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João Meira, o português que recebeu Schweinsteiger nos EUA: “Perguntou-me logo por Tróia. A malta portuguesa em Manchester falou-lhe disso”

João Meira joga nos americanos do Chicago Fire há mais de um ano e serviu de uma espécie de guia turístico do novo colega de equipa, Bastian Schweinsteiger, com quem falou sobre Portugal, contou à Tribuna Expresso

Patrícia Gouveia

João Meira cumpre a segunda época ao serviço dos americanos do Chicago Fire

Jonathan Daniel/Getty

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Os portugueses há vários séculos foram descobridores e desbravaram por esse mundo fora. João Meira, há um ano, aventurou-se, tal português descobridor, e rumou à América... para jogar "soccer".

O defesa central, de 29 anos, assinou pelo Chicago Fire no início de 2016, equipa que atua na ainda jovem Major League Soccer (MLS). O ex-jogador do Belenenses é um dos cinco portugueses a jogar na liga norte-americana.

Com a adaptação já feita à cidade e ao campeonato, João Meira falou à Tribuna Expresso sobre as principais diferenças entre o futebol praticado na Europa e nos Estados Unidos. Além disso, fez quase o papel de conselheiro turístico do novo colega de equipa, Bastian Schweinsteiger, na primeira conversa que tiveram, na qual falaram sobre Tróia.

Esta é a tua segunda época nos Estados Unidos. Quais são as principais diferenças para a primeira?
A primeira foi de adaptação. Agora já estou completamente integrado na equipa, sinto-me em família. É como se me sentisse em Portugal. As coisas estão a correr bem, estou adaptado à língua, que também é muito importante, ao hábito, ao estilo de vida... No início foi um pouco chocante porque a nossa realidade é diferente em alguns aspectos. Mas já me sinto bem.

A equipa está mais forte?
A mentalidade da equipa neste momento é uma mentalidade vencedora. Não quer dizer que não fosse, mas era mais uma mentalidade relaxada e não pode ser assim. É preciso pensar forte para ganhar ao fim-de-semana.

Foi difícil a mudança para os Estados Unidos?
Já queria vir para aqui. Não com 28 anos, porque tinha como objetivo jogar noutras ligas europeias. Mas foi assim que surgiu e foi assim que agarrei a oportunidade. Fiquei muito feliz quando assinei o contrato, mas, quando cheguei, percebi que a MLS é uma liga que ainda tem de crescer, apesar de ter muitos pontos positivos. Há muitas coisas para crescer e estão a melhorar rapidamente, que é o importante.

Quais são as principais diferenças entre o futebol norte-americano e o europeu?
Nos Estados Unidos o futebol é muito físico, joga-se mais com o coração e não se pensa tanto no jogo ou em fazer faltas. Em Portugal há muito aquela 'manhazinha' de cair para ganhar os três pontos, porque o futebol também é um jogo de truques. Mas aqui não. É sempre um jogo limpo, joga-se até ao último minuto com o objetivo de marcar muito. Até mesmo o feedback que vem das bancadas é a pedir para se marcar mais porque quem paga gosta muito de ver golos e de festejar.

Como analisas o campeonato, para quem não o conhece?
É um campeonato duro. Tem muitas viagens, é um campeonato com algumas regras estranhas, de jogar por vezes contra três equipas da mesma conferência e jogar apenas uma vez com uma equipa da outra conferência. Mas é muito organizado, com muitas perspectivas de evolução.

Estás a gostar de viver em Chicago?
No inverno faz muito frio e há muito vento, o que torna tudo pior. A cidade em si é espetacular, temos tudo. É uma pequena Nova Iorque, mas com praia, com o rio a entrar pela cidade. Parece até Veneza, às vezes. No verão faz muito calor, sentimo-nos muito bem e há sempre muita coisa para fazer.

E as saudades de casa, como é que se amenizam?
É mais saudades da família, mas dá para colmatar graças ao FaceTime e às vídeochamadas. Dá para ir falando com a família e os amigos. Sinceramente não tenho grandes saudade do que se vivia em Portugal. Tenho é saudades daquela semana do jogo grande que nós tínhamos.

AFP

Nem saudades da comida portuguesa?
Ah, claro. Isso é inquestionável. Ainda para mais aqui em Chicago não há nada português.

Mas, falando em jogos grandes, assumo que continuas a acompanhar o futebol europeu e, em especial, o português...
Sim, sim. A televisão está ligada 24 horas por dia quase.

Então já tens um palpite sobre o vencedor do clássico Benfica-Porto deste sábado ou deixas o resultado em aberto?
Deixo em aberto porque vai ser um jogo que é muito difícil dizer quem pode ganhar. É um jogo que é uma final e as finais são sempre 50/50, apesar do Benfica ter algum favoritismo porque joga em casa, mas vai ser muito complicado.

Quanto à liga norte-americana, é muito competitiva?
Sim e todos os anos qualquer equipa reforça-se. Nós reforçámo-nos com dois, três craques que podem fazer a diferença e podem levar-nos a ganhar a liga. Não é como em Portugal e na maior parte das ligas europeias que têm sempre duas ou três equipas fortes, por cada país, e que lutam essas três equipas para ser campeãs. Aqui 90% das equipas têm hipóteses de ser campeãs.

Mas encontras semelhanças entre a MLS e algum campeonato europeu?
Talvez seja um pouco semelhante à liga inglesa pela competitividade que há nos jogos e pelos adeptos que vão ao estádio. Aqui seguem muito a Premier League, mas a nível de qualidade ainda está muito longe.

O Chicago Fire ficou em último lugar da Conferência Este na última época. Quais são os objetivos para a atual?
É verdade que o ano passado não correu tão bem, mas este ano o objetivo principal é chegar aos play-offs e depois tudo pode acontecer.

A nível pessoal foste dos melhores da época passada. Repetir é o objetivo?
Sim, mas se possível, é fazer ainda melhor. Felizmente as coisas estão a correr-me bem. Sinto-me na minha plenitude, sinto-me um jogador maduro e felizmente as coisas estão a correr bem.

Já encontraste algumas estrelas de futebol por aí?
De futebol europeu só de jogar contra eles. Mas jogadores da NBA e de futebol americano já estive perto de alguns e até falei com outros.

E estrelas de cinema?
Por acaso no prédio de um colega, que eu costumava frequentar, viviam os atores da série 'Empire'. Tive a oportunidade de partilhar o elevador com dois ou três deles. [risos]

Quando tens tempo livre, o que é que fazes em Chicago?
Quando a minha família está por cá e se o tempo ajudar, aproveitamos por conhecer a cidade. Quando estou sozinho tento estar com amigos que fiz aqui, explorar Chicago e assim passo os meus tempos livres.

Agora partilhas o campo com Bastian Schweinsteiger. Que impacto teve a chegada dele?
Acho que vai ter um grande impacto e já se começa a ver isso. Antigamente quando jogávamos contra o New York City, as pessoas diziam 'a equipa de Pirlo'. E agora o Chicago Fire as pessoas já dizem 'a equipa de Schweinsteiger'. Vai haver muita gente a acompanhar os Fire devido ao nome dele e isso pode valorizar-nos. Como pessoa também pode trazer muitas coisas boas ao clube, como ações de marketing.

David Banks

Como foi o primeiro treino dele?
Foi espetacular. Normalmente pensámos que estes craques não são acessíveis. Mas não. Foi muito acessível e muito humilde.

E vocês falaram?
Por acaso tive a felicidade de ele se ter sentado ao meu lado. A primeira pergunta foi de onde eu era em Portugal porque já sabia que sou português. Ele perguntou-me logo por Tróia. Disse que a malta portuguesa em Manchester falou-lhe de Tróia. Perguntou se era bom e eu disse-lhe que era como um paraíso. Falámos também um pouco da liga e sobre as diferenças entre a europeia e a norte-americana.

Tentas dar o apoio que tiveste no ano passado aos jogadores que vão chegando?
Sim, apesar de no ano passado, quando cheguei, não ter sentido esse grande apoio. O povo americano tem uma mentalidade um pouco diferente do europeu, não são tão acolhedores como o português, por exemplo. Mas sim, estou a tentar passar um pouco da nossa cultura para aqui.

Olhando para trás, o que mudou na tua vida ao ires para a MLS?
Vim jogar para fora e logo aí mudou muito porque acho que cresci muito como pessoa. Como jogador sempre fui o mesmo jogador, mas agora parece que as pessoas se lembram um pouco mais de mim. Se calhar até tive em maior destaque em Portugal, mas em Portugal é difícil ser reconhecido devido ao foco que se dá aos três grandes. Então os outros jogadores têm de fazer épocas abismais para serem reconhecidos. Mas penso que estive bem em Portugal.

E o futuro?
Como jogador, não quero ficar por aqui. Quero conhecer coisas novas.

Há alguma liga que tenhas curiosidade em conhecer?
Gostava muito de jogar na liga italiana. Sempre foi o meu sonho. Não sei se vai ser possível concretizar, mas estou a fazer por isso.

E a nível pessoal?
No futuro gostava de ficar ligado ao futebol, não sei em que área. Só o futuro dirá, mas provavelmente treinador não. Se calhar algo relacionado ao dirigismo, como diretor desportivo ou algo do género.

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