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Lucas João: “O Manuel Machado dizia que eu, com o meu potencial, andava a dar chutos em baldes de dinheiro”

Os pais não queriam que ele, um miúdo que se portava mal na escola, jogasse à bola, onde se portava bem. Começou à rebeldia no futebol até chegar ao Nacional, onde marcou oito golos em duas épocas, foi à seleção nacional e ouviu Manuel Machado dizer-lhe que tinha futuro - “Ainda hoje, se me vir na rua, dá-me na cabeça”. Lucas João está hoje no Blackburn Rovers, na segunda divisão inglesa, emprestado pelo Sheffield Wednesday, de Carlos Carvalhal

Diogo Pombo

© Reuters Staff / Reuters

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Como é que começaste a jogar à bola?
Foi no Cova da Piedade. Como? Vindo de uma rebeldia minha.

Rebeldia?
Sim, foi sem o consentimento dos meus pais. Saí de casa, eles a pensarem que ia somente à rua, mas acabei por ir ao Cova da Piedade. Treinei, as pessoas gostaram de mim e estive lá uns anos até aos infantis de segundo ano, creio. Depois, quebrei um bocado no futebol, devido a maus comportamentos na escola. A minha mãe acabou com o futebol, portanto. Mais tarde, outra vez por causa da rebeldia, e sem os meus pais saberem…

Os teus pais não te queriam ver no futebol?
Porque, na escola, não estava a ir muito bem. Era o mau comportamento, eram as faltas, era um menino rebelde. Eles cortaram-me o que eu mais gostava e foi aí que abrandei e vi que devia seguir pelo caminho que eles me estavam a dizer. Depois, nos iniciados, voltei a tentar e fui para o Beira-Mar de Almada. Estive lá até ao primeiro ano de juniores e aí fui para o Nacional.

Até quando é que os pais se chatearam por terem o filho no futebol?
Até aos 13, 14 anos. Chateavam-se. Diziam para me focar mais nos estudos. São pais, pronto, queriam o melhor para mim. Eles não conheciam o Lucas, o jogador. Queriam era que eu me formasse e coisas do género. Até ao dia que viram que o futebol era, realmente, aquilo que eu gostava e que me fazia bem. Foi até ao impacto que sentiram de, pela primeira vez, verem um jogo meu. Após isso, nunca mais me chatearem. Disseram: “Pronto, se é isto que tu queres, e que tu gostas, pronto. Mas, obviamente, tens que conciliar com os estudos”.

Marcaste golos nesse jogo?
[Ri-se]. Sim, sim, felizmente, no Beira-Mar de Almada, os golos eram uns atrás dos outros.

Por causa disso, não tiveste hipótese de ir para ao Sporting ou ao Benfica?
Sim, tive. No Benfica, tive dois anos a fazer captações. No último ano no Beira-Mar de Almada, tive uma semana no Sporting, outra semana no Benfica, depois voltava ao Sporting. Era sempre assim.

E isso não dá a volta a um miúdo com essa idade?
Eu cheguei a uma realidade completamente diferente, com condições às quais não estava habituado. Ver jogadores que via na televisão a cruzarem-se comigo no corredor. Estava a viver uma coisa em que, basicamente, me esquecia que tinha de ir treinar. Depois, são as pessoas que trabalham, o modo de treino, os equipamentos… Não me tinha de preocupar com nada, só mesmo jogar. Foi algo que me deixou mesmo, mesmo, com vontade de querer ser jogador de futebol.

Porque não ficaste lá?
No Sporting, o treinador disse que gostava de mim, mas, para uma avaliação final, teria que ir jogar um torneio com eles, para fora. No Benfica, mandaram voltar na próxima época e nunca mais me disseram nada.

Como aparece o Nacional da Madeira, no meio disto tudo?
O Nacional surge através da proposta de um empresário, que tinha metido alguns jogadores na equipa sénior. Ele conseguiu com que eu fosse para os juniores do Nacional.

Achaste logo boa ideia?
Não pensei duas vezes. Estava naquela do ir uma semana aqui, uma semana ali, e quando aparece uma proposta concreta, pensei “pronto, é isto”. O Nacional era uma equipa de primeira liga e o meu objetivo era lá chegar. Portanto, o Nacional tinha essas condições e foi uma oportunidade que só tinha de agarrar.

Em janeiro, o avançado trocou o Sheffield Wednesday pelo Blackburn Rovers, onde vai com três golos em cinco jogos

Em janeiro, o avançado trocou o Sheffield Wednesday pelo Blackburn Rovers, onde vai com três golos em cinco jogos

© Reuters Staff / Reuters

Foi nos juniores que conheceste o Manuel Machado?
Não, na altura o treinador era o Ivo [Vieira]. Ainda veio o Pedro Caixinha, só depois chegou o Manuel Machado.

O que tens a dizer sobre ele? É um personagem do nosso futebol, no bom sentido.
Tem de ser. É um treinador que, nas suas épocas, vai quase sempre à Liga Europa. Se não vai, fica lá perto. Tem de ser uma pessoal especial no nosso campeonato. É uma pessoa especial na minha vida. Deu-me a oportunidade de jogar na primeira liga. Deu-me muitos conselhos. Se me vir na rua, vai-me dar conselhos, vai-me dar na cabeça e dizer que o que falta são os golos. Para me concentrar. Ele dizia que eu, com o meu potencial, andava a dar chutos em baldes de dinheiro, por não estar a jogar. Dizia: “Miúdo, trabalha, trabalha e trabalha”. Os seus adjuntos também.

Com vocês, no balneário, ele fala da mesma maneira com que vai às conferências de imprensa?
É completamente igual. Não é por estar em frente às câmaras que ele é assim.

Nunca brincaram com ele?
Obviamente que, às vezes, havia comentários engraçadinhos, no balneário. Mas sempre saudáveis, sem nada de mal.

Diz-se muito que, mais do que a técnica e a tática, um treinador tem de dominar os egos e a relação com os jogadores. Esse tipo de linguagem não é uma barreira?
Não, porque ele é uma pessoa engraçada. Usa aquelas expressões dele, mas é uma pessoa que está sempre bem-disposta. Não se chateia praticamente com nada. Nos meus anos de Nacional, acho que o vi irritado uma ou duas vezes.

E foi porquê?
Porque um exercício não corria nada bem. Ele dizia que era assim e as pessoas não faziam nada do que ele pretendia. Foi chapéu para o ar, para o chão, foi apito… Passou-se. Ele próprio reconheceu, depois, que não era uma pessoa de se exaltar.

Ainda falas com o Manuel Machado?
Agora não tanto. No início, quando fui para Inglaterra, fazia-me algumas perguntas. Na pré-época acabei por me encontrar com ele, num jogo com o Nacional, e trocámos umas palavras.

O que te disse ele quando foste convocado para a seleção?
O normal. Deu-me força e motivação. Disse que ia correr tudo bem.

Estava à espera de poder vir a ser chamado, na altura?
Não. Tinha acabado de sair uma lista e pensava que era somente aquela vez. Mas, quando surgiu o jogo com Cabo Verde, estava lá outra vez. Nem eu pensava que uma coisa dessas ia acontecer.

De repente, estavas no meio dos Ronaldos e Quaresmas.
Causou-me muito impacto quando os vi pessoalmente. O Quaresma já tinha defrontado, em Portugal. Agora, o Ronaldo, o Bruno Alves, o Pepe, o Ricardo Carvalho, pessoas que só via a festejarem títulos, estarem ali, do nada, à minha frente. Foi diferente.

E o Fernando Santos?
É um treinador experiente. Achei que, digamos, que gere muito bem o grupo. É uma pessoa que te deixa, literalmente, à vontade. Tem a sua linguagem também, que é engraçada. Foi uma boa experiência.

Lucas João espera voltar ao Sheffield com o clube na Premier League - a equipa de Carlos Carvalhal vai no 6.º lugar, último que dá acesso ao play-off de subida

Lucas João espera voltar ao Sheffield com o clube na Premier League - a equipa de Carlos Carvalhal vai no 6.º lugar, último que dá acesso ao play-off de subida

© Reuters Staff / Reuters

Vais à seleção no final de 2015. Passou-te pela cabeça estares na corrida para o Europeu?
Nem me tinha passado pela cabeça estar na seleção, quanto mais estar no Europeu. As coisas estavam-me a correr bem no Nacional e ter lá ido foi um prémio. Estava focado no clube. Pensei mais depois de chegar ao Sheffield. Já me deviam estar a ver com outros olhos, também por me ter corrido bem. Feliz ou infelizmente, não fui, e Portugal ganhou. É o mais importante.

Porquê trocar a primeira liga pela segunda divisão inglesa?
Foi o desejo de querer jogar em Inglaterra e os objetivos do Sheffield. Estavam bem traçados e definidos. E o facto de lá estar com um treinador português fez-me achar que era o melhor para mim.

E o teu inglês, estava em dia?
Falava o básico que tinha aprendido na escola. Claro que, ao início, faz confusão. Trocares de país de repente, sem conheceres nada. Tinha lá um suporte, o Marco Matias, que já tinha feito a pré-época. Tinha também o Semedo e os treinadores, que ajudam sempre. Depois, o futebol, que é totalmente diferente e mais físico. Em Portugal, um toque mais agressivo é logo falta. Lá, podem-te mandar jogar.

Gostas disso?
Agora, estando lá, prefiro isso. O futebol está sempre a seguir, há mais oportunidades, mais espetáculo. A bola não está sempre parada. Mesmo estando a ganhar 1-0 mesmo no fim, eles lá querem jogar. Só aí já é diferente.

Também levas mais porrada, não?
Claramente. Têm lances que assustam e que os árbitros, se calhar, nem dão falta.

Aconselharam-te a fazeres mais ginásio, por causa disso?
Eles passam a palavra, mas isso cabe a cada jogador. Obviamente que, se me quero adaptar, tenho que aumentar a minha massa muscular. Os exercícios estão lá, eles dão-nos as ferramentas. Mas só aproveita quem quer. Ou melhor, não é uma questão de aproveitar. Há jogadores que se sentem bem assim. Não se vai pedir a um jogador com muita velocidade para fazer muitos pesos. Cada um decide o que o seu corpo necessita.

Dás-te bem com o Carlos Carvalhal?
Sim, só o facto de falarmos a mesma língua é meio caminho andado. Ele não deixa de ser o treinador e eu o jogador, mas nunca nos demos mal.

O ano passado começaram bem a época e chegaram ao play-off de acesso à Premier League. Os adeptos vibram muito com vocês?
A massa associativa é incrível. Por todo o lado que uma pessoa vá, eles estão lá. Acho que Sheffield está espalhado por toda a Inglaterra. Em jogos fora, seja onde for, são capaz de estar sempre cinco ou seis mil adeptos. O Sheffield é um dos maiores clubes ingleses.

Consegues andar à vontade na rua?
As pessoas comentam e pedem fotos, mas não são assim de chatear.

É diferente de cá?
Completamente. Lá as pessoas não se acanham. Aqui, já tive exemplos em que as pessoas reconhecem, aponta e tal, mas ficam por ali. Em Inglaterra, se te reconhecem, vão ter contigo.

E agora, porquê o Blackburn Rovers?
Foi devido à lesão que tive no início da época. Demorei alguns meses a superá-la. Com a abertura da janela de transferências, sentei-me com o mister, ele passou-me o seu ponto de vista, eu passei-lhe o meu, e achámos que o melhor para ambas as partes era eu ir para o Blackburn, para jogar mais. Tem corrido bem, marquei dois golos recentemente, até foi contra um português, o Ivo Pinto [Norwich City]. Agora está a correr melhor. Esperei pela minha oportunidade e adaptei-me à equipa, que já tinha um onze base. Tive de esperar. Felizmente, chegou a minha oportunidade e estou a conseguir aproveitá-la.

Achas que a conquista do Europeu fez bem à reputação dos jogadores portugueses?
Obviamente. Já estão na boca do mundo pelo que têm feito. Só pelo Cristiano Ronaldo, que é o nosso representante máximo, já olhavam para os portugueses de maneira diferente. Agora, com a conquista do Euro, acho que vão-nos valorizar ainda mais. E aos treinadores portugueses, que já se veem mais em grandes palcos.

A tua ideia é manteres-te em Inglaterra?
É onde eu tenho contrato, onde gosto de jogar e é nisso que tenho de me focar.

É desta que o Sheffield Wednesday sobe à Premier League?
Espero bem que sim. Já nos chegou o sentimento agridoce do ano passado [o Sheffield perdeu no play-off de acesso, frente ao Hull City]. Estou a torcer por fora, como é óbvio. Espero que o consigam.

Quanto tempo demorou a curar a ressaca? Ficaste a remoer durante muito tempo?
Eu fiquei. A nossa sorte é que, no dia seguinte, já estávamos de férias. Acabas por espairecer, porque já tinhas planos para ir aqui ou acolá. Depois, quando voltei para a pré-época, sentia que podíamos estar num patamar diferente. Lutámos muito.