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Gary Stevenson, líder da MLS: “Gostava de ter Ronaldo e Messi a venderem o meu produto”

Trabalhou para a NBA e na área do golfe, mas desde 2013 é por causa do soccer que Gary Stevenson dorme todos os dias com um olho aberto. Presidente e diretor-executivo da Major League Soccer, o norte-americano sabe que ter os melhores jogadores do mundo ajuda o negócio, mas avisa que MLS é (ou vai ser) muito mais que uma glamorosa casa de repouso para estrelas em final de carreira: as audiências crescem como em nenhuma outra modalidade nos EUA, há milhões de dólares a serem investidos em academias e o objetivo é formar os futuros melhores futebolistas do planeta

Lídia Paralta Gomes

Gary Stevenson é o líder da MLS

FPF

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Sou portuguesa e gosto de futebol. Venda-me em poucas palavras o produto Major League Soccer (MLS)
Nível competitivo fantástico, uma incrível experiência no estádio e muita diversão.

A MLS é uma competição divertida?
É, é mesmo! A atmosfera nos estádios é incrível. Os adeptos são apaixonados, um grupo muito jovem, ‘millenials’ como tu, um público multicultural. O futebol é provavelmente o desporto mais inclusivo dos Estados Unidos.

O Gary trabalhou para a NBA e também com golfe e falou-me do futebol como o mais inclusivo dos desportos nos Estados Unidos. Quão diferente é a experiência?
É diferente porque todos os outros desportos com que trabalhei eram maioritariamente americanos, com uma visão maioritariamente americana. O futebol é diferente, porque é um desporto verdadeiramente global e os norte-americanos e canadianos chegaram um bocadinho tarde à festa. É uma mudança para mim. Eu caracterizaria a MLS como uma marca desafiadora e isso é divertido, porque dá-nos a oportunidade de sermos disruptivos.

Na terça-feira os Chicago Fire contrataram o Schweinsteiger. O Andrea Pirlo e o David Villa jogam no New York City e o Kaká no Orlando City. Estes nomes são o melhor marketing para a MLS?
Não sei se pensamos nestes jogadores como “marketing”. Acho que o fizemos no passado, com o David Beckham, por exemplo. Fizemos pesquisa com os adeptos no ano passado e o que os adeptos nos disseram é que a prioridade número um é a qualidade de jogo. A qualidade do nome não é assim tão importante. Agora, se tiveres um jogador como o David Villa, que junta a qualidade de jogo e a qualidade do nome, isso é um bónus. O mesmo com o Kaká. Eu creio que os Chicago Fire acreditam que o Schweinsteiger terá o mesmo papel, mas não nos podemos esquecer que o clube está a remodelar-se de uma ponta a outra: contrataram também dois outros médios e a chegada do Schweinsteiger é parte de um puzzle. Eu acho que a principal razão para o contratarem é porque ele era a peça que faltava no campo. Se ele vender bilhetes, melhor.

Na Europa ainda vemos a MLS como uma das ligas em que os jogadores de 35 anos vão para acabar a carreira. O objetivo é mudar essa ideia?
Não sei se é mudar a ideia. As pessoas terão de olhar para como estamos a agir. Os Atlanta United, por exemplo, contrataram o Miguel Almirón, um paraguaio de 23 anos. Os LA Galaxy contrataram um jogador português [João Pedro, de 23 anos, ex-V. Guimarães] que está no seu melhor momento. O que vai acontecer é que a nossa liga vai ser vista como um passo em frente na carreira para todos os jogadores.

E o caminho é continuar a contratar estrelas ou ir em busca do próximo grande jogador norte-americano?
A melhor história não contada é aquela sobre a quantidade de dólares que os proprietários das equipas estão a gastar em academias e na formação de jogadores. Há cinco anos não tínhamos nada nesse campo, não tínhamos equipas de formação. Agora todos os clubes têm equipas para cada escalão. O futuro é formar atletas norte-americanos e canadianos para jogar na nossa e em outras ligas. Por isso a resposta é: sim, estamos a investir muito na formação.

É possível ter um Ronaldo ou um Messi americano? Quanto tempo levará até a América do Norte produzir uma grande estrela?
Repara, neste momento temos um rapaz chamado Alphonso Davis, titular nos Vancouver Whitecaps, que acabou de completar 16 anos. É um enorme talento. Eu acho que os EUA e o Canadá estão a caminho de criar alguns dos melhores jogadores do mundo. Quanto tempo vai levar? Não sei. É possível nascer um novo Messi? Poderá nunca mais haver um. É possível aparecer um novo Ronaldo ou um novo Tiger Woods? Não tenho assim tanta certeza. Mas tenho a certeza que estamos a construir as infraestruturas para formar grandes jogadores.

E ter Cristiano Ronaldo na MLS. É um sonho?
Claro, adorava ter o Cristiano Ronaldo e o Messi para vender o nosso produto. Mas o objetivo final e o que mais queremos é criar ligação entre os clubes e a sua comunidade. Eu quero que a comunidade de Orlando sinta que aquele é o seu clube, o mesmo com a população de Seattle. Se conseguirmos isso em 28 mercados da América do Norte, fomos bem sucedidos.

Diogo Pinto

A MLS está em expansão. Até onde querem ir?
Temos duas equipas novas este ano, mais uma no próximo e provavelmente teremos mais umas cinco nos próximos seis anos. Não queremos expandir por expandir, mas neste momento há 12 cidades que se candidataram a pagar 150 milhões de dólares para construir estádios de futebol. Portanto, há muito interesse. Há muita gente que me pergunta se isso pode afetar o talento. Eu digo que há muitos jogadores com talento espalhados pelo mundo e por isso não estamos preocupados em não ter um produto de qualidade, mesmo com a expansão.

É presidente da MLS desde 2013. Pelo meio, a liga expandiu-se e mudou completamente a sua imagem. Acha que tem levado a água ao seu moínho e cumprido com os objetivos?
Bem, eu nunca sinto que esteja a cumprir os objetivos. Sou pago para me preocupar e para dormir com um olho aberto. Sinto que há um progresso grande, mas temos muito caminho aberto à nossa frente. O que me encoraja é saber que as melhores marcas são construídas com dinâmica e eu acho que nós temos muita dinâmica neste momento.

Como se materializa essa dinâmica?
Com a mudança na imagem que fizemos, acho que nos tornamos numa marca moderna, capaz de se adaptar a cada um dos mercados. Acho que a forma como distribuímos conteúdos media é nova e diferente. Somos o único campeonato nos Estados Unidos em que todos os jogos são transmitidos em inglês e espanhol. Acabámos de introduzir uma experiência ao vivo com o Facebook. Temos muito conteúdo vídeo que distribuímos em parceria com o Facebook, Twitter. Por isso, acho que temos muita dinâmica em muitas áreas, mas ainda temos tanto, tanto para fazer. É que a nossa concorrência não são só os outros campeonatos de futebol, mas também as restantes ligas de desporto norte-americanas.

Acredita que a MLS está a estreitar a diferença que ainda existe para as chamadas Big 4 (NBA, NFL, MLB e NHL)?
Sim. Aliás, eu já gosto de falar em Big 5.

Ah, peço desculpa.
[Risos] Não, é verdade que essa é a forma como tipicamente falamos do desporto norte-americano, mas a MLS é a única das ligas que na temporada regular tem um crescimento de dois dígitos nas audiências televisivas nos últimos três anos. É difícil crescer nos media por estes dias, temos assistido até a um pequeno decréscimo nas audiências, até pela forma como hoje se consomem os conteúdos. Estamos otimistas, mas também somos humildes. Temos mesmo muito para percorrer ainda.

Falou nos ‘millennials’ e há um crescimento grande do público latino-americano. É este o público que a MLS quer agarrar?
Não necessariamente. Não vamos fazer campanhas específicas para o público latino-americano. Sabemos que nesse mercado de ‘millennials’ entusiastas há falantes de espanhol, falantes de inglês e há quem fala os dois idiomas. Acho que daqui a cinco anos, não terá mais importância que idioma falas.

O crescimento da liga chinesa é uma ameaça para a MLS?
Não, acho que não. O desenvolvimento do desporto por todo o mundo é bom para a MLS.

Disse que quer que as pessoas de Orlando sintam a equipa da sua cidade. Mas o objetivo passa também por pôr pessoas do mundo inteiro sentirem a equipa de Orlando como sua? Quer que esse seja o seu legado?
Não penso muito nessa questão do legado. Só quero que as pessoas olhem para mim e sintam que está ali alguém que trabalhou todos os dias. Mas se nos próximos cinco anos mantivermos de forma sustentada o crescimento e as métricas dos últimos anos, acho que isso vai abrir os olhos de muito boa gente pelo mundo fora.

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