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Amoroso: “Não tenho adjetivos para o Cristiano Ronaldo. Não existem. Gostava de o conhecer pessoalmente”

A cerca de uma hora do Borussia Dortmund entrar no campo do Mónaco de Leonardo Jardim para a segunda mão dos quartos de final da Liga dos Campeões, a Tribuna Expresso falou com Amoroso, antigo jogador da equipa alemã

Patrícia Gouveia

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Márcio Amoroso. 42 anos. Nascido em Brasília. Foi eleito o melhor jogador do Brasileirão de 1994 e ao longo da sua carreira como avançado passou por grandes clubes no Brasil, como o Flamengo, São Paulo, Corinthians e Grêmio, além de ter jogado em igualmente grandes equipas internacionais como o Udinese, Parma e AC Milan de Itália, o Borussia Dortmund da Alemanha e o Málaga de Espanha. O brasileiro falou à Tribuna Expresso e fez uma espécie de retrospetiva sobre a sua carreira: clubes onde jogou, as saudades que ficam, e o jogo desta noite do Borussia Dortmund. Teve ainda tempo de nos contar sobre o desejo de um dia conhecer Cristiano Ronaldo, de falar sobre a admiração que nutre por Rui Costa e deixou os palpites para o Mundial de 2018.

Como antigo jogador do Borussia Dortmund, tocou-lhe de forma especial os últimos incidentes ocorridos antes do jogo com o Mónaco?
Sim, fico triste, porque é uma situação periogosa que infelizmente o nosso mundo está a viver. Uma situação de conflitos e isso é preocupante porque o desporto é um agregador do bem. Então, vemos muitas instituições e pessoas pedindo a paz através do desporto e acontecendo uma situação destas, ficámos tristes ainda para mais porque aconteceu num jogo transmitido mundialmente. Espero que não aconteça mais porque realmente preocupa-nos, também pelas famílias que vão ao estádio com crianças.

Acha que isso afetou de alguma forma o Borussia na primeira-mão?
Com certeza afectou a concentração dos atletas, porque quando alguém entra em campo concentrado para uma partida, e algo assim acontece, é normal perder o foco. É normal ficar preocupado com a família que possa estar por perto e ficam preocupados com tudo menos o jogo. Infelizmente, o Borussia acabou por ser prejudicado por ter passado por esta situação.

Ficou surpreendido com a vitória do Mónaco?
Não me surpreendeu porque o Mónaco tem uma ótima equipa. Uma equipa com jogadores rápidos, experientes e aproveitaram o momento de incerteza e de falta de concentração do Borussia. Mas isso deve-se também ao Mónaco ter uma grande equipa e mereceu a vitória durante os 90 minutos.

Esta época, o Monaco ainda só perdeu um jogo em casa. Ainda há esperança no apuramento do Borussia?
Acredito que sim, porque o Borussia é um clube grande, um clube com adeptos apaixonados e vai tentar dar a volta ao resultado. Não é impossível vencer em Monte Carlo, por isso acredito que o Borussia vá para conseguir a classificação e tem jogadores de grande qualidade que o irá ajudar. Pode ser que haja surpresas durante o jogo porque o futebol reserva várias emoções. O resultado pode mudar apesar do Mónaco partir em vantagem.

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Aubameyang é um dos grandes craques do Borussia. Curiosamente, jogou com o irmão dele no AC Milan, o Willy Aubameyang. Reconhece algumas semelhanças entre os dois?
O Pierre Aubameyang é um grande jogador, um avançado com um alto poder de finalização, de velocidade e que está sempre bem preparado e colocado dentro da área. Há semelhanças entre eles no drible, nas entradas e nos golos. Mas o Pierre é um avançado que tem muito ainda para crescer e logo, logo pode deixar o Borussia para jogar em grandes equipas do futebol mundial. Mas é um jogador muito interessante e que está a representar muito bem a equipa do Dortmund.

Já na sua altura o Borussia Dormund tinha aqueles adeptos únicos?
A claque do Borussia é considerada uma das melhores do Mundo devido à sua paixão pela equipa, de acompanhar o clube em vários jogos e eu, em particular, sou fã desses adeptos porque sempre me trataram com muito carinho, muito respeito e tenho essa gratidão por eles. Fico muito feliz pelo Borussia ter atingido novamente o patamar dos grandes clubes do futebol mundial.

Dos clubes que representou, do qual tem mais saudades?
Acho que fica um pouco de saudade de cada um. O local onde conseguimos fazer história, onde conseguimos ter sucesso, sem dúvida, fica um pouco mais de paixão. Porque quando conseguimos títulos, quando conseguimos trabalhar e mostrar o melhor do nosso futebol, acabamos por ter um carinho maior por eles. Acho que todos contribuíram para o meu sucesso e sou muito grato a todos eles.

Chegou a jogar ao lado de uma das grandes figuras do futebol português: Rui Costa. O que recorda dessa passagem pelo AC Milan e do antigo número 10 português?
O Rui era um atleta espectacular. Foi um jogador pelo qual tinha uma grande admiração. Desde a época da Florentina, eu sempre admirei o futebol do Rui Costa e o dia em que tive a oportunidade de jogar com ele no Milan, até lhe disse que era um prazer poder jogar ao seu lado porque eu sempre o admirei como jogador. Além de ser uma grande pessoa, um excelente profissional, alguém de muito carácter e humildade, foi um dos grandes craques não só do futebol português como do futebol italiano e mundial. Para mim foi um privilégio ter podido jogar ao lado do Rui Costa.

Curiosamente, nessa altura o treinador era Carlo Ancelotti. Ainda revê o mesmo Ancelotti atualmente?
É diferente, porque ele está mais experiente, mais esperto na formação das suas equipas. Um treinador acostumado a lidar com grupos de grandes estrelas, mas mesmo assim soube sempre levar os clubes a títulos com a sua experiencia, também por ter sido um grande jogador no passado. Vejo o Ancelotti como um dos três melhores treinadores do futebol mundial atualmente. É um homem que mudou bastante o conceito de jogar futebol. A passagem pelo Real Madrid para ele foi importantíssima pois teve contacto com o futebol espanhol que é um futebol muito técnico e acabou levando essa filosofia de jogar que ele tinha no AC Milan, para o Bayern de Munique. É um treinador fantástico.

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Como antigo avançado, que adjetivos encontra para Cristiano Ronaldo que acabou de chegar aos 100 golos na Liga dos Campeões?
Não tenho adjectivos para o Cristiano Ronaldo... Não existem. Acho que é um dos maiores jogadores de todos os tempos. Além de um profissional correto, dedicado na profissão, é um atleta que um dia gostaria de ter a oportunidade de o conhecer pessoalmente, pelo carácter, pela bondade que tem e por ser alguém que ajuda muitas pessoas. Ele tem todo o mérito de chegar aos 100 golos, sem dúvida porque a cada dia ele quer sempre melhorar. Algo que faz dele o melhor jogador do mundo da actualidade. Só tenho de agradecer por ter visto o Cristiano Ronaldo jogar ao mais alto nível. É um grande privilégio.

Ficou surpreendido com a conquista do Europeu por parte de Portugal?
Portugal tem uma grande seleção. Tem jogadores experientes, jogadores que estão acostumados a grandes competições. É uma seleção de grande respeito. É um país forte, um país muito acolhedor e Portugal teve mérito de ter conseguido fazer o golo da vitória na final e de ter garantido o título de Campeão Europeu. É uma seleção que tem melhorado muito nos últimos anos e acredito que se deva também ao crescimento do Cristiano Ronaldo como jogador.

Podem ganhar a Taça das Confederações?
Acredito que sim. Entram como uma das seleções favoritas por ser uma seleção de grandes jogadores e se todos estiverem em grandes condições físicas, pode ser uma séria candidata.

E no Mundial, há hipóteses?
No Mundial vai depender de como os atletas portugueses vão chegar, porque quando se joga ao mais alto nível, e se joga em equipas candidatas nas suas ligas, chega-se ao Mundial um pouco mais degastados. Por isso o alto rendimento vai pesar muito. Mas é uma seleção que tem jogadores que, se fizerem uma bela primeira fase, entram com muita força nos oitavos de final. É muito importante primeiro conseguir a qualificação e depois poderão ter chance de lutar pelo título.

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E quanto à canarinha: satisfeito com este "novo Brasil" de Tite?
O Brasil melhorou muito. Hoje podemos dizer que temos uma seleção, uma equipa comprometida com a camisola, com o país, jogadores que não estão com o pensamento de só usar a seleção brasileira para se promover. E, sim, vestir a camisola brasileira para dar alegrias ao povo brasileiro e poder rever um futebol como a seleção tinha nos últimos anos quando conquistou os títulos nas suas gerações. Então, a chegada do Tite foi fundamental por ser um treinador de grupo, um treinador comprometido com todos os atletas, tratando todos de igual para igual e a seleção brasileira, com certeza. É hoje uma seleção diferente daquela que esteve quase a ficar de fora da sua primeira 'Copa'. Hoje é uma das grandes favoritas à conquista do Mundial.

Acompanha o futebol português?
Acompanho mais os grandes, como o Benfica. O Luisão é um grande amigo meu e, então, acompanho mais as águias por ser uma equipa com presença assídua na Liga dos Campeões.

Como tem visto os brasileiros que atuam em Portugal como o Jonas, o Ederson ou o Soares do FC Porto?
Conheço o Jonas porque é meu amigo também, inclusivé ele começou em Campinas onde eu também comecei. É um atleta que teve um momento fantástico até à lesão e acabou por perder a oportunidade de voltar aos convocados da seleção brasileira. Mas é um jogador de muita qualidade, importante para o Benfica. Acompanho-o mais, mas acredito que os brasileiros em geral no futebol português conseguem destacar-se porque é um futebol que tem a nossa língua-mãe e é um futebol mais fácil de se adaptar. Esses três jogadores são jogadores de muita qualidade e isso é importante porque podem vir a ter a oportunidade de jogar na seleção brasileira.

Aos 42 anos, ainda joga?
Jogo para me divertir, só. Não jogo mais profissionalmente, só com amigos. Atualmente estou comprometido com o clube norte-americano, Boca Raton FC, que eu represento no Brasil. Joguei na equipa até ao ano passado para poder fazer parte do projecto de crescimento do clube e hoje estamos felizes porque a marca do Boca Raton tem vindo a crescer, mas se calhar, ainda este ano, volto a ajudá-los dentro do campo em alguns jogos.

Para matar saudades?
(Risos) Isso, para matar saudades.