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“Há provas que as cabeçadas na bola de futebol causam mudanças subtis nos testes cognitivos”, diz médica que enfrentou a NFL

A dra. Ann McKee é uma das maiores autoridades do planeta quando o assunto mete cabeçadas. Ou, melhor dizendo, os riscos do desporto profissional para o cérebro dos atletas. A médica que enfrentou a NFL explicou à Tribuna Expresso o que é a Encefalopatia Traumática Crónica

Evandro Furoni

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

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Ann McKee é neurocirurgiã da Universidade de Boston e foi uma das médicas que enfrentou a NFL, a liga de futebol americano, para mostrar que os sucessivos choques dos desportistas estavam a causar uma doença cerebral, a Encefalopatia Traumática Crónica (ETC).

Mesmo que o futebol tenha menos riscos, já foram diagnosticados casos semelhantes em futebolistas, pelo que Ann McKee pede que o desporto tenha mais cuidado para garantir o futuro das próximas gerações.

Como é que a ETC afeta a saúde de um atleta?
A ETC é uma doença neurodegenerativa progressiva associada à exposição a repetitivos impactos na cabeça, vistos em desportos de contacto, como o boxe e o futebol americano, mas também associada a outros desportos como o futebol, o râguebi e até o serviço militar. Os sintomas clínicos da ETC incluem mudanças comportamentais e de personalidade, depressão, perda de memória e, em casos avançados, demência. Os sintomas desenvolvem-se devagar, muitas vezes depois de uma pessoa se retirar do desporto. Apesar de sabermos muito sobre a ETC em atletas do futebol americano, houve recentemente notícias de quatro ex-futebolistas no Reino Unido com demência, além de outros casos. Bellini, um bem conhecido futebolista brasileiro [foi capitão mundial em 1958] foi diagnosticado com ETC depois de morrer, assim como Jeff Astle [futebolista inglês que esteve no Mundial de 1970] e um futebolista profissional norte-americano. Além disso, nós identificamos a ETC nos cérebros de dois jovens futebolistas que morreram na casa dos vinte anos.

A ETC geralmente é relacionada apenas com desportos de alto contacto, como o futebol americano e o boxe. A doença pode atingir o futebol de modo tão amplo como nestes desportos?
Ainda não sabemos muito da ETC no futebol e acreditamos que os riscos são menores do que no futebol americano ou no boxe. No futebol, os choques de cabeça ocorrem de forma menos frequente – com choques entre atletas, quedas ao chão ou cabeçadas na bola. No futebol americano e no boxe, choques são o objetivo intrínseco do jogo. Não no futebol. Também há provas que as cabeçadas na bola de futebol causam mudanças subtis nos exames cerebrais ou testes cognitivos após apenas uma época de jogo em nível amador. Não sabemos se essas mudanças cerebrais são permanentes ou não, mas há a preocupação que mesmo essas mudanças pequenas possam aumentar o risco de ETC.

Recebeu algum cérebro de um futebolista?
Encontrámos casos moderados de ETC em três futebolistas. Dois jogadores que morreram na casa dos 20 anos e um atleta semiprofissional na casa dos oitenta anos.

Os futebolistas raramente sofrem concussões num curto espaço de tempo. Isso pode reduzir o risco de serem vítimas de ETC ?
Concussões são lesões graves, mas não estão independentemente ligadas ao desenvolvimento de ETC. Na nossa pesquisa, quanto mais anos de carreira – mais "lesões subconcussivas" - quanto mais a pessoa jogou futebol americano – maior o risco de ETC .

Na sua opinião, devem usar-se capacetes no futebol, como no râguebi?
Acho que o uso de capacetes deve ser investigado profundamente no futebol, apesar de dificilmente eles reduzirem as lesões subconcussivas produzidas por cabecear uma bola. Acho que devemos considerar limitar o número de cabeceamentos no futebol.

NICOLAS TUCAT/GETTY

A FIFA mudou recentemente as regras sobre concussões em campo. Agora, os médicos podem atender o jogador em campo por três minutos e o futebolista pode voltar ao relvado apenas se o médico autorizar. Essas medidas são o suficiente para prevenir a ETC?
Não. Concussões precisam ser tratadas de forma apropriada e isso geralmente significa não voltar a jogar naquele jogo e apenas regressar em partidas subsequentes depois de um exame de um profissional médico. Mas o risco de ETC parece ser dependente de golpes menores, como os que ocorrem com cabeçadas ou outras lesões menores, as lesões subconcussivas, que não causam nenhum sintoma.

Na sua opinião, um atleta profissional é bem informado sobre os riscos da ETC ?
Não

Teve uma famosa briga com a NFL (liga de futebol americano) sobre os riscos da ETC no desporto. Pode falar sobre a experiência, os desafios e a receção do público ao seu trabalho?
Tem sido bem desanimador ver pessoas a debater comigo dizendo que não há nenhuma evidência de que a ETC existe, quando as evidências científicas são esmagadoras. Nós também podemos diagnosticar a doença com a examinação do cérebro depois da morte. Gostaria de parar de discutir sobre a existência da ETC e seguir com a busca de soluções para os indivíduos afetados. Nós precisamos de nos concentrar no modo de diagnosticar a ETC nos vivos, como preveni-la com mudanças nas regras dos desportos e, o mais importante, como tratá-la. A ETC não desaparecerá porque nós queremos ou porque negamos que exista. A ETC continuará a causar tragédias para atletas jovens e velhos e para as suas famílias até que a sociedade debata o problema.

Por que razão é que as ligas profissionais resistem tanto em mudar as suas regras para prevenir a doença?
As ligas profissionais são negócios. Os desportos são grandes negócios. As organizações desportivas são mais propensas a agirem de modo a proteger o seu investimento do que a proteger os seus atletas.

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