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Leonardo Jardim, o homem que andava apenas – e sempre – com cinco euros na carteira

Conheça melhor o treinador que pode levar o Mónaco ao título francês, pela voz do dirigente que lhe deu a mão pela primeira vez

Patrícia Gouveia

Jardim, ao centro, entre o presidente da AD Camacha e um jornalista. Em repouso, na Venezuela, país onde nasceu

D.R.

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Na ilha da Madeira, na freguesia da Camacha, existe um monumento a assinalar que ali jogou-se futebol pela primeira vez em Portugal. Curiosamente, foi no clube daquela freguesia, a Associação Desportiva da Camacha, que Leonardo Jardim deu os primeiros passos como treinador principal.

O início da aventura do madeirense remonta a 2003, quando Aurélio Antunes, então presidente da AD Camacha, convidou Leonardo Jardim a assumir o comando técnico da equipa.

Passados quase 14 anos, Jardim foi projectado da Madeira para o mundo: é líder da liga francesa pelo Mónaco, está nos quartos de final da Taça, chegou à final da Taça da Liga, perdendo com o PSG e levou ainda a equipa monegasca ao top oito da Liga dos campeões, deixando o Manchester City de Pep Guardiola para trás.

A Tribuna Expresso falou com Aurélio Antunes, o homem que em 2003 viu a qualidade técnica de Leonardo Jardim que hoje está visível para todo o mundo.

Quando conheceu o Leonardo Jardim?
Conheci o Leonardo na qualidade de presidente da Associação Desportiva da Camacha, numa altura em que ele trabalhava com o professor José Moniz. Era adjunto. Em 2003 começou a trabalhar connosco como treinador principal.

Qual foi o momento em que decidiu apostar nele?
Em 2003 houve a necessidade de substituir o professor Moniz e, como ele era o adjunto, optamos por dar-lhe o lugar de treinador principal.

Por alguma razão em particular?
Porque reconheci no Leonardo, já nessa altura, uma pessoa com uma grande capacidade de liderança, interessado no fenómeno desportivo, sobretudo sobre o futebol. É um entusiasta, um estudioso do futebol.

Havia alguma característica nele que agradou à direção?
Ele era professor de Educação Física e sempre gostou do fenómeno futebolístico. Sempre muito concentrado e a liderança dele para mim era fundamental. Conseguia com os meios disponíveis fazer o máximo. E foi essa característica que nos fez ficar agradados pelo seu trabalho.

Ele tinha alguma tradição que seguia antes dos jogos?
Não conhecia grandes tradições que ele tivesse antes dos jogos. Basicamente, era trabalho. Trabalho e exigência. Era isso que ele pedia.

Como era o Leonardo no balneário com os jogadores?
Era um líder. Dominava as situações sem pôr ninguém em causa, mas sabia “levar a água ao seu moinho”, como se costuma dizer. Falava com os jogadores normalmente, mas sempre com um vincado espírito de liderança. Ele conseguia incutir nos atletas todas as ideias que queria passar e eles facilmente seguiam-no. Nunca tive nenhum problema com ele como treinador. A verdade é essa.

Ele conseguia cativar os jogadores, portanto...
Sim, cativava muito bem e conseguia transmitir-lhes todos os objectivos que pretendia alcançar.

Como correram as épocas com ele na AD Camacha?
Trabalhei com ele durante três anos, de 2003 a 2006. Depois saí, mas ele ficou até rumar ao Desportivo de Chaves. As épocas na Camacha correram bem. Nessa altura estávamos na Segunda Divisão B. Continuámos e esse era o nosso objectivo. Ele cumpriu integralmente os objectivos que pretendíamos para ele.

Já nessa altura ele ambicionava mais?
Sempre verifiquei e ele sempre me dizia que o objectivo dele era chegar mais longe na carreira. Ele tinha isso em mente e dizia-me nas conversas que partilhávamos. Desde o principio. A passagem pela AD Camacha foi uma maneira de começar no futebol, mas o objectivo dele sempre foi mais do que isso. Inclusive, ele dizia que se tivesse de sair da Madeira, saía sem problema nenhum. Isso acabou por acontecer e tenho seguido um pouco a carreira dele desde que saiu da Madeira, e realmente, para mim, o Leonardo é aquele Leonardo que imaginei, mas agora com ainda mais experiência. Tudo isso deve-se ao espírito de trabalho que ele tinha já na altura.

Como lidava ele com as derrotas?
(Risos) Como qualquer pessoa. Ninguém gosta de perder. Mas quando acontecia ele sabia lidar com elas. E assumia os erros como se fossem dele. Nunca o vi responsabilizar ninguém nem nenhum atleta ou colega da equipa técnica. Ele assumia as derrotas como assumia as vitórias. Felizmente, na AD Camacha, foram mais vitórias do que derrotas.

Ele está agora no AS Mónaco. Nota-se alguma evolução ou é ainda o mesmo treinador que era na Camacha?
É claro que evoluiu. As capacidades dele, como tudo na vida, terão melhorado. Ele é um estudioso. O que vejo é que ele, sem ter grandes atletas, consegue ter os bons resultados. Com pouco ele faz muito, sem menosprezar qualquer atleta. Com os atletas que tem à sua disposição, consegue alcançar bons resultados como tem feito até agora.

Na Camacha também...
Sim. Há uma coisa importante: ele nunca exigiu este ou aquele jogador. Dialogávamos e escolhíamos em conjunto os atletas, mas ele nunca exigiu que queria este ou aquele ou que precisava deste ou daquele. Ele contentava-se com aquilo que era possível. Na Camacha, à nossa medida, não era possível muito. A mim dá-me a impressão que ele, atualmente, continua a usar esse sistema. De certa forma, aceita e sabe gerir a massa humana que tem à sua disposição. E isso é uma qualidade muito importante. Não ser exigente e saber gerir aquilo que é possível.

FRANCK FIFE

Qual seria uma boa equipa europeia para o Leonardo treinar?
Os objectivos dele não param. É natural que queira mais. Ele já treina uma equipa europeia que tem tido bons resultados. Talvez uma equipa com atletas de nível superior, no campeonato inglês.

O que mais o surpreendeu durante o trabalho com ele na Camacha?
Surpreendeu-me que ele tivesse aceitado a situação que nós vivíamos. A AD Camacha, como qualquer clube, teve os seus altos e baixos. Foi uma época que remodelámos o estádio, desde as bancadas à sede. Uma série de remodelações que nos absorveu parte das receitas disponíveis. E o Leonardo soube sempre aceitar aquilo que era possível dar-lhe para fazer o seu trabalho.

Qual acha que é o grande segredo para o sucesso que ele está a ter?
Trabalho e humildade. Acho que ele é um treinador muito humilde. Ele sabe trabalhar aquilo que tem e que lhe é dado, mantendo o gosto pelo trabalho porque é um profissional.

O sucesso passa muito pela equipa técnica também...
Sim, a equipa técnica dele conta com mais quatro madeirenses e todos eles passaram pela AD Camacha. E sobretudo o António Vieira, adjunto, que foi também adjunto dele aqui. Ele tem acompanhado o Leonardo sempre. O que significa que há aqui uma dupla muito importante. Não se fala muito nisso, mas acho que o Vieira e o Leonardo complementam-se muito bem.

Mantém o contacto com o Leonardo?
Sim, ele sempre que vem à Madeira encontramo-nos. Contactamos de vez em quando. A última vez terá sido há cerca de um ano, já ele estava no Mónaco. Aliás, quando deixei de ser presidente da AD Camacha, acompanhei o Leonardo Jardim à terra natal dele. Ele nasceu na Venezuela, na localidade de Barcelona, em Puerto de la Cruz e nós, com um grupo de amigos, fomos até à casa onde o Leonardo nasceu. Mostramos-lhe a cidade. Foi uma viagem muito boa.

Deu para tirar a cabeça do futebol?
Mentiria se dissesse que só falámos de futebol. (Risos) Mas deu para distrair um pouco.

Há uma frase em particular que se recorda nas conversas que tinha com ele?
Sim. Ele sempre dizia: “Até aos 40 anos tenho de estar na I Liga, num grande clube. Senão volto para a escola para dar aulas!” Lá conseguiu graças a ele próprio e ao seu trabalho.

E algo caricato que ele fazia?
(Risos) Ele era muito poupado e geria bem o plantel. Mas também o seu próprio dinheiro. Por isso ele só andava com cinco euros na carteira. Sempre só cinco euros.

Mas pagava o café aos amigos?
Pagava, pagava. Mas só com aqueles cinco euros. (risos). Espero que agora o 'plafond' dele tenha aumentado.

E o que lhe disse na última vez que falaram?
Aquilo que lhe digo sempre: que lhe desejo as maiores felicidades porque ele merece. Trabalha para isso. Ele está bem, está no bom caminho.

Até onde pode ir o Leonardo?
Penso que chegará ao nível do Mourinho. Pode ser o próximo 'Special One'. Ele tem capacidade para ir ainda mais longe. Ambição tem, vontade também. Dedicação igualmente. Dependerá das oportunidades que vão surgindo e que os grandes clubes se lembrem dele.