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João Coimbra: “Uma vez, cheguei ao balneário e o Petit tinha cortado aos bocados os meus boxers. E eram caros”

Fernando Santos a dizer-lhe para chutar na bola de outra maneira. Petit a cortar-lhe uns boxers aos bocados, no balneário. E Miccolli a pedir-lhe para o ajudar a comer mousses de chocolate às escondidas, quando estava de dieta. João Coimbra contou estas e outras histórias, com um à-vontade de louvar, quando o abordámos por ter jogado no Benfica e no Estoril, equipas que se defrontam este sábado (18h15, Benfica TV)

Diogo Pombo

João Coimbra no meio de uma corrida num treino do Benfica. É o jogador que com o número 28 nos calções

FRANCISCO LEONG

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Três em ponto, espetáculo [solta uma gargalhada]

É verdade, consegui ser pontual. Está tudo bem, João?
Está tudo.

Tenho de começar pelo óbvio, que é o 1-1 que o Estoril consegue no Estádio da Luz, em 2013. Como foi viver aquilo?
Para nós foi um jogo difícil. Estávamos na luta por um objetivo nosso, que era a Liga Europa, e tínhamos noção de que iria ser complicado. Lembro-me bem dos primeiros 10 minutos, em que o Benfica tem logo duas oportunidades de golo. Não conseguiu fazer e, depois, com o acumular dos minutos, fomos ganhando mais confiança. Na segunda parte conseguimos fazer o 1-0, eles empatam e o Carlos Martins acaba por ser expulso, o que nos deu uma maior tranquilidade na parte final. Conseguimos o empate, que nos ajudou a conseguir a Liga Europa, e foi uma desilusão para todo aquele estádio.

Sentiram que os jogadores do Benfica estavam a jogar sobre brasas?
Sentimos, e foi bem notório, que eles entraram com tudo. Quem sabe se eles, numa dessas oportunidades que tiveram logo de início, tivessem marcado, talvez o resultado fosse outro. Mas eles tentarem decidir o jogo rápido. Felizmente, para nós, isso não aconteceu. Depois, com o golo que marcámos, a ansiedade deles aumentou. Ainda por cima com um jogador a menos. Aos poucos, fomos ficando com menos pressão do que eles e, jogando na Luz, sabíamos que um resultado negativo seria o normal para nós.

No fim, no balneário, falaram que, provavelmente, estavam ali a estragar a conquista de um título?
É assim, acabámos mais por celebrar o empate, porque era um ponto importantíssimo, do que propriamente o facto de estarmos a estragar uma festa, ou um título qualquer, ao Benfica. Tínhamos noção do que significava aquele resultado - que o Benfica iria ao Dragão com a necessidade de pontuar. Toda a gente fala que o jogo do título acabou por ser esse, mas o jogo do título foi no Dragão. Se o tal golo aos 92’ não tem acontecido, provavelmente não estaríamos agora a falar.

Nesse jogo, só restava o Luisão dos teus tempos de Benfica. Falaram no fim do jogo?
Restava o Luisão e o Jardel, que o tinha apanhado no Estoril. Cumprimentámo-nos quando eu entrei, mas, no fim do jogo, como a desilusão era grande neles, lembro-me que eu próprio não falei muito, porque tinha noção que o resultado não era agradável para ele. Não houve nada por aí além. Sou muito amigo do Luisão e é uma das figuras que me apoiou muito ali, sou um admirador confesso das qualidades dele, tanto futebolísticas, como humanas. Não fizemos muito alarido, foi cada um à sua vida. Mas acabámos por nos cumprimentar, claro.

O Luisão ajudou-te muito quando subiste à equipa principal do Benfica?
Foi um deles, porque foram vários: o Nuno Gomes, o Simão, o Nuno Assis, o Mantorras, o Nélson, de quem fiquei muito amigo. Felizmente, houve vários jogadores e várias pessoas que me ajudaram muito. O Luisão foi um deles e, sempre que nos vemos, brincamos muito.

Recordas-te do primeiro dia que passaste entre eles?
É assim, nós quando somos juniores ou estamos na equipa B, vamos a alguns treinos. Não me lembro do inicial, mas lembro-me bem da primeira vez que entrei. Isso, sim [ri-se]. Entrei no Estádio da Luz nos últimos cinco minutos, num jogo contra o Setúbal, em que acho que estávamos a ganhar 1-0. Entrei e felizmente que não toquei na bola [volta a rir-se]. Todo o meu corpo estava nervoso. Era o culminar de um sonho, o estádio estava praticamente cheio e estava bem nervoso. Ainda por cima o resultado não estava decidido. Lembro-me que, quando a bola veio ter comigo, o árbitro apitou antes de ela me chegar [mais um riso]. Até acho que respirei de alívio. Não fiz nada bem, mas também não fiz nada mal.

FRANCISCO LEONG

Para um miúdo formado no Benfica e que se estreia tão novo, achas que é impossível jogar tranquilo?
Depende muito do psicológico de cada um, que é muito importante. Há de tudo. Eu, por acaso, sempre fui uma pessoa que não conviveu muito bem com isso. Nesse primeiro jogo lembro-me que estava bem nervoso, acabei por ter alguma sorte por não tocar na bola. Com aquele resultado, não podia errar.

Ficaste com medo de fazer porcaria?
Claramente. Lembro-me que, numa eliminatória com o Paris Saint-Germain, joguei a titular em Paris, na primeira mão, e cá, ao intervalo, entrei para o lugar do Karagounis. Lá perdemos 2-1 e cá estávamos a ganhar por 2-1. Ou seja, não estava fácil. Por acaso até entrei bem no jogo, mas tenho a perfeita noção que, num contra-ataque, podia ter passado a bola ao Simão, mas quis fintar. Era o último homem e ficaria isolado, mas o defesa conseguiu tirar-me a bola. E ainda hoje tenho a noção de olhar para o terceiro anel e ver uma pessoa a levantar-se e a virar as costas [vai-se rindo enquanto conta isto]. Lembro-me muito bem, depois do jogo, de falar com o Simão e dele se partir a rir por causa disso. Só pensei para mim: “Fogo, devia ter passado a bola”.

É curioso, porque a maior parte dos jogadores diz que, durante o jogo, se alheia de tudo o que se passa à volta.
Sim, costuma-se dizer que, quando o árbitro apita, quase tudo desaparece. Até mesmo a ansiedade. As coisas saem e uma pessoa foca-se no jogo. Mas há sempre um ou outro momento em que reparamos no que temos à volta. E, jogando ali no Estádio da Luz, os jogadores sentem o apoio do público quando o Benfica está a precisar. Por isso é que é tão diferente jogar em casa e jogar fora.

No tempo que passaste no Benfica, houve alguma altura em que jogaste tranquilo, sem nervos, sem ansiedade e sem medo de errar?
Sinceramente, acho que não. Posso ter feito um ou outro jogo bom. Em Paris, por exemplo. E não sei se a razão de me ter corrido tão bem foi o facto de não estar nada à espera. No jogo anterior, o Katsouranis não tinha jogado e o mister Fernando Santos até optou por colocar o Derlei no meio campo. E eu estava um bocado tranquilo por isso. Mas, nessa tarde, o Katsouranis sentiu uma indisposição. Quando o mister deu a palestra, eu até estava calmo. Ele começou a dizer o 11 e, quando disse o meu nome, fiquei quieto, a olhar, para ninguém reparar em mim - porque aquilo, por dentro, mexeu muito comigo. O jogo, por acaso, correu-me muito bem e senti-me à vontade. Mas, também, nunca tive uma sequência de três ou quatro jogos seguidos, a titular, para me sentir bem.

Sentias as mesmas coisas nos treinos? Estavas rodeado de craques.
Sim, mas, lá está, com a sequência dos treinos, fiquei mais à vontade e tranquilo ali no meio. Tinha a perfeita noção dos craques que eles eram, mas, acima de tudo, sentia-me mais um no grupo. E essa ansiedade vai desaparecendo.

Eles apertavam muito contigo por ser o miúdo novo, da formação?
Uma vez ou outra, sim. Tenho alguns exemplos que, por ser o miúdo, ou um dos mais novos, eles brincavam. Na altura usava uns boxers da Throttleman, com bonecos, e lembro-me que, uma vez, cheguei ao balneário no fim de um treino e os meus boxers estavam todos cortados aos bocados, no cabide. Depois soube que tinha sido o Petit e, nesse tempo, os boxers ainda eram caros! [ri-se]. A partir desse dia passei a levar outros. Mas sempre fui bem tratado. Tinha perfeita noção onde estava e sempre respeitei toda a gente, isso também me ajudou.

No teu caso, tinhas a curiosidade de estares a estudar para ser médico. O que era algo diferente do típico futebolista.
Sempre me associaram a isso. Sinceramente, até nem gostava muito. Estava ali para jogar e queria que me conhecessem como um jogador, e não como alguém que estuda. Até tenho algumas histórias por causa disso, uma delas com o Fernando Santos. Num treino, no início da época, em que ainda não era convocado, estávamos a fazer um exercício de finalização. Aquilo não me estava a correr muito bem, não estava a acertar com os remates. E o mister Fernando Santos grita para mim: “F***-**! Chutas sempre assim!”. E eu, tive a infeliz ideia de lhe responder, meio chateado: “Eu sempre chutei assim!”. E ele: “Ó João, vai mas é para o c******”. [desmancha-se a rir]. No meio disto tudo, eu fiquei com azia. E o Mantorras, atrás de mim, a partir-se a rir. Mas o mister, no fim do treino, chama-me e diz: “Ó João, então tu, que és um gajo inteligente e que estudas, não percebeste o que te queria dizer?”. Eu pedi-lhe desculpa por ter respondido e pronto. Mas, sim, sempre me associaram ao facto de estar a estudar Medicina, claramente.

João Coimbra (o segundo a contar da esquerda, na fila superior) antes do Espanhol-Benfica, para a Taça UEFA, em 2007

João Coimbra (o segundo a contar da esquerda, na fila superior) antes do Espanhol-Benfica, para a Taça UEFA, em 2007

Bagu Blanco/Getty

Achas que isso te prejudicou?
Não vejo as coisas por aí. Tenho a perfeita noção que não cheguei mais longe, ou não me assumir na primeira equipa do Benfica, ou na primeira liga, muito por culpa minha. Claro que, numa outra altura, talvez não me tenham ajudado ou dado uma oportunidade. Se calhar, se um ou outro treinador tivesse optado por mim, e não por outros jogadores, as coisas teriam sido diferentes. Mas, se cheguei a um certo patamar, foi meritoriamente por culpa minha. Se não cheguei, acredito que tenha sido por minha culpa. Sempre gostei de ser reconhecido por uma pessoa que estudava e tinha uma segunda opção, mas, a certa altura, preferia que falassem de mim como um jogador de futebol, e não como um jogador que estuda.

Seria a mesma coisa se, daqui a 10 anos, se fores médico, as pessoas fosse a uma consulta contigo e só falassem de futebol.
[Ri-se] Aí, menos mal, porque o futebol sempre foi a minha paixão. Mas, se daqui a 10 anos, me dissessem: “Pá, tu eras um bom jogador, mas como médico…” [mais risos]. Aí é que era pior.

Voltando ao Fernando Santos. Sempre se disse muito que uma das suas qualidades era dar-se bem com toda a gente e aproximar-se muito dos jogadores. Sentias isso?
É assim, eu era um miúdo na altura. Ele era muito mais exigente comigo do que com outros. A relação que tinha com os jogadores jogadores era muito boa. Ele convivia com os jogadores e muitas vezes até parecia um colega. Com os mais jovens era um pouco mais exigente, mas sempre para ajudar.

Tinhas o exemplo do Rui Costa, que era quem era.
Sim, e acho que eles até se tratavam por tu.

E, de jogador para jogador, os mais velhos também cobravam aos mais novos?
Sim. Na altura, era diferente o Rui Costa dizer ao Nuno Gomes para fazer um passe, do que dizer-me a mim. Ou para me dizer “corre para ali”. Se calhar não dizia a outros, mas a mim dizia-me “vá, corre pá”. Era normal. Sempre entendi, da parte de todos, que o faziam para ajudar. Ainda falo com a maioria dos jogadores que encontrei no Benfica e ainda sinto um grande carinho da parte deles. Acho que isso é bom sinal.

Também ainda falas com os estrangeiros?
Uma ou outra vez, com o Katsouranis. Ficámos com uma boa relação.

Os gregos deviam falar bem português, era uma vantagem.
O Katsouranis, mais ou menos. Como era a época de estreia dele, ainda só falava em inglês. Eu, como também falava inglês, chegava muitas vezes a ser o intérprete dele. Quando foi aquele lance em que ele lesionou o Anderson, num FC Porto-Benfica, pediu-me para lhe ligar no dia a seguir, para lhe pedir desculpa. Na altura, como conhecia o Vieirinha, liguei-lhe, ele passou o telefone ao Anderson e o Katsouranis pediu-lhe desculpa, disse-lhe que não tinha sido com intenção. Acabei por ser o tradutor [volta a rir-se].

Como reagiu o Anderson?
Até foi muito simpático. Agradeceu o telefonema, disse que percebeu, que estas coisas acontecem e que não havia qualquer problema. Por acaso, foi impecável.

E o Miccolli, como era?
Só para veres a qualidade dele. Uma vez estávamos num treino ele, meio em português, meio em italiano, começou-me a dizer para fazermos um jogo. “Vamos, vamos”. Ele pega numa bola e começa-me a tentar explicar: se acertares com a bola na barra, ganhas três pontos; se acertares na barra, a bola subir e fores lá fazer golo com a cabeça, vale cinco pontos. Eu não estava a perceber bem, por causa do italiano, e ele disse: “Então espera, que eu explico”. Ele chuta a bola, bate na barra, sobe e vai lá fazer golo de cabeça.

À primeira?
Sim, logo! [já se está a rir]. E eu disse-lhe: “Pronto, joga lá tu sozinho, que eu já não quero, já sei como vai ser o desfecho”.

Tinha ar de ser um tipo com piada.
Sim, era gente muito boa e engraçada. E com uma qualidade muito, muito grande. Dos melhores, mesmo.

E parecia gostar muito do Benfica.
Sim, ainda hoje vai ao Estádio da Luz, de vez em quando. Para um jogador do calibre dele, passados seis meses, querer voltar para o Benfica e fazer um pressing, acho que mostra bem isso.

Não apertavam com ele para perder peso?
[Ri-se] Há outra história com ele, muito engraçada. Eu sentava-me à mesa com ele, nas refeições, e houve uma altura em que ele estava de dieta. O fisioterapeuta era o Rodolfo Moura e ele, como estava mesmo em dieta exigente, pedia ao miúdo para lhe ir buscar uma mousse de chocolate. “Ó Coimbra, vai lá”. Então ia buscar uma, ele sentava-se ao meu lado, eu ficava de frente para o Rodolfo Moura e ele de costas. Então, quando o Rodolfo não estava a olhar, eu fazia-lhe sinal para comer. E ele dava logo duas colheradas na mousse [solta uma gargalhada]. Era muito engraçado.