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“A minha mãe controlava a minha altura, tinha medo que eu sofresse de gigantismo”

João Brenha é a outra metade da dupla de voleibol de praia que mais êxito teve em Portugal. Professor de educação fisica num colégio do Porto, confessa que ainda recebe convites para continuar a jogar mas que a saúde já não lhe permite fazer jogos uns a seguir aos outros

Rui Duarte Silva

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Nasceu, cresceu e vive em Espinho, terra de onde sempre se recusou a sair, mesmo quando foi alvo da cobiça de grandes clubes. Tem um irmão mais velho cinco anos, que também jogou voleibol e é treinador, uma irmã mais nova dois anos, e mandou construir uma casa em frente à dos pais. Reservado e pouco dado a mudanças, João Brenha, 46 anos, diz que chorou em Sydney e que jogar no estrangeiro nunca o aliciou. Pai de duas filhas, gostava que uma ou até as duas lhe seguissem as pisadas, até porque o voleibol parece estar a tornar-se num desporto de meninas. Professor de educação física num colégio do Porto, Brenha fala da infância, recorda a preocupação que deu à mãe por ser tão alto e confessa que a relação com Miguel Maia é quase como um casamento e que este é a pessoa que melhor o conhece.

É o irmão do meio. É muito diferente dos seus irmãos?
Um pouco. Era o mais tímido e por isso é que a minha mãe me incentivou a praticar desporto e a sair de casa.

Foi ela a responsável pelo ingresso no voleibol?
Sim, eu ficava muito em casa e assim era uma forma de sair e conviver com outros miúdos. Comecei com sete anos. Foi o voleibol porque morava e ainda moro perto da Académica de Espinho. Mas além do voleibol praticava ginástica tradicional e fiz minitrampolim dos oito aos 12 anos. Depois optei pelo voleibol.

Porquê?
Porque sempre gostei mais. Quando comecei, passei a jogar voleibol também na rua. Lembro-me que jogava com os portões de casa ou com os fios do estendal da roupa a fazer de rede. Às vezes jogávamos de um passeio para o outro e a bola não podia bater na rua.

Sempre foi alto?
Sempre. Fugi da média. Tirei o primeiro bilhete de identidade com nove anos e já tinha 1,52m. Aos 17 anos tinha a altura que tenho hoje, 1,93m. A minha mãe andava a controlar a minha estatura porque estava com medo que houvesse algum problema.

Que tipo de problema?
O meu irmão era muito baixinho e só cresceu por volta dos 16/17 anos, para 1,80m; a minha irmã deve ter 1,65m e os meus pais têm 1,60m. Então gerou-se uma certa preocupação porque havia uma pessoa aqui em Espinho que faleceu cedo porque tinha um problema de gigantismo. Ele tinha 12 anos e tinha 2,05m. E ficou tudo alerta. Mas aos 17 anos parei no 1,93m.

Quando se apercebeu que o voleibol ia ser a sua vida?
Quando me apercebi, já era. Foi a coisa mais natural do mundo.

Mas quando era pequeno sonhava ser o quê?
Polícia, por causa dos cães-polícia, dos pastores alemães, que eu gostava. Nunca pensei ganhar a vida com desporto. Desporto era uma paixão e quando comecei a jogar a sério, tinha 13 anos, pouca gente ganhava dinheiro com o voleibol. As coisas começaram a acontecer naturalmente. Quando fui para os seniores, com 16 anos, começaram a pagar mais.

E os estudos?
Eu queria Desporto, mas quando acabei o 12º ano, como já jogava voleibol, queria fugir do curso de Educação Física, porque era exigente fisicamente. Por isso, primeiro fui para um curso, em Aveiro, de planeamento regional e urbano. Estive lá um ano, vim embora e acabei por ir para Educação Física. Estava a fugir do inevitável. Mas demorei uns 11 anos a fazer o curso por causa do voleibol e de problemas burocráticos com a faculdade.

Depois da Académica foi para onde?
Comecei na Académica com oito anos, aos 13 fui para o Sp. Espinho, um ano, e regressei à Académica, até 1993. Depois fui um ano ao Castelo da Maia e voltei para o Sp.Espinho.

E clubes estrangeiros?
Não, nunca tive propostas.

Como surge o volei de praia?
Aqui em Espinho fazíamos quatro meses de praia e nos anos 80 havia uma rede de vólei na praia e um grupo de amigos, uns que jogavam regularmente e outros que não, vínhamos todos os dias à praia para jogar, seis contra seis. Começaram a surgir torneios de seis contra seis na Costa da Caparica e íamos lá todos os anos no verão. Depois, aqui em Espinho, começaram a fazer o torneio de TLP, de quatro contra quatro, com prémio em dinheiro, e começámos a jogar esse torneio e outros nas redondezas. Em 1991 fez-se o primeiro torneio de duplas em Portugal, em Espinho.

E como é que chega à dupla com o Miguel Maia?
Foi a coisa mais natural do mundo. Jogámos no pavilhão e na praia sempre juntos, fazíamos parte do mesmo grupo de amigos, saíamos à noite juntos, fazíamos parte das mesmas seleções, já havia uma amizade e cumplicidade grande, por isso quando chegou a hora de formar a dupla, foi só preciso perguntar “a que horas é o jogo?”. Nem houve um convite, eu tinha a certeza que ia jogar com ele e vice versa.

O Miguel é o seu melhor amigo?
Tenho outros amigos também, mas eu passei uma vida com o Miguel. Isto é quase como um casamento. Eu sei o que ele está a pensar e o que ele vai pensar e vice versa.

Nunca se zangaram?
Não.

Nem sentiram necessidade de afastar-se um do outro?
Não. Havia isso muito no voleibol de praia, duplas a desfazerem-se e a darem-se mal dentro do campo, duplas que nem falavam fora do campo. Havia uns irmãos suíços, Martin e Paul Laciga, que não se falavam fora do campo. Tivemos um jogo em Sydney com eles, em que recuperámos a desvantagem de 11-6 para 15-11, fizemos nove pontos consecutivos. Mas havia mais duplas assim, houve gente que chegou ao confronto físico em jogo.

Nem se culpavam um ao outro por um ponto perdido ou um mau resultado?
Não. Isso nunca existiu.

E ciúmes, um achar que é melhor do que o outro?
Não. Sabemos que os dois temos uma grande importância. É claro que numa equipa de seis pode ser um pouco diferente. Numa equipa de dois. o sucesso de um é o sucesso do outro e se um não está bem, o outro também não vai estar. Nunca houve nada desse género, por isso é que fomos a primeira dupla a atingir maior número de jogos juntos. Só fomos ultrapassados porque houve uma dupla norueguesa que já tinha deixado de jogar e, quando viu que tinhamos alcançado esse feito, voltou a jogar para quebrar esse recorde, já nós tínhamos deixado de jogar. Foi em 2010.

O Brenha deixou o circuito mundial em 2008. Quando decidiram terminar a dupla, quem tomou a decisão?
Tinhamos tentando ir aos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, e não conseguimos e…Depois de Atenas, numa entrevista, o Miguel assumiu logo o compromisso de lutar por Pequim e eu nessa altura já achava que não ia dar. Mas jogámos mais quatro anos e tivemos anos até bons. Mas não deu. Depois foi natural, porque eu tinha 38 anos e ele 37. Íamos apostar em mais quatro anos para ir a uns JO de Londres, eu com 42 anos ele com 41? Não dava. A nível psicológico, eu também estava farto, porque desgasta muito andar todos os fins de semana em competição, em países diferentes. As minhas férias eram no final da época de praia e não eram o tempo que desejava. Às vezes tinha 10 dias. Não é o mesmo do que estar um mês de férias sem preocupações.

Tem duas filhas, a Catarina de 13 anos e a Joana de 11. Elas jogam voleibol?
Sim. Começaram comigo na Academia Maia/Brenha e este ano foram para o Esmoriz.

Alguma gosta mais do voleibol do que outra?
A mais nova. Pensei que a mais velha ia desistir este ano porque é muito focada nos estudos (ela faz questão de ter tudo 5 e às vezes é preciso dizer para não estudar tanto), mas não desistiu. A mais nova lembra-me eu, porque está sempre com bola e em casa joga com um balão, que era o que eu fazia muito em miúdo com o meu irmão.

E o seu irmão, Paulo Brenha, também jogou.
Sim. E jogou na seleção nacional. Ele está agora a treinar a Académica de Espinho. É funcionário bancário, mas sempre esteve ligado ao desporto, jogou vólei até aos 42 anos.

Criou maior cumplicidade com o Miguel do que com o seu irmão?
Sim.

Conta tudo ao Miguel?
Eu sou um bocado reservado, mas provavelmente o Miguel é a pessoa que sabe mais coisas sobre mim.

Rui Duarte Silva

O que sente quando vê o Miguel ainda a jogar?
Deixei com 39 anos e sentia que tinha condições para jogar pelo menos mais um ano, mas na altura o Sp. Espinho não quis. Tive convites de outro lado mas não quis e resolvi acabar. Somos de posições diferentes, eu sou atacante, ele distribuidor. Um atacante se não fizer ponto eles vão cobrar, se não fizer, encosta. O distribuidor está ali para servir o atacante e o atacante está mais exposto do que um distribuidor. Vejo no Miguel qualidades técnicas e físicas para poder continuar a jogar. A nível físico eu já não tinha muita saúde. Andei constantemente com dor. Nos últimos anos era eu e a dor. Tinha sempre essa companhia, uma pessoa vai-se habituando.

Sente inveja do Miguel?
Não é inveja. Gostava de jogar até aos 90 anos, mas sei que não é possivel. Depois de ter abandonado as pessoas chateavam-me para voltar a jogar. O ano passado ainda me falaram para voltar, porque eu continuo a jogar todas as semanas no campeonato Inatel, treino todos os dias, corro, faço musculação três vezes por semana, treino na praia no verão… Este ano ligaram-me também de um clube da II divisão que quer subir à I, mas disse que não. O meu problema não é fazer um jogo, é fazer vários, porque a recuperação já é muito mais difícil.

Gostava de um dia ser treinador de uma equipa profissional?
Cheguei a estar no Espinho no ano a seguir a ter abandonado a competição, mas de 12 meses tinha-me pago apenas dois meses e tal. Não dava. Gostar gostava, mas nunca seria só treinador, teria que ter outra fonte de rendimento.

Gostava que alguma das suas filhas seguisse os seus passo?
Gostava, gostava que as duas seguissem, mas não vou colocar pressão.

Nunca teve vontade de jogar lá fora?
Não. Depois dos JO de Atlanta tivemos um convite para ir para os EUA e jogar o circuito americano de volei de praia e na altura pensamos nisso, mas eu queria era ficar cá.

Porquê?
Porque nunca tive esse espírito de sair do país. Nem sequer daqui. Tive convites para ir jogar para o Benfica e para o Sporting, nos anos 90, e nunca fui. Na altura eles falavam em ordenados de 600/700 contos (3000/3500 euros), mas eu ficava aqui por metade, pouco mais. Não tinha esse espírito, e era Lisboa, já ali.

Mas porquê?
Porque queria ficar aqui com a família, na minha terra. Sempre fui apegado a isto.

Está arrependido?
Não. Mas reconheço que tinha-me feito bem ter jogado um ano ou outro em Lisboa. Na altura em que o Sporting ganhou três anos consecutivos, contratou tudo e mais alguém, se tivesse ido era mais um título, mais dinheiro no bolso, uma experiência diferente. Mas não estou arrependido. Porque tenho a felicidade de ter em Espinho o clube com mais história em Portugal no voleibol. Foi uma sorte, já que a minha maneira de ser não me deixa ir para muito longe.

Os JO foram o expoente máximo da sua carreira. Qual foi o mais marcante?
Atlanta, porque foram os primeiros e por termos ficado em 4º lugar. Em Atlanta o sistema de competição obrigou-nos a fazer muito mais jogos (nove) do que em Sydney (cinco). Ou seja, em Atlanta para chegarmos às meias finais tivemos de fazer sete jogos, perdemos o segundo jogo e depois ficamos ali à bica, era dupla eliminatória, quem perdesse dois jogos estava fora. Perdemos o segundo jogo e partir dali era o jogo da morte. Fizemos vários jogos e não perdemos, só perdemos mesmo no fim.

Tinham aspirações de chegar onde chegaram?
Nem perto. Nós conseguimos o apuramento ficando a meio da tabela, em 12º no ranking olímpico. Ganhámos a duplas que estavam em 1º, 2º lugar no ranking. Até 1995 havia um circuito mundial apenas com cinco provas/ano. Só que como o vólei de praia tornava-se olímpico em Atlanta, eles então fizeram um circuito com 12 provas, em 1995.

Os JO foram a concretização de um sonho?
Sem dúvida. Quando comecei a jogar vólei de praia, comecei a ver revistas especializadas, sobretudo brasileiras, e dizia que um dia gostava de aparecer na capa de uma revista daquelas e os Jogos trouxeram isso tudo.

Foi um 4º lugar que vos soube quase a medalha?
Sim, esse foi, embora tenhamos consciência que com uma medalha seria diferente. Mas aquilo foi tão envolvente que ainda hoje há gente que pensa que ganhámos uma medalha.

E não conseguiram o bronze porquê?
Acho que foi mais o fator psicológico porque em comparação com a dupla que ficou em 3º lugar, nós podíamos ter ganho a meia final e os canadianos que jogaram connosco o 3º e 4º lugares nunca tiveram hipótese de ganhar a meia final que fizeram. Estivemos a ganhar por 12-9 e tivemos do nosso lado mais do que uma vez a hipótese de fazer o 13-9. Não fizemos e acabamos por perder 15-13. Fomos em desvantagem a nível psicológico no jogo para o 3º e 4º lugar. Tinhamos a consciência de que podiamos ter estado na final e era uma medalha garantida e podíamos não ganhar nada. E foi o que aconteceu. Posso fazer um paralelismo com as provas que fizemos durante a nossa vida, e nós ou ficávamos em 4ª ou ficávamos em 1º, normalmente era assim. Aconteceu algumas vezes no circuito mundial.

Nunca falaram um com o outro sobre isso?
Não. Mas eu sinto que nessas vezes que ficamos em 4º lugar, psicologicamente não entrávamos por cima e quando iamos para a final entrávamos cheios de vontade e se calhar livres daquela pressão.

Sydney custou mais?
Custou muito. Foi um 4º lugar mesmo com sabor a 4º lugar. Já tinhamos passado por aquilo. Foi muito igual. Tivemos um jogo contra o americanos, em que eles começaram na frente mas nós estávamos ali sempre por perto e o jogo esteve 10-10 durante uns 10 minutos (naquela altura só fazia ponto quem servia), virava de um lado, virava do outro, virava de um lado, virava do outro. Ao fim de 10 minutos conseguimos fazer o 11-10, com um erro deles, e eles pedem tempo. Quando voltam, demoram um bocado mais, já tinham sido avisados, demoram mais um bocado e levam outro cartão amarelo que deu ponto para nós. Ficámos com 12-10. Eles discutiram, aquilo mexeu com eles. Recuperam o direito a servir. E como estavam revoltados, vão para o tudo ou nada e fazem dois pontos diretos. E o jogo acabou em três minutos.

Recorda-se de algum episódio caricato que já possa contar?
Em 2002, salvo erro, tinhamos uma prova no Canadá e já estávamos um bocado fartos porque todos os fins de semana andávamos sempre de um lado para o outro. No caminho para o aeroporto perguntei ao nosso treinador (Francisco Fidalgo), se havia alguma influência no ranking se não fizéssemos a prova. Ele disse que não. Fui a pensar até ao aeroporto e quando lá chegamos puxei o Miguel para trás e perguntei-lhe: “Estás com vontade de ir à prova?”. Ele disse que não, como eu também não me apetecia, chegamos ao check in e dissemos ao Chico que não queriamos ir. Viemos para trás e depois tinha que haver uma justificação para a imprensa. Então decidimos que ia haver a gastroenterite de algum. Atiramos moeda ao ar para ver quem seria o contemplado e saiu o Miguel. Justificamos e viemos embora.

Essa viagens eram muito desgastantes…
Chegamos a ter uma prova em Macau, que eram nove horas a menos, e quando fomos arrumados começámos a fazer vida à noite. Íamos para um health club onde estavam os chineses todos e ficavamos lá estendidos nuns sofás, começamos a deitar tarde e a dormir mais de dia porque iamos depois para o México, via San Diego. Depois viemos a casa, e no fim de semana a seguir fomos para Toronto, e, no outro a seguir, Tenerife, a seguir Chicago e a seguir Noruega. Depois acabou com os Jogos de Sydney. Era um fim de semana na Europa outro na América. Era cansativo.

Algum país que o tenha fascinado mais?
Gostávamos muito do Brasil porque estagiámos e jogámos muito lá. Depois havia cenários fantásticos, na Suíça, na Noruega, países com montanha e neve e nós a jogar em campos de areia nos vales. Não me posso queixar da vida que tive no desporto. Pelo contrário, a melhor coisa que fiz no desporto foi ser atleta de alta competição.

É supersticioso?
Não. Mas uma vez estava no banco e antes de me levantar juntei os dois indicadores esticados no meio das pernas e não sei porquê depois comecei a fazer isso nesse jogo, mas foi uma coisa passageira.

É crente?
Sou, mas não vou à missa. Rezava antes dos jogos para não acontecer nada a nível físico e para fazermos um bom jogo. Mas nunca fiz promessas. Fui a Fátima uma vez, mas foi por causa de um problema de saúde da minha mãe. Quando o problema ficou resolvido, fui a pé, sozinho. Foi para aí em 2006. Foi duro. Demorei quatro dias e meio. Os pés rebentaram logo na primeira etapa, fiquei cheio de bolhas. Depois comecei a sentir as lesões que tinha. Tinha rasgado o adutor, comecei a sentir dores aí, tenho duas hérnias na região lombar, comecei a sentir muitas dores nas costas. No primeiro dia fiz perto de 40km, no segundo devo ter feito 20 e tal, depois 30 e tal. Nos primeiros três dias, vinha a casa e no dia seguinte levavam-me de carro ao sítio onde tinha ficado. Só do penúltimo para o último dia fiquei num hotel.

Já chorou por causa de algum jogo/derrota?
A única vez que chorei foi em Sydney. Mas sem ninguém ver.

As pessoas trataram-vos sempre bem?
Houve um comentário ou outro, do género “outra vez em 4º”, mas a maior parte das pessoas reconhece que é um feito. E à medida que os anos vão passando, vou tendo ainda mais consciência que foi uma grande coisa o que fizemos. Temos a notoriedade que temos porque ficamos duas vezes em 4º, se tivéssemos ficado uma vez em 4º e outra vez em 5º, bastava um 5º e já não era a mesma coisa.

Estava à espera de mais apoios e patrocínios?
Se colocarmos o futebol e o atletismo à parte, para a modalidade que é, não nos podemos queixar muito. Claro que se nos compararmos com outros países, há uma diferença abismal, teríamos muito mais apoio. Basta comparar com os espanhóis que recebiam mais do que o dobro de nós, só de bolsa.

Se tivesse de optar, voleibol de pavilhão ou de praia?
Praia. A praia deu-me muito mais visibilidade, mais dinheiro.

O facto de terem feito as duas variantes ao mesmo tempo, contribuiu para um maior número de lesões?
Claro que há um desgaste maior. Tive várias lesões musculares e tive algumas entorses, uma delas deu em rotura total de ligamentos da articulação do tornozelo, em 2004. Já estava debilitado do pavilhão e acabou por romper tudo na praia, numa prova em Espinho. Fui operado e só fiz uma prova antes dos JO de Atenas. Tenho duas hérnias na região lombar, tenho também o ombro gasto...fruto de um acumular de repetição, quer no pavilhão quer na praia

É mais difícil jogar na praia ou em pavilhão?
É preciso mais habilidade para jogar voleibol de praia. A nível técnico e do modo de executar tem que se ser melhor do que em pavilhão. Tecnicamente temos de ser mais apurados.

Como surge a Academia Maia/Brenha?
Foi uma ideia do Miguel. E alinhei. Começámos com minivoleibol de pavilhão, até aos 12 anos. Há dois anos dedicámo-nos ao voleibol de praia. A academia também organiza um grande evento de formação, chama-se AMB Voleibol Cup, que é um torneio de formação do minivolei até sub23 e tivemos perto de 3000 participantes o ano passado. Já é um torneio internacional.

Qual o jogo que mais o marcou na vida?
Posso falar no jogo dos quartos-de-final em Atlanta contra os americanos, que nos levou às meias-finais. Foi o jogo que nos levou para a ribalta.

Qual o troféu/título mais importante?
O 4º lugar nos JO foi mais marcante do que aquelas etapas que ganhámos no circuito mundial.

Como vê o futuro do voleibol em Portugal?
Acho que é negro. No voleibol de pavilhão, a nível masculino, no escalão de infantis, há 10 equipas a nível nacional enquanto existem 24 equipas femininas só na Associação de voleibol do Porto.

Há mais interesse das raparigas do que dos rapazes em jogar voleibol?
Atualmente, sim. Os rapazes dividiram-se por mais modalidades. Pelo futsal que não havia há 20 anos; em Espinho, por exemplo, há dois clubes recentes de badminton. Estão mais divididos por outras modalidades a nível nacional.

Está-se a criar a imagem de que o voleibol é um jogo feminino?
Se calhar, sim. Porque a diferença é abismal.

Então porque não temos melhores resultados a nível feminino?
Acho que existe uma politica desportiva errada. Tinha de haver uma completa remodelação na lei de bases do desporto. Acho que hoje os miúdos passam tempo de mais na escola. Eles começam a treinar às 18h30 e há camadas jovens a treinar à noite. Onde é que ficam os estudos, o descanso, etc? Se existe ensino articulado com a música, por que não pode haver com o desporto? A reflexão tem que ser muito grande a partir do Governo, da Secretaria de Estado da Educação e criar uma lei de bases que permita às pessoas ter tempo para praticar desporto e estudar. A modificação tinha que ser profunda, mas para se mudar alguma coisa aqui, demora-se anos e anos.

A nível profissional o que faz atualmente?
Sou professor de educação física no Colégio do Rosário, no Porto, e estou com o vólei de formação também. E tenho a Academia.

Onde investiu o dinheiro que ganhou?
Numa casa, nos carros que vou tendo e na minha vida. Tudo o que tenho teve a ver com o vólei.

A seguir ao volei qual o desporto de eleição?
O futebol. Sou portista.