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Edite, uma das melhores jogadoras de sempre: “Trabalhei no McDonald's, na Expo'98 e na Casa do Preto. Hoje em dia, tudo é fácil”

Aos 37 anos, Edite Fernandes decidiu deixar de jogar pela seleção nacional, depois de ter sido surpreendida pela não convocatória para o play-off de acesso ao Europeu de futebol que Portugal disputa, em julho, na Holanda. A jogadora do Sporting de Braga assume que, quando acabar a carreira, vê-se mais como dirigente do que treinadora, admite que ainda não desistiu do sonho de ser mãe e revela que nunca conheceu o pai, embora saiba onde ele está

Alexandra Simões de Abreu

Edite Cristiana Fernandes tem 37 anos e acumula as funções de jogadora e diretora no futebol feminino do Sporting de Braga

Nuno Botelho

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Com 132 internacionalizações e 39 golos marcados, Edite Fernandes, a segunda jogadora mais internacional de sempre (atrás de Carla Couto, com 145), e a primeira jogadora portuguesa a alinhar profissionalmente no estrangeiro, não vai participar na estreia de Portugal num Campeonato da Europa Feminino da UEFA. A atleta de Vila do Conde revela que gostava de terminar a carreira no final da corrente temporada, mas admite continuar mais um ano no Sporting de Braga, caso sinta que tem boa condição fisica. No futuro, vê-se a fazer a ponte entre jogadoras e dirigentes do futebol feminino e, caso não consiga realizar esse sonho em Portugal, admite fazê-lo no estrangeiro onde, garante, deixou portas abertas nos clubes por onde passou.

Porque decidiu deixar de jogar pela seleção?
Porque estava na altura de tomar essa decisão. Foi uma coisa bem pensada. A partir do momento em que, surpreendentemente, não fui convocada para o play-off, achei que se calhar era o momento certo.

Estava à espera de ser convocada?
Estava. Não posso dizer que não. A partir do momento em que faço o apuramento todo, sou a segunda melhor marcadora, com muito menos minutos do que a minha colega que tem mais golos, nada me fazia prever que não pudesse ir ao play-off. Era só o jogo mais importante de todo o sempre.

Porque é que acha que não foi convocada?
Eu quero pensar que tenha sido por opção.

Nunca questionou o selecionador?
Não, não faz parte da minha forma de estar no futebol, nem tenho de questionar qualquer treinador por causa das opções que ele toma.

E ele nunca lhe deu qualquer justificação?
Não.

Naquela altura, a Edite estava em forma, sem lesões?
Sim. Aliás, penso que no jogo antes desse estágio o Sporting de Braga jogou no Fofó [Clube Futebol Benfica] e fiz um dos melhores jogos dos últimos tempos. Sinceramente não estava à espera de não ter sido convocada.

Não havia nenhum tipo indicador de que essa opção estava em cima da mesa?
Não. O grupo sempre esteve bem e eu sempre fui, julgo eu, uma exemplar capitã, uma líder, um ponto de ligação entre treinador e equipa. Não houve qualquer tipo de problema, nada. Só me leva a pensar que provavelmente o selecionador tenha optado por outras jogadoras que estivessem em melhor estado físico.

Acha que a idade pesou?
Não sei. Quero pensar que não. A qualidade existe, eu estava bem fisicamente. Quando isso acontece, acho que a idade não conta.

Sente que foi empurrada para sair da seleção?
Sinto que me deram um pequeno empurrão para tomar esta decisão. Mas saí pelo meu pé. A partir do momento em que começaram a não me convocar, percebi logo e tomei a decisão. Não queria que a tomassem por mim.

O que sente por não estar no Europeu?
Já ultrapassei esse choque. Para mim foi um choque na altura, confesso. Era um momento que gostaria de ter vivido com as minhas colegas, por tudo o que fiz, pela minha carreira, mas consegui ultrapassar esse choque. Meti na ideia que há um fim, há uma decisão, que foi ponderada. Agora, é lógico que gostaria de estar lá a partilhar este momento, até porque ainda estou a jogar.

Que hipótese tem Portugal na Holanda?
Acho que estamos num grupo bastante difícil mas também acho que temos uma boa seleção, com qualidade, que tem feito bons jogos. Claro que é uma competição diferente, os nervos vão existir, e temos de saber contrariar a ansiedade. Mas acho que todas as jogadoras vão estar focadas e unidas.

A seleção terá “armas” suficientes para passar à fase seguinte?
Acho que tem de ser pensado jogo a jogo, e não pensar numa passagem à fase seguinte. Primeiro, jogo a jogo, e, depois, consoante os resultados, aí vai-se pensando mais à frente.

Quem é para si a melhor jogadora?
Neste momento a Cláudia Neto e a Dolores Silva estão num patamar mais elevado. A própria Ana Borges, que fui acompanhando muito porque fui eu que a levei para Espanha. Depois foi para os EUA comigo também. Mas a Cláudia e a Dolores para mim são as que estão num patamar superior em relação às outras jogadoras.

Edite Fernandes somou 132 internacionalizações pela seleção

Edite Fernandes somou 132 internacionalizações pela seleção

AFP

Gosta de estar em Braga?
Sim, sinto-me muito bem, como se estivesse em casa. O SC Braga é um clube que reconheceu tudo o que eu fiz e conquistei e, por isso, convidou-me para este projeto. Estou muito agradecida ao presidente por ter apostado no futebol feminino. É um clube acolhedor, com um ambiente de família e muito saudável.

Antes de ir para o Braga jogou no Valadares, mas trabalhava também como delegada do Sindicato de Jogadores. Gostou de desempenhar esse papel?
Gostei. Foi uma oportunidade de conhecer a realidade de muitos clubes, muitos deles com muitas dificuldades. Ainda há realidades que estão muito aquém do que pensamos. Há miúdas que pagam as despesas de deslocação para ir treinar e jogar. Já não devia ser assim. Há equipas que têm poucas condições a nível de campo de treino, a nível médico, etc.

É a primeira vez que está num clube português sem precisar de trabalhar ao mesmo tempo. Vive apenas do contrato que fez com o Sp. Braga?
Sim, é a primeira vez que estou cá a fazer somente aquilo que gosto, que é jogar futebol. Foi algo com que sempre sonhei. Chegar ao fim de 20 anos e conseguir fazer isso no seu próprio país, sem ser preciso ir para fora para realizar esse sonho, é motivo de contentamento, claro.

Que outros empregos teve?
Quando estava no Valadares trabalhava no Sindicato dos Jogadores como delegada, mas cheguei a trabalhar no McDonalds, na Expo'98, na Casa do Preto, em Sintra, na própria Câmara de Sintra (trabalhei nas escolas, com crianças com deficiência).

Foi a primeira jogadora portuguesa a ir para o estrangeiro. Como é que isso surgiu?
Aconteceu em 2001. Fui para a China. Mas não fui sozinha, fui com a Carla Couto e a Sónia Silva. Foi através das federações. Na altura, a federação chinesa convidou duas jogadoras, à escolha do selecionador nacional, para ir para lá porque queria formar uma superliga com 12 estrangeiras, para promover o futebol feminino. O professor Nuno Cristóvão falou com a Carla e com a Sónia. Lembro-me que estava o lado da Carla quando ele falou com ela. Estávamos num estágio do Mundialito. Ela estava a hesitar muito e eu disse: "Se fosse comigo eu ia já". No dia a seguir, ele veio falar comigo porque havia a hipótese de ir mais uma e respondi logo que sim. Tinha uns 18 ou 19 anos e estava na seleção há muito pouco tempo.

Quando lá chegou, a realidade era muito diferente?
Se era. A China tinha acabado de ser campeã mundial, já tinha clubes com boas estruturas, já treinavam de manhã e à tarde. Foi pena só lá termos estado três meses. Mas era o tempo da superliga que eles faziam… Até hoje, tirando os EUA, a China foi a melhor experiência que tive, a que mais me marcou. Afinal, a jogadora que inicialmente não era suposto ir foi a que mais sucesso teve. Acabei por ir à final, fui a melhor jogadora da final e ganhamos a superliga. E no ano a seguir voltei a ser convidada. Só não fui porque entretanto surgiu a gripe das aves.

Entretanto quando regressa da China fica no 1º Dezembro uns anos, mas volta a sair em 2008. Passou por Espanha, Noruega e EUA. Se pudesse escolher em qual deles ficaria a viver e a jogar?
Nos EUA. Têm uma cultura diferente e depois tive a sorte de ter ido para uma zona, a Califórnia, onde havia muitos argentinos, mexicanos; era uma zona muito latina, e identifiquei-me com as pessoas. Criei muitas amizades e hoje continuam a chatear-me para ir para lá, agora noutras funções, como treinadora ou algo do género. Se as coisas não derem resultado aqui, por qualquer motivo, vou para lá.

Até onde estudou?
Fiquei no 9º ano. Ainda frequentei o 10º ano durante dois anos, mas já não conseguia conciliar e desisti.

Arrepende-se dessa escolha?
Não.

Pensa voltar a estudar?
Gostava de terminar a escolaridade mínima obrigatória. Talvez através de um programa de novas oportunidades. E quero trabalhar na minha formação, tanto na parte de treino como de dirigente. Já tenho o nível 1 do curso de treinadora, quero continuar.

Ser dirigente alicia-a mais do que ser treinadora?
Sim. Gosto mais de estar perto da equipa na parte de apoio, não no campo, mas como secretária técnica por exemplo.

Gostava de um dia vir a ocupar o lugar de Mónica Jorge com diretora do futebol feminino na federação?
Vejo-me numa função parecida com essa, sim. Gostava que fosse cá, mas, se não for, tenho clubes que reconhecem as minhas capacidades de liderança. O próprio Zaragoza, o clube onde estive mais anos em Espanha, continua a estar em contacto comigo e gostava que fosse para lá fazer a ligação entre a parte dirigente e o campo. Tenho portas abertas.

Já pensou quando é que vai terminar a carreira de jogadora?
Tinha pensado acabar este ano, mas o treinador do Braga diz que quer contar comigo mais uma época. Diz que ainda tenho capacidades físicas e que sou um elemento muito forte no balneário. Mas eu queria acabar já este ano para me focar noutro tipo de funções que também quero fazer. Vamos ver. Vamos vivendo o presente.

Edite Fernandes foi internacional pela primeira vez a 21 de dezembro de 1997. Retirou-se da seleção no início deste ano

Edite Fernandes foi internacional pela primeira vez a 21 de dezembro de 1997. Retirou-se da seleção no início deste ano

Nuno Botelho

Fez muitos sacrifícios por causa do futebol. Qual foi aquele mais lhe custou?
Estar longe da família. Quando estava nos EUA era muito complicado falar com a minha mãe por causa da diferença horária. As saudades. O facto de gostar de ter sido mãe mais cedo e não conseguir por ter posto à frente a carreira.

Já desistiu de ser mãe?
Não. Mas sei que é cada vez mais difícil, porque já são 37 anos e ainda continuo a jogar. E tem que ser uma coisa bem pensada porque é um filho, não é uma brincadeira qualquer. Mas posso ser mãe de outras formas, posso adotar.

É verdade que nos contratos profissionais existe uma cláusula que impede as jogadoras de engravidar?
Alguns contratos têm. Mas nunca vi, por isso não tenho a certeza. Mas a própria lei do país protege a mulher e a mãe.

Sente que esta nova geração de futebolistas tem a vida mais facilitada?
Sem dúvida. Este apuramento para o campeonato da Europa tem muito trabalho das pessoas para trás, de todas as jogadoras que lutaram pelo futebol feminino. Estas meninas têm a vida mais facilitada, mas, curiosamente, sinto que há alguma falta de compromisso delas para com os clubes e com a própria modalidade. Penso que não têm a mesma capacidade de sacrifício que nós tinhamos. Às vezes, com as dificuldades, as pessoas superam-se e trabalham afincadamente. Quando não existe nada as pessoas parece que se juntam e se unem em prol de uma coisa, e hoje em dia tudo é fácil, "se perder, olha, paciência". Mas atenção, eu acho que é extremamente positivo haver melhores condições para as miúdas.

O que é preciso para o futebol feminino português evoluir?
O trabalho da Federação tem sido bastante positivo. Apesar de continuarem a existir clubes com muitas carências e falta de condições. Mas reconheço o bom trabalho que tem sido feito e o apoio que tem sido dado às jogadoras e a alguns clubes. Agora, também cabe às próprias associações unirem-se, formar e promover o futebol feminino. E os clubes, a partir do momento em que entram nos campeonatos têm que procurar manter algumas condições e melhorá-las.

Acha que algum deles pode desistir?
Não faz sentido que os clubes grandes desistam dos projetos. Mas vejo clubes como o Belenenses com algumas dificuldades. Por exemplo, no último jogo que o Braga fez com o Belenenses, o Belenenses tinha somente 11 jogadoras, não tinha nenhuma jogadora no banco. Isto para a modalidade não é muito positivo. E o Belenenses foi uma das equipas que entrou nesta Liga. Temo que possam desaparecer algumas equipas na próxima época, quando o que é preciso é que apareçam mais clubes, como o FC Porto, por exemplo.

Atualmente só o Sporting e o Braga têm condições para pagar às jogadoras...
Provavelmente, sim. Mas também são aquelas que têm trabalho com condições profissionais, quase idênticas às dos masculinos. Não quer dizer que dentro de outras equipas da liga amadora não existam clubes que sejam profissionais no trabalho, o próprio Valadares tem uma boa estrutura, estão bem organizados e trabalham com profissionalismo, como o próprio Fofó, campeão, que tem de o fazer.

Edite Fernandes jogou na China em 2001

Edite Fernandes jogou na China em 2001

Nuno Botelho

Começou a jogar futebol na rua. Era uma maria-rapaz?
Essa é a melhor formação/escola do mundo, o futebol de rua.

É verdade que os seus pais se conheceram num jogo de futebol?
Sim. Depois disso começaram a namorar, entretanto a minha mãe engravidou e quando eu nasci o meu pai foi-se embora.

Conhece o seu pai?
Não, não o conheço. Nunca me procurou.

E nunca teve curiosidade de ir à procura dele?
Uma vez ou outra, sim. Mas achei que seria mau para a minha mãe poder aproximar-me do meu pai quando ele é uma pessoa que nunca me disse nada. Provavelmente, ele sabe da minha existência. Há uma ou outra pessoa que o conhecia e que diz que sou muito parecida com ele. Sei onde ele está porque, por curiosidade, fui vendo e percebendo através da internet. Sei que tem um estabelecimento de hotelaria, um bar ou isso. Mas não sei porquê não me puxa ir lá.

Tem irmãos?
Tenho um irmão. A minha mãe foi solteira até aos meus 15 anos e depois conheceu e casou com o pai do meu irmão, que nasceu já a minha mãe tinha 38 anos.

Ao longo da carreira teve duas operações em dois anos por causa de uma lesão grave. Que lesão foi essa?
Estava em Espanha, fui aos EUA, voltei a Espanha e quando estava para ir para os EUA novamente, já tinha viagem marcada e tudo, o médico aconselhou-me a não ir e a ser operada. Tinha uma fratura de stress na tíbia. Nunca tive uma lesão traumática e acabei por ter um desgaste da tíbia.

Qual foi o jogo mais marcante para si?
O jogo que me lançou para o futebol. Um dérbi entre o Boavista e o Lobão, que acabou 2-1. Era um jogo que decidia o campeonato, havia muita gente a ver, estava presente a selecionadora nacional da altura, a Graça Simões. Eu era uma miúda que tinha acabado de chegar ao futebol, aquele era o meu segundo jogo e entrei a 13 minutos do fim. Marquei dois golos e fomos campeões nacionais. Lembro-me que o jornal "A Bola" escreveu uma colunazinha cujo título era "Edite, a estrelazinha". Ainda tenho esse recorte. Lembro-me também da loucura dos meus tios (foram eles que me levaram para o futebol, ao Boavista), estavam eufóricos. Marcou-me muito. Foi esse jogo que me mostrou que podia ser jogadora de futebol. A partir daí a Graça Simões chamou-me para a seleção e nunca mais saí de lá. Até agora.

Há alguma coisa de que se arrependa?
Acho que não. Todas as oportunidades que tive aproveitei-as. Acho que tudo com que sonhei fui conseguindo concretizar.