Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Raí, depois do futebol: “Tenho um cinema na rua, como falamos no Brasil, um cinema de resistência, de arte, fora dos centros comerciais”

Deus em São Paulo e no Parque dos Príncipes, campeão mundial pelo Brasil em 1994 e irmão de Sócrates, Raí é aos 51 anos um homem dedicado a causas sociais e políticas, causas essas que lhe correm no sangue. Tem uma fundação, chamada Gol de Letra e foi também de letra que marcou o último golo da carreira, em 2000. "Coincidências do destino", diz à Tribuna Expresso o antigo médio, um cinéfilo inveterado que um dia marcou um golo ao Barcelona com a púbis

Lídia Paralta Gomes

Campeão do Mundo pelo Brasil em 1994, Raí foi um dos oradores do Football Talks

Nuno Botelho

Partilhar

Raí, os seus irmãos mais velhos chamam-se Sócrates, Sófocles e Sóstenes. É verdade que o seu pai queria que se chamasse Xenofonte e que a sua mãe é que o demoveu?
[Risos] Acho que é mais lenda. O meu pai adorava filosofia e queria continuar com os nomes dos filosofos gregos. Eu sou o sexto de seis filhos. Mas é mais lenda do que outra coisa. Os meus amigos sempre brincavam com o nome dos meus irmãos e imaginavam como seria o meu. Mas nunca chegou a ser uma opção. Por sorte minha!

Por falar em família, sente muito a falta do seu irmão Sócrates? Este lado humanista que tem, preocupado com política, com as causas sociais, também vem dele?
O Sócrates é uma grande referência quando falamos em atuação política, principalmente nos anos 70 e 80, quando eu era ainda um jovem. Sempre foi uma pessoa muito marcante em tudo o que fazia e toda a gente sente muito a falta dele. Essa inspiração serviu também para a minha atuação social. Valores esses que sempre foram cultivados na minha família, através do meu pai, da minha mãe, que saíram de uma classe social pobre, que viveram a injustiça social do Brasil, e sempre fizeram questão que os filhos estivessem atentos a essa discussão, à realidade que o Brasil vivia; sabíamos desde cedo que o nosso país tinha de melhorar no aspeto social e democrático.

E o Sócrates e o Raí continuaram a trabalhar esses valores.
O Sócrates iniciou, outros irmãos meus têm as suas atuações e eu também no pós-carreira aproveitei o facto de ser uma pessoa reconhecida e respeitada, com poder de mobilização e comunicação, para defender as causas que eu acredito: a igualdade através da educação, os benefícios da educação pelo desporto para todos. E é isso que eu trabalho nos projetos sociais em que estou envolvido.

Tem uma fundação chamada Gol de Letra que faz exatamente esse trabalho.
Um ano antes de acabar a carreira, entre 1998 e 1999, lancei essa ideia. Era uma coisa que queria fazer, ter uma atuação na prática, não só aquilo de participar em campanhas ou defender ideias. Queria colocar a mão na massa num projeto de campo. O nome Gol de Letra é um jogo de palavras: tem desporto e educação, a educação pelo desporto. Eu acredito nisso como um grande poder de revolução da nossa sociedade, da sociedade brasileira neste caso, de investir na formação das novas gerações, para que elas tenham consciência e espírito crítico para se reinventarem e reinventar o nosso país.

O seu último golo da carreira foi um golo de letra. Coincidência?
Sim, sim, é mesmo uma coincidência [risos]. Talvez tenha sido algo inconsciente, mas é coincidência. Logo que voltei ao São Paulo, depois de jogar em França, arranquei com a fundação Gol de Letra. Nessa altura fiz um golo e quando cheguei perto da torcida fiz um símbolo com as minhas pernas, uma homenagem aos jovens da fundação que eu tinha prometido fazer. Mas aí o último golo da minha carreira foi contra o Palmeiras, acho que numa meia-final da Copa do Brasil de 2000. Foi um golo de letra e ficou marcado, né? São aquelas coincidências do destino.

É verdade que é dono de um cinema?
Sim, é verdade, em São Paulo. Sempre fui muito interessado em atividades culturais. Tenho uma box no Estádio do Morumbi [casa do São Paulo] que tem atividades culturais, e tenho um cinema, cinema na rua, como falamos no Brasil, um cinema de resistência, de arte, fora dos centros comerciais. É um projeto com importância urbanística, um cinema artesanal, digamos assim. Chama-se Cinesala, e eu e os meus sócios temos muito orgulho nele. Hoje é bastante respeitado, não só pela qualidade, mas sobretudo pelo posicionamento, por ser um cinema de resistência, com importância para a cidade.

E qual é o seu filme favorito?
O meu filme preferido? Ai, essa pergunta é sempre muito difícil [risos]! Assim um que tenha marcado a minha vida, deixa eu ver… é que há tantos filmes bons. O “Cinema Paradiso” marcou-me muito.

Ah, já percebi porque é que tem um cinema.
Tem a ver, sim, tem a ver [risos]. Estava a tentar lembrar-me de outro que eu sempre falo. “Ligações perigosas”, com o John Malkovich e a Glenn Close.

Voltando ao futebol: faz parte daquela equipa do Paris Saint-Germain campeã de França liderada por Artur Jorge, com Ginola, Weah, Ricardo Gomes, Valdo, entre outros.
É preciso ter a sorte de estar no lugar certo, à hora certa e com as pessoas certas. Cheguei a um projeto novo do Paris Saint-Germain e um dos factores do sucesso dessa equipa nos anos 90 foi escolher as pessoas certas. A começar pelo treinador, o Artur Jorge. Já lá estavam também o Ricardo Gomes e o Valdo. Eu fui logo de seguida, peguei um ‘time’ já mais formado, que marcou uma época e que ainda hoje é muito querido em França. Até hoje sou reconhecido. Acho que marcámos a história de Paris, o que não é pouco.

Continua a acompanhar o Paris Saint-Germain?
Sim, sim.

E aquele jogo com o Barcelona, o que é que se passou?
Foi triste, foi triste. Na verdade a palavra que define o que aconteceu naquele jogo é ‘inacreditável’. Mesmo com o Barcelona jogando bem o que aconteceu nos últimos minutos foi algo… caprichos dos deuses da bola, como nós dizemos no Brasil. O Neymar foi protagonista, mas eu acho que o PSG esteve abaixo, muito abaixo do nível que podia jogar. Um dia e um momento complicado para o PSG, mas é uma grande equipa, com grandes jogadores, não creio que terão dificuldades em levantar-se. Contudo, A nível mental e psicológico vai ter de haver ali um trabalho a mais para a equipa voltar a ganhar títulos importantes.

O Raí gostava de marcar ao Barcelona. Um dia até lhes marcou um golo com a barriga [na Taça Intercontinental de 1992, quando jogava no São Paulo].
Foi! Aliás, foi um golo de púbis! Sempre tive sorte contra o Barcelona. Antes da Taça Intercontinental tínhamos jogado com eles um torneio de verão e ganhámos 4-0. No Japão, na Intercontinental, marquei dois golos, um de barriga e outro de falta. No Paris Saint-Germain também lhes marquei nuns quartos-de-final da Liga dos Campeões - o outro golo foi o George Weah que fez e eliminámos o Barcelona. O único jogo em que não lhes ganhei - e ainda hoje o Vítor Baía me lembrou, infelizmente - foi quando perdemos a final da Taça das Taças de 96, contra aquela equipa do Ronaldo, o Vìtor estava lá também. Foi a única vez que perdi.

Se for a Barcelona é capaz de não ser bem recebido.
Já em Madrid dizem-me “ah, foi você que bateu o Barcelona”. O rival também não esquece [risos]!

O São Paulo é o seu grande amor?
É.

Ganhou tudo e mais alguma coisa pelo São Paulo e foi campeão do Mundo pelo Brasil, em 1994. Dá para escolher entre os títulos que ganhou pelo clube e o título mundial?
Não, não dá. Quando você é criança você sonha ser campeão mundial pelo seu país. O Mundial de 94 teve algo a mais, porque o Brasil não era campeão há 24 anos e eu acho que isso libertou o futebol brasileiro: fomos depois à final de 1998 e ganhámos em 2002. Já quando estive no São Paulo, o Brasil também passava por um período de 10 anos sem grandes títulos de clubes e nós acabámos por vencer o Mundial de clubes frente ao Barcelona, em 1992 e no ano seguinte contra o Milan. Foram sensações parecidas.

O Raí jogava numa posição (número 10) que hoje parece quase em extinção. Mas se tivesse de escolher um jogador atual parecido consigo, quem seria?
Havia um português em quem me revia muito, o Rui Costa. Também vi o Zidane começar a jogar, com um estilo parecido ao meu. Hoje o jogo é muito mais veloz e não basta ao jogador do meio-campo ser um pensador, tem de ser também um jogador de muita velocidade e de muita força. Olhando para o futebol atual diria o Ozil, mas ele tem algumas dificuldades.

Falta-lhe um bocadinho de intensidade, não é?
Sim, não tem muita. E hoje é preciso combinar técnica e intensidade. Agora é mais raro, mas sempre surgem alguns bons jogadores na posição.

Custou-lhe a reforma, deixar de jogar futebol?
Eu considero a minha transição bem-sucedida. Tive as minhas dificuldades, acho que todos os atletas as têm, mas o facto de já ter uma fundação, um trabalho social, isso ajudou bastante, porque já havia ali uma motivação, um plano, algo em que eu queria investir o meu tempo e a minha energia. Mas é sempre difícil passar de um certo ritmo de vida para uma outra atividade mais comum, digamos assim. Se eu tivesse de dar um conselho para os atletas que estão a terminar a carreira, eu diria para começarem a preparar antes a retirada e ter algum projeto em mente.

Ex-jogador, dono de uma fundação, apaixonado pelo cinema. Como se chamaria o filme da vida de Raí?
Está no meio ainda o filme! Eu diria que é uma vida de muitos sonhos realizados. E outros por vir.