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Wendell Lira: “Trabalhei com a minha mãe numa lanchonete e envelheci 70 anos”

A história de Wendell Lira pode ser contada como uma volta numa montanha russa daquelas intermináveis com todos os loops e curvas apertadas que possa imaginar. Compre o bilhete, respire fundo, aperte o cinto e vamos arrancar nesta entrevista que o ex-jogador deu à Tribuna Expresso

Miguel Henriques

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Aos 17 anos, Wendell era jogador do Goiás e chamavam-no de novo Robinho. Ganhou o prémio de jogador revelação e melhor marcador do campeonato brasileiro de sub-20 pelo clube goianense. Com isso conquistou o direito a jogar na seleção brasileira da mesma categoria ao lado de Alexandre Pato. O Milan quis comprá-lo, nessa altura, por dois milhões de euros e o Goiás recusou.

Depois, de lesão em lesão foi abandonado e esquecido pelo futebol. Ora estava desempregado, ora jogava em clubes pequenos, ora jogava como amador, ora ajudava a mãe num café - ou, como ele diz, "lanchonete". Até que em 2015 voltou a ser falado por ter ganho o prémio Puskas, deixando para trás Lionel Messi.

Espere que falta mais um loop para chegar salvo ao final desta viagem: de seguida, decidiu aceitar a proposta do clube do coração: o Vila Nova, clube da série B do Brasileirão.

Seis meses depois pôs um ponto final na carreira, mudou-se para Porto Alegre e tornou-se “gamer” de FIFA no Youtube. Esta viagem continuou por estes dias no Football Talks, no Estoril, onde o antigo avançado foi convidado para contar a sua história.

Quando conversámos, há dois anos, recordo-me de teres dito que nunca tinhas viajado para a Europa e agora dás esta entrevista em Lisboa.
A minha vida mudou radicalmente não só na questão do dia-a-dia. Até porque quando a gente conversou, eu ainda era jogador de futebol e hoje acabo vivendo uma nova profissão e acabo por ser convidado para palestrar num congresso tão importante de futebol para falar sobre a minha nova carreira. Fico feliz de mais.

Hoje já sabes quem foi o Puskás?
Naquela época não sabia, tinha acabado de ser nomeado quando a gente conversou. Para além de agora saber o que é o prémio Puskás, agora eu faço parte dessa história e ele da minha por ter apontado esse golo que marcou a história do futebol, e por ter sido eleito o golo Puskás 2015. Foi uma honra.

Quando foi a última vez que jogaste futebol?
Joguei futebol deve ter um mês, eu acho. Tem um tempinho que não jogo. Fazemos uns jogos em Porto Alegre, onde moro agora. Mas esse último mês dediquei muito ao FIFA (o videojogo) e à classificação online, então fico quase o dia todo a treinar, e deixei de lado futebol. Mas espero voltar a brincar de bola o mais rapidamente possível.

Mas tens saudades de fazê-lo como profissional? Do cheiro do relvado, do balneário?
Eu acabo por matar essas saudades a jogar FIFA, tendo aquele contacto com o futebol, com a parte da narração, dos estádios. De vez em quando bate uma saudade. Não sou de ficar a ver os meus vídeos, nem mesmo a gala FIFA que eu vivi. Eu não parei só porque eu quis, foram as lesões e outras coisas que me levaram a parar.

Referiste várias vezes que viveste o lado bom e o lado negro do futebol. Que lado negro é esse?
Boba é a pessoa que não sabe o que é esse lado negro do futebol porque, infelizmente, acho que 95% dos jogadores do futebol no mundo inteiro passam por isso. Quando você diz que um jogador ganha 5000 reais por mês (cerca de 1400 euros) pode parecer muito, mas se parar para pensar, no Brasil um jogador fica empregado quatro ou cinco meses num ano que tem doze. O que é que ele vai fazer nos outros meses? Como é que ele e a sua família vão sobreviver e ter uma vida digna? Por exemplo, o campeonato goiano dura três meses e aí a série C ou D, que é o nível desses clubes, só é jogada mais tarde. Então passam vários meses sem receber e jogar. Eu vivi muito esse lado, sem contar com os dirigentes que esquecem que há ali pais de família, e tratam jogadores como marginais. Mandam embora quando querem, não estão nem aí para os contratos, esquecem que há regras e leis para cumprir. Eles tratam os jogadores como bandidos.

Aquilo que tu passaste é o que acontece à maioria dos jogadores?
As pessoas se enganam muito porque veem um Real Madrid ou um Barcelona na televisão. É bonito de ver a arte do Bayern ou do Chelsea, eu também assisto, mas difícil é encarar de frente a realidade. A equipa pela qual eu fiz o golo do Prémio Puskas (Goianésia), este ano não joga a Copa do Brasil nem a série D. Então, jogam o campeonato estadual em janeiro, fevereiro e março, e o resto do ano não têm equipa nem calendário. Os jogadores que foram para lá disputar essa competição durante três meses, depois ficam desempregados. Vão ter que tentar arranjar outros clubes onde ganham muito pouco, ou então fazerem o que eu fazia: jogava como amador ganhando 200 reais para tentar sobreviver. Infelizmente esta é uma dura realidade e que acho que poderíamos, não sei se mudar, mas pelo menos a mostrar e começar a pensar sobre o que é preciso fazer.

E como é que isso moldou o teu carácter?
Foi nessas equipas pequenas e nesses lugares que eu vi que o futebol não era esse glamour todo. Foi aí que aprendi a dar valor às amizades, foi aí que a minha vida começou. Acabei por ter a minha filha e consolidar o meu casamento nessa altura. Por mais difíceis que tenham sido esses anos, foram os anos em que mais cresci como homem, onde eu mais aprendi.

Mas vamos atrás. Acredito que aos 16/17 anos quando eras uma promessa do Goiás, os sonhos fossem muitos.
Olha, nessa idade eu tinha muitos sonhos. O meu maior sonho como jogador era ser convocado para a seleção brasileira e jogar na Europa. Como eu realizei esse primeiro sonho muito cedo, joguei na seleção de sub-20 com 17 anos, eu achei que tudo poderia acontecer muito rápido. Via isso acontecer com amigos meus e achava que era uma questão de tempo até acontecer comigo. E com o passar dos anos vieram as lesões e as deceções começaram. Na minha vida repetia-se sempre a mesma novela e com o mesmo final. Agora vai, agora vai e de repente acontecia alguma coisa: uma lesão muito séria ou era mandado embora de um clube que achava que me ia ajudar. De alguma maneira acabei ganhando casco, conheci o lado ruim das coisas. Isso serviu para que quando chegasse uma oportunidade que eu nunca esperava como foi o Prémio Puskás, eu estar bastante amadurecido e calejado pelo que vivi nesta vida de jogador.

Nessa fase inicial da sua carreira foste apelidado de “novo Robinho”. Isso pesou?
Na minha época não. Eu comecei muito cedo no Goiás, mas já tinha uma personalidade muito forte. Sempre tive muita coragem para encarar os desafios, ao mesmo tempo que era uma pessoa frontal. Nunca senti pressão, nem esse lado pesado de carregar alguma fama. O que me faltou foi não ter uma família estruturada por trás, ter um pai presente, alguém que me pudesse guiar, ensinar uma criança de 15/16 anos. Eu não tive e acabei por ser penalizado pela vida por isso mesmo. Mas também nunca fico remoendo ou lembrando com raiva ou com mágoa porque tudo na vida acontece de uma maneira especial para lá na frente aprendermos mais e mais.

Quem era o teu ídolo?
Olha, quando eu comecei o meu ídolo sempre foi o Ronaldo “fenómeno”, mas o Robinho, por estar a aparecer naquela altura, era quem mais se destacava pelo seu estilo de jogo que eu gostava para caramba. Gostava de driblar, mas depois quando eu comecei a lesionar-me muito, eu pensava “como é difícil recuperar de uma lesão”. E via o Ronaldo enfrentando uma cirurgia tão complicada, quase rebentou a vida dele, e depois voltou a jogar nesse alto nível. Foi o maior exemplo que eu tive na minha vida como jogador.

As coisas acontecem tão depressa bem, como depois tudo muda num instante. Sentiste-te abandonado em algum momento?
Vou ser muito sincero, acho que me senti abandonado durante toda a minha carreira. No começo nem tive o apoio da minha mãe porque ela trabalhava muito, ela nem sabia o que o futebol significava para mim e eu já era jogador e disputava campeonatos. Em vários momentos eu pensei que precisava de um pai, de uma família estruturada, ou de um empresário que me pudesse dar aquilo que era necessário. Faltou sempre um suporte por parte do Goiás naquela idade, assim como aconteceu com o Neymar. Ele foi um menino que começou a jogar na equipa principal e o Santos construiu todo um staff por detrás. Infelizmente acho que essa minha história é apenas uma entre tantas outras de pessoas que poderiam ter sido grandes jogadores e não aconteceu. O futebol brasileiro não está preparado para gerir esse lado pessoal. Tratam-nos como máquinas e esquecem que às vezes está ali uma criança que não tem uma família, que sai de casa com apenas 4 anos.

São tratados como mercadoria?
Sim, realmente os jovens são tratados como mercadoria. E eu acho que poderia ser bem diferente.

Quantas vezes a tua mãe te pediu para deixares de jogar futebol?
Muitas, muitas mesmo. Para ser bem sincero, mais de trinta com certeza. Mas era engraçado porque foi assim: sempre que eu estava muito fraco, a minha mãe estava muito forte e o oposto também acontecia. A minha mãe dizia: “Pára Wendell”. E eu respondia: “Não, agora vou dar a volta por cima”. Aí quando eu falava que ia parar, ela dizia para eu continuar.

No teu discurso está sempre muito presente Deus. Com tantas adversidades alguma vez questionaste a tua fé?
Sempre. A minha vida foi sempre muito diferente. Não me colocando acima de ninguém, mas eu acho que eu fui um predestinado de Deus. Tudo o que aconteceu comigo foram histórias absurdas que eram para dar certo, mas depois dava tudo errado. Às vezes você pára um pouco e acaba se perguntando: “Cara, porque é que aconteceu comigo? Porque é que eu não foi ou porque está sendo assim?”. Acho que colocar Deus contra a parede, jamais. Mas comigo era impressionante, quando eu achava que ia tudo se desmoronava. Agora vai e rompia o ligamento cruzado, agora vai e quebrava a clavícula. Mas tenho a certeza tudo o que aconteceu do jeito que tinha de ser porque se eu me tivesse tornado num jogador famoso de equipa grande, eu não estaria preparado.

Quando recebes a chamada da nomeação para o Prémio Puskás, estavas sem jogar e ajudavas a tua mãe num café.
A minha vida dividiu-se em três momentos: antes da nomeação, durante o Prémio Puskás e depois. Antes do prémio, eu já tinha praticamente desistido do futebol e acabei a dar mais valor à minha mãe. Fui trabalhar com ela na lanchonete (café) durante dois meses e devo ter envelhecido uns 70 anos. Acordava todos os dias às 4 da manhã, passava o dia inteiro a trabalhar, porque nós abríamos às 4 e tal e fechávamos às 10 e meia da noite. Eu morava longe e então até chegar em casa, adormecer a minha filha, tomar banho e ir dormir, isso acontecia à meia noite e pouco. Às quatro da manhã já estava a levantar-me outra vez. Batalhávamos e trabalhávamos muito. Em compensação, às vezes quando me dava o sono, eu olhava a minha mãe e ela estava sempre a mil. Pensava para mim: “Meu Deus do céu, como é que ela conseguiu todos estes anos criar os filhos e fazer com que nenhum de nós se envolvesse no crime”. Comecei a dar-lhe muito valor. E depois durante o período Puskás foi uma coisa que eu nem encontro palavras para descrever. Nós pedíamos para que isto não acabasse: “Tomara que demore o maior tempo possível, porque foi tanta coisa boa depois de tanta coisa ruim”.

No início desta entrevista perguntei-te quem era o teu ídolo e falaste-me do Robinho e do Ronaldo, mas agora parece-me que afinal é a tua mãe.
Minha mãe é tudo. Ela faz a diferença no caráter, mas em todos os aspetos. Eu sei que uma mãe tem, como acho que é dela, esse instinto de criar e dar sempre o melhor. Mas infelizmente nem toda a mãe consegue por falta de dinheiro, de tempo. Infelizmente o meu pai largou a minha mãe muito cedo, e a minha mãe criou três filhos sozinha, sempre teve presente, por maiores que fossem as dificuldades nunca deixou faltar nada, e depois de tudo o que passámos perceber que ela era uma guerreira, estava forte ali. Muitas das vezes estava sem forças, e ela estava sempre ali do lado. Se há alguém a quem tenho de agradecer nesta vida é a minha mãe. Ela é tudo para mim.

Depois de ganhar o prémio, era fácil deslumbrares-te.
Não, comigo não. Qualquer outra pessoa que estivesse ali pela primeira vez e não tivesse passado o que eu passei, poderia. Mas eu já estava calejado, durante essa caminhada as pessoas perguntavam-me: “E agora Wendell, você acha que vai”? E eu falava: “Vou fazer de tudo para que aconteça, mas se não acontecer, vou viver tudo isto intensamente, aproveitar ao máximo porque já estou cansado de desilusão”. Eu sabia que da mesma forma que as coisas podiam acontecer, também podia ocorrer o contrário. E que se não acontecesse, eu já estava preparado. Acreditava muito na vitória, mas também me tinha preparado para que se não acontecesse, eu não ficasse tão desiludido como aconteceu a minha vida inteira.

Assinas um contrato com o Vila Nova. Treinavas, o treinador falava sobre ti, mas pouco jogavas.
Mais uma vez entrou esse lado ruim do futebol. Só vale quando te convém, quando não convém é descartado da mesma forma. Eu acreditei no Vila Nova porque era o clube da minha cidade, do qual sou torcedor e achei que eles realmente se importavam comigo e com a minha história e me queriam dar uma oportunidade. Cheguei ao clube, as semanas foram passando e eu nada de jogar. E aí tive um problema de saúde e acabei por ser mandado embora do nada. Não teve uma justificação, e eu tinha um ano de contrato. Simplesmente me proibiram de treinar, de entrar no clube e falaram que não contavam mais comigo. Não foi um baque para mim, e foi só um ponto a mais para eu pensar: “O futebol foi bom para mim, mas já chega, vou parar por cima”. Eu não posso jogar este prémio por água abaixo, por ego ou vaidade. Teria que ter continuado a jogar futebol porque era o vencedor do Puskás. Decidi parar nesse momento maravilhoso da minha vida, porque, de alguma maneira, eu vou poder encerrar por cima.

Mas convites não faltavam.
Eu tive muitas propostas, até ao último momento em que assinei essa transição para youtuber, eu ainda tinha propostas de clubes. Mas por tudo o que eu vivi e passei, o futebol não me ia acrescentar mais nada, e eu não acrescentaria nada ao futebol

Foi fácil tomar a decisão?
Para mim foi. Na questão de experiência, de vivências foi. Eu sofri muito no futebol e foi sempre muito difícil a minha carreira.

Perdeste a alegria de jogar?
No 'finalzinho' sim. Já não estava mais conseguindo que os meus treinos e jogos fossem tão felizes quanto antigamente. Antes jogava por amor e por prazer mesmo, mas depois quando chega numa determinada idade, casado com uma filha, para quem joga a Série C ou Série D acaba por ser mais pela parte financeira do que pelo amor ao futebol. Jogar num clube sem ter onde dormir e comer, ganhando dois mil reais, é porque você está precisando do dinheiro. Pesa muito esse facto de estar precisando. Estava desgastado.

E de repente aparece esta oportunidade de terminar uma carreira e começar outra.
Sempre joguei videojogos nas concentrações e foi de uma maneira muito simples e fácil. A minha carreira como jogador teria mais dois ou três anos e como youtuber é um mundo muito novo, muito amplo. Você pode estar começando com youtuber e depois estar como jogador virtual, ou comentarista numa televisão. Estou abrindo portas e daqui a dez anos posso estar a fazer algo que nem eu esperava. Não pode ter medo de desafios e encará-los de frente. Quando eu esperava ter um espaço numa das maiores televisões do Brasil? Nunca.

O melhor golo que marcaste foi na vida real ou nos videojogos?
Ah, foi na vida real. No 'videogame' claro que fazemos muitos golos bonitos, mas eu como jogador apontei alguns golos que me marcaram muito, poucos mas bonitos, que marcaram de mais essa carreira.

Qual é a tua ambição?
As pessoas pegam muito no meu pé porque eu sou um grande fã do Cristiano Ronaldo e isso bate muito com aquilo que eu te vou dizer. Eu quando faço alguma coisa, tento sempre ser o melhor. Posso não ser o melhor, mas vou tentar lá chegar. E quando eu trabalhava com a minha mãe, nós acordávamos às 4 da manhã e a gente tentava para que tudo desse certo, quando fui jogador dei o meu máximo, e agora como youtuber é a mesma coisa. A gente briga, temos todos os problemas que uma empresa tem, mas tentamos melhorar a cada dia. Discutimos o conteúdo, o que é que está dando certo, o que está dando errado. Como ambição pessoal quero chegar a um milhão de inscritos, isso seria algo surreal.

Vou acabar esta entrevista como comecei. Antes pouco conhecias para além do Brasil, e hoje sais para contar a tua história.
É verdade. Eu que quase nunca saí do Brasil, de repente venho para Portugal para palestrar num congresso mundial de futebol? Contar a minha história para amigos e família é fácil, mas fazê-lo para pessoas importantes do mundo inteiro... Acabar a palestra, todo o mundo aplaudir, e sentir que foi legal para eles, isso não tem preço. Só tenho que continuar este caminho.