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Nani Roma: “É preciso ter cojones em todo o lado”

Encontrámos um piloto de ralis no Grande Prémio da Catalunha, em Fórmula 1. É um espanhol que já venceu o Dakar em motos (2004), quando o Dakar ainda era o Dakar, e outro em carros (2014), já na América do Sul. E Nani Roma, 43 anos, diz que vai continuar a participar no rali dos ralis até lhe apetecer e ter corpo para isso

Diogo Pombo

FRANCK FIFE

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Deviam restar uns 20 minutos até ao arranque do Grande Prémio da Catalunha. Na grelha já estavam os carros, ainda rodeados dos mecânicos, os chefes da equipa, os pilotos fora dos carros, as pessoas que seguram os chapéus para os proteger do sol. E os pneus empilhados, à espera de serem colocados nos monolugares, as máquinas para as últimas afinações nos carros.

Nas bancadas, ali mesmo em cima, gente atrás de gente com bonés, binóculos, proteções para os ouvidos e câmaras em punho, atentas aos breves segundos a que teriam direito de carros a passarem-lhes à frente, sónicos, de um total de 66 voltas. A Fórmula 1 é mesmo um mundo à parte - tanta gente junta e apinhada e em pulgas num sítio sem curvas e com uma longa reta, onde é muito raro passar-se algo de empolgante (leia-se, ultrapassagens ou picardias entre pilotos).

É quase a subir para essa bancada, à beira das escadas, que encontro Nani Roma. É um tipo alto e musculado, que parece dar o maior sorriso que tem às pessoas que cumprimenta. Tem 43 anos, é espanhol e também está habituado a velocidade, só que não aquela. Nani Roma é piloto de ralis, mais propriamente do rali dos ralis, que é o Dakar. Ele ganhou-o em África, em cima de uma moto, quando o Dakar ainda era o Dakar (foi em 2004), antes de voltar a ser o mais rápido a terminá-lo, na América do Sul, mas já dentro de um carro (em 2014).

Portanto, e estando ele disponível e havendo (pouco) tempo até o alcatrão começar a queimar os pneus, conversámos um pouco.

Gostas disto?
Bom, gosto de ver os carros, gosto da tecnologia e gosto dos motores. Muito mais do que a própria corrida, que acho aborrecida. Aborrece-me um pouco. É verdade que atrai mais quando tens pilotos do teu país a competirem aqui e vão à frente. Quando o Fernando [Alonso] estava a ganhar, isto atraía-me mais. Agora, tudo lhe corre mal. Aliás, muito mal. O [Carlos] Sainz Jr. ainda está a aprender. Eu seguia mais a Fórmula 1 quando o Alonso ganhava, basicamente.

Mas falas com ele?
Não, não, não o conheço. Só de nos cumprimentarmos, mas não temos relação.

Não te pergunto se gostavas de competir na Fórmula 1. Mas e, se um dia, se te deixassem experimentar dar umas voltas num carro?
Gostaria muito. Acontece que sou muito grande [ri-se, e com razão: Nani Roma tem 1,90m]. Todos eles são muito pequenos. Mas claro que deve ser impressionante: a sensação de entrar nas curvas, as travagens… Deve ser espetacular. Tudo o que eles fazem é muito preciso, muito difícil e envolve muita tecnologia. Aqui, um bom piloto dentro de um mau carro não pode ganhar, e um piloto normal com um carro muito bom já pode ganhar. Portanto, a parta humano sai da parte técnica, é mais importante esse lado. Por isso é que gosto mais de outras modalidades.

FRANCK FIFE

Não será preciso ter mais...?
É preciso ter cojones em todo o lado [a frase sai-lhe quando a pergunta ainda vai a meio]. Mas, no desporto de elite, acho que nem é uma questão de ter cojones, tem mais a ver com a técnica. Creio que um piloto sem medo, com muitos cojones, é um perigo para ele e para os outros. É verdade que tens de ser atrevido, mas há que sê-lo em qualquer tipo de corrida. Aqui, a 300 quilómetros por hora, precisas de ser muito atrevido para ultrapassar alguém. No Dakar também. É mais uma questão de atrevimento e de fazer as coisas bem.

Não sentes falta de conduzir motos em competição?
Não. Sabes, desfruto tanto com os carros, que não a sinto. Ainda por cima posso andar de moto em casa, com o meu filho. Vou fazendo coisas.

Quando passaste das motos para os carros, foi uma vontade que te apareceu ou foste empurrado para o fazer?
Sim, apeteceu-me muito. Porque eu vivo numa zona a norte daqui, onde se fazia o antigo rali da Catalunha, em Vic. E ali sempre vivemos muito o mundo dos ralis e do automobilismo. Desde pequeno que vibrava muito. Só que, em criança, não tinha dinheiro para comprar um carro, por isso, comprei uma moto.

Não tens de ter um toque de loucura para conduzir tanto uma moto, como um carro, em ralis?
Bom, é diferente. Não é uma questão de loucura, nós estamos sempre a calcular tudo. Mas acaba por ser diferente, porque, numa moto, quando cais, és tu que vais ao chão. O que obriga a que, às vezes, tenhas um pouco mais de ousadia. As motos são muito mais arriscadas, sobretudo no deserto. Depois, tens de estar também melhor preparado fisicamente. Mas, na Fórmula 1, por exemplo, toda a gente treina muito o físico.

Começas-te a preparar para um Dakar quanto tempo antes do início da competição?
Ui, desde agosto que nos preparamos ao máximo, a treinar a fundo. Há muitas questões com o carro, muita preparação física, é um trabalho longo.

Tens saudades do Dakar original, em África?
Sim, um pouco. Bom, na América tratam-nos muito bem, claro. Falam espanhol e é espetacular. Mas, em África, tínhamos algo especial, sentias a mística do deserto africano. Mas o mundo muda e tens que te adaptar o melhor possível às coisas.

Estás com 43 anos. Até quando te vês a aguentar com um Dakar?
Até que me apeteça, claro. E que me sinta bem e competitivo, também. É óbvio que, no dia em que não me sentir assim, vou deixar isto tudo. Mas enquanto tiver motivação, não vou parar. E convém que as equipas me queiram, claro. Não há limites de idade, só tens de estar em forma. Podes fazer isto durante o tempo que quiseres.

* A Tribuna Expresso viajou até Barcelona, para assistir ao Grande Prémio da Catalunha, em Fórmula 1, a convite da Monster Energy.