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Norton de Matos: “O grande mal do futebol chama-se ‘apostas’. Se eu quiser fazer penálti contra a minha equipa, faço”

Aos 63 anos, Norton de Matos voltou a sair de Portugal para treinar: vai orientar a seleção sub-17 da Índia durante o Mundial da categoria e não podia estar mais feliz, depois de, na época passada, ter passado um ano “de pesadelo” no União da Madeira, onde viu situações “estranhas” que levaram a equipa a descer de divisão na última jornada

Mariana Cabral e Nuno Botelho

Norton de Matos começou a ser treinador no Atlético, em 1976/77. Na época passada esteve no União da Madeira, depois de também ter passado pelo Chaves, pelo Benfica B e pela seleção da Guiné-Bissau. Segue-se a Índia

nuno botelho

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Recentemente entrevistei o Manuel Machado e ele dizia que depois se colar uma determinada imagem a um treinador - mais intelectual, digamos assim - isso acaba por ser prejudicial.
Senti um bocado isso. Havia uma desconfiança, quando começo a jogar no Estoril, em 70/71. Realmente havia uma grande diferença entre o jogador que estudava e tinha cultura e o jogador que não estudava. Tanto que, na chamada 'sociedade' em que vivia, de colégio e de uma classe digamos A/B, era até visto de lado eu jogar futebol, porque para esse tipo de sociedade o perfil de pessoa para fazer desporto era cantar o fado, ser forcado ou jogador de râguebi. Ninguém encaixava no futebol. "Mas jogas futebol? E consegues estar nesse meio?" Do outro lado, estava nos juniores do Benfica e a fazer o 12º ano - na altura era o 7º ano de liceu - para me candidatar à universidade. Já tinha carta de condução, já tinha carro e havia jogadores seniores do Benfica que não o tinham, portanto estava completamente desenquadrado nos dois mundos. Só que, também por família, porque eram todos muito 'open mind', fui sempre uma pessoa muito democrata, no sentido em que para mim é igual estar de smoking ou estar de fato de treino ou estar a comer à mão.

Conseguiu conciliar?
Nunca me agarrei a preconceitos de um lado ou de outro. Consegui estar nos dois mundos naturalmente, sem fazer qualquer esforço. Mas sempre senti, mais tarde, isso que o Manuel Machado diz. Alguma... não sei, acho que nós, portugueses, não é só no futebol, é em todas as áreas, somos extraordinários, mas temos muita inveja uns pelos outros. E senti que realmente tinha de ter algum cuidado, porque acreditava que as pessoas eram todas boas e ninguém queria fazer mal a ninguém, aquela filosofia dos anos 60/70, da cultura hippie, maio 68, peace and love... Para mim era tudo um bocado cor de rosa. E não, não era.

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