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Paulo Madeira e a seleção: “É como descascar um camarão e vir o vizinho ou o gato e comê-lo”

Houve um tempo em que Paulo Madeira foi titularíssimo da seleção – até deixar de o ser. Aconteceu durante a qualificação para o Euro-2000 que culminou com uma vitória sobre a Hungria, o mesmo adversário que Portugal vai encontrar este sábado (19h45, RTP1), no Estádio da Luz. Madeira jogou esse jogo e depois não foi ao Euro. A imagem do camarão descascado é a que ele usa para definir o que sentiu quando Humberto Coelho não o levou para a competição

Diogo Pombo

Paulo Madeira vestido e prostrado com e sobre as cores que sempre gostou

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Esteve no jogo que, em 1999, garantiu o apuramento de Portugal para o Campeonato da Europa do ano seguinte. A seleção jogou contra a Hungria, no Estádio da Luz, como voltará a jogar este sábado (19h45, RTP1). Paulo Madeira recordou-nos como foi bom estar no meio de uma equipa e de uma geração de craques, e confessou o mau que foi não ser convocado para esse Europeu, após estar em oito dos 10 jogos da qualificação.

d.r.

Quando vês aquela fotografia pensas nos craques que tinhas à volta?
Hoje em dia, olho para aquela foto e vejo que a maior parte deles acabou por ser uma figura mundial. Naquela altura eram colegas meus, colegas de profissão. Eu achava-me igual a eles, obviamente. Foram carreiras diferentes. A maior parte teve uma carreira no estrangeiro, o que dá outra dimensão a determinados jogadores. Eu mantive-me sempre por cá. Se não estou em erro, foi o meu último jogo pela seleção A.

Sim, foi dos últimos.
Acho que foi, porque, ainda há bocado, estive a ver na página da federação. Passados estes anos todos, sinto muito orgulho, claro. Foram anos fantásticos. O que digo é que os jogadores, hoje, devem aproveitar enquanto são jogadores. É uma altura da vida fantástica e milhares de jovens gostariam de estar na posição deles.

Quando se chega à seleção, a esse nível, é fácil para um jogador pensar que vai estar sempre nesse patamar?
A questão, muitas vezes, não é chegar lá acima. Em termos de estatísticas, podemos olhar para muitos jogadores que chegaram ao top tanto nos seus clubes, como na seleção. Mas, muitas vezes, a grande dificuldade é conseguirem-se manter lá durante vários anos. Essa é que é a grande virtude para quem quer ser um jogador profissional e reconhecido mundialmente. É a grande dificuldade. Há muitos jogadores que se limitam a atingir determinados objetivos e, depois, relaxam um bocado. Acho que tem de ser o contrário – quando se atinge um objetivo, é preciso trabalhar mais para não o largar. Podemos sempre tocar no grande exemplo.

O Cristiano Ronaldo.
Quando as pessoas olham e dizem que ele está sempre no top, é porque o Ronaldo tem uma ambição tão grande, tão grande, que para ele nunca há limites. Se, o ano passado, marcou 40 golos, este ano vai querer marcar 50. Se o fizer, para o ano já serão 60. Os objetivos dele são sempre mais e mais e mais. É isso que o faz manter ao mais alto nível aos 32 anos, a ser o melhor dos melhores.

d.r.

Mas não é nada fácil manter essa fome, não é?
Acredito que centenas de jogadores, se estivessem na posição do Cristiano Ronaldo, de certeza que não conseguiam manter a linha que ele mantém. Que é ter as mesmas regras que se calhar tinha há cinco anos. Se calhar continua a dormir a sesta que dormia há 10 anos, talvez não beba durante a época desportiva, se calhar priva-se de determinadas coisas. Ele, se tivesse outro tipo de pensamento, diria: “Já estou cheio de dinheiro, tenho a minha vida feita, já ganhei tudo o que tinha para ganhar, agora quero é desfrutar.” Mas não. Todos os anos ele quer sempre mais. Tem que se tirar o chapéu a esse tipo de jogadores.

Voltando ao jogo contra a Hungria, em 1999. Como estava a vossa fome, sabendo que tinha vencer por três golos de diferença?
Se queres que te diga, não me lembro muito bem dos antecedentes e das incidências do próprio jogo. Sei que tínhamos de ter um resultado desses. Portugal queria estar no Europeu e sabíamos a realidade das pessoas que estão fora do país, dos emigrantes. Víamos a euforia em redor da seleção. Tocava muito a quem andava lá dentro da seleção. O saber que as pessoas sofrem muito lá fora e ficam contentes quando ganhamos. Obviamente, quando Portugal ganha, as pessoas lá fora têm uma alegria. Até podem ir depois para os empregos e, se calhar, gozar com as pessoas desses países. Portanto, para nós era essencial. Tínhamos vindo do Euro 1996 e de uma campanha fantástica. Tinha sido um bocado o começo da chamada geração de ouro. Foi a partir daí que Portugal tem estado em todas as fases finais, de Europeus e de Mundiais, e a afirmar-se no futebol mundial. Naquela altura, nem sei se seria o único jogador do Benfica a jogar na seleção.

Havia também o João Vieira Pinto.
Ainda estava?

Sim, este jogo foi em 1999.
Pois, se não estou em erro, esse jogo foi a 9 de outubro de 1999. Teria o Nuno Gomes também?

Não. No onze, só tu, o João Vieira Pinto, o Secretário, o Jorge Costa e o Vítor Baía jogavam em Portugal.
Em termos de Benfica, só eu e o João. Este jogo foi com a Luz cheia, no antigo estádio, que era fantástico. Não digo que foi dos momentos altos, mas foi um jogo que me ficou marcado. Como te disse, não me lembrava que tinha sido o meu último jogo pela seleção A. Ou se calhar não, acho que não foi. Posterior a isso, acho que jogámos no Parque dos Príncipes, contra a Holanda [o último jogo de Paulo Madeira pela seleção foi mesmo o 3-0 à Hungria].

E a pressão de ter de ganhar por três golos, no último jogo da qualificação?
Se queres que te diga, nós, os portugueses, temos um bocado a mania de andarmos sempre com a calculadora atrás. Naquela altura e, eventualmente, também hoje, nós, jogadores, temos um bocado aquela ideia de que, quando for preciso, nós conseguimos. A mentalidade que se nota muito no jogador português é que, se estivermos na última oportunidade para atingirmos um determinado objetivo, vamos conseguir.

É preciso estarmos à rasca?
Nestes últimos anos tem-nos acontecido isso. Quando temos a última oportunidade, quando precisamos mesmo, conseguimos sempre. Estou-me a lembrar contra a Bósnia, no Estádio da Luz, e foram dois play off seguidos. Lembro-me, para o Euro 1996, contra a Irlanda, em que tínhamos de ganhar em casa e conseguimos. Ou seja, normalmente, em 80% das vezes, conseguimos aproveitar todas as últimas oportunidades que temos.

Porque achas que isso acontece?
Um exemplo. O Benfica joga contra o Tondela. Aí, o treinador tem de ser muito importante, porque tem de mentalizar os jogadores para não facilitarem, motivá-los. Tem que haver essa preocupação.

Quando há um Benfica-FC Porto, alguém acha que o treinador vai motivar alguém? Não é preciso. Este tipo de mentalidade é nosso. É a mentalidade do português. Quando há coisas e tarefas difíceis, está mentalizado, por si só. Quando as coisas poderão ser mais fáceis, nós desleixamo-nos um bocado. E acontece-nos sempre nos primeiros jogos de uma fase de apuramento, em que damos sempre de barato. Não entramos bem ou empatamos jogos que não devíamos empatar. E, depois, quando as oportunidades são cada vez mais curtas, conseguimos atingir aquilo a que nos propusemos. Isto é mentalidade em todo o lado, não é só na seleção. É uma coisa nossa.

Neste apuramento até já perdemos com a Suíça, logo no arranque.
Pois. Mas estou convencido de que, quando as coisas aquecerem e precisarmos de ganhar, vamos conseguir. Temos jogadores fantásticos, nas melhores ligas europeias e nos melhores clubes do mundo. Temos o melhor jogador do mundo, um dos melhores treinadores, o José Mourinho. Somos pequeninos, mas temos gente em todo o lado. Antigamente era um bocado os brasileiros, hoje em dia, parece que há sempre um português. Acho que isso é bom sinal, de que o futebol português se está a desenvolver.

Na geração em jogaste, a que estava naquele Portugal-Hungria, quem era o craque que mais gostavas de ver jogar à tua frente?
Depois destes anos todos, tenho de tirar o chapéu a vários jogadores. Muitos deles atingiram o topo, dali para cima já não havia nada. Estou-me a lembrar do Figo, que era fantástico, e de outro planeta. O Rui Costa... A única coisa que acho que devia ter ganhado era uma Bola de Ouro. Merecia. Foi um jogador fora de série, um jogador para o público, as pessoas gostavam de o ver jogar – tinha estilo, era mágico, era maestro, tinha todas as características do jogador de que o povo gosta. Aquilo que, se calhar, o roeu muito, foi nunca ter atingido a Bola de Ouro.

Teve o azar de viver na mesma altura do Zidane, por exemplo.
Sim, sim. Imaginemos que não tinha aparecido o Messi. O Ronaldo tinha para aí 10 Bolas de Ouro. O estar à hora certa, no sítio certo, tem influência. Lembro-me do Fernando Couto, que acho que não esteve nesse jogo, mas é do meu tempo e também lhe tenho de tirar o chapéu. Fez uma carreira estrondosa no campeonato italiano, era um jogador que, hoje, analisando o futebol italiano, como central... não houve outro estrangeiro a manter-se durante tanto tempo ao mais alto nível. Não sei se há. Retirou-se muito tarde e jogou sempre em grandes clubes, com uma performance fantástica. Agora vou ter que juntar outro, também fruto da amizade e de tudo o que vivi com ele – o Paulo Sousa. Sempre fomos amigos. Fui com ele para os juniores do Benfica, fomos duas vezes campeões nacionais, subimos aos seniores, ficamos quatro anos no Benfica, vivíamos juntos na mesma casa... Tenho uma relação muito próxima com ele. Depois havia o João Vieira Pinto que, para mim, foi dois melhores a jogar em Portugal nos últimos 50 anos. Era o melhor no jogo aéreo, apesar da sua altura.

E mais?
Falar de um guarda-redes como o Vítor Baía era falar de um guarda-redes com uma elasticidade incrível. Tinha todos os aspetos que podias tocar num guarda-redes. Era bom na baliza, a sair, tinha muitos reflexos, era elástico. Tinha tudo o que um guarda-redes deve ter para atingir o top. Fizeste uma pergunta engraçada, de facto. Se pensava que estava rodeado de craques? Naquela altura, muitos deles ainda não tinham atingido o máximo da carreira. Foram bons tempos, já passaram, temos de os recordar com saudade, claro. Todas estas conquistas que o futebol português teve nos últimos anos são história, pronto, coisas para estarem num museu. Mas o trabalho desenvolvido tem sido fantástico.

O que aconteceu para não seres convocado para o Europeu de 2000?
Fiz oito jogos do apuramento. Os dois que não fiz, numa jornada dupla, foi porque estava aleijado. Dos outros oito, joguei-os todos e joguei bem. Das 24 internacionalizações que tenho, só perdi um jogo. E foi num torneio em 1992, nos EUA, tinha 21 anos. Portanto, o que posso dizer é que foi das maiores desilusões da minha vida não ter ido a esse Europeu. Nem que tivesse ido pela campanha que tinha feito no apuramento. Era mais do que merecido. Mas pronto, houve outros valores que se levantaram. Não fui e foi um grande murro no estômago que levei na altura. Mas pronto, o futebol funciona assim.

Chegaste a perguntar o porquê ao Humberto Coelho?
Eu tenho uma boa relação com o Humberto. Aliás, não é só com o Humberto, é com a maior parte das pessoas ligadas ao futebol. Não tenho anticorpos, nem pessoas das quais não goste, nem sinto que as pessoas não gostam de mim. Sinto que 99% das pessoas têm um carinho especial por mim. É um motivo de orgulho. Obviamente que lhe disse, naquela altura, que ele não se portou bem. Foi injusto da parte dele. Mas pronto, faz parte do futebol, já passou. Não quero tocar mais no assunto, faz parte do passado. Agora, mesmo em termos pessoais, foi difícil de ultrapassar. Quando se faz uma campanha como a que eu tenho feito, em que se é apurado para a fase final de um Europeu que, muitas vezes, acontece um ou duas vezes, no máximo, na carreira de um jogador, e depois não se vai... É como, sei lá, como descascar um camarão e depois ser o vizinho ou o gato a comer o camarão. Mas pronto, o futebol funciona assim e, às vezes, há injustiças. Não perguntei, nem tenho de perguntar, quais foram os motivos. Mas, na altura, fiquei um bocado destroçado.