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“A maioria dos dirigentes escolhe os treinadores por palpite de ocasião”

José Pereira, 66 anos, fundador e líder histórico da Associação de Treinadores Profissionais de Futebol, afirma, em entrevista à Tribuna Expresso, que o despedimento de 15 técnicos esta época é uma loucura. Espera que seja uma exceção e não faça escola no futebol português, e atribui a culpa da vaga recorde de trocas nos bancos à pressão de negociações televisivas e à ignorância dos presidentes quanto ao perfil dos treinadores

Isabel Paulo

José Pereira, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol

ANTF

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Como explica a onda de despedimentos esta época, invulgar mesmo para o padrão volátil do nosso futebol?
O motivo principal não mudou, só se agudizou, que é a incompetência e irresponsabilidade de boa parte dos dirigentes portugueses. Cada vez mais me convenço que a maioria dos presidente de clubes não escolhe os treinadores à medida das suas equipas. Não é uma questão de saber se o treinador é competente ou não, mas de adequação de perfil ao clube, ao plantel que tem e aos objetivos traçados.

Há treinadores mais à medida de uma equipa do que outra?
É evidente. Assim como se ajusta o modelo de jogo às caraterísticas dos jogadores, e destes em função de uma ideia de jogo, o que me parece é que muitos treinadores são escolhidos por palpite, por ouvir dizer, por ter sido momentaneamente bem sucedido noutro clube. É quase por fotografia, não por conhecimento do seu perfil como técnico.

Não houve mudanças significativas nas direções dos clubes da I Liga...
Mas agravou-se o desespero pela manutenção. A situação de alguns clubes é aflitiva, pois tenho conhecimento que estão a decorrer negociações contratuais de direitos televisivos, com montantes muito diferentes para os da Liga Portugal e os da II Liga. Ninguém quer lá ir parar. É o desespero para não descer. Basta ver que com exceção do Braga, que despediu José Peseiro que ia em quarto lugar, um caso mal explicado até agora, nenhum dos clubes do cimo da tabela despediu treinadores...

As últimas vítimas de chicotadas foram Jokanovic, do Nacional, e o herói da Taça da Liga Augusto Inácio, dois clubes que já trocaram duas vezes de treinador, além do Estoril...
Nada disto faz sentido, até porque na maioria dos casos a falta de paciência já se revelou ser inimiga do sucesso. Mas a falta de paciência é um hábito dos nossos dirigentes que fazem gestão à vista e não de forma racional. Ao contrário do que acontece, por exemplo em alguns clubes ingleses, não há treinador que resista por mais de quatro épocas, e já é um fenómeno de longevidade.

O mais antigo era Manuel Machado, no Nacional, que saiu à 14ª jornada. É o repetente das chicotadas, despedido na última jornada do Arouca.
É a prova que os dirigentes contratam ao sabor dos resultados, sem criar condições de base para os obter. Em alguns casos, é quase uma aberração falar em projetos a médio prazo, pensados para ir à Europa ou para a manutenção.

Mesmo comparando com outras ligas de países do sul, que o líder do Eurogrupo, Jeroem Dijsselbloem, diz serem uma borga, somos os campeões destacados dos despedimentos (cinco em Itália e oito em Espanha)...
Bom, também não vamos fazer comparações só por aquilo que está a suceder esta época. Não é o nosso barómetro. Espero que seja uma exceção à regra, já de si inconstante, mas uma exceção que possa vir a ser devidamente explicada.

FRANCISCO LEONG/GETTY

Pode estar relacionada com o tipo de contrato de trabalho em vigor em Portugal?
Não tem nada a ver. Os contratos de trabalho dos treinadores profissionais não sofrem alterações desde 1997. O que aconteceu entretanto foi a criação das SADs e a entrada de grupos de investidores ou intromissão de agentes na gestão dos clubes, que são fatores de pressão acrescida.

Rui Vitória, que deve ser o único treinador no ativo que nunca foi despedido, diz que é uma profissão em que tem de se ter sempre a mala pronta e a chave do carro no bolso.
É uma atividade precária. Sempre o foi, agora pior porque têm menor capacidade negocial, até por ganharem menos. Além de que há muita oferta de treinadores com formação para a procura existente. O que vale é que somos valorizados lá fora, como se prova pelo elevado número de treinadores portugueses no estrangeiro e com sucesso.

Formam-se treinadores de futebol a mais?
Temos dos melhores treinadores do mundo, como também nunca tivemos tantos profissionais tão bem formados em várias áreas como agora e que também emigram. É uma nova realidade que não se resolve cortando na formação. No caso dos treinadores de futebol, temos cursos e estágios específicos tutelados pela UEFA e FPF, em colaboração com as associações distritais e ANTF, apesar da interferência governamental que generalizou a formação de treinadores...

Generalizou em que sentido?
Neste momento, para ter se ser treinador tanto faz ter feito formação em ténis como nos matraquilhos. Felizmente a FPF insiste em formação específica.

A maioria dos treinadores são sócios da ANTF?
Sim e contam com o nosso apoio incondicional, e o nosso patrocínio caso seja solicitado, para dirimir conflitos de incumprimento.

É frequente pedirem ajuda?
Raramente. Em 99% dos casos, as rescisões são por acordo amigável. E os clubes em regra cumprem.

Foi ouvido quinta-feira na Assembleia da República. Qual foi a razão?
Fui recebido por um grupo de trabalho integrado por deputados de todos os partidos por causa da alteração legislativa dos contratos dos jovens jogadores, que têm contratos com duração de oito anos. O que se pretende é que não sejam tão longos.

Há quantos anos preside à ANTF?
Fui fundador da Associação da classe há 30 e dirigente desde 1999, função que interrompi entre 2009 e 2013 para ser diretor do futebol do Vitória de Guimarães.

E quantos anos foi treinador no ativo?
Durante 20 anos, comecei nos distritais, no Celorico de Basto, depois vários clubes das divisões nacionais, como o Gil Vicente e Guimarães. Acabei a carreira na I Divisão, no Campomaiorense, que chegou à final da Taça de Portugal em 1999, contra o Beira-Mar. Perdi e fui despedido. Lá está a sina do treinador.

Foi o que o fez desistir?
Fiquei desanimado, quis parar e foi, então, que Manuel José, na altura líder da ANTF, e Henrique Calisto, do Conselho Fiscal, me desafiaram para o cargo, argumentando que a classe precisava de um dirigente profissional. É onde gosto de estar, até porque sendo uma profissão incerta é indispensável que tenham uma voz ativa, internamente e lá fora, através da Aliança Europeia de Treinadores de Futebol, de que sou um dos vice-presidentes, e que agrupa as associações de treinadores de toda a Europa.