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Miguel Vítor, o campeão israelita com o Benfica no coração

Miguel Vítor foi campeão nacional em Israel pelo Hapoel Be´er Sheva. Depois de estar mais de três meses parado devido a lesão, o jogador de 27 anos confessa que este título tem um sabor especial - mas, mesmo assim, não é mais especial do que os títulos do Benfica. À Tribuna Expresso, falou do choque cultural e religioso que apanhou quando chegou a Israel, mas garante que nunca se sentiu com medo

Patrícia Gouveia

GIUSEPPE CACACE

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Antes de tudo, parabéns pela conquista do campeonato israelita. A que sabe a vitória?
Foi uma vitória, especialmente para mim, com um sabor muito especial, porque durante esta época, a meio de dezembro, tive uma lesão um pouco complicada e na altura pensou-se que podia não ser possível voltar a jogar esta temporada. Estive de fora durante três meses e meio e por isso a conquista do título teve um sabor especial, porque voltei a tempo dos play-offs – aqui em Israel há um play-off para depois decidir o campeão. Voltei e pude ajudar a equipa nos últimos jogos.

Então esta conquista depois da lesão surge quase como um prémio...
Sim, estive três meses parado e tive de trabalhar muito para conseguir voltar ao meu melhor nível. E termos conseguido este título na casa do nosso maior rival – Maccabi Tel Aviv - é sempre um sentimento especial.

E como foi a festa?
Foi uma coisa assim mais espontânea porque o clube, como ainda faltam três jogos para o final e como não queriam dar azar, não prepararam grande coisa. Foi algo mais do momento, no estádio, com os adeptos que tinham ido ver o jogo. Jogámos a cerca de uma hora e meia do nosso estádio e ao voltar muitos carros seguiram o nosso autocarro. No próximo jogo vai ser entregue a taça e aí vai ser uma festa maior.

É mais especial do que os títulos no Benfica?
Não é mais especial. No Benfica, o campeonato que conquistei também teve um sabor muito especial. Como muita gente sabe, o Benfica é a equipa do meu coração, é a equipa em Portugal em que joguei durante a minha formação e joguei durante a minha carrreira. Então nessa altura, teve um sentimento muito especial e é diferente. Aqui dei um contributo mais importante, no Benfica não joguei muito nessa época em que fomos campeões. O sabor é diferente.

Clive Rose

São bicampeões em Israel. No ano passado ganharam o título após 40 anos sem ganhar o campeonato. O antigo vencedor foi o Maccabi Tel Aviv. Há muita rivalidade entre as duas equipas?
O meu clube já não conquistava – antes do ano passado – o título há 40 anos. O clube passou por uma fase mais complicada, mas nos últimos seis anos já andava a lutar pelos primeiros lugares e tem vindo a crescer. Sei que há uma certa rivalidade com o Tel Aviv, inclusive eles já tinham sido campeões no nosso estádio uma ou duas vezes e então, entre os adeptos, aqueles momentos ficaram atravessados. Por isso foi especial para eles sermos campeões no estádio do rival, porque foi uma vingança.

Passaste da Grécia para Israel. Como foi a adaptação a um país tão diferente?
Israel é um país diferente, com uma cultura diferente em relação aos países europeus. Fui muito bem recebido por todos, mas têm uma cultura diferente, a religião é diferente e então, às vezes, têm hábitos diferentes no dia-a-dia. Para dar um exemplo, para eles o fim de semana é a sexta e o sábado. O domingo é como se fosse a segunda-feira. Algumas pequenas coisas são diferentes. Também há questão da segurança.

Tiveste receio em algum momento?
Tive receio na altura em que vim para cá, porque em Portugal as notícias sobre Israel não surgiam, normalmente, pelos melhores motivos. Mas desde que aqui cheguei que me senti muito seguro, nunca tive nenhum episódio de insegurança, nem nenhum problema. Sinto-me muito bem e acho que neste momento Israel é mais seguro do que alguns países da Europa, devido aos problemas que têm acontecido.

É um país do qual as pessoas têm uma ideia errada?
Sim, em Portugal e se calhar noutros países europeus, sempre que há uma notícia sobre Israel, é sobre guerra ou algum problema relacionado com o terrorismo. Mas no dia-a-dia aqui é raro acontecer algo. Às vezes, em Jerusalém, ouve-se que há alguns problemas pelo facto de haver várias religiões, mas sinto-me perfeitamente seguro, faço a minha vida normal, tenho as minhas filhas aqui na escola... No início, quando tive o primeiro convite para vir, fiquei de pé atrás até ver o país e as condições que tem. Depois de estar aqui, as pessoas perdem a ideia errada que têm. Também falei com outros portugueses que aqui estavam, incentivaram-me a vir e acho que fiz a escolha certa.

JACK GUEZ

O que encontraste de diferente?
Via militares com as armas no dia-a-dia porque eles levam as armas para casa. Na rua, às vezes, cruzamo-nos com pessoas que já não estão com a farda, mas estão com uma metralhadora na mão e isso no início causou-me algum impacto. Com o tempo uma pessoa vai-se habituando. Outro aspecto diferente é que aqui, à sexta-feira, eles têm uma refeição à noite onde juntam as famílias todas. Nota-se que aqui dão um grande valor à família e juntam-se todas as semanas.

E a religião influencia de alguma forma o futebol?
Na sexta-feira, como há esse jantar especial, nesse dia nunca jogámos. Jogamos sábado, domingo ou até segunda-feira. Na parte de futebol em si, não influencia muita coisa. Há uma equipa noutra zona de Israel, que é uma zona em que eles são praticamente todos muçulmanos, e na zona de Jerusalém há os judeus mais extremistas. E sei que há uma rivalidade muito grande pela parte religiosa porque essas duas equipas, nos jogos fora, quando se defrontam, a equipa adversária não pode levar adeptos. A religião tem influência nestes dois aspectos apenas.

O choque cultural é enorme, principalmente para uma mulher. Como é que a tua mulher e filhas se estão a dar no país?
Só os judeus ortodoxos, que são os que seguem mais à risca todas as tradições religiosas, é que têm algumas limitações para as mulheres, como a saia que tem de ir até ao joelho ou não poder mostrar os braços. Mas é uma pequena parte. O resto das pessoas andam vestidas de maneira normal. Também há mulçumanos aqui. É engraçado porque num único país consegues ver várias religiões. No dia-a-dia não há qualquer tipo de limitações. Na escola onde as minhas filhas estão eles vestem-se de maneira normal e não encontro nenhum tipo de limitação.

Como se vive o futebol aí?
É uma coisa que me surpreendeu. Eles vivem o futebol muito intensamente. Os estádios estão sempre cheios, há um grande apoio à equipa, mesmo quando jogamos fora vai sempre muita gente ver os jogos. Noto também que os estádios são todos novos praticamente, o que é bom, têm boas condições. E sinto que há uma grande paixão por parte dos adeptos e que há um grande respeito entre eles. Fomos campeões na casa do rival e até a minha mulher foi ver o jogo e não houve problemas nenhuns. Até adeptos rivais nos deram os parabéns pelo título. Há um grande respeito. Acho que nesse aspecto está mais evoluído do que em Portugal.

E a arbitragem?
A arbitragem é normal. Os árbitros cometem os seus erros, mas acho que se perde muito menos tempo a falar disso. Eu também, verdade seja dita, não entendo muito bem as notícias que saem aqui [risos]. Mas fala-se muito menos do que em Portugal, onde um erro de um árbitro está a ser falado durante a semana toda e dão valor a isso. Aqui os árbitros cometem os seus erros, podemos até falar no dia seguinte, mas depois passa à frente.

YURI KADOBNOV

O teu futuro passa por Israel?
Sim, tenho mais dois anos de contrato. Em príncipio vou continuar, as coisas correram-me bem. Sinto que as pessoas gostam de mim aqui e devo continuar, mas no futebol nunca se sabe o dia de amanhã e temos de estar sempre preparados para o que possa acontecer.

Estiveste muitos anos no Benfica. Há saudades do clube da Luz?
Sim, é o clube que apoio em Portugal. Estive desde os 12 anos aos 23 anos no Benfica. É claro que deixo um carinho muito grande pelo clube e é uma instituição que sempre me tratou muito bem. Até quando estive lesionado, estive lá a fazer a recuperação e estavam disponíveis para mim. Isso deixa uma marca numa pessoa e dou muito valor ao Benfica por tudo o que fez por mim.

Há alguma mágoa por não teres tido uma história diferente na Luz?
Não, já passei essa parte. É claro que se se tivesse proporcionado, gostava que a minha história tivesse sido diferente, que tivesse jogado mais. Todos os jogadores têm essa ambição e eu ainda mais por ter sido formado lá. Mas já passei essa fase da mágoa ou qualquer tristeza que possa ter ficado. Dou valor aos bons momentos que lá tive e continuo a tocer pelo clube.

Tens desejo de voltar?
Sei que é complicado. Se um dia isso se proporcionar é claro que ficava feliz, mas sei que agora é difícil. No futebol nunca se sabe o dia de amanhã e temos de estar preparados para tudo o que possa acontecer.

EuroFootball

E vais marcar presença na festa de eventual campeão nacional do Benfica?
[Risos] Não sei, ainda tenho mais três jogos aqui por isso acho que não vou chegar a tempo, mas espero que o Benfica consiga manter esta vantagem e consiga ser campeão. Faltam três jogos, são três jogos complicados, como pudemos ver no último. Todos os clubes quando se aproxima o final do campeonato tentam lutar pelos seus objetivos e acabar da melhor maneira. Por isso acho que os últimos jogos são sempre complicados, seja contra que equipa for.

Sentes-te mais valorizado no estrangeiro?
Posso dizer que sou um sortudo porque a massa adepta do Benfica sempre me apoiou e acarinhou, se calhar por ser um jogador da formação. Mas o reconhecimento que estou aqui a ter, nunca o tinha tido e é bom sentir esse carinho das pessoas. Mas depende do momento em que estás na carreira, se é um momento bom ou mau. Lá está, no Benfica não joguei muito e aí fica mais complicado dar esse valor, mas não me posso queixar disso.

Estiveste no Leicester há uns anos. Achas que é difícil manter uma equipa forte depois do feito que eles alcançaram no ano passado?
Quando eles foram campeões muitos pensaram que ia ser complicado repetir aquele feito. Acho que são coisas que acontecem esporadicamente. Este ano podemos ver que já houve um decréscimo no rendimento da equipa. É difícil manter aqueles níveis com que estavam no ano passado. Também o alento de estarem a lutar pelo título deu outra confiança e motivação aos jogadores. Sinceramente, acho que vai ser difícil eles repetirem o mesmo feito.

Chegar a seleção ainda é um objetivo?
Vai ser sempre um objetivo enquanto sentir que estou em pleno das minhas capacidades. Até ao final da minha carreira era uma coisa que eu gostava de fazer, mas é algo que já nos últimos anos não decide os clubes onde vou jogar. Tento sempre ver o melhor para mim, para a minha família, para lhes poder dar um melhor futuro e depois, se conseguir concretizar esse objetivo de chegar à seleção, perfeito. Senão, também já não é uma obsessão que tenho.

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