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César Peixoto: “As lesões tiraram-me a oportunidade de, além de ser um grande jogador em Portugal, ter uma carreira no estrangeiro”

O FC Porto joga contra o Belenenses este sábado (18h15, Sport TV1) e quisemos falar com alguém que tivesse jogado dos dois lados. Esse alguém é César Peixoto, o extremo que, em dois anos, passou da terceira divisão e do Caçador das Taipas para o FC Porto campeão e vencedor da Taça UEFA - com a equipa do Restelo pelo meio, claro. À Tribuna Expresso, o ex-jogador, agora com 36 anos, lamenta as muitas lesões que teve e que lhe foram tramando a carreira

Diogo Pombo

FRANCISCO LEONG

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Eras um miúdo que estava no Caçadores das Taipas e foi parar ao Belenenses. Histórias destas já não acontecem.
Sim, estava na terceira divisão e surgiu a hipótese do Belenenses, e havia mais duas equipas da I Liga. O meu feeling foi o Belenenses, não sei porquê. Na altura também apareceu o Gil Vicente, que era aqui ao lado. O treinador era o Luís Campos, que inclusivamente me ligou, a dizer que iam jogar ao Estádio da Luz na semana seguinte e que eu seria titular. Era muito aliciante, eu estava na terceira divisão! Mas foi uma questão de feeling. O Belenenses é um clube simpático, que eu gostava de ver na televisão, um clube que me chamava a atenção e que estava bem classificado. Acabei por optar pelo Belenenses, foi por aí.

Tinhas o desejo de ir para a capital, para uma cidade grande?
Por acaso não. Sempre fui muito da terra, da minha zona. Nas primeira duas semanas chorava quase todos os dias. Estava longe, sozinho e um bocado perdido. Apostei mais na parte profissional do que em sentir-me mais confortável. Se tivesse ido para o Gil Vicente, teria ficado na mesma, com os amigos e a família. Mas algo me dizia que era para ali que devia ir. Felizmente, as coisas correram bem, sempre fui bem tratado e gostei muito de representar o Belenenses, que me abriu as portas da I Liga.

E a diferença entre a terceira divisão e a primeira? Os primeiros treinos não devem ter sido fáceis.
Foi difícil adquirir o ritmo de jogo, não tinha nada a ver. Os jogadores tinham outra qualidade e capacidade, tanto em treino como no jogo. Tive de me ambientar à cidade e a entrar naquele balneário, que já tinha muitos anos de I Liga. Tive um pouco de vergonha, também. Era um misto de sensações. Estava muito motivado, porque tinha chegado onde queria, mas, no primeiro mês e meio, foi um reboliço na minha vida em termos profissionais e pessoais. Andei ali muito inseguro e sozinho. Mas sempre fui muito fixado no meu objetivo. Cheguei a meio da época e, como não estava a ter muitas oportunidades - o que era normal, tinha que me ambientar -, mas era muito ansioso e achava que já devia estar a jogar.

Desanimaste?
Cheguei a falar com o falecido Zé António, que era o diretor desportivo, que se calhar era melhor voltar para o Taipas, porque eu queria era jogar e jogar sempre. Eles disseram não, não, não, que eu estava ali bem e que confiavam em mim. Acabou por surgir a oportunidade, eu agarrei-a e nunca mais saí da equipa.

Como era o Marinho Peres?
Foi uma das peças fundamentais para mim. Ele apreciava as minhas capacidades, a minha irreverência e a minha vontade de jogar. Mesmo tendo vindo da terceira divisão, não me contentava por estar na I Liga. Queria jogar e ficava chateado quando não jogava. Trabalhava sempre nos limites. Foi um treinador que me marcou e conseguiu ver em mim o que alguns poderiam duvidar. Eu era um miúdo vindo da terceira divisão e afirmei-me no Belenenses, uma equipa batida na primeira divisão, com vários jogadores experientes. Não era fácil e ele teve o mérito de apostar em mim.

Levaste muita porrada os treinos, quando lá chegaste? Estou-me a lembrar do Wilson, o central.
[Ri-se um pouco] Levava alguma. Na altura era um jogador diferente do que era no final de carreira, ainda não tinha tido lesões. Era muito rápido, jogava a extremo e era muito individualista. Não soltava muito a bola. Eles davam-me na cabeça para passar mais a bola, tinha que perceber que, na I Liga, tinha que ser assim. Mas eu, teimoso, continuava a jogar e a achar que era assim que tinha de ser. E eles aproveitavam: se não era a bem, era a mal, e davam-me.

O melhor momento no Belenenses foi aquele golo ao FC Porto, do meio da rua, a 30 metros da baliza?
Sim, sim, foi esse. Mas joguei a titular praticamente a última meia época. Em 14 jogos fiz uns oito ou nove golos, foi fantástico. Claro que esse jogo me marcou, ainda hoje há pessoas que me abordam e falam desse golo. Marcou a minha carreira. Mas, nessa altura, já estava lançado. Havia o interesse do FC Porto e muitas outras equipas. Claro que foi o somar de várias situações que estavam a aparecer, e o confirmar que podia ser um jogador de referência do campeonato português. E o interesse passou a ser uma coisa efetiva.

JOAO ABREU MIRANDA

O FC Porto foi tiro e queda, quiseste logo ir para lá?
Apareceram outras equipas, até do estrangeiro. Mas o FC Porto foi a prioridade por, nessa fase, nunca me ter adaptado bem à cidade grande. Queria voltar para perto dos meus amigos e da família. Sendo o FC Porto um clube a lutar pelo título, e tendo a oportunidade de voltar para aqui, foi logo a minha primeira prioridade. Quase que nem quis saber dos outros interessados. Tinha um projeto de carreira na minha cabeça e queria voltar para perto da minha família, mas num clube com aspirações para lutar pelo título, para estar lá dois anos e, depois, ir para o estrangeiro. As coisas acabaram por não acontecer, mas foi assim que raciocinei para tomar a decisão.

Tinhas boa opinião do Mourinho? Ele ainda não era nada do que é hoje.
Era um treinador jovem, que estava a começar. Gostava do pouco que conhecia, sobretudo do discurso e da postura. Identificavam-me com a forma confiante e ganhadora e, principalmente, inovadora, como falava. Eu também era um pouco assim, irreverente, e tinha confiança em mim próprio, achava que conseguiria afirmar-me em qualquer clube. Ele também era assim, uma pessoa confiante no trabalho dele. O projeto que estava a querer montar no FC Porto, e FC Porto à volta dele, era ambicioso. Acabei por vencer muitos títulos lá.

Ele apertava muito contigo nos treinos?
Sim, sim. Eu era uma das apostas importantes do clube, e do treinador. Penso que fui a transferência mais cara de sempre entre clubes portugueses, na altura. Entretanto já me superaram. Tive que adaptar, porque, da terceira divisão, passei num ano para o Belenenses e, no ano seguinte, já estava no FC Porto com o Jorge Costa, o Vítor Baía e essa gente toda, que só estava habituado a ver na televisão. Tinha que haver ali uma adaptação. Mas sempre me apoiaram muito e motivaram, acreditavam muito nas minhas capacidades. Sempre fui um jogador importante nas equipas do Mourinho.

Do Taipas para um clube que foi campeão e vencedor da Taça UEFA. É fácil que um miúdo, com aquela idade, se possa deslumbrar, não?
Sim, era normal. Eu próprio me deslumbrei um pouco. De um momento para o outro, num ano, a minha vida dá uma volta gigante, da qual não estava à espera. Quer dizer, sempre esperei e sonhei e acreditei que ia conseguir chegar onde cheguei, mas não assim tão rápido. É normal que, nos primeiros tempos, as coisas nos façam deslumbrar um pouco. Mas, depois, comecei a passar por muitas lesões e muitos problemas físicos, e isso deixou o deslumbramento de lado. Deu azo a que tivesse coragem e tentasse vencer essas etapas, porque acabei por ter muitas lesões.

Alex Livesey

Essas lesões no joelho são sempre horríveis, mas acabaram por te custar mais por te obrigarem a ficar de fora numa época em que o FC Porto ganhava tudo?
Tanto uma, como outra, foram lesões nos ligamentos cruzados anteriores no mesmo joelho. Mais os meniscos e outras coisas reincidentes dessas lesões. Lembro-me que a primeira foi no jogo em Marselha, para a Liga dos Campeões [2003/04], em que vinha de seis jogos a fazer cinco golos, sempre a titular. Em que já estavam uns clubes interessados e também havia a hipótese de ir para a seleção. Era uma altura crucial na minha carreira, em que podia dar o salto que sempre quis ter dado. Acabei por ficar lesionado durante uns seis, sete meses. Mais tarde, tive que ser emprestado ao Guimarães, voltei para o FC Porto, afirmei-me novamente, era o melhor marcador da equipa ao final da primeira volta, estava de novo a abrir-se tudo e mais alguma coisa, e acabei por me lesionar outra vez. Fiquei quase um ano e meio parado, até fui para Espanha e não consegui jogar. Foi um retrocesso muito grande na minha carreira, apesar de ter tido uma grande carreira e de ter vencido muitos títulos. Deixei de ter certas capacidades e qualidades. Tive que me adaptar às condicionantes da lesão. Deixei de ser o mesmo jogador que era e de ter tantas oportunidades para ser, não só, um grande jogador aqui em Portugal, com muitos títulos, como de ser uma carreira no estrangeiro. Era uma coisa que gostaria de ter tido.

E na cabeça, como é que as lesões te afetaram?
O medo passou-me. Senti-o nos primeiros jogos, sim, mas depois acaba por passar. O que há é um condicionamento, em que tu sentes que te tens de adaptar às tuas capacidades físicas atuais. Sentes que não consegues fazer coisas que fazias antigamente, porque os joelhos não te deixam. Perdi velocidade e uma série de coisas. Mas ganhei outras - experiências e aspetos táticos. Sentes, sobretudo, que há aspetos em que eras forte e que, hoje em dia, já não és. Que te tens de corrigir ou aperceber-te de movimentos que já não deves fazer. Sei lá, os próprios apoios dentro do campo, em relação ao domínio da bola e ao adversário. Há uma adaptação crescente. Lembro-me do Salvio, quando voltou o ano passado - demorou até voltar a estar melhor. Teve de começar esta pré-época e fazer alguns jogos.

É difícil mudar o chip e fazer com que a cabeça deixe de achar que tem o corpo que tinha.
Exatamente. Parece que estamos a aprender a jogar outra vez, ou a andar. Temos que mudar apoios e a postura do corpo. Há certas coisas que fazias e já não consegues fazer. Acabas por conseguir ser competitivo e ser, na mesma, um bom jogador, mas não voltas a ser o mesmo. É normal e natural.

Isso não desanima muito?
Sim, em certas situações, desanima-te. No meu caso, sempre fui um jogador rápido, era extremo, tinha velocidade. Tinha um chuto muito forte, como o um para um. Perdi algumas características. Tive que me adaptar e, por vezes, era chato, triste e frustrante saberes que podes e sabes. Apesar de estares bem, não estás igual. Não consegues voltar a fazer o que fazias. Depois a idade também vai pesando, e os jogos, perdes alguma velocidade. Notei bastante, porque fui operado cinco vezes aos joelhos, mais uma hérnia, um corte no adutor… Foram muitas lesões que me foram condicionando. Como se costuma dizer no futebol, elas não matam, mas aleijam. Deixam sempre mossa e vão deixando alguma incapacidade.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Depois de todas essas lesões e quando passaste os 30 anos, ainda te divertias a jogar futebol?
As lesões nunca me tiraram o prazer em jogar futebol. Pelo contrário, mais vontade me davam para vencer e dar a volta por cima. Quando fui para Espanha, aos 26 anos, um médico deu-me como acabado para o futebol, e dei a volta por cima. Vim para Braga, cheguei à seleção nacional, aos 29 anos fiz uma grande época com o Jesus, no Braga, fui para o Benfica e voltei a ser campeão. Sempre fui muito irreverente, muito lutador, nunca desisti, nunca me desmotivei com o futebol. Às vezes ficava frustrado, porque me lesionava nas alturas certas, em que estava melhor, mas, normalmente, é sempre assim. Fiquei desiludido com o futebol, sim, mas com dirigentes, que são coisas diferentes. Em termos de lesões, sabia que, infelizmente, fazem parte do futebol - e temos que as vencer e nunca desistir. Consegui dar a volta por cima e acabei a carreira a jogar, como sempre quis que acontecesse.

Paraste de jogar porquê?
Sem estar a contar, porque tive o problema no Gil Vicente. Como é óbvio, depois de uma carreira com muitos problemas físicos e lutas que travei comigo próprio, para conseguir jogar e debelar as lesões, fiquei extremamente desiludido com o que aconteceu no Gil Vicente. Fui para tribunal e venci, mas, aí sim, fiquei desiludido com o futebol, desmotivado e sem vontade de continuar a jogar. Tinha a oportunidade de o fazer, mas não tive força de vontade. Fiquei muito desiludido com o futebol e as pessoas que andam à volta do futebol. Não com treinadores, jogadores ou diretores desportivos, mas com estes agentes que acham que estão a tratar os futebolistas como os funcionários das suas fábricas ou empresas. E não é a mesma coisa.

São as últimas imagens que ficam?
Às vezes acontece. Eu tive, realmente, a oportunidade de continuar a carreira, tanto em Portugal, como lá fora. Mas fiquei tão desiludido com o que aconteceu, que pus um ponto final. Dediquei-me mais à família. Depois do futebol há outra vida. Continuo ligado ao futebol, é a minha paixão, mas como jogador, não. Deixei de ter vontade.

É por isso que agora vais participar num programa de culinária?
Não necessariamente. É uma aventura diferente. Surgiu-me o convite, à partida não estava muito recetivo, porque a minha vida é o futebol e não deixei de gostar dele, vou tirar um curso de treinador e adoro. Mas estava por casa, surgiu essa oportunidade e nunca tinha feito nada na cozinha. Comecei a ganhar gosto e achei giro e engraçado. É uma aventura diferente e resolvi aceitar.

Mas gostas de cozinhar?
Gosto, gosto. Foi uma coisa que descobri no último ano e meio, desde que deixei de jogar. É que nunca tinha sequer estrelado um ovo e, hoje em dia, comecei, aos poucos, a fazer umas coisinhas para os meus filhos. Acabei por gostar e gosto de aprender. Estou a adorar o programa.

Qual é o prato que fazes melhor?
Eh pá, sei lá. Não tenho nenhum que possa dizer. Vou fazendo. Ainda estou naquela fase de aprendizagem. Faço coisas muito simples para os meus filhos e agora vou começando a tentar coisas mais elaboradas. Nem tenho tido muito tempo.