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“Cristiano é o melhor finalizador de sempre”

Entrevista com Tostão, antigo campeão mundial pelo Brasil de Pelé, médico e comentador desportivo

Evandro Furoni

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Uma lesão num olho tirou Tostão dos relvados, mas nunca o fez perder a visão ímpar que tem do futebol. Parceiro de Pelé na seleção brasileira de 1970, Tostão trocou a bola pela Medicina para descobrir os segredos “do corpo e da alma”. Esta entrevista é uma lição de história, de futebol e de vida de um dos melhores jogadores de todos os tempos. E, provavelmente, o mais interessante.

Lembra-se dos primeiros momentos da sua carreira como jogador?
Com 16 anos já era titular da equipa principal do Cruzeiro. Antes disso joguei nos juvenis do América-MG, joguei futebol de salão no Cruzeiro, joguei na equipa do meu pai. Com 14 ou 15 anos fui bicampeão juvenil pelo América-MG e com 16 anos fui para o Cruzeiro e comecei como profissional. Foi uma carreira curta, que durou só dez anos, porque tive de parar. Tive um acidente num olho, uma bolada, e fui aconselhado a não jogar mais. Desses dez anos, nove foram no Cruzeiro e um no Vasco da Gama.

O Cruzeiro ganhou notoriedade ao vencer o Santos de Pelé. O que era enfrentar aquele clube?
Nós surgimos todos juntos: eu e Dirceu Lopes [companheiro de ataque de Tostão e um dos maiores ídolos do Cruzeiro] éramos da mesma idade, Piazza [central campeão mundial em 1970] era um pouco mais velho, mas apareceu na mesma época. Foi um ‘timaço’. O Cruzeiro fez uma grande equipa, foi pentacampeão mineiro e, em 1966, campeão da Taça Brasil, que hoje é reconhecida como título brasileiro. Era disputada pelos campeões de cada estado. A final foi contra o Santos. O Santos era a maior equipa do mundo, rivalizava com o Benfica, tinha Pelé, o maior jogador da história, e nós ganhámos. Não só ganhámos como ganhámos duas partidas inesquecíveis. A primeira, em Belo Horizonte, ficou 6-2. É inacreditável uma equipa jovem ganhar ao Santos por 6-2. Na segunda estávamos a perder por 2-0, em São Paulo, com a torcida do Santos contra nós, e ganhámos por 3-2. Foi um momento de glória, dois jogos espetaculares. O Santos, na época, dava sinais de decadência. Os jogadores estavam mais velhos, não era o mesmo Santos que ganhou ao Benfica anos antes.

Depois jogou ao lado de Pelé na seleção de 70, que toda a gente considera a melhor de sempre.
Primeiro joguei em 66, era suplente do Pelé. Não joguei na vitória de Portugal contra o Brasil, estava no banco. Joguei contra a Hungria, o jogo anterior. O Brasil perdeu também, o Pelé não jogou e eu fiz um golo. A partir dali, com 19 anos, passei a fazer parte de todas as seleções brasileiras. Em 70 foi o auge, a glória para mim e para o futebol brasileiro, porque foi uma seleção inesquecível, tida por muitos como a melhor de todos os tempos. Não sei se é a melhor, mas certamente era uma seleção espetacular, porque além do Pelé tinha o Rivellino, o Gerson, o Carlos Alberto [Torres], o Jairzinho... Eu também lá estava, mas eles eram mais grandiosos. Estão entre os grandes jogadores da história do futebol brasileiro. Até hoje, quem assistiu ama; e quem não assistiu escuta os seus pais e avós falarem da equipa de 70. Eu joguei fora da minha posição. No Cruzeiro era um jogador que vinha do meio-campo para a frente. Era como um médio ofensivo, vinha de trás. Na seleção fui deslocado, pois ali não podia jogar, era a posição do Pelé. Então fui jogar à frente do Pelé, como um ‘centroavante’ [ponta de lança]. Foi a única vez que joguei como ‘centroavante’. Mas considero-me um facilitador para o Pelé, para o Jairzinho, para o Rivellino, para o Gerson... Eu ficava na frente de todos eles como um facilitador. Aparecia, trocava passes, abria espaços. Foi a função que percebi que era a que precisava ter na seleção para o bem da seleção. Na época, o Zagallo [Mário Jorge Lobo, técnico da equipa de 70] achava que eu tinha de ser suplente do Pelé. Mas ele experimentou dois ‘centroavantes’, o Dario e o Roberto, e os dois não acompanhavam o jogo do Pelé e dos outros. No Mundial, resolveu colocar-me como titular. O Zagallo chegou ao pé de mim e perguntou-me se eu podia jogar naquela posição, sem recuar tanto. Eu disse-lhe que não seria um típico ‘centroavante’ nem um jogador de meio-campo, como era no Cruzeiro; seria um ‘centroavante’ armador.

Isso não tem um pouco do que hoje é chamado de ‘falso nove’?
Não gosto da expressão ‘falso nove’. Eu fui ‘centroavante’ da seleção brasileira. Quando se desloca um jogador do meio-campo para jogar ali, ele é o mais adiantado. Se é o mais adiantado, se joga pelo centro, então é o ‘centroavante’. Existem ‘centroavantes’ de todos os tipos. Há os que jogam nos espaços curtos, só para finalizar. Há os típicos ‘centroavantes’, geralmente altos, que finalizam bem. Há os que jogam movimentando-se pelo campo todo, pela esquerda, pela direita, que descem para receber. E há os que são habilidosos. Os grandes ‘centroavantes’ da história — Romário, Ronaldo, hoje o Ibrahimovic, até o próprio Cristiano Ronaldo, que agora joga mais próximo da área, para aproveitar a sua extraordinária técnica de finalizador — são os que se movimentam muito, participam no jogo, trocam passes... O Suárez faz isso, vai para a direita, vai para a esquerda. Estes são os grandes. Não é preciso ser alguém fixo na frente. Pelo contrário, esse tipo não é geralmente um grande ‘centroavante’.

Poucos anos depois da seleção de 70 teve de se retirar. Lembra-se do momento em que recebeu a notícia?
Fui-me preparando. Isso foi em 1973, foi a segunda cirurgia que tive. Fizera outra cirurgia em 69. Fiquei totalmente recuperado, joguei o Mundial, continuei jogando no Cruzeiro e depois no Vasco, sem problemas. Em 73, para minha surpresa, voltei a ter problemas. Fui operado, e desde o início foi-me dito que seria difícil voltar a jogar com a mesma qualidade que tinha, além de correr o risco de uma nova bolada ou cotovelada. Então fui-me preparando durante os seis meses em que fiquei em observação. Não houve o dia em que o médico chegou e falou: “Você não pode jogar.” Quando fiz o meu último exame, já sabia que não ia jogar. Antes de ele me dizer, já tinha percebido. Tanto que, no dia em que ele me disse que eu não podia jogar, voltei ao Brasil [a operação foi nos EUA] e no dia seguinte já estava a fazer a minha inscrição num curso preparatório para fazer exames para entrar na faculdade.

E porquê Medicina?
Tinha uma dúvida: estava entre Psicologia e Medicina, porque era uma pessoa introvertida, ainda hoje sou. Era uma pessoa que gostava de ler sobre filosofia. Tinha muita curiosidade sobre o ser humano, sobre os mistérios da vida. Queria ter um conhecimento maior sobre o que é a vida humana. Optei por Medicina porque achei que poderia entender o corpo e a alma das pessoas; na Psicologia ficaria apenas na alma. Depois, no curso de Medicina, percebi que a Medicina era uma ciência muito mais do corpo. Tornei-me médico clínico, professor de faculdade, e estudei psicologia médica porque gostava desta área. Estudei medicina psicossomática, psicologia médica, psicanálise, e fiz a minha análise pessoal.

As pessoas viam-no como o Tostão-jogador ou como o Tostão-médico?
Essa foi uma dificuldade que tive na Medicina. Para tentar diminuir esse problema, interrompi qualquer contacto com a área do desporto. Não dava entrevistas nem participava em reportagens sobre a minha vida de jogador. Fiz de propósito. Não para dividir a minha história em duas, mas para tentar que uma não atrapalhasse a outra. Queria ser um médico como outro qualquer. Era impossível separar totalmente, mas consegui muita coisa. Os alunos que foram meus colegas respeitavam muito essa minha vontade de estar ali como qualquer outro, tratavam-me como um companheiro deles. Os professores entenderam, até os pacientes entenderam.

Em 90 volta ao futebol, como cronista. Porquê?
De repente, comecei a ver mais futebol. Convidaram-me para ir a um Mundial [comentou para uma televisão brasileira o Mundial de 1990]. Até fiquei surpreendido, porque de repente tirei férias do meu trabalho de médico e fui para o Mundial como convidado. Fiz alguns comentários, o pessoal gostou, e queriam que eu escrevesse sobre futebol. Comecei a escrever, mas dividido, sem ainda pensar que isso voltaria a ser uma profissão. A coisa cresceu e chegou a um ponto em que acabei por decidir voltar. Além de gostar de futebol, houve outros detalhes pessoais que me fizeram achar que valia a pena voltar [não conseguiu ser contratado como professor para uma grande universidade de Minas Gerais]. Passei só a escrever, não gostava de me expor na televisão. Há quase vinte anos que escrevo, e gosto disso. A minha vida voltou a ser o futebol. Tenho de estar muito bem informado para poder escrever direito. Hoje estou totalmente adaptado ao futebol.

Os tempos de médico influenciaram o modo como vê o futebol?
Ajuda muito. A minha vida toda de médico e a minha vida ligada à leitura, gostar de filosofia, psicologia, do comportamento humano... tudo isso ajuda-me a escrever sobre futebol. Tento escrever numa linguagem que mistura um pouco a parte técnica com a parte humana, comportamental, com a visão mais global das coisas.

Como avalia o futebol brasileiro atual?
O Brasil teve um período de queda nos últimos 14 anos, mais ou menos. Ficou para trás na forma de jogar, porque houve uma evolução grande do futebol do ponto de vista coletivo que o Brasil não acompanhou. E houve uma diminuição de grandes jogadores. O Brasil continuou produzindo um número absurdo, porque é muito grande e todo o mundo joga futebol, mas o número de jogadores fabulosos diminuiu bastante. Há uma série de problemas graves na organização do futebol dentro do Brasil, muita promiscuidade, muita desorganização, muita incompetência. Até há o fator económico, já que os grandes clubes da Europa levam os principais jogadores. Isso conduziu a uma queda enorme, que culminou com o 7-1 para a Alemanha [na meia-final do Mundial de 2014]. Claro que o Brasil não era tão ruim nem a Alemanha era tão espetacular, mas o resultado tem um efeito simbólico. A partir de 2014 há um movimento de recuperação do futebol brasileiro, mas é ainda muito tímido. Na verdade, essa recuperação só aconteceu com a seleção depois de o Tite a assumir [no início de 2016 substituiu Dunga]. De 2014 até o ano passado, o Brasil continuou muito mal na seleção e mantém os mesmos problemas no futebol interno. Agora, há uma melhoria apenas na seleção. Há ainda muita desorganização, mas, como o Brasil é enorme, a possibilidade de formar uma equipa com 20, 30 jogadores muito bons é bastante grande. É quase impossível o Brasil não ter uma ótima seleção. Mas o futebol brasileiro é muito mais do que uma seleção. Os problemas continuam os mesmos, mas realmente formou uma bela seleção, como tem a Alemanha, a Espanha, Portugal, a França. Todos os titulares jogam na Europa. O Brasil voltou a ser competitivo porque os jogadores aprenderam na Europa a jogar um futebol moderno.

E acompanha o futebol português?
Confesso que vejo muitos jogos internacionais, mas temos de reconhecer que os grandes ‘times’, as grandes estrelas, não estão em Portugal. O Cristiano Ronaldo está no Real Madrid. Do Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City, vejo todos os jogos. Não tenho tempo para tudo, mas vejo o Benfica e o FC Porto, principalmente quando jogam na Liga dos Campeões. E acompanhei a seleção de perto. Assisti a todos os jogos de Portugal na conquista histórica do Europeu.

Como avalia Cristiano Ronaldo?
Com certeza que ele ficará na história entre os maiores. Não sei precisar se vai ser entre os cinco, entre os dez ou entre os quinze maiores, mas certamente estará na história como um dos grandes. Há dez anos que ele e o Messi são os dois maiores jogadores do futebol mundial, e os dois estarão entre os maiores da história, sem dúvida. O Cristiano Ronaldo talvez seja o jogador com a melhor técnica para finalizar de todos os tempos. Faz muitos golos de todos os tipos. Tem todas as habilidades técnicas de um grande finalizador. Não tem o que o Messi tem, por exemplo, que é a capacidade de, além de fazer muitos golos, ser um construtor do jogo. O Messi dribla, assiste, funciona como organizador, enquanto o Cristiano é um fenomenal jogador da intermediária para o golo. É uma glória poder ver os dois. Como vi Pelé, vi Garrincha, vi Eusébio, vi Zidane, vi os maiores da história.

E como é que o Tostão-cronista analisa o Tostão-jogador?
Tenho a capacidade de sair de mim e analisar-me como jogador. Fui um jogador excecional, tenho muito orgulho disso, mas não estou ao nível, sem nenhuma falsa modéstia, dessa turma que citei entre os maiores de todos os tempos. Estou numa turma que é muito maior, de grandes jogadores. Acho que fui um grande jogador. É como me vejo.