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Artur Moraes: “Vou ficar colado à televisão para ver a festa no Marquês”

Foi bicampeão pelo Benfica e agora ajudou a recolocar a Chapecoense no caminho dos títulos. Artur Moraes está de volta ao Brasil, mas não esquece Portugal, país onde viveu durante cinco anos. Na cidade de Chapecó tem sentido a dor que ficou depois da tragédia, mas também o carinho dos adeptos que abraçaram os novos jogadores. À Tribuna Expresso, o guarda-redes de 36 anos fala do poder de superação que a Chape tem demonstrado ao longo dos últimos meses. Sobre Portugal, o brasileiro deixa uma certeza: se o Benfica for tetracampeão, vai estar colado à televisão a ver a festa. E, quando voltar, visitará a Luz

Patrícia Gouveia

Artur Moraes quando jogava no SL Benfica.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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A Chapecoense venceu o campeonato estadual, seis meses depois do acidente aéreo. Que carga emocional é que esta vitória tem?
Para as pessoas, para a cidade e para o clube é uma conquista única, muito importante. É o culminar de quase cinco meses de trabalho, com sacrifícios de quase dias inteiros, e esta vitória representa toda essa qualidade do trabalho que aqui realizamos. É sempre bom que o clube mantenha este caminho de vitórias, algo que já tinha vindo a conseguir no futebol brasileiro e sul-americano. Para a cidade é muito especial.

A cidade ainda sente muito a tragédia que vitimou grande parte do plantel?
Está muito melhor agora. É impossível esquecer aquilo que aconteceu. Acho que ninguém vai conseguir nunca esquecer a tragédia, mas a cidade já abraça mais o clube. Temos conseguido reconstruir a sua história e assim torna-se especial. Mas é preciso tempo. Para trás fica o acidente. O futebol é um sentimento de alegria, mas claro que as pessoas nunca vão esquecer quem estava aqui antes.

Como foi juntar-se à equipa após o que aconteceu?
Foi muito difícil porque tinham uma equipa muito forte e carismática para as pessoas e para a cidade. E nós não conhecíamos bem essa realidade, algo que é normal porque a equipa foi formada de raiz, com jogadores novos, mas depois as coisas foram acontecendo. Tudo foi correndo bem, fizemos bons jogos e conseguimos ganhar a confiança dos adeptos e da cidade e hoje está tudo ótimo, graças a Deus.

O guarda-redes na Chapecoense

O guarda-redes na Chapecoense

Cristiano Andujar

Como está a ser a reconstrução?
É tudo muito novo... É uma experiência única no futebol mundial e isso, para mim particularmente, tem sido muito especial. Voltar para o meu país, fazer parte de uma equipa especial como esta... Neste momento estamos a ter algumas dificuldades internas, mas com a vontade e a superação de todos vamos conseguindo atingir bons resultados.

Há vontade de fazer mais e melhor em honra dos jogadores que morreram?
Nós não temos essa ideia de fazer melhor, pior ou igual. Queremos sim é representar a Chapecoense da melhor maneira possível e dar sequência ao bom trabalho que vinha a ser feito, um trabalho em ascensão, forte e com história. Esse é o nosso objetivo.

Quais as metas já desenhadas para esta época?
Estamos no início... Vamos começar agora o Brasileirão, esperamos fazer o melhor possível para manter a equipa na Série A e queremos conquistar a Taça Sul-Americana.

Artur Moraes na Chapecoense

Artur Moraes na Chapecoense

Cristiano Andujar

Viveste cinco anos em Portugal. Há saudades?
Bastantes. Tenho muitos amigos em Portugal. Quando tiver uma semana espero poder dar um pulo aí, visitar os amigos e ver um jogo do Benfica. Seria fantástico para mim.

Continuas a acompanhar o futebol português e o Benfica?
Sempre! Procuro ver os jogos todos. Agora é mais complicado porque tenho viajado muito com a Chapecoense. Mas sempre que posso vejo as notícias para ir acompanhando.

Como tens visto este campeonato?
Tem sido um campeonato difícil, como sempre. O Benfica vai à frente, tem a oportunidade de ganhar o campeonato no próximo fim de semana e é merecido por toda a estrutura e pelo plantel que tem.

O FC Porto, nos últimos sete jogos, empatou cinco, e vacilou em jornadas consideradas muito importantes para lutar pelo título. Caso o Benfica seja campeão este fim-de-semana, é com mérito das águias ou também existiu algum demérito do Porto?
Ninguém é campeão por demérito de alguém. Quando se é campeão é porque se fez por isso e por mérito próprio e o Benfica, dentro de campo, demonstrou essa superioridade.

Esta época foi marcada pelo clima de instabilidade e guerra no futebol português. Esse jogo fora das quatro linhas pode ter influenciado o desfecho deste campeonato?
Prefiro não falar disso.

Representaste o Benfica de 2011 a 2015. Que diferenças encontras entre esta equipa e aquela em que jogaste?
Hoje o Benfica é muito mais forte. Participei um pouco nesse inicio de fortalecimento no futebol português, quando conseguimos quebrar o tetracampeonato do FC Porto. Por isso, o Benfica hoje é uma equipa muito mais completa e estruturada do que aquela em que eu participei. Isso sem dúvida.

Partilhaste o balneário com Jonas durante uma época. Nessa temporada ele foi o melhor marcador do campeonato. Continua a ser uma peça fundamental para os encarnados?
O Jonas é um jogador fantástico, que aparece nos momentos mais importantes. Faz a diferença pela sua qualidade, mas também pela pessoa que é.

Artur Moraes esteve no Benfica quatro épocas

Artur Moraes esteve no Benfica quatro épocas

FRANCISCO LEONG

Outro dos temas desta temporada tem sido a polémica que envolve as claques. Passando tu pelo Benfica, sentiste de perto o que é o apoio dos adeptos. Como foste tratado ao longo dos quatro anos?
Sempre tive o respeito de todos os adeptos, independentemente dos clubes em questão. No Benfica também sempre foi assim, fui acarinhado e sinto-me feliz por isso.

Jorge Jesus foi o teu treinador durante todo o teu percurso pelo Benfica. Surpreendeu-te a a saída repentina do treinador para Alvalade?
Não vou falar disso... Já passaram dois anos.

Mas consideras que ele está a fazer um bom trabalho no Sporting?
Não vou falar do trabalho dele.

Hoje é o Ederson o dono da baliza do Benfica. Ele tem surpreendido?
O Ederson tem confirmado tudo aquilo que prometia. Tem amadurecido com os jogos que tem feito e acho que em todos eles prova a sua qualidade.

Tem qualidade para chegar chegar um clube de topo?
Acredito que sim. Se continuar a jogar assim no Benfica, mais tarde ou mais cedo irá surgir essa oportunidade. Mas, para mim, o Benfica já é um clube de topo. É um clube que não deixa nada a desejar a ninguém.

E os outros brasileiros a jogarem em Portugal, como os tens visto?
O jogador brasileiro tem uma boa imagem no futebol português. Creio que é uma porta aberta para a Europa e fico sempre feliz quando vejo que os brasileiros a terem sucesso em Portugal.

Carlos Rodrigues

Achas que é preciso um brasileiro sair do Brasil para ganhar reconhecimento no futebol mundial?
Não necessariamente... Em alguns casos sim, noutros não, mas claro que ter sucesso no futebol europeu é um feito único na carreira de qualquer jogador.

Durante duas épocas (2008/2009 e 2009/2010), foste companheiro de equipa na AS Roma de Francesco Totti. É agora público que o número 10 vai pendurar as chuteiras. Que recordações tens dele?
Tenho as melhores possíveis. Fomos companheiros durante dois anos, é uma figura da Roma e um grande nome do futebol mundial. E o que desejo é que seja muito feliz depois de deixar de jogar.

Como é enquanto pessoa?
É uma pessoa fantástica, simples, humilde, com um coração enorme e que está sempre bem com todos dentro do balneário. É uma pessoa muito especial. Em termos de futebol dentro de campo, claro que ficará mais pobre. Mas tenho a certeza que ele vai continuar ligado ao futebol e irá contribuir com a sua experiência e com aquilo que viveu durante a sua carreira.

Por fim, uma mensagem para a família benfiquista?
Que consigam concretizar a conquista do tetracampeonato e que vão festejar. É sempre um momento especial para todos os benfiquistas e eu vou estar aqui colado à televisão para ver a festa no Marquês.

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