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Histórias de um brasileiro na China: “O André Villas-Boas aqui é tratado como uma estrela”

Esteve na Roménia, na Bulgária, na Ucrânia e agora está China. Depois do futebol europeu, Junior Moraes aceitou o desafio de jogar na liga asiática. Irmão de Bruno Moraes, ex-jogador do FC Porto, o avançado brasileiro falou à Tribuna Expresso sobre as cartas que os treinadores portugueses têm dado na China e na Ucrânia e da mágoa que ficou por ter falhado o penálti contra o Benfica na fase de grupos da Liga dos Campeões

Patrícia Gouveia

Junior Moraes, do Dínamo de Kiev, contra SL Benfica para Champions League.

JOSE MANUEL RIBEIRO

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O futebol chinês tem sido a casa de muitos craques europeus e brasileiros. Junior Moraes é um deles. O brasileiro de 30 anos jogou no CSKA Sofia, no Metalurh Donetsk e no Dínamo de Kiev e está agora no Tianjin Quanjian da China. É irmão de Bruno Moraes, o avançado que fez grande parte da carreira em Portugal e que, pelo caminho, passou pelo FC Porto de José Mourinho, de Jesualdo Ferreira e de Co Adriaanse. A Tribuna Expresso esteve à conversa com o avançado do clube asiático, que hoje joga com Alexandre Pato e Axel Witsel (ex-jogador do Benfica). Contou-nos o que atrai os jogadores para o futebol chinês e falou sobre a possível transferência de Diego Costa do Chelsea para o Tianjin. Além disso, Junior deixou elogios a André Villas-Boas e Paulo Fonseca, treinadores portugueses que estão em alta na China e na Ucrânia.

Estás agora no Tianjin Quanjian da China. Como está a correr a experiência?
Fiquei bem surpreso no começo. Já tinha escutado algumas experiências de colegas que não gostaram, mas quando cheguei fiquei surpreso com a estrutura do clube e também com a cidade. Tianjin é uma cidade muito boa para se viver e estou a gostar bastante.

Futebol bem diferente, não?
Isso, isso. No começo foi bem difícil para me adaptar porque é bem diferente o estilo de jogo e a maneira como os asiáticos jogam. Por ter estado muito tempo na Europa, nunca tinha tido a experiência de jogar futebol asiático e foi muito complicado no começo. Mas aos poucos fui-me adaptando e agora já me sinto mais apto.

Estás emprestado pelo Dínamo de Kiev. Porque aceitaste este empréstimo?
Primeiro, também foi uma surpresa esta proposta no último dia de transferências. No princípio não queria ter vindo porque ia ficar quatro meses na China e depois voltava para a Ucrânia, mas com a decisão da Federação de me suspender no último jogo de Inverno contra o Shakthar na Ucrânia – tive uma suspenção de cinco jogos –, isso influenciou-me a decidir aceitar este desafio e também pelo Dínamo não estar mais na luta do título e ter sido eliminado da Champions League. Foram esses os factores. Mas estou a gostar deste desafio. Acredito que precisava de algo assim na minha vida.

Como foi reencontrar o Alexandre Pato?
(Risos) Vejo como algo bom o facto de jogar com colegas de alto nível, jogadores de qualidade como o Pato, o Witsel e outros profissionais que estão aqui na Liga. Acho bem interessante e o campeonato aqui está a crescer muito com esses jogadores estrangeiros. Agora, estando aqui, posso dizer que é um campeonato que promete crescer muito.

Foto DR

Eles têm sido importantes na tua adaptação?
Sim, sim, bastante! No caso do Pato foi o que tive mais proximidade. Ele estava sozinho aqui quando cheguei e então fizemos logo amizade. Jantávamos, almoçávamos juntos, saíamos para tomar café... Isso acabou por fortalecer muito a nossa amizade. E a recepção dos chineses foi muito importante para mim também. Foram muito atenciosos, deixaram-me à vontade no clube e isso ajudou a que me adaptasse mais depressa.

A cultura e língua diferente dificultaram?
A língua é realmente muito diferente. Eu gosto de aprender as línguas dos países onde jogo, mas aqui a dificuldade tem sido grande pelo facto dos chineses não falarem muito inglês. Então a comunicação é difícil.

O que atrai os jogadores à China? O que achas que contribuiu para este crescimento do futebol chinês?
Com certeza, o que atraiu primeiro foi a parte financeira com os contratos e propostas que têm. As propostas que têm sido feitas a jogadores estrangeiros, têm sido muito boas. Mas também é um país muito grande, muito desenvolvido, que tem a oportunidade de viver bem. Acredito que a oportunidade do futebol crescer e a parte financeira foram os maiores factores que fizeram os jogadores estrangeiros decidir vir para cá.

JACK GUEZ

André Villas-Boas e Scolari são dois treinadores que passaram pelo futebol português e agora estão na China também. Como está a correr a passagem deles pelo futebol chinês?
Tive a oportunidade de conversar um pouco com o Villas-Boas quando ele trabalhou com o meu irmão no FC Porto e depois do jogo com o Shangai também falámos um pouco. Ele é tratado como uma estrela! As pessoas gostam muito dele, tem feito um excelente trabalho no clube, tem feito a equipa crescer muito. O clube do Villas-Boas e do Felipão são os clubes que jogam um futebol mais atrativo, que jogam um melhor futebol aqui na China. Só tenho coisas boas a dizer deles e acredito que os chineses têm muito a aprender com eles.

Diego Costa foi apontado como a próxima contratação do Tianjan. Sabes de alguma coisa a respeito?
Houve muita especulação sobre o Diego Costa, sobre o Cavani e vários outros jogadores de renome. Aqui fala-se muito nesses grandes nomes, mas até agora não sei de nada em concreto.

Mas clube está interessado?
Acho que esteve interessado no mercado de transferências anterior, não sei se ainda continua.

A ser verdade, gostavas de jogar com ele?
Sim, acho que todos os jogadores de qualidade gostam de jogar com outros jogadores de alto nível. Sendo o Diego Costa, sendo o Cavani, sendo os companheiros com quem jogo diariamente, fico feliz de tê-los ao meu lado.

E o Wiesel, ex-jogador do Benfica, é ainda aquele jogador empolgante que passou pela Luz ?
Sim, sim. Ele joga um futebol de qualidade, é um dos jogadores mais importantes para nós aqui na equipa. Ainda joga pela seleção belga e isso significa que continua muito bem e ao mais alto nível. Ele tem feito ótimos jogos aqui e os adeptos gostam muito dele também.

Quais são objetivos da equipa até ao fim da época?
Esta é uma equipa muito nova que acabou de subir da segunda divisão, mas tem uma estrutura muito boa. É um clube que tem um potencial muito grande, então os objetivos são grandes. Este é o primeiro ano da equipa na primeira divisão e o objetivo é chegar a um lugar de acesso à Champions League asiática.

CARLO HERMANN

Depois queres regressar ao Dínamo e triunfar lá de novo?
Tenho mais um ano de contrato com o Dínamo, mas não sei qual vai ser o meu futuro. Fico aqui até Junho e vamos ver o que acontece depois. Vivi uma época muito boa no Dínamo, fui campeão, fui artilheiro... Mesmo saíndo de lá há uns meses, continuo a acampanhar o campeonato, por isso, se voltar para lá, volto feliz também.

Defrontaste o Benfica na Champions League esta época. Como foi a sensação de vir para Portugal e jogar contra a equipa portuguesa?
Na temporada passada tive bons resultados contra os clubes portugueses, nomeadamente o FC Porto. Nos jogos da Champions League levei-lhes a melhor (risos). Mas esta época não foi tão boa. Não guardo boas lembranças, foram duas derrotas. Ainda tive a infelicidade de falhar um pénalti, que deixou-me bem triste.

Mas acompanhas o futebol português?
Acompanho, acompanho. Acompanho sempre. Sempre converso com o meu irmão porque ele vive no Porto e está sempre por dentro de tudo. Tenho um carinho especial por Portugal.

E qual é que achas que é o principal candidato ao título deste ano?
É uma boa pergunta. É difícil. Mas bem, em qualquer época, os candidatos são sempre o Benfica e FC Porto. Nos últimos anos são sempre os dois a lutar pelo título, não vejo outra equipa com tanta força como o Benfica e FC Porto.

O teu irmão jogou no FC Porto. Vibravas com os jogos dele?
Sim, não posso negar que acompanho mais o FC Porto do que o Benfica ou o Sporting, pelo facto do Bruno ter lá jogado. Acompanhava muito. Gostava muito ver o Deco, o Derlei, o Maniche, o Costinha, o Ricardo Carvalho... Era um time excepcional.

Algum dia tiveste curiosidade de jogar por algum clube português como o teu irmão?
Gostava de jogar na Liga Portuguesa, mas não num clube em específico.

Junior no jogo do Dínamo contra o Benfica, para a Champions League.

Junior no jogo do Dínamo contra o Benfica, para a Champions League.

GENYA SAVILOV

Mas falou-se do interesse do Sporting em ti, no verão. Foi real?
Escutei muito sobre isso, mas proposta oficial nunca tive nenhuma.

E jogar ao lado do teu irmão era algo que gostavas de fazer?
Por acaso, chegámos a jogar juntos na Roménia, mas foi uma coisa muito curta de três meses. Mas foi uma sensação bem especial, bem diferente, gostei muito. É algo que vou guardar com muito carinho porque sempre fui fã do futebol do meu irmão. Infelizmente, ele teve muitos revés na carreira, mas sempre fui muito fã do futebol dele e, para mim, jogar com ele foi muito especial.

Como o descreves enquanto irmão?
(Risos) Como irmão? Muito chato. Brincando. Como pessoa é uma pessoa que admiro muito, pelo coração bom que ele tem e pelo carácter. Aprendi muito com ele por ser mais novo. É a pessoa que mais admirei na minha infância.

E como jogador?
Eu assisti a todos os jogos dele na seleção de base, no Santos e até mesmo no FC Porto. Infelizmente, ele não conseguiu ser o que todos esperavam devido a dificuldades e lesões, mas acho que os obstáculos fizeram dele um homem mais forte, um homem de família que zela por todos. Ele era um fenómemo a jogar. Era conhecido como o 'Novo Ronaldo' quando estava nas seleções de base do Brasil. A qualidade técnica dele e o poder de finalização eram muito bons.

Bruno Moraes, irmão de Junior, quando estava no FC Porto.

Bruno Moraes, irmão de Junior, quando estava no FC Porto.

Jamie McDonald

No Dínamo de Kiev chegaste a jogar com o Antunes e com o Miguel Veloso. Como é que eles são dentro de campo?
São dois grandes amigos. Tenho uma amizade muito especial com o Antunes e gosto muito do Veloso também. A temporada em que jogamos juntos foi o melhor momento do Dínamo dos últimos anos. O Miguel Veloso tem muita qualidade técnica, ele comandava o meio-campo do Dínamo e era uma peça fundamental da equipa e o Antunes também tem muita qualidade. Não é à toa que fez um dos golos mais bonitos da Europa na temporada passada.

E fora do campo?
(Risos) É até difícil falar porque são meus amigos e gosto muito deles. O Antunes é um grande amigo que fiz no futebol. O Miguel ficou menos tempo, mas é também uma pessoa que eu admiro. São pessoas do bem, de bem com a vida, sempre muito animados, sempre a brincar. Tal e qual como os portugueses e os brasileiros são, apesar de estarem num país que é mais fechado e mais sério.

Paulo Fonseca está a dar-se bem no Shakthar Donetsk. Achas que pode ter sucesso?
Sim, sim. Tem feito um ótimo trabalho. No começo já era esperado alguma dificuldade na adaptação porque, realmente lá, é um futebol e cultura diferentes da portuguesa. Depois dele se ter conseguido adaptar e de a equipa ter entendido a filosofia de jogo dele, ele conseguiu e está a conseguir fazer um grande trabalho. Não é à toa que está no primeiro lugar com 14 pontos de diferença do Dínamo, que está no segundo lugar.

E o que te falta ganhar?
(Forte suspiro) O que me falta ganhar acredito que é uma Champions League, né? (Risos) Seria um grande sonho: ganhar uma Champions e jogar na seleção brasileira.

São esses então os desejos para o futuro?
Isso, isso, isso... Com certeza!

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