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O maravilhoso mundo de um árbitro de râguebi. “Acho que um treinador vai gostar de ouvir um árbitro dizer: 'Eh pá,errei, tens toda a razão'”

Paulo Duarte tem 28 anos e estreou-se em fevereiro como árbitro principal na etapa de Las Vegas do circuito mundial de sevens. Sim, é português e apita na modalidade em que os árbitros são respeitados, conversam com os jogadores, brincam com eles, têm vídeo-árbitro e até microfones e câmaras coladas ao corpo, durante os jogos: “A base do râguebi é o respeito e a disciplina. Temos mantido isso ao longo dos anos e não queremos, de modo algum, afastarmo-nos disso”

Diogo Pombo

Luís Cabelo

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Chegaste agora de um treino?
Sim, sim, tive uma sessão no ginásio. Foi um bocado puxado.

Como foi a experiência em Las Vegas?
Foi brutal. É completamente diferente do que tenho feito até agora, apesar de já ter alguma experiências nos sevens. O formato e a estrutura do torneio era diferente. Tivemos uma semana de adaptação, fizemos dois treinos, tivemos uma sessão técnica sobre o que se esperava de nós e dos jogadores para o torneio…

Isso não é um encontro entre árbitros e jogadores?
Não, temos uma sessão só com os árbitros, para vermos algumas situações e tendências. Não te esqueças que já existiram quatro etapas e estamos a meio da época. Apanharam-se as tendências nos primeiros torneios e refrescou-se um pouco o novo grupo de árbitros. Basicamente, mantiveram-se cerca de 10 e veio uma nova fornada no torneio de Las Vegas.

Para não serem sempre os mesmos?
Sim. Isto é o início do caminho para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Temos cerca de 20, 21 árbitros no grupo e à medida que as épocas e os anos vão passando, esse grupo vai sendo reduzido. Há pessoas que vão ficar pelo caminho, outras que vão continuar e chegar aos Jogos.

De certa forma, isto acaba tudo por ser um teste.
Claro, claro.

Sentes a pressão de estares a ser posto à prova?
Acho que sim. Acho que estamos a ser colocados à prova sempre que vamos para um jogo, seja pelos jogadores, pelos treinadores ou por nós próprios, que é o mais importante. Temos que ser nós a traçar desafios e objetivos. É uma pressão diferente - nós temos as câmaras, os espetadores, os treinadores, os jogadores.

É o escrutínio imediato, certo?
Sim, tens muito mais exposição. Não vais esconder uma decisão só porque achaste por bem esconder, pelo facto de teres a televisão e as câmaras. Vamos chegar ao final do jogo, vamos ver o vídeo e está lá escarrapachado. Portanto, temos de ser honestos e essa é uma coisa que temos trabalhado e conseguido: criar uma relação honesta e frontal com toda a gente. Dizer “epá, se errei, errei”. Não é arranjar desculpas. Quando vamos ao vídeo, se for preciso levanto claramente a minha mão e digo: “Desculpem, errei, vamos seguir em frente para não voltar a acontecer”.

E uma das coisas do râguebi é que, se isso acontecer no estádio, toda a gente te ouve a dizer isso.
Sim, e às vezes, num jogo, até podes nem dizer que erraste, mas tens a abordagem de esperar para ver a seguir no vídeo e não há problema. Um treinador que oiça um árbitro dizer “errei, tens toda a razão”, por mais que ele não goste da decisão tomada na altura, vai dizer o quê? Acho que vai gostar. Eu gostaria que as pessoas, quando errassem comigo, dissessem que erraram. A base do râguebi é o respeito e a disciplina. Temos mantido isso ao longo dos anos e não queremos, de modo algum, afastarmo-nos disso.

Luís Cabelo

O torneio de Las Vegas foi a tua estreia como árbitro principal no circuito mundial de sevens?
Sim, foi. Já tinha feito de bandeirinha duas vezes, no Dubai, mas, como árbitro, foi a primeira vez.

O que preferes?
Ser árbitro principal, claro. Para o mal ou para o bem, as decisões estão do teu lado. As decisões de não arbitrar, de deixar jogar, ou de ter de parar o jogo porque aconteceu alguma infração, estão tudo sob o teu controlo. Há uma satisfação diferente. Quando estamos como árbitro auxiliar, estamos a ajudar alguém. Às vezes queres ajudar mais, mas não consegues, porque não podes ficar com o papel do árbitro. Tem que haver esse equilíbrio entre quem é o árbitro e quem é o assistente. É uma pressão diferente. Na linha se calhar ficamos mais desconcentrados, não estamos tão dentro do jogo, temos as pessoas a falar ao lado ou a chamarem a atenção para alguma coisa.

Nos sevens a bola também não sai tantas vezes, não há tantos pontapés para touche.
Exatamente.

Notaste algum tipo de tratamento especial, em Las Vegas, por ser a tua primeira vez?
Na reunião que tivemos com os treinadores - como tivemos hoje de manhã aqui, em Vancouver -, o nosso manager dos árbitros disse que somos todos novos, estamos ali para aprender, e, sobretudo, disse que o importante era falarmos sobre os assuntos em vez de ficarmos com a pulga atrás da orelha. Para, se for preciso, jogadores e treinadores falaram com o árbitro, reverem o jogo juntos e abordarem algumas coisas. Ninguém erra de propósito e isto também é para partilharmos experiências. Encontrar os triggers que podem ter feito com que o árbitro penalizasse, ou não, corretamente. Essa partilha, às vezes, aproxima-nos. Para já, acho que é evidente que toda a gente está mais tolerante com os grupos de árbitros que se têm formado. Na fase de grupos do torneio as equipas talvez não façam grande matemática, mas, depois, quando a competição avança, um erro pode custar a vitória a uma das equipas. O que é chato, temos que admitir.

Passaste por alguma situação complicada?
Não há uma arbitragem perfeita, isso é impossível. Mas, no meu último jogo, um Argentina-Austrália, um bom jogo que ficou 14-0, não gostei da minha performance, honestamente. Saí do campo um bocado frustrado.

Porquê?
Porque foi um jogo difícil, com muito vento, acho que as equipas não se conseguiram adaptar ao vento, portanto, fecharam muito o jogo. Acabei por ficar mal posicionado em algumas situações, tive duas decisões que, se calhar, condicionarem a abertura dos jogadores e causou alguma frustração. Acabaram por não ser as melhores decisões e já falei com o meu coach sobre isso. Levantei a mão e disse que, para mim, aquela decisão foi errada. Mas é assim, temos que viver com isso e melhorar para a próxima vez.

Já tiveste alguma conversa com jogadores, a meio de uma partida? Tipo o que se passou no Inglaterra-Itália, no Seis Nações.
[Ri-se] Há sempre qualquer coisa que tem piada. Quando é um avant ou um passe para a frente, e o jogador tenta dizer alguma coisa, do género “senhor árbitro, o passe foi para trás!”, eu digo que não, ele ri-se, e responde: “Pronto, mas foi quase”. E a gente acaba ali por criar alguma empatia. E há uma coisa que talvez me aproxima de alguns jogadores - conheço alguns das equipas europeias, por já os ter arbitrado no circuito europeu. Mas com uma Austrália ou uma Argentina, em que é a primeira vez que os encontro, não vou estar à vontadinha, como se costuma dizer.

Gostas mais dos sevens ou do râguebi de 15?
É uma pergunta difícil. Gosto mais de sevens porque é mais espetacular, tem muito menos pausas e é muito mais exigente fisicamente, para todos. Mas é diferente. Posso-te dizer, agora, que prefiro os sevens, porque estou na nata do râguebi mundial. Se estivesse a arbitrar a terceira divisão da Europa talvez dissesse que gostaria mais de 15. Mas, para já, ainda não tive tantas oportunidades, apesar de já ter feito o World Trophy, que foi o meu pico a nível de 15. Não quero ser conotado como árbitro de sevens, mas, neste momento, é onde tenho de me focar.

Para um português, é muito mais difícil evoluir na carreira como árbitro de râguebi de 15?
Sim. Nós não temos competição profissional, não temos exposição a nível televisivo. E, por mais que os nossos jogos sejam melhores ou piores que outros países, esses são profissionais e têm alguma estrutura que suporte o desenvolvimento. Nem que seja só o dinheiro. Espero conseguir fazer um jogo do Seis Nações B, a antiga divisão de Portugal [desceu na época passado ao Rugby Europe Trophy, a terceira divisão], é uma aspiração minha. Mas, para além disso, sei que muito dificilmente farei outras coisas. Posso fazer uma Challenge Cup [uma espécie de Liga Europa] ou uma Champions Cup [algo como uma Liga dos Campeões entre clubes dos países que competem no torneio das Seis Nações]. Mas, como português, tenho perfeita noção que nunca estarei num Seis Nações ou num test match.

Seria o topo dos topos.
Claro. Não temos competição profissional. A questão da profissionalização da arbitragem em Portugal… Temos no futebol e até aí é escassa.

Nem sequer tens hipótese de utilizar o vídeo-árbitro em Portugal.
Exatamente. Há uma série de condicionantes estruturais no país. Não quero entrar pela política, acho que não faz sentido, mas obviamente que há peso de algumas nações e, se alguém pedir ou fizer uma pressão, as coisas acontecem. Tenho a perfeita noção dos meus limites. Enquanto que, nos sevens, é muito mais fácil, até para as nações mais pequenas. É um jogo mais fácil de entender, mais espetacular, basta treinar o nível físico e entender um pouco das leis. O trabalho é muito mais fácil. No de 15 tem de haver um entendimento do jogo muito maior, muito mais de gestão, mais do que o lado técnico. Temos de saber as leis para depois interpretá-las dentro de campo, que é o mais importante no râguebi de 15. Nisso, o Nigel Owens é um bom exemplo.

Ele é quase um espetáculo dentro do espetáculo.
Sim, ele acaba por privilegiar mais o espetáculo e o jogo do que propriamente ir à parte mais técnica da coisa. Depois tem um carisma enorme. Ainda esta semana, se não estou em erro, ele deu um cartão amarelo a um apanha-bolas. Obviamente, ele tem um estatuto e pode fazê-lo. Se calhar vai levar uma reprimenda, ok, mas se fosse eu a fazer…

O Nigel Owens é o teu árbitro preferido?
É assim, o meu ídolo é o Craig Joubert e tenho a felicidade de estar a trabalhar com ele. É o nosso coach e também tem arbitrado. Portanto, tem um equilíbrio interessante, pois mantém-se dentro do jogo e acaba por ajudar-nos. Às vezes, quando temos só um treinador, acabamos por nos tornar algo filosóficos e teóricos, e afastamo-nos um pouco do jogo. Ele percebe o que nós estamos a sentir, percebe o que temos de fazer e onde podemos melhorar. É um privilégio conviver com ele nestes dias. Depois, claro, o Nigel, por ser quem é e por ter aquele carisma que traz para o jogo. E, obviamente, o espetáculo que ele dá. Os jogadores respeitam-no e sabem o que ele quer para o jogo. Podemos ter um grande carisma, mas quando somos demasiado técnicos, também podemos levar o jogador à frustração, por mais respeito que tenham por nós.

Achas que escolheste a melhor modalidade para se ser árbitro?
[Solta uma gargalhada] Acho que seria errado estar a dizer o contrário. Eu fui jogador por pouco tempo - joguei cerca de seis anos -, mas, na altura, quando tinha cerca de 18 anos, surgiu a oportunidade de fazer um curso de arbitragem. Fui com o intuito de ser melhor jogador. Não me passava pela cabeça ser árbitro. Era uma forma de evoluir e saber melhor as leis, perceber o que os árbitros estavam à procura para melhorar o meu jogo. Acabei, realmente, por melhorar como jogador, mas fiquei com a pulga atrás da orelha. "Ok, também posso fazer isto nos meus tempos livres".

Gostaste das sensações?
Sim, comecei a arbitrar nos sub-10 e sub-12. É giro ver os miúdos a jogarem. É o râguebi na sua essência, jogar pela diversão, que é a parte mais importante. E acabou por ser por aí. Depois, aos 21, tive uma lesão. Voltei a jogar e tive uma segunda lesão, numa altura em que já estava a arbitrar jogos dos sub-16, dos sub-18 e dos sub-20.

Já era mais a sério.
Mais um bocadinho. Já tinha os meus percalços de desenvolvimento, mas já levava a coisa um bocadinho mais a sério. Já tinha algumas pessoas a dizerem-me: "Paulo, deixa de jogar porque podes vir a ser um muito bom árbitro num curto espaço de tempo". Eu dizia que não, queria era jogar. Mas a lesão facilitou um pouco. Tive de baixo no trabalho, por causa da lesão, e cheguei a um ponto em que pensei: "Deixei de jogar, deixei de arbitrar, e ainda sou prejudicado no trabalho por causa da lesão". Aquilo fez-me repensar um pouco as prioridades. E, olha, continuei com a arbitragem. Foi um caminho natural. Deixar a modalidade, nunca. Apaixonei-me facilmente pelo râguebi e entende-se porquê.

Isto num país onde a bola é muito pouco oval.
Temos uma mentalidade futebolística em Portugal, é normal. Mas, quando as coisas correm bem, é fantástico.

A relação entre coisas boas e más, no râguebi, talvez seja melhor do que no futebol, não achas?
Sim, claro. Mas o râguebi não é fácil de entender. Enquanto toda a gente agarra numa bola de futebol e pode ir para a rua jogar, no râguebi é um bocadinho mais difícil. Acabamos por crescer com uma bola de futebol e a jogar na escola e na rua, com os amigos. Já não se faz tanto isso, mas ainda sou desse tempo [ri-se]. O râguebi que passa na televisão é pouco, ou nenhum, o que também não ajuda. Agora temos programas nas escolas para introduzir o râguebi, que já dão uma maior promoção, mas, em Portugal, o râguebi acaba por ser um pouco social. Os amigos vêm jogar com os amigos. E familiar, também.

Ou se conhece quem já joga ou se tem alguém na família que tenha jogado.
Exatamente. Não se pergunta a uma criança que desporto ela quer praticar e se ouve "quero ir fazer râguebi". Falo por mim. Morei relativamente perto de Lisboa e só por volta dos 15 anos é que soube que havia râguebi em Portugal. Depois há os que ficam e os que dizem que não. Eu, felizmente, fiquei.