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“Acha normal um treinador dizer a um jogador 'basta acertar na baliza que é golo' e a bola vai à figura do guarda-redes... e é golo?”

Aos 63 anos, Norton de Matos voltou a sair de Portugal para treinar: vai orientar a seleção sub-17 da Índia durante o Mundial da categoria e não podia estar mais feliz, depois de, na época passada, ter passado um ano “de pesadelo” no União da Madeira, onde viu situações “estranhas” que levaram a equipa a descer de divisão na última jornada

Mariana Cabral e Nuno Botelho

Em 2015/16, Norton de Matos treinava o União da Madeira, que acabou por descer de divisão

Nuno Botelho

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Não é muito habitual ter um treinador a dizer que lê muito, como o Norton diz.
Acho que tive uma sorte grande pelo meu percurso familiar e porque tive uma formação académica numa altura em que não era suposto ou em que não havia muitos jogadores de futebol que estudassem. Andei no Colégio São João de Brito e depois no Colégio Manuel Bernardes. Estava a fazer a aptidão a direito, e chumbei em Coimbra, quando se dá o 25 de abril. Portanto, a minha formação foi muito forte do ponto de vista cultural, na área de letras. Literatura, latim, alemão, filosofia... Li muito desde miúdo. Ganhei esse hábito porque o meu avô paterno lia muito, portanto lembro-me que desde os 5, 6 anos me interessava ler os jornais, porque via os mais velhos a ler. Fui ganhando esse gosto pela literatura e também pelo cinema. Curiosamente, mais tarde, acabei por realizar dois pequenos sonhos que tive e fui cultivando ao longo da vida: fazer um filme, ou seja, entrar no cinema, e escrever um livro. Isso, no fundo, foi dar pernas à minha alma de vagabundo em várias áreas. E o futebol, sobretudo a nível de estágios, que havia muito mais do que aquilo que há hoje em dia, proporcionava isso, porque as viagens eram muito longas. Se fossemos jogar a Guimarães ou Braga ou Chaves, estando em Portimão, às vezes as viagens eram partidas em dois dias. De Portimão para Lisboa era um dia, na sexta-feira, e sábado fazia-se o resto da viagem, para jogar domingo. Depois o regresso era feito de forma direta. Eu vinha sempre com o saco de plástico do Expresso. Como diz o professor Manuel Sérgio, e bem, o futebol não é só uma atividade desportiva, é uma atividade humana. Se calhar, por cultura familiar, sempre liguei muito ao aspeto humano, para mim é parte mais importante, o ir ao cinema, ao teatro, o ler, o instruir-me... Tudo isso dá-me uma riqueza que me permite ser um treinador que sabe falar de outras coisas que não só de futebol.

Recentemente entrevistei o Manuel Machado e ele dizia que depois se colar uma determinada imagem a um treinador - mais intelectual, digamos assim - isso acaba por ser prejudicial.
Senti um bocado isso. Havia uma desconfiança, quando começo a jogar no Estoril, em 70/71. Realmente havia uma grande diferença entre o jogador que estudava e tinha cultura e o jogador que não estudava. Tanto que, na chamada 'sociedade' em que vivia, de colégio e de uma classe digamos A/B, era até visto de lado eu jogar futebol, porque para esse tipo de sociedade o perfil de pessoa para fazer desporto era cantar o fado, ser forcado ou jogador de râguebi. Ninguém encaixava no futebol. "Mas jogas futebol? E consegues estar nesse meio?" Do outro lado, estava nos juniores do Benfica e a fazer o 12º ano - na altura era o 7º ano de liceu - para me candidatar à universidade. Já tinha carta de condução, já tinha carro e havia jogadores seniores do Benfica que não o tinham, portanto estava completamente desenquadrado nos dois mundos. Só que, também por família, porque eram todos muito 'open mind', fui sempre uma pessoa muito democrata, no sentido em que para mim é igual estar de 'smoking' ou estar de fato de treino ou estar a comer à mão.

Conseguiu conciliar?
Nunca me agarrei a preconceitos de um lado ou de outro. Consegui estar nos dois mundos naturalmente, sem fazer qualquer esforço. Mas sempre senti, mais tarde, isso que o Manuel Machado diz. Alguma... não sei, acho que nós, portugueses, não é só no futebol, é em todas as áreas, somos extraordinários, mas temos muita inveja uns pelos outros. E senti que realmente tinha de ter algum cuidado, porque acreditava que as pessoas eram todas boas e ninguém queria fazer mal a ninguém, aquela filosofia dos anos 60/70, da cultura hippie, maio 68, 'peace and love'... Para mim era tudo um bocado cor de rosa. E não, não era. Toda a minha vida senti que paguei - e estou a pagar - essa ideia. Ainda no ano passado alguém me disse: "Tens a mania que és menino queque". O que significa que determinadas pessoas não ultrapassam as coisas. Por exemplo, um pormenor, o vestuário. Eu andava muito de fato e gravata, é verdade. Quando venho da Bélgica, vestia muito jeans e blazer, que diziam que não ligava. Depois lembro-me que uma vez fui barrado no Algarve, numa discoteca, porque ia de sapatilhas e jeans. Portanto, às vezes, estar à frente do tempo é complicado, porque as pessoas olham para nós de lado. E isso aconteceu-me muitas vezes, porque a minha forma de ver foi sempre muito em função da liberdade com que fui educado.

Quem é que o chamou "menino queque"?
"Menino queque de sangue azul". O sangue para uns é azul, para outros é encarnado. Foi um ano "horribilis" que não recordar, porque foi de tal maneira negativo e é de tal maneira deprimente...

Foi o presidente do União da Madeira, Filipe Silva?
Foi na Madeira, é fácil. Não gosto de falar em nomes porque pode haver aí muitos 'ministérios públicos' [risos].

Viu o presidente a dizer que ia falar com o Ministério Público sobre a descida de divisão?
Já vi tanta gente a ameaçar com Ministérios e tribunais e mais não sei o quê e depois muitas vezes são os primeiros a serem apanhados nessa onda. Não me afeta nada, porque quem não deve não teme.

Mas disse que houve situações estranhas no União da Madeira.
Não falei em nomes, ele é que pôs nomes nas coisas. O que eu disse foi que tinha sido um ano para esquecer, um ano de pesadelo, um ano de bullying completo. Tenho tudo na memória mas também tenho tudo escrito. São episódios que se calhar dariam um filme. O que disse, e mantenho, é que foi um ano de pesadelo em todos os aspetos e um deles foi a descida de divisão. Houve uma época muito atribulada, em que o União nunca esteve na zona de descida, e descemos de divisão na 2ª parte do último jogo. Tive 30 jogos que não têm nada que dizer, considero a arbitragem portuguesa tão boa ou melhor do que as outras, mas há quatro jogos, na Madeira, que são jogos que se fossem dissecados à lupa, são jogos estranhos, com decisões estranhas e penalizadoras, que influenciam resultados. Infelizmente, isso aconteceu. Se fossem jogos fora, isso às vezes acontece, com o ambiente e tal, pode pesar. Agora, são decisões que metem expulsões e nós éramos uma das equipas mais corretas do campeonato e de repente temos expulsões que ninguém percebe porquê e golos invalidados, cinco, todos eles, analisando com os vídeos que temos - que não passaram na televisão -, golos limpos. Nada disso foi falado. Quando se fala de uma descida de divisão, com tudo o que isso implica, não só para o clube e para as finanças do clube, mas para o treinador e para os intérpretes do jogo que ficam ligados a uma descida de divisão. No meu caso cola mais do que noutros, "o gajo desceu de divisão". Achei estranho e há todo um contexto de acontecimentos que se passaram ao longo do ano que contribuíram para isso.

O que aconteceu?
Sofremos golos estranhos, que não cabem na cabeça de ninguém... As pessoas não gostam de falar, mas tem de se pôr o dedo na ferida. No outro dia, o presidente do Braga também falou em Ministério Público. Quando toca às pessoas, elas veem que há coisas que são difíceis de compreender. Fala-se - fala-se não, hoje é uma realidade, só que ninguém vai provar nada, não vamos ser hipócritas - e hoje o grande mal do futebol chama-se apostas. As apostas no futebol, infelizmente, existem, há livros e testemunhos sobre isso, e nunca ninguém vai conseguir provar. Porque se eu quiser meter a mão à bola e fazer um penálti contra a minha equipa, faço. É fácil de fazer. Se quiser fazer um autogolo, faço. "Ah, o resultado não foi influenciado", se calhar não, podem estar a ganhar 5-0 e alguém fazer um penálti e ficar 5-1, mas aquilo é suficiente para uma aposta que rende milhões. É um problema no futebol que não sei como vão gerir.

nuno botelho

Supostamente isso não existe na Liga principal, só existiu na Liga secundária.
Se calhar aí preocupam-se menos com os telefonemas e outras coisas. O que é certo é que se começa a falar nisto. Tenho uma idade que já me permitiu passar por muitas fases, já vivi muitas vidas, e lembro-me que sou de um tempo em que se começou a falar do doping, por exemplo. Havia equipas que se dopavam quase até à morte. Nunca se falou, mas o que é certo é que teve de vir um controlo antidoping fortíssimo nas exigências, que hoje quase que se toma um medicamentozinho para os ouvidos ou para o nariz ou para a garganta e uma pessoa acusa. Mas no tempo em que joguei assisti a casos de jogadores que só não foram para o outro mundo por sorte. Obviamente que este problema é muito difícil. Mas o que estou a dizer é que não percebo porque é que ele fala em Ministério Público quando ele foi o primeiro a falar após o campeonato, para se analisar isto tudo. Uma coisa é dizer "esta equipa vai descer", isto acontece muito nos bastidores do futebol português: "Esta vai descer, aquela vai subir". Isso não pode ser assunto de Ministério Público porque para isso é preciso provas. Mas estou no meu direito de dizer que acho estranho algumas situações no futebol. E vivê-las... Você acha normal um treinador dizer para um jogador que nunca marcou um golo na Liga, quando ele vai marcar um livre a 40 metros da baliza, "basta acertar na baliza que é golo?" E a bola vai à figura do guarda-redes e é golo? É estranho. Não estou aqui a dizer que alguém está a influenciar, estou a dizer é que é estranho ouvir isto de um colega e acho estranho que seja golo.

O que se faz numa situação assim?
O que é que posso fazer? Não posso fazer nada.

Não fala com o jogador?
O guarda-redes ou escorregou ou não viu a bola partir ou o vento ou a chuva... Por isso é que digo que é muito difícil. Mas estou no meu legítimo direito de dizer que é estranho, até porque paguei caro o facto de estar ligado a uma equipa que desceu. Quis fazer um milagre, porque era um milagre uma equipa com tudo o que passou ao longo do ano, com uma pré-época que não existe, com toda a mediocridade de decisões e facilitismo que existiu, como é que no último jogo ainda está na Liga. Acho estranho. A expulsão do Paulo Monteiro no último jogo é estranha. Mas ninguém prova. O árbitro diz que é o critério dele e tenho de aceitar. Consigo fazer um programa com as nossas expulsões e arranjar jogadas dez vezes piores que nem amarelo têm, por exemplo. Mas não vou ganhar nada com isso. Porquê? "Critério do árbitro".

O videoárbitro vai fazer diferença nesse tipo de situações?
Acho que é positivo. Se um golo é marcado com a mão e é validado, acredito que no terreno um árbitro possa não ter ângulo para ver. Acho é que o erro tem de ser eliminado, se afeta o resultado. Se vai marcar um penálti e a falta é dentro da área mas depois no vídeo prova-se que é fora da área, o penálti não pode ser marcado. No outro dia o Real Madrid teve um jogo a marcar em fora de jogo e aquilo não pode acontecer a nível tão elevado, quando se joga a milhões. Uma coisa é certa: todos erramos. Erram os jogadores, os treinadores, os presidentes, os árbitros... agora, vamos é limitar essa margem de erro e que não seja aquela desculpa de soprar para o ar de "o erro faz parte do jogo". O erro de falhar um golo faz parte do jogo, sim senhora, mas o erro arbitral não, porque já condiciona o jogo. Como tudo o que é inovador, se calhar vai haver um período em que vai continuar a haver polémica, mas quem quer a verdade do jogo tem de ter isto, como há no râguebi. Não se perde muito tempo. No ténis também se percebe que o jogador muitas vezes tem uma perceção que o juiz não tem e reclama. Esse fair play é aceite no râguebi, é aceite no ténis e acho que o público do futebol também vai perceber isso. Porque, neste momento, acho que há uma grande descrença em relação ao futebol. Quando nos toca a nós diretamente temos de reagir e quem não se sente não é filho de gente. Portanto, se podemos melhorar a credibilidade do jogo... Perde-se tempo? Então e as interrupções das equipas que, quando estão a ganhar, se atiram para o chão porque têm um dói dói no joelho e perdem-se minutos e minutos? Qual é o tempo efetivo de jogo? Portugal é o país que tem o menor tempo de jogo jogado. Qual é o problema de haver um videoárbitro, se isso for para a credibilidade do jogo? Acho que é uma medida importante e positiva. Acho que daqui a dez anos vai ser uma coisa tão frequente que ninguém vai suspeitar de decisões.

nuno botelho

Não é necessária também formação para os dirigentes?
Acho que há pouca cultura desportiva em Portugal. Há um dirigismo que foi aparecendo com os novos tempos e pensam que é fácil fazer uma equipa. Todos têm ambições, mas primeiro é preciso perceber que em Portugal há três equipas que jogam para o título, por isso não vale a pena haver sonhos de outras equipas a pensar que vão ser campeões. Depois há duas ou três equipas que são para o patamar europeu - portanto já temos seis - e depois as outras 12 têm todas o risco de cair na II Liga. Claro que no início do ano todos pensam fazer uma época para manter, mas quando ganham três jogos seguidos o primeiro erro que todos os dirigentes muitas vezes cometem é revelar não saberem bem o que querem. Começam o campeonato para não descer de divisão, ganham três jogos e já estão a pensar na Europa. Alteram-se os objetivos, mas os objetivos deviam estar escritos ao princípio, e depois ou se cumprem ou não. Vou dar-lhe um exemplo, no ano passado, na Madeira, eu tinha um contrato, que aceitei porque confio em mim, em que tinha de fazer 17 pontos na 1ª volta do campeonato, se não podia ser despedido. Aceitei, como acredito muito no que faço - não foi um problema assinar isso. Sabia perfeitamente que se não os fizesse podia sair. Fui com esse objetivo e cumpri-o. Mas quando quis pôr um prémio de não descida, não aceitaram. Mas depois, quando se aproximava o final, já me deram um bónus extra se a equipa não descesse de divisão. Isto para dizer que os objetivos têm de estar bem definidos e as pessoas têm de ter os pés bem assentes na terra. Tem de haver quem saiba, porque a maior parte dos clubes não tem uma política desportiva, não sabe traçar objetivos e não sabe que o mais importante para se ter sucesso numa época é o recrutamento. Há uma coisa que me faz imensa confusão em Portugal. Dizem que não há dinheiro no futebol português, mas uma equipa acaba o campeonato e atinge os objetivos e na época seguinte quase todas essas equipas refazem o plantel. Não há princípio de continuidade, vão-se buscar 17 caras novas, isto é o trivial. Isto é gastar dinheiro a mais. E depois há outro problema que também reflete essa qualidade de orientação - têm boa visão, mas são muito mal aconselhados, não comandam os clubes de dentro para fora, são comandados de fora para dentro, nomeadamente por agentes desportivos que têm sempre os jogadores que ninguém tem, e os plantéis são construídos assim.

Já lhe disseram que tinha de pôr determinado jogador a jogar?
Já. Mas não pus.

Então como se resolve?
Não se resolve, é um problema. O treinador que toma esta decisão sabe que se perder já está a jeito. Mas até nisso se revela a incapacidade de um dirigente. Se quer ser treinador, tire o curso de treinador e seja treinador. Se não invertem-se papéis. O que é que ajuda a este clima vergonhoso? A quantidade de chicotadas, com vários clubes a ter três treinadores. Não há um regulamento que obrigue as equipas a serem mais precisas no que querem. Qual é o perfil do treinador que quero para a minha equipa? Hoje está na moda dizer "jovem ambicioso". Isto significa "barato". Como não há um patamar - há um salário mínimo, mas é tão pequeno que não é compatível com o produto futebol e com as receitas que dá. Vamos supor, o patamar mínimo de treinador na I Liga teria de ser 10 mil euros e na II Liga tem de ser 5 mil. E ninguém pode ter um treinador abaixo disso nem fazer acordos debaixo da mesa. Isto obriga a quê? A maior responsabilidade na escolha. Porque muitas vezes o argumento é: "Vamos buscar o gajo, ele também ganha pouco, se tivermos de pô-lo na rua a indemnização é curta". O que alguns treinadores ganham é uma brincadeira. Quando temos um treinador em Portugal que ganha 7 milhões e meio por ano... Claro que não podemos ver o futebol pelo Sporting ou pelo Benfica, há uma discrepância grande. Mas aquilo que é mais importante numa equipa é o treinador e isso está a ser descurado por muitos dirigentes, porque é ele que gere os jogadores, que pensa, que faz... Há muitos clubes onde os jogadores ganham o dobro do treinador, por exemplo. Há jogadores na I Liga que ganham 2 mil e tal euros por mês e há treinadores que ganham 4 ou 5 mil e há jogadores nesses mesmos clubes que ganham 10 mil. Portanto, o processo está todo errado. Se não tivermos esse tal patamar e não houver esta consciencialização - "eh pá, espera aí, eu se tiver de mandá-lo embora tenho de lhe pagar dinheiro".

Jorge Jesus com Norton de Matos, em 2015/16

Jorge Jesus com Norton de Matos, em 2015/16

JOSÉ MANUEL RIBEIRO/GETYY

Se ganhar mais, não o despedem?
Quando o treinador é bem pago, normalmente não o metem na rua. Ninguém mete na rua o Vítor Oliveira, ninguém mete na rua o Jesus. Isso são indemnizações. O treinador barato é fácil de pôr na rua, especialmente neste contexto em que ninguém fala porque se falar fica logo queimado. É "come e cala", "assina aqui e recebes mais um mês ou dois ou vais para aquela equipa" e há um ciclo vicioso em Portugal - e espero que as pessoas estejam interessadas em mudá-lo. A Associação de Treinadores tinha de lutar para ter um patamar mais alto e não pode haver treinadores a fingir que têm o nível. O treinador é o Manel e o Manel tem de ter o nível. Foi despedido, então não pode haver outro enquanto aquele não estiver resolvido. Em França, a equipa desce de divisão. Em Espanha, não treina na mesma época. Se fiz um contrato para a época X, então nessa época só posso treinar uma equipa e se for posto fora tenho de receber aquilo a que tenho direito e o treinador que vem tem de ganhar esse mínimo. Vamos supor, ele ganhava 5 mil euros e agora o treinador novo vem ganhar 800 euros ou mil euros. Este processo está todo errado. Portugal tem ótimos treinadores, tem ótimos jogadores, mas vive aqui num vazio completo que promove estas confusões. Se os clubes não têm dinheiro e conseguem ter três treinadores numa época - e foram bastantes esta época -, então é porque afinal há muito dinheiro. Vou-lhe dar o exemplo da equipa que mais admiro no mundo, pelos conhecimentos e filosofia: o Bayern de Munique. Porquê? Porque são todos ex-campeões do mundo que praticamente meteram o clube em cima, são pessoas do futebol e essas pessoas sabem o que é que é um jogador ter de viajar 10 horas de avião. Por exemplo, há diretores desportivos que não se importam de marcar viagens assim e não se preocupam com o repouso, se mantêm os hábitos alimentares ou não...

Aconteceu no União?
No ano passado, por exemplo, fomos jogar a Arouca e toda a gente sabe que Arouca tem um problema para as equipas que lá vão jogar, que é aquela estrada da Serra da Freita, que é complicada. Já lá fui duas vezes e duas vezes o autocarro teve de parar porque os jogadores sentem-se mal, até porque é uma viagem feita depois do almoço. Ora bem, há um hotel em Arouca e ameniza muito isso, porque a estrada tem muitas curvas e dentro de um autocarro, pumba, pumba. Para precaver isso, sabendo que é assim, o melhor é ir dormir a Arouca. "Não, não é preciso". Mas quando se vai para lá e o jogador tem de sair para vomitar... Ficando lá, essa má disposição, a acontecer, seria no dia anterior e não no dia do jogo. Quem está no futebol sabe que isto é um detalhe importante e os resultados e os sucessos são uma soma de detalhes que parecem não ter influência. Por exemplo, a equipa da Sky, de ciclismo, tem uma logística, na Volta a França, que os obriga a dormir em hotéis diferentes a cada etapa, mas são sempre as mesmas almofadas, os mesmos lençóis. Eles tratam de um pormenor, mas é um pormenor importante, porque se trocar de almofada dez vezes se calhar vou dormir mal uma ou duas vezes porque não me adapto. Todos estes pormenores que parecem irrisórios ganham dimensão quando se chega a um sucesso.

Não tem receio, por estar a falar assim, que não o contratem, já que diz que em Portugal não se fala abertamente?
Se não falar, também não pegam em mim. Como homem do futebol, bem ou mal, pela experiência que tenho, acho que devo contribuir minimamente com ideias. Voltando à conversa de há bocado, é mau às vezes estarmos avançados no tempo e expormos ideias que já deveriam estar em prática e não estão. Fui educado ainda antes do 25 de abril em ter liberdade de expressão - ainda que liberdade de expressão não seja aquilo que muitas vezes vemos hoje, confunde-se liberdade de expressão com falta de educação. Eu no futebol não posso ser penalizado se estou a falar em ideias que têm lógica e que, a serem postas em prática, beneficiam o futebol de um país.

Como é que aparece este convite para ir para a Índia?
A Índia foi realmente uma coisa que confesso que me surpreendeu, nem tinha grandes conhecimentos do futebol indiano. Houve duas coisas que me atraíram muito: primeiro, poder jogar um Mundial, porque, seja qual for a categoria, é sempre bom para um treinador; depois, toda a gente conhece a minha apetência pela formação. Ok, é um desafio, mas tudo o que tenho feito na vida é quase sempre criticado. Quando venho da Bélgica, fui para o Portimonense. "Mas porque é que vais para o Portimonense?" Cheguei a internacional A a jogar no Portimonense e o clube naquela altura fez a melhor época de sempre. Isso deu-me um gozo bestial, porque fiz uma época espantosa e ganhei os prémios dos jornais em Portugal, foi como se tivesse sido considerado o jogador do campeonato desse ano, a jogar no Portimonense. Porque isso é que é difícil, a jogar no Benfica, no Porto ou no Sporting é muito mais fácil. Quando fui para África, foi outro desafio, também disseram que estava parvo. Quando fui para o União da Madeira também me disseram que ia para uma equipa para me enterrar. A mágoa é grande, porque tinha a convicção que conseguia não descer. E a Índia para mim é um desafio de vida.

Está difícil treinar em Portugal?
O mundo do treinador em Portugal está muito precário, porque basta haver uma flutuação de resultados que se põe logo em perigo a continuidade do treinador, é uma constante que agora se instalou. Há cada vez mais instabilidade e chicotadas. Vi algo neste projeto que, no meu entender, não se esgota no Campeonato do Mundo. Isto surge porque a FIFA dá à Índia a organização do Mundial, se não a Índia obviamente não teria ainda meios de qualificação para uma prova assim, mas, após o Mundial, pode ser o pontapé de saída para um país que tem uma população de cerca de 800 milhões de pessoas com menos de 35 anos. É uma população muito jovem e eles querem desenvolver o futebol, tal como a China, e tal como, antes, o Japão e os EUA também já o fizeram. Na Índia o desporto rei é o críquete, mas há aqui uma grande vontade do país em divulgar o futebol. É uma oportunidade de fazer algo por um país que ainda está a dar os primeiros passos no desenvolvimento do futebol e isso é algo que me atrai imenso. É uma missão impossível? É, quase, em termos de resultados, mas não é em termos de ideias e de desenvolvimento. E nós, treinadores portugueses, em todo o mundo damos provas que podemos contribuir para ajudar países a desenvolver o futebol. Temos uma capacidade ótima de comunicação e a adaptação, em consonância com o nosso passado dos descobrimentos.

nuno botelho

Está satisfeito?
Não demorei muito a aceitar o desafio e estou satisfeitíssimo pela forma como sou tratado e respeitado. Se me perguntarem por resultados, não posso garantir nada, porque isso eles próprios sabem que é muito difícil, mas tenho uma certeza: esta equipa, em oito meses, vai ser da noite para o dia. Muitos destes jogadores vão chegar à seleção A, mas é claro que esta equipa ainda vai estar muito longe de se poder bater com Portugal, Brasil, Espanha, Alemanha, México... Não têm hipótese nenhuma. Costumo dizer que mesmo na sua máxima força e concentração, não cometendo erros e jogando anormalmente bem, a Índia não hipótese de bater uma equipa alemã, espanhola, brasileira. Onde é que nós nos agarramos? Há sempre uma pequena possibilidade, mesmo que seja ínfima, e temos de lutar por ela, porque o aspeto mental é muito importante. Às vezes pode haver alguma sorte no jogo e temos de nos agarrar a essas pequenas coisas. Portugal não está no Mundial, a Itália também não, a Argentina também não, portanto vê-se bem a riqueza das equipas que se qualificaram. Nós tivemos aqui em Portugal amigáveis com o Estoril, com o Setúbal, com o Belenenses e perdemos, mas em cada jogo diminuímos os erros e fomos melhorando. Há uma diferença porque eles estão ligados à Federação e só treinam e jogam amigáveis, não têm clubes, ou seja, o factor competitivo, de ter de ganhar pontos, não têm, e essa realidade competitiva faz-lhes falta para evoluir.

Mas de que nível estamos a falar, mais concretamente? Não sabem resolver uma situação de dois contra um?
Sabem. Mas quando cheguei... O primeiro jogo que fizemos era muita correria sem nexo, um dispêndio de energia enorme, mas depois esgotavam-se rapidamente e sofriam muito na segunda parte. O que faziam com o antigo treinador era um trabalho muito físico, com pouca bola e sem complexidade, sem coisas que os fizessem pensar. Eles não ligavam quatro ou cinco passes, era tudo muito individual. Aqui já conseguimos ter mais de um minuto de posse de bola passando por quase todos os jogadores, o que é uma satisfação para nós, porque é uma escola um bocadinho latina, podemos ter o controlo do jogo e até descansar com bola. Os jornalistas na Índia perguntavam-me e eu expliquei que tínhamos de jogar bem fechados contra equipas que jogam bem. Então eles diziam que íamos renunciar ao ataque, não - porque nós nunca tivemos tantas oportunidades de golo como criámos agora. É uma ideia de jogo que se está a desenvolver, mas nenhum treinador consegue em seis ou oito semanas dar essa ideia de jogo a quem nunca a teve. Uma coisa é pegar numa equipa profissional e nós em seis semanas de pré-época conseguimos modelar as ideias, mas aqui não, porque é tudo novo para eles. Treino em espaços reduzidos, máxima intensidade, é tudo novidade. No Mundial nós sabemos que qualquer equipa é mais forte do que nós mas queremos fazer algo que mostre trabalho.

Tenho um amigo que conhece uma série de investidores na Índia e que diz que o Norton já é uma estrela por lá.
Já me disseram isso mas ainda não me apercebi. A Índia é muito grande e obviamente que tenho noção que é um país que vive para o críquete, mas não percebo nada daquilo, palavra de honra. Uma vez fui a um bar jantar e havia um ecrã gigante com o críquete e sempre que era intervalo tínhamos música do DJ no bar para animar a noite, mas sempre que o jogo retomava, era críquete a altos berros e desaparecia o DJ. E agora quando acabar a competição vai tudo voltar-se para o Mundial sub-17. Eles também não estão à espera de muita coisa, querem é ver diminuir a distância. Eles na brincadeira dizem "vocês se empatarem um jogo - se empatarem! - vocês têm um nome de uma rua. Se ganharem, têm uma estátua". Portanto eles conhecem as dificuldades. Mas é aliciante e tratam-nos lindamente. Há um respeito enorme pela figura do treinador, pela idade, pela experiência... Já nem estava habituado a um contexto assim. Às vezes até penso: "Será que isto é verdade?" Desde pequenas coisas que a gente não liga, como estar à mesa e esperarem que eu me levante para me servir para eles se servirem todos, estão sempre à espera do 'coach' e isso para mim é um bocado esquisito porque não ligo muito a isso. Aliás, a gente sabe que os jogadores comem primeiro e depois come a equipa técnica. Os jogadores ainda não são estrelas, mas um treinador estrangeiro tem mais mediatização e há uma grande expectativa porque nós na Índia fizemos jogos contra equipas seniores e ganhámos. Os conteúdos são um bocadinho diferentes e houve um jornal que escreveu "finalmente vê-se uma equipa indiana a jogar futebol".

Os jogadores aceitam bem a mudança?
Os jogadores têm um foco extraordinário, com uma enorme vontade de aprender. Para se ter noção, eles aqui têm uma regra, que não é por mim, porque já estava implementada, que é não mexer no telemóveis durante o dia. Só quando acabam de jantar é que têm duas horas para usar o telemóvel, para não se dispersarem. Na sociedade atual, ocidental... em Portugal é impossível uma equipa de juvenis ou iniciados não ter os telemóveis (risos).

Irá continuar depois do Mundial, em outubro?
Tenho sido um globetrotter. Sempre fui um vagabundo no futebol e na vida, com muitas coisas diferentes que fiz, que se calhar às vezes serviram, não digo para me achincalhar, mas para dizer: "O gajo é manequim ou futebolista?" Quando jogava ouvia isso porque tirei umas fotografias de moda e na altura ninguém fazia. Hoje é normal vermos qualquer jogador em tronco nu ou em cuecas a fazer publicidade nas Seychelles. Depois, porque fiz um filme: "O gajo é ator ou treinador"? Depois tive um programa de rádio e escrevi um livro - tudo isso, em vez de ser um fator de enriquecimento da própria pessoa, às vezes é um fator de inveja. O futebol é a minha vida e neste momento as minhas 24 horas são futebol, mas quando não estou a trabalhar, quando estou desempregado, não vou ao futebol ver se pega, porque há muitos treinadores que vão ver dez jogos seguidos e estão lá sempre para ver se pega. Mas há muitas coisas que o ser humano pode fazer. Às vezes é um embrutecimento para mim estar sempre a falar com o chamado adepto normal. Porque o treinador não acerta no totobola: "Mas quem é que vai ganhar domingo? E quem é que vai marcar o golo?" Sei lá quem é que vai marcar o golo (risos). É o tipo de coisa para a qual não tenho muita paciência. "Então e vais para a Índia com essa idade? E a família?" A família está estruturada e se calhar vejo mais a minha família estando na Índia do que quando estava na Madeira. Tenho mais tempos livre.

Como é a Índia?
Nunca tinha ido à Índia e acho que há várias Índias. Estive em Bombaim, em Deli e em Goa. Goa é uma região que tem 130 km de praias, é uma espécie de Algarve e tem ótimas condições de trabalho, com bons campos, sossego e uma energia super positiva. Bombaim e Deli são o caos em termos de trânsito e pessoas, porque têm 40 e 13 milhões de pessoas, respetivamente. Qualquer trajeto de 10 km demora uma hora, é trânsito constante e poluição, agitação e stress. Para eles não, porque estão habituados a isso, mas para nós é, e quando chegamos a Goa é um oásis de tranquilidade.

Foi bem recebido?
O povo tem-nos recebido muito bem, mas ainda não posso dizer que sou um cidadão da Índia, porque temos estado pouco por lá, estamos a fazer vários estágios pela Europa. Mas é um país riquíssimo culturalmente, que gostava de conhecer mais a fundo, e espero fazê-lo depois do Mundial. Tem muitos traços da cultura portuguesa, especialmente em Goa, vê-se nas casas, nas igrejas e nos nomes. É engraçadíssimo porque se vê casas, notários, supermercados, carpinteiros, tudo com nomes portugueses. Aliás, tenho aqui um elemento técnico que é o Mário Aguiar e que não diz uma palavra de português (risos). São outras gerações já. Mesmo as pessoas mais velhas já perderam o contacto e ainda não encontrei ninguém que falasse fluentemente português, só pessoas que arranham, sem empregar os verbos. Cozinha portuguesa, por exemplo, não há. Não sabem o que é um bacalhau (risos). E depois a comida é muito picante, costumo dizer na brincadeira que quando meto a colher a boca é como se fosse ao dentista, fico anestesiado (risos). Mas há uma ligação e eles ficaram muito sensibilizados por terem sido recebidos pelo primeiro-ministro português, cujo pai nasceu em Goa. O meu avô também nasceu em Goa e é engraçado. Penso que é uma boa porta para deixar aberta, porque dizemos que Goa também é Portugal mas fico espantado porque não há azeite português, não há vinho português... Acho que são oportunidades. Por acaso fomos treinar a um campo onde havia a fachada de uma casa com as cores, não da bandeira portuguesa, mas do símbolo da Federação Portuguesa de Futebol. Fui lá bater à porta, pensei que vivessem lá portugueses, mas não, era uma família indiana que gostava muito do Ronaldo e do futebol português (risos). Estou bem aqui, estou mesmo de alma e coração e estou aqui para partilhar ideias com eles e deixá-las cá. Disseram-me que vinha para cá ser último, mas não há impossíveis. Então na Índia, quando vemos aquelas escaladas impossíveis no Evereste, coisas consideradas impensáveis... Acho que temos sempre de manter a esperança. Vou feliz para o treino e sinto-me muito bem assim.