a falar de mim e do atletismo.

É bem disposto e otimista?
Sou otimista de quando em vez. Bem disposto, depende do dia. A minha maneira de estar é, não te preocupes que tudo se resolve.

Os seus irmãos ainda estão todos vivos?
Uma faleceu há pouco tempo. Outra morreu afogada, tinha dois anos. O rio passava mesmo à porta de casa. Eu tinha sete ou oito anos. Andei à procura dela junto ao rio. Custou muito.

Porque é que o Carlos e o Fernando Mamede não ficaram amigos?
Por questões de mentalidade de um e de outro. Eu tenho uma maneira de estar na vida, ele tem a dele. Há momentos em que temos de decidir o que queremos para a nossa vida, se vale a pena ter amigos ou não. E houve um momento em que eu decidi que ele não era meu amigo e acabou ali.

Zangaram-se?
Eu zanguei-me.

Como é que o prof. Moniz Pereira como lidou com isso?
Era um homem extremamente inteligente que sabia tirar partido dos momentos certos, nas horas certas e que compreendia as situações e não se intrometia na vida de cada um. Ele não podia resolver nada. Se nenhum de nós os dois até hoje resolveu, porque é que ele havia de resolver?

Ainda não se falam?
Não tenho de falar, porque é que tenho de falar?

Mas o que é que aconteceu?
Quando você é confrontado com uma situação e não gosta, você perdoa?

Mas que situação foi essa?
Uma situação pessoal.

Não tem nada a ver com o atletismo?
Não, nada, nem com mulheres, nem com nada. Foi pessoal. Ele proferiu umas palavras que eu não gostei e portanto a partir dali deixou de ser meu amigo. E eu não tenho de falar com pessoas que eu não quero. Não mete nada de atletismo, mete a mim, a minha pessoa.

Sentiu-se ferido…
E aí não há nada a fazer. Lamento.

Vocês eram constantemente comparados…
…As comparações têm que ser feitas, mas aquilo que se diz da boca para fora é que tem de ser medido.

Está contente com a remodelação do Pavilhão Carlos Lopes?
Acho que quem deve estar contente são os lisboetas. Todos nos lembramos do que aquilo era. Aquela cara lavada é um orgulho. E ser inaugurado no dia em que faço 70 anos, em que é inaugurada também uma exposição, é uma coisa que transcende, tenho de estar orgulhoso. Aquilo é uma valorização tremenda e poderá ser mais se for aberto a todas as escolas para os jovens perceberem o que ali está, o trabalho que deu e a projeção que deu além fronteiras.

Quando já cá não estiver como gostaria de ser recordado?
Por aquilo que sou.

E quem é o Carlos Lopes?
Uma pessoa normal.

Não sente que é um simbolo nacional?
Não quero ir por ai. Sou uma pessoa normal mas com o sentido da realidade daquilo que fez e daquilo que demonstrou ser ao longo de uma vida. E esse orgulho não se vai perder nunca. Quando as pessoas se me dirigem e agradecem pelo que fiz, essas é que são de facto as medalhas, que todos sentem e que faz parte do orgulho de um país.

Os miúdos hoje ainda sabem quem é o Carlos Lopes?
Há muitos que não, o que é normal. Já passaram 33 anos da medalha de ouro. É muito ano. Por isso quando vou às escolas peço aos professores para fazerem um trabalho sobre o Carlos Lopes, porque é a única forma de me conhecerem e à minha obra. Porque se eu aparecer sem mais, não lhes diz nada.

Sente que foi o maior atleta português?
Faz-me perguntas tão diretas que às vezes tenho dificuldade em responder! Pessoalmente fiz tudo para ser o melhor e marquei momentos que ficaram na história.

E sente que há reconhecimento por parte do país?
Do povo sim.

Além de si quem foi ou foram os maiores atletas portugueses?
Penso que a Rosa Mota marcou a história também. Mas não foi só ela. A Aurora Cunha, o Mamede, a Fernanda Ribeiro, o Nelson Évora agora… O problema deles é que eu fui o primeiro. E isso marca muitos pontos.