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Manuel Sérgio, o filósofo desportivo: “Alguém no futebol sabia quem era o Descartes? Não jogava no Benfica, o gajo”

Não é comum vermos a filosofia a cruzar-se com o futebol, mas Manuel Sérgio é um caso à parte. Filósofo, professor (de José Mourinho, Rui Vitória e José Peseiro, entre outros) e ensaísta, trabalhou no Benfica com Jorge Jesus - "dá uns treinos que é um espectáculo" - e vai ser homenageado, segunda e terça-feira, num colóquio internacional sobre a sua "obra e pensamento" sobre a motricidade humana, que explicou à Tribuna Expresso

Mariana Cabral

Manuel Sérgio tem 83 anos e é licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, doutorado e professor catedrático convidado (jubilado) da Faculdade de Motricidade Humana

Tiago Miranda

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Foi o professor que organizou este colóquio?
Não, não tive nada ver com isso.

Então como é que surgiu?
Porque o Miguel Real e o José Eduardo Franco leram a minha tese de doutoramento, marcaram um almoço comigo e disseram-me assim: "A sua tese é um acontecimento na vida cultural portuguesa". Veja bem, dois intelectuais da mais pura linhagem da cultura portuguesa apreenderam as minhas ideias sobre o desporto. Estou sobretudo grato, porque nunca esperei ouvi dizer isso e ver uma homenagem assim. Fico muito grato às pessoas, porque um tipo chegar aos oitenta e tal anos e ver pessoas do melhor que há na vida intelectual portuguesa a estudar-me... As pessoas dizem que estou a ser vaidoso.

Realmente o colóquio junta pessoas que não imaginamos juntas: Jorge Jesus, Gulherme d'Oliveira Martins, Francisco Louçã, Pinto da Costa...
Exatamente. E mais: não sei se ir ouvir-me se calhar já não é um bocado da moda. Mas se calhar não, porque se não eu estava num departamento de futebol. Se as pessoas entendessem o que ando a dizer...

Mas é incomum ver um filósofo num departamento de futebol.
É. Para mim, o desporto é um pretexto para falar do ser humano.

Pode explicar melhor?
Fiz uma mudança de paradigma, ou um corte epistemológico, no seio da cartesiana educação física, passando do fisiologismo, ou do biologismo que o dominava e dominava também o treino desportivo, adiantando que o desporto é um dos aspetos de uma nova ciência humana. Portanto não há dúvida que antigamente a ciência do treino era o fisiológico. Aliás, na linha da medicina. A malta não fez a investigação que eu fiz nesta área.

Como é que chega a essa conclusão?
Foi muito simples. Antes de entrar no INEF, em 68, vivi tempos muito bonitos na Faculdade de Letras de Lisboa, embora só lá fosse de vez em quando, porque trabalhava. Mas convivi com o Sottomayor Cardia, com o Medeiros Ferreira, com o próprio Jorge Sampaio... Quer dizer, aquilo era uma época viva, de ideias novas. Quando entro no INEF, já estava super convencido que o cartesianismo e o fisiologismo estavam errados. Porquê? Porque já tinha lido Teilhard de Chardin, Emmanuel Mounier, Husserl...

E não o chamavam maluco, se ia contra o estabelecido?
Acho que as pessoas ainda hoje não acreditam em mim. Mas algumas... Por exemplo, ontem o Jesus telefonou-me a dizer-me que vai ao colóquio. Não tem tempo para tudo, coitado, tem a vida dele, mas disse-me que vai lá: "Ó professor, pá, eu sou seu amigo, eu vou lá". Portanto, pior, na altura julgavam que eu era um cavalo de Tróia. Quando começo a dizer que não há educação física, criei anticorpos que não queira saber. Mas para falar sobre o treino desportivo tinha medo, porque esta gente do futebol cala-nos em três tempos: "Oiça lá, quantos campeonatos já ganhou?" Um tipo depois fica arrumado, pá. Então ia para as aulas, pé ante pé, explicando que no meu entender o treino estava errado, "mas vocês sabem mais disso do que eu, por isso vejam lá". Porque eu já era dirigente do Belenenses e via lá no Restelo... Eu que nunca fiz desporto, sempre estive ligado ao desporto. Isto é uma contradição [risos].

Nunca praticou?
Oh, andei para lá nas terras dos desembargadores, pratiquei a reinar, a brincar.

Mas federado não.
Não, federado nunca fiz nada. Os gajos que andavam comigo em novos eram melhores do que eu e tinha logo o complexo. Andava lá pelas Salésias e já tinha a convicção que havia gente melhor do que eu. Nunca tive ilusões: "Isto é para estes gajos, não é para mim". Bom. Então, como dizia antes, a educação física nasce no século XVIII, não é nada dos gregos. É claro que digo estas coisas e depois fica tudo chateado comigo, se não quiser não ponha. Mas a educação física nasce no período alto do racionalismo, no século XVIII. A própria medicina nesse tempo usava muito a ginástica, prescrevia-a para determinadas doenças. Como é que eu tinha saúde naquela altura? Era fazendo do meu corpo uma máquina. E qual era a grande máquina do tempo? Era o relógio. Para ter saúde tinha de ter o meu corpo a funcionar que nem um relógio. Ainda se diz isso hoje: "Eh pá, estás bem? Estou que nem um relógio". A educação física nasce como uma paramedicina, o médico prescrevia ginástica. A ginástica dos gregos é outra coisa. Bom, portanto...

Voltando às Salésias, quem é que se lembra de ver lá?
Ohhh pá, sei as equipas de cor. Capela, Vasco e Feliciano, Amaro, Gomes e Serafim, Armando, Quaresma, Zé Pedro e Rafael, eu conhecia aquela gente toda. Convivi com eles todos. Convivi, quer dizer, como quem diz, porque eu era um catraio, mas andava ali de um lado para o outro com eles. Tinha um pai que via futebol todos os domingos. O meu pai era praça da GNR, era um homem sem habilitações, fez a 3ª classe na Guarda Republicana, veja bem, coitadinho. Santo homem, mas sem habilitações. Então, ele fardava-se e entrava nos campos de borla [risos]. E eu ia pela mão dele. Normalmente íamos ver o Belenenses, porque morávamos na Ajuda, mas quando não havia jogo lá íamos para a Tapadinha. Vejo futebol desde miúdo, pá, e nunca deixei de ver, mas desde que fiz 80 já não vou como ia. Agora com chuva, com frio... Como tenho televisãozinha, vejo na televisão. Lá para abril, maio, em dias mais de verão, lá vou eu então.

Só ao Restelo?
Não, vou a qualquer um. Onde houver futebol e amigos, lá vou.

Já foi a Alvalade ver o Jesus?
Já, claro. E já fui à Luz e ao Dragão. O Jesus é muito meu amigo. Ele tem lá a sua maneira de ver o futebol.

Mas essa maneira de ver o futebol não é contrária à sua?
É.

Então como é que trabalharam juntos no Benfica?
Entendiamo-nos. Vamos lá ver, o Jorge Jesus é muito boa pessoa, é um bom tipo. Só posso dizer bem dele. É como o Pedroto, era um tipo que gramava à brava ouvir-me. É muito giro isto. Você sabe que sou um tipo pobre, não tenho casas ricas para lhes dizer "venha aqui ter comigo". Eles vêm para conversar. São indivíduos curiosos, porque ouvem um falar diferente e querem saber mais: "O que é que este gajo terá para dizer?" O Pedroto era um grande treinador de futebol. Muito curioso.

Como é que o conheceu?
Eu era amigo de um médico chamado Aníbal Costa, que foi durante muitos anos o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva. Um dia ele pediu-me para ajudar o filho. "Veja bem que o meu rapaz quer ir para medicina, eh pá, mas está com 11 em filosofia. Você tem de segurá-lo e tal". E então comecei a dar-lhe umas explicações. No 2ª período passou para 15 e no 3º teve 17. Fiquei bem visto [risos]. É engraçado, eu sou um tipo com sorte. Tenho gente de cultura que gosta de falar comigo. E agora vai haver o colóquio onde gente do melhor da nossa cultura vai falar. E eu não pedi a ninguém. Eu nem quero dizer o que eles me dizem, tenho vergonha, se não as pessoas dizem que sou um vaidoso.

Não me chegou a dizer como conheceu o Pedroto.
Ah, o Pedroto. Então houve um congresso de medicina desportiva e o doutor Aníbal Costa já me conhecia, porque nós íamos almoçar e falava-lhe das minhas ideias. "Eh pá, você tem de ir vender essa coisa lá à malta", disse-me ele. "Mas eu não sou médico nem enfermeiro", disse-lhe eu. Mas ele achava que eles tinha de ouvir o que eu tinha para dizer. Lá fui e durante o meu discurso, pé ante pé, dizia o que disse agora, que não há educação física. E não podemos continuar a dizer educação física, porque, na linha de Wittgenstein, a minha linguagem é o meu mundo. Se eu digo educação física, a que título é que vou convencer as outras pessoas que aquilo não é só uma coisa física? Então lá vendi aquilo e a ideia de que o treino desportivo estava errado, no meu entender. Quando acabo de falar, há uma pessoa que se aproxima de mim. Era o Pedroto. Apresentou-me a filha, que estava no segundo ano de medicina, em 1979, a doutora Isabel Pedroto. Como o tempo passa. Ela é testemunha disto. Tenho uma vantagem, sabe qual é? Mesmo que quisesse mentir não podia, porque tenho tudo escrito em livros e tudo tem o seu tempo. "Ó senhor doutor, não me leve mal, mas tem de me explicar por que razão é que o treino está errado". E convidou-me a ir ao estágio do FC Porto para conversar com ele. Porque eu já naquela altura via no Belenenses jogadores a subir escadarias com colegas às costas. E ficava a ver aquilo... Foi aí que me lembrei daquela coisa do piano.

Um pianista para ser melhor pianista não corre à volta do piano. Senta-se e toca piano.
Precisamente. Se anda ali às voltas um gajo nunca mais lá vai. Falava nisso nas aulas.

O Mourinho depois citou-o nisso, correto?
Pois, creio que sim. Mas um tipo com a minha idade, às vezes... Como um sou um furioso na leitura, leio muito e estudo muito, é uma mania, então às vezes há coisas que julgo que são minhas e depois não são, ou vice-versa. Mas não é por mal. Bom, mas essa do piano julgo que é minha. Houve coisas que eu disse pela primeira vez em língua portuguesa, tenho a certeza. Sobre o cartesianismo e a educação física. Alguém no futebol sabia quem era o Descartes? Não jogava no Benfica, o gajo. [risos] Ligar uma coisa à outra... Ir a estas coisas através da filosofia... Porque eu gosto da filosofia, não falo por obrigação.

Mas percebe que relacionar filosofia e futebol não é comum.
Não bate certo. Mas de facto uni essas duas áreas. Não devia dizer isto, mas até acho que disse coisas que fui o primeiro na Europa a dizê-las. Não há educação do físico mas de pessoas no movimento intencional da transcendência, a criação de um paradigma novo nesta área. Até parece mal estar a atirar isto para o ar. "Olha, lá está o velho, é um vaidoso do caraças". Mas quando se fala nas coisas não é o divino Espírito Santo que as põe cá, há sempre um trabalho feito. Bom, foi assim que conheci o Pedroto e ele então convidou-me para ir conversar com ele.

E foi.
Fui, fui ter com eles a um estágio. Não dormia lá, mas ia lá ter com ele quando podia. Ele punha a malta toda nos quartos e depois descia para conversarmos. O senhor Pedroto é um homem que eu nunca esquecerei. Há três treinadores assim: José Maria Pedroto, José Mourinho e Jorge Jesus. E o Jesus quis trabalhar comigo, o que é uma coisa que parece contraditória.

Exato.
Acho que ele tem por mim um carinho especial, mas eu tinha a sensação que as coisas entravam a 100 e saíam a 200. Repare, para ser treinador de futebol são precisas qualidades várias. O Jesus tem muitas delas. Dá uns treinos que é um espectáculo. O jogador... Os treinadores não fazem o jogador, o jogador nasce. O treinador só tem de arranjar espaços para ele desenvolver o que tem. Se não eram Eusébios todos os dias, não era? E Messis e afins. Ainda no outro dia li uma entrevista do Messi... O Ronaldo vai muito ao ginásio e perguntaram ao Messi se ele o fazia, e ele disse que joga à bola tal como jogava em 'chiquito', em garoto, que aquilo é dele, não é de um treinador. É por isso que é necessário um diálogo permanente com o treinador. Não é o treinador dizer "eu mando e tal". Tem de se dirigir, comandar nunca. É o que digo: a grande revolução a fazer no desporto é cultural.

Tiago Miranda

Como costuma dizer, não há remates, há jogadores que rematam. É isso?
Eu digo assim: não há remates, há pessoas que rematam; não há fintas, há pessoas que fintam. Se não conhecer as pessoas, não percebo as fintas. Isto é uma revolução, pá. Depois não sou convidado para nada, porque não vendo. O que é preciso é os gajos "ah você é isto, você é aquilo" e é uma vergonha, passa-se duas horas nisto. Algo está podre no reino da Dinamarca. É que aquilo nem futebol é. Mas dá dinheiro. É o nosso tempo e isso reflete-se no futebol. Costumo dizer também: o desporto reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista. A mania do rendimento, do recorde, da medida, da alta competição... Isto é tudo típico da economia capitalista. Portanto isto tudo para dizer que foi assim que conheci o Pedroto.

E o Mourinho?
O Mourinho de vez em quando dialoga comigo, ainda hoje. No outro dia mandei-lhe um email e ele respondeu-me: "Professor, belo texto para ler e aprender". O José Mourinho é, intelectualmente, um superdotado. Ele não sabe mais de futebol do que os outros, é é mais inteligente. O que distingue o Mourinho não é o futebol, são as capacidades intelectuais que o tipo tem, que são anormais, pode crer. Oiça, o que distingue um treinador não é saber mais de futebol. O que é que é saber mais futebol?

Saber mais do jogo e de como transmiti-lo aos jogadores...
Ó minha querida, todos sabem praticamente o mesmo. O que distingue, depois, é o homem. Também costumo dizer: é o homem que se é, que triunfa no treinador que se pode ser. A diferença está aí, não está na tática.

O sucesso do Rui Vitória no Benfica explica-se por aí?
Claro, vamos lá ver... Hoje em dia um homem só não vale nada, tem de haver uma organização. O Benfica está tecnologicamente tão bem preparado como qualquer equipa europeia. Mas os homens é que comandam a tecnologia. O Rui Vitória foi meu aluno e posso dizer-lhe que foi um bom aluno. Sabe, eu dizia ao Jesus aquela frase do Marx...

"A prática é o critério da verdade".
Isso. Está a ver agora, por exemplo, o Leonardo Jardim? Não o conheço, mas está a provar... Eu até tenho de pedir desculpa aos treinadores que não conheço, mas de facto não falo dos outros porque não os conheço, não é? Olhe, há um treinador no Sacavanense, chamado Tuck, que no dia em que tiver a sorte de lhe abrirem uma porta vai ser outro Jorge Jesus.

Porquê?
Acho que vai ser. Falo muito com ele e com o adjunto dele. A equipa dele é só amadores e vai nos primeiros lugares, quando os outros são profissionais. O tipo tem ali qualquer coisa que bate certo. E tem um adjunto chamado Bruno Dias, que é um tipo sensacional. Repito: sou um tipo com muita sorte. Repare, sou professor no INEF quando o Jesualdo Ferreira, o Arselino Mirandela da Costa, o Carlos Queiroz, o Nelo Vingada começam a pensar numa frase que o senhor Pedroto dizia muitas vezes: "Faltam 30 metros ao futebol português". É aí que começa a nascer o novo treinador de futebol, com a entrada em cena dos indivíduos licenciados.

Os sucessos do treinador português.
Vamos lá ver, os êxitos dos nossos treinadores são humanos. Não é porque sabem mais ciência do que os outros. É porque são mais simpáticos, mais compreensivos... porque o futebol, "toma lá a bola", e quem tem jeito desenvolve o que tem, com um bom líder, alguém com boa leitura de jogo. Trabalhei um ano no departamento de futebol do Benfica e estou eternamente grato ao Jorge Jesus porque permitiu que eu visse o futebol por dentro.

Ele normalmente não deixa que assistam aos treinos.
Pois é, mas a mim deixou. Um ano inteiro ali. E um malandro como eu, que não deixo escapar nada. Sou aqueles atentos que parece que andam sempre distraídos. Falava com os jogadores, falava com este, com aquele, ia aos serviços todos...

Os jogadores dizem que o Jesus é muito picuinhas nos treinos.
Vou-lhe dizer as grandes qualidades do Jesus: é um indivíduo precioso, vai ao pormenor, tem uma leitura de jogo excecional, olha e vê. O tipo tem coisas... está de costas e diz que a bola vai para fora por causa do som que fez e outras coisas assim. O Jesus tem coisas de treinador excecional. Agora, há outras coisas a fazer. Há sempre que estudar mais. Não compreendo o treinador de futuro sem estudo.

Estudar o quê?
Ah, aí é que está [risos]. É o grande mal. O que tem de estudar é só isto: é o que é específico das ciências humanas, porque o desporto é uma ciência humana. Temos de saber os nossos limites, não é? Até onde podemos ir. Quando não podemos ir, aprendemos, se aquilo nos interessa. Mas tudo é tempo. Tudo envelhece rapidamente. Mas quando eu digo estas coisas na década de 60 e 70, julgo que era tudo novo.

Comparando os treinos de então com os de agora, já vê uma grande diferença, não?
Sem dúvida. Mas aqueles treinos de carregar com o colega às costas pelas escadas já eu dizia naquela altura que estavam mal, era apenas um treino físico que nada tinha a ver com a tática. Há que ter uma visão sistémica do treino. Isso dizia eu nos anos 60 e 70. E está tudo escrito. Gerei anticorpos porque fui contra os grandes ícones do treino e da educação física. A fisiologia não, o objeto de estudo é o ser humano. Cada ciência humana estuda o ser humano, cada qual à sua maneira. A história estuda o passado, é o conhecimento sistemático do passado do ser humano; a psicologia estuda o comportamento do indíviduo em relação ao ambiente; a antropologia é o ser humano como ser cultural... E nós estudamos o ser humano no movimento intencional da transcendência. A fisiologia está lá, mas é superada. Como aquela expressão do Hegel, a verdade é o todo. Se eu não conheço o todo, não chego à verdade. Ora o todo, no treino, é o ser humano. Por isso não digo periodização tática, digo periodização antropológica e tática, porque ao mesmo tempo que preparo a tática, tenho de preparar o homem que faz a tática.

Costuma dizer que "só sabe de futebol quem sabe mais do que futebol".
Perfeitamente. Se não há jogos, há pessoas que jogam, saber de desporto não chega para estar no desporto. Isto é tão fácil. Mas para chegar aqui foi preciso estudar, foi preciso marrar. Não há jogos, há pessoas que jogam. E a partir daqui é que se vê o resto. Não posso passar a vida na tática se desconheço o resto. Muitas vezes, nas aulas, eu entrava com um livro do Torga, ou do Régio, ou do Jorge de Sena, ou do Rodrigues Miguéis, e dizia aos alunos que para perceber de desporto era preciso ler aqueles escritores.

E eles?
Hoje já me levam a sério, com o passar dos anos. Sei que fui um desestabilizador, mas um filósofo que não desestabiliza não é filósofo.

Continua a estudar?
Leio muito e dialogo ainda mais. Preciso muito do diálogo com os jogadores e com os treinadores desportivos. Saber é um trabalho de pura interdisciplinaridade entre a prática e a teoria. Convivi com grandes treinadores e aprendi com eles. O José Maria Pedroto, o Fernando Vaz - este gajo era um retórico, com uma cultura literária invulgar -, o Mário Wilson, o Artur Jorge, o José Mourinho e o Jorge Jesus. A todos devo o conceito que hoje tenho de futebol. E a questão não está na tática, está na forma como eu, como líder, sei estar em todas as situações necessárias num departamento de futebol.

Jorge Jesus, Javier Saviola e Pablo Aimar no Benfica, em 2011

Jorge Jesus, Javier Saviola e Pablo Aimar no Benfica, em 2011

FRANCISCO LEONG/GETTY

Mas nós dizemos que o Jesus é o mestre da tática.
E fazem bem. O Jesus é o mestre da tática. O problema é que o futebol não é só tática. Vou-lhe contar uma conversa que tive uma vez com o Saviola, quando fomos almoçar fora ali numa tasquinha no Seixal, à beirinha da água. Perguntei ao Saviola pelos anos que tinha passado no Barcelona e quais os treinadores que tinha tido. Creio que me disse o Carles Rexach, o Rijkaard e o Van Gaal. Então perguntei-lhe dos três, qual lhe tinha parecido ser o melhor treinador. Resposta do Saviola, que não me respondeu, mas respondeu na mesma: "Eles de futebol sabiam todos, o melhor treinador é sempre o melhor nas relações humanas". Está a ver? Por isso é que eu digo, leiam os grandes escritores. Porque há esta mania, primeiro ano fisiologia, segundo ano treino... e anda-se a bater sempre no mesmo. Mas é à medida que compreendo melhor a vida que compreendo melhor o desporto. Como dizia Ortega Y Gasset, eu sou eu e a minha cirscunstância. Portanto quando me analisam não posso ser só eu. É a minha família, a minha cultura, a minha ideologia, a visão que tenho... há tanta coisa para ver.

Os jogadores também vão falar consigo?
Jogadores nem tanto. É mais treinadores. Com o José Augusto, António Simões... Eles fizeram parte da melhor equipa de futebol que conheci. Vejo futebol desde a década de 30, desde miúdo. As Salésias eram o único campo relvado do país e os jogos internacionais eram lá todos, e eu estava sempre lá. Ainda assisti à primeira final da Taça de Portugal que a Académica ganhou 4-3 ao Benfica. Estava lá a ver, com o meu pai, claro. Mas a maior equipa de futebol portuguesa de todos os tempos foi aquela equipa do Benfica. Nunca houve melhor. Eram os melhores da Europa. O Real Madrid estava a descer, mesmo com o Di Stéfano e o Puskás, e o Benfica tinha o José Augusto, o Simões, o Coluna... tudo aquilo era de luxo. Nós, lisboetas, íamos ver o Benfica como quem ia à ópera. "Eh pá, hoje joga o Benfica!" Já sabíamos que era espectáculo garantido. Grandes jogadores. Está por fazer-se uma homenagem àquela equipa. Não era só o Eusébio. O Eusébio secou o resto [risos]. Havia um central que foi o central com mais classe que já vi, o Germano. Tudo era bom. Uma equipa que vai três anos consecutivos à final da Taça dos Campeões Europeus... nunca aconteceu em Portugal. E dificilmente acontecerá.

Hoje em dia há alguma equipa que goste mais de ver?
Gosto de ver o Barcelona, de vez em quando. Viu o Barcelona-PSG? Qual era a tática? É capaz de me dizer? Ganhou a equipa que tinha génios. E nesse dia houve génio de alguém que dentro de dois ou três anos vai ser o melhor do mundo, o Neymar. Mostrou tudo o que tinha.

O que é para si um bom treinador?
É, em primeiro lugar, um gestor de conhecimento. Tem de se dizer isto, porque nós vivemos na sociedade do conhecimento. Uma pessoa que saiba organizar e organizar-se. Se sabe que vai treinar pessoas e não objetos, deve organizar-se mais para dirigir do que para comandar. Quem dirige põe os outros a pensar com ele, quem comanda normalmente não ouve os outros e quem ouve os outros aprende muito com eles. O treinador é especialista em humanidade.

E em futebol?
Se os jogadores não o aceitam como homem, de nada vale saber muito de futebol.

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