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Maniche: “Quando entrámos em campo, havia umas bailarinas a cantar a Asereje e o Mourinho disse: ‘Concentração no aquecimento’”

Hoje, Mourinho disputa a sua 4.ª final europeia (Manchester United-Ajax). Há 14 anos, numa quente noite de Sevilha, o FC Porto conquistou a Taça UEFA, frente aos escoceses do Celtic, naquela que foi a primeira final europeia de Mourinho. Ao intervalo os portistas, que alinharam com Vítor Baía; Paulo Ferreira, Jorge Costa (Pedro Emanuel 70'), Ricardo Carvalho e Nuno Valente; Costinha (Ricardo Costa 08'), Maniche, Deco e Alenitchev; Capucho (Marco Ferreira 97') e Derlei, venciam por 1-0, mas o título só ficou garantido aos 113 minutos do prolongamento, depois da partida terminar empatada a dois golos. Maniche recupera para a Tribuna algumas das palavras do treinador e garante que já naquela altura o Special One era exímio na arte de diminuir níveis de ansiedade e explorar o melhor de cada um dos jogadores

Alexandra Simões de Abreu

FRANCK FIFE

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Na final da Taça UEFA de 2003 entre o FC Porto e o Celtic, o discurso do Mourinho foi diferente do habitual?
Não, foi parecido aos outros. Acho até que foi das palestras mais curtas dele. Nem 10 minutos demorou. Porque durante a semana ele explorou ao máximo os defeitos e as virtudes do adversário e o que deviamos fazer. Ele aproveitou para falar individualmente com um ou outro jogador que ficava mais ansioso naqueles momentos, precisamente para retirar esse nervosismo. A palestra foi sobre a importância daquela final e sobre o facto de podermos ficar para a história do FC Porto, sendo aquela a primeira Taça UEFA do clube. Disse: “Joguem o que vocês sabem que vocês vão conseguir ganhar”. O Mourinho fazia tudo para retirar a ansiedade e pressão que existe sempre nos jogos mais importantes. Lembro-me que antes de entrarmos em campo atuou um grupo de bailarinas que cantavam a “Asereje” [ n.d.r. da banda espanhola Las Ketchup] e ele olhou para nós e disse-nos, “concentração no aquecimento”, mas na brincadeira, para nos libertarmos do nervosismo.

Quais foram os jogadores com quem ele falou individualmente?
Não me lembro. Sei que teve essas conversas mas foi à parte, porque ele sabia muito bem quando falar e onde falar. Ninguém soube onde foi e como foi. Nem os próprios jogadores se sentiam à vontade para revelar isso. Psicologicamente o Mourinho é muito forte. Ele explora ao máximo o potencial de cada jogador. Vai muito à cabeça do jogador, tanto para o bem como para o mal.

Como assim?
Ele se quiser entrar numa situação de desgaste com o jogador, entra, porque sabe até onde o jogador pode ir, sabe a qualidade do jogador e até que ponto pode explorá-lo. E nesses jogos ele tinha muito cuidado e por isso chamava à parte alguns para ninguém ver, para não mostrar a fragilidade do próprio jogador, e retirava-lhe a ansiedade. O lado psicológico é a arma dele.

Teve alguma conversa consigo?
Nesses jogos ele não falava comigo sequer.

Porquê?
Para mim os grandes jogos eram os mais fáceis, porque eram aqueles em que tinha menos responsabilidade. Lidava muito bem com a pressão. Nos jogos mais fracos eu lidava pior porque aí sim era mais uma obrigação extra, porque era suposto ganharmos, enquanto nos jogos importantes tudo pode acontecer e só tens de fazer o teu trabalho.

No final da 1ª parte, em 2003, o FC Porto estava a ganhar po 1-0. Lembra-se do que Mourinho vos disse nesse intervalo?
Disse-nos para mantermos a concentração. Recordo-me que disse também que o Celtic só podia fazer golo de bola parada, nada mais. Isso até já tinha dito antes do jogo e reforçou no intervalo. Ele queria dizer que tínhamos jogo mais do que suficiente para ganhar aquela partida em jogo jogado. Só nas bolas paradas era mais complicado porque eles eram muito altos e fortes. Disse-nos também no intervalo que, mesmo que sofressemos um golo, que poderia acontecer, não podíamos descurar a concentração porque, se fizessemos aquilo que ele dizia e aquilo que sabiamos fazer ele tinha 100% garantia que iamos ganhar aquela final.

E a festa final foi diferente?
Posso dizer que a nivel particular foi o título que mais gostei de ganhar em toda a minha vida. Não só por ser o primeiro internacional, mas também porque foi aquele que o FC Porto não tinha, ficámos para a história. Foi também o meu primeiro ano no Porto, não só meu mas de muitos jogadores, e sentimos uma cumplicidade enorme entre nós. Costumamos dizer que no futebol só se constrói algo se formos uma familia, e é verdade. E o Mourinho conseguiu isso mesmo, juntamente com aquilo que falta ao FC Porto neste momento, as referências que tivemos a sorte de ter como o Jorge Costa, o Paulinho Santos, Secretário, Vitor Baia, enfim, tínhamos muitos que passavam essa mensagem. O Mourinho foi buscar um pouco dessa água para ter sucesso. Notava-se dentro do campo a cumplicidade que tínhamos.

E depois veio a Liga dos Campeões…
É verdade, nesses dois anos quase não tivemos a noção do que ganhamos porque foi tudo tão rapido, foi tanta coisa que ganhamos, que quase nos passava despercebido. Tu só tens a noção dos títulos que ganhas quando terminas de jogar futebol e quando as pessoas te abordam e dizem foste campeão europeu, campeão da Taça UEFA, campeão do mundo de clubes, só aí é que tens a noção das coisas, porque até lá, como o FC Porto é um clube que está habituado a ganhar, festejas num dia e no outro já estás a pensar no próximo.

O Mourinho costumava puxar as orelhas aos jogadores?
Sim, mas à frente de toda a gente. Ele dá exemplos, independentemente do jogador ser o melhor da equipa ele pode ir buscar esse exemplo negativo para conseguir transportar a mensagem que quer para os outros jogadores.

Quais são as hipóteses do Manchester United ganhar hoje ao Ajax?
Tem tudo para ganhar. O Manchester é um grandíssimo clube que o Mourinho está a projetar de novo para a dimensão que já teve. O futebol são títulos e ele sabe isso. O Manchester melhorou muito com ele.

Ele continua a ser o melhor do mundo?
Eu sou um bocado suspeito para falar porque fui dos poucos jogadores a ser treinado por ele em três clubes diferentes (Benfica, FC Porto e Chelsea). Para mim foi o melhor treinador que tive, não só em campo como fora do campo. O mais importante no futebol é o relacionamento humano e ele sabe como chegar aos jogadores de todas as formas para tirar o maior proveito deles. É uma pessoa que estuda 24horas por dia, que está acima dos outros, que quer sempre aprender e estar à frente dos outros. Para mim foi o melhor e continua a ser. É um treinador especial, que me diz muito.