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Roberto Carlos: “A Rússia? Coisa linda. Se for para lá, leve uma sunga para ir à praia”

O pontapé canhão, pois claro. Roberto Carlos tem noção que as pessoas o recordam mais pela força que tinha no pé esquerdo - “A beleza é que não é”. A Tribuna Expresso falou com antigo lateral do Real Madrid, num dos intervalos da chuva do Football Talks, e ele diz que ajudou a mudar a imagem do jogador brasileiro na Europa e que, por isso, acha que sempre foi melhor fora do campo. E sim, também teria medo de ficar na barreira contra um livre marcado por ele próprio

Diogo Pombo

Nuno Botelho

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Tem noção que, no programa do Football Talks, está identificado como "Lenda da FIFA"?
Ai é? Pois, a FIFA agora está criando um programa que é o Lendas da FIFA, com jogadores que fizeram muita história no futebol. Formou-se um grupo para eventos como esse. Por exemplo, a FIFA está fazendo um evento na Indonésia, então manda sempre alguém, dessas lendas. Acho que é uma coisa muito legal para as pessoas não esquecerem da nossa cara [ri-se].

Sente-se como uma lenda?
Eu gosto que as pessoas falem. Não me considero uma lenda. Apenas joguei futebol e me diverti durante muitos anos. Ganhei muitos títulos legais e importantes, que tinha o sonho de ganhar quando saí do Brasil. Sonhei em poder vestir a camisola do Real Madrid e da seleção do Brasil. Então, ser campeão da Champions, da Copa do Mundo, da Copa das Confederações, do Mundial de Clubes... Isso era um sonho que eu tinha e que se tornou realidade. As pessoas falam que eu fui uma lenda, mas acho que fui um jogador regular ao longo de toda a minha carreira.

Gosta de sair à rua para beber um café e ser reconhecido imediatamente?
É muito bom. É sinal que você fez um trabalho bom, não só dentro de campo, mas fora também. Eu achava-me melhor fora do campo.

Como assim?
Porque conseguia passar uma imagem alegre para as pessoas, e não aquela imagem do craque, do fenómeno, que não falava com ninguém. Consegui mudar um pouco a imagem das pessoas em relação ao brasileiro fora do país. Na época, havia a imagem do jogador brasileiro que ia para a Espanha, para a Itália e para a Inglaterra, para esses países, que ficava um ano e ia embora. Eu queria fazer a minha história e mostrar ao povo estrangeiro que nós eramos profissionais. Que chegávamos para trabalhar e mostrar o nosso melhor futebol.

Mas não acha que a imagem do jogador brasileiro sempre foi de alegria e sorriso na cara?
Agora sim. Mas havia aquela coisa de o brasileiro sair do Brasil e sentir logo saudade de casa. Isso nós mudámos. Eu, o Cafú, o Gilberto Silva, o Kaká. Conseguimos mudar isso, trabalhando. Sendo muito corretos e sem ocupar o espaço de ninguém. A gente ia lá, trabalhava, se divertia, comemorava com o público e foi essa imagem que procurámos passar.

Nuno Botelho

O que acha que as pessoas recordam mais de si?
O 'chute', 'né? A beleza é que não é! [ri-se bastante]. Era mais pelo chute, pela potência.

Já nasceu com essa potência no pé esquerdo ou teve que treiná-la?
Você vai treinando. O meu pai também é forte, tem as pernas muito fortes, mas eu sempre treinava muito, chutava muito à baliza. Então, foi aumentando. Mas já é de família. O meu pai também é pequenininho e pernudo.

Ouvi dizer que chegou a jogar com o seu pai.
Comecei a jogar com o meu pai. Acordava às 7 horas da manhã para esperar pelo meu pai, para sair para jogar futebol. Ele queria que eu fosse com ele. Se eu jogasse na mesma equipa, ele tinha medo, porque eu era muito pequeno, se alguém me desse um pontapé ele brigava. Comecei a jogar na escola, mas, aos domingos de manhã, jogava sempre na mesma equipa que o meu pai. Ele não me colocava de início, colocava-me na segunda parte, quando eles já estavam cansados. Eu sempre fui muito rapidinho, então era a melhor altura para entrar. Se alguém chegasse perto, o meu pai "ó, calma, que isso ainda vai ficar feio".

Você teria medo de ficar na barreira contra um livre seu?
Ah, sim. Mas eu dificilmente acertava na barreira. Acertei uma vez na Rússia e derrubei um cara. Ainda me lembro - peguei a bola bem no estômago dele, ele caiu e fiquei com medo que ele tivesse morrido. Mas sempre usava a barreira como referência, 'né? Referência por cima, pelo lado, ou pelo outro.

E batia sempre, sempre em força. Nunca tentou em jeito?
Onde, em penáltis? Veja uma coisa. Eu tenho uma dificuldade com penáltis, que são daqui a aí [afasta os braços, para ilustrar distância]. Mas para mim era mais fácil de longa distância, porque sabia que a bola ia à baliza. Agora, num penálti, não sei se bato fraco, forte, ao meio, no canto de cá ou no de lá. Nunca tive referências.

Lembro-me de haver o rumor de que o Roberto Carlos usava chuteiras um ou dois números abaixo. É verdade?
Usava-as sempre muito apertadas, sim.

Porquê?
Não sei. É a mesma coisa quando você pega na bola e vira a válvula [pipo] para cá, achando que ela vai fazer um efeito diferente. Eu usava-as muito apertadas porque me sentia mais confortável e achava que ia bater melhor na bola. Com a chuteira um pouco mais larga, não me sentia bem.

Não tinha dores por causa disso?
Não. Acho que um dos motivos pelo qual fraturei um dos meus dedos do pé direito foi porque usei a chuteira grande. Pisei errado e fraturei o dedo sozinho.

Ainda acha que todo o lateral esquerdo que apareça no Brasil queira ser como o Roberto Carlos?
Uso a minha maneira de jogar e maneira do Cafú jogar. O Brasil sempre teve aqueles quatro zagueiros [defesas] - portanto, se um lateral atacava, o outro defendia [abre uma das mãos e afasta os dedos, para exemplificar]. Aqueles movimentos. Eu e o Cafú usávamos muito as bandas com a cobertura dos volantes [médios defensivos]. E mais os dois defesas. A gente inovou um pouco essa coisa do lateral defensivo e muito organizado. A gente falava para eles, para estarem atentos para quando eu e o Cafú subissemos ao mesmo tempo.

Pois,mas vocês avançavam muitas vezes na mesma jogada.
[Ri-se, à medida que ouve a pergunta] Hoje em dia todo o mundo fala que os laterais atuais fazem 11 quilómetros por jogo. Já na nossa época a gente os fazia.

Quem tinha mais pulmão?
Era o Cafú. Ele corria muito, ainda hoje corre. 'Igualzinho' como antes.

Continuam a ser bons amigos?
Sempre. Eu sou amigo de todo o mundo. Tenho muito respeito pelo Cafú, ele foi o meu capitão e o meu professor. Estava sempre com ele a tomar um café, durante as concentrações. Encontramo-nos sempre em São Paulo.

Quem era o seu companheiro de quarto?
O Ronaldo, sempre. Não o Cristiano, mas o Ronaldo! [ri-se de novo]. Eu comecei a ter concentrações com o Ronaldo em 1993. A partir daí, contamos sempre a mesma história - "Dormi mais com o Ronaldo, do que com a minha mulher". Ele estava no PSV e eu no Palmeiras. Em 1995 fui para o Inter de Milão, em 1997 vim para o Real Madrid, em 1998, no Mundial, em 1999, na Copa das Confederações, sempre me concentrei com o Ronaldo. Foi até mudar e passar a haver aquela coisa de cada jogador no seu quarto. Foram 16 anos a dormir não na mesma cama, mas no mesmo quarto [mais risos].

Nuno Botelho

Houve uma fase da carreira em que era extremo, em Itália. Fez-lhe confusão?
Tive um problema nos dois últimos meses de Itália. O Roy Hodgson colocou-me a jogar como atacante. Eu corria muito e, naquela época, dos laterais defensivos, eu atacava muito.

E não voltava, não é?
Voltar para quê? Tinha um monte de gente atrás de mim. Ele, por ser inglês, usava dois laterais muito defensivos. Ele até me contratou porque eu jogava muito ofensivo na seleção brasileira. Eu achava que não tinha de defender. O futebol italiano ensinou-me a defender. Só que como era muito ofensivo e fazia golos, ele colocou num italiano para jogar como lateral, e eu fui para o meio campo. Continuei a fazer golos. Depois, tirou-me de extremo e colocou-me como atacante. Mas, em Itália, naquela época, só ficava olhando para cima [levanta a cabeça, olha para cima e segue bolas imaginárias, a passar]. Aí acabei por ter problemas, porque estava muito próximo da Copa América e pedi para o Moratti me deixar ir embora. Não sabia que era para o Real Madrid, ele só me falou que havia um clube grande interessado.

É curioso que a primeira e a última época que faz no Real Madrid é com o Fabio Capello, um treinador italiano.
Que foi um dos melhores treinadores que tive.

Não lhe dava muito na cabeça?
Não, porque ele preparava o sistema. Era o Panucci de um lado, eu do outro. Primeiro era o Secretário, o português. Então, ele segurava o Secretário e dava-me toda a liberdade. Depois, também tínhamos o Fernando Redondo e o Makelélé, que faziam muito bem a cobertura. Eu atacava e tentava fazer cruzamentos ou bater na baliza. O Capello facilitou muito a minha vida e colocava-os para correrem atrás de mim.

Foi o treinador que lhe ensinou mais?
Quem me ensinou mais foi o Vanderlei Luxemburgo. Era muito, mas muito chato. Ensinou-me a cruzar, a posicionar, a falar. Logo chegou o Capello, o Vicente Del Bosque, o Guus Hiddink, que foram treinadores muito corretos comigo. Se for contar a minha história inteira fico aqui até amanhã. Quer ficar? [outra gargalhada]

Por mim, tudo bem. Mas e a Copa das Confederações, na Rússia, como acha que vai ser?
Vai ser fantástica, linda. Morei lá três anos e vi todos os estádios, tanto em maquete, como quando estavam a ser construídos. Tinha o estádio do Spartak ao lado de minha casa, conheço o estádio em São Petersburgo, vi a maquete de Sochi... São estádios de primeiro mundo. O russo não faz coisas mais ou menos. Ele faz para chamar atenção. Por isso, vão fazer uma estrutura enorme, para chamar a atenção de todo o mundo.

E os russos vão encher os estádios?
Eles amam futebol. Se vocês pegar num clássico, como o Lokomotiv-CSKA, eles têm 45 mil pessoas no estádio. É a base para qualquer jogo da Copa das Confederações. Eles são apaixonados por futebol.

Como era jogar lá com o frio?
Não faz assim tanto frio. Com a neve, às vezes a sensação de frio era de -2º. Está -40º, mas a sensação é de -5º ou algo parecido. No verão, por exemplo, havia 40º. Coisa linda. Se for para lá, leve uma sunga para ir à praia.