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Orlando Sá: um Standard de golos entre Ronaldo e Bas Dost

Foi junto à piscina que Orlando Sá atendeu o telemóvel à Tribuna Expresso. A aproveitar as férias nas Canárias com a família, o avançado do Standard Liège aproveita agora para descansar depois daquela que foi a melhor época da sua carreira - embora decepcionante em termos coletivos. Individualmente, o português tem motivos para estar satisfeito. Foi o melhor jogador do Standard Liège e marcou 20 golos (bateu um recorde pessoal), algo que lhe dá o título de segundo melhor goleador português no estrangeiro, depois de Cristiano Ronaldo. Além disso, Orlando Sá foi também o jogador mais eficaz na Bélgica com a melhor média de golos: marcava um a cada 113 minutos. Mas o camisola 70 trocava a projeção individual para que a equipa alcançasse o sucesso coletivo. Admite que não tem a carreira que sempre sonhou, contudo não vai parar de trabalhar pelo clube – e pela hipótese de voltar à Seleção Nacional

Patrícia Gouveia

Dean Mouhtaropoulos

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Estás de férias nas Canárias?
Sim. [Risos] Faz-me lembrar a Madeira [Jogou no Nacional da Madeira em 2010/2011] . Tem muitas bananeiras.

Mas a gastronomia madeirense é melhor...
Sem dúvidas que é mesmo!

Agora a época já terminou na Bélgica. Que balanço fica desta temporada?
Colectivamente foi uma temporada dececionante. Foi uma época que desapontou os fãs e dirigentes do clube, mas todos nós - não só jogadores, mas direção e o conjunto do clube - temos de assumir a responsabilidade porque houve muitos erros durante a temporada.

O Standard Liège lutava no início para ser campeão, mas acabou em 9.º lugar na fase regular. O que correu mal?
Mudanças de treinadores, muitas mudanças de jogadores. Nunca sentimos um período longo de estabilidade e isso fez com que o coletivo não tivesse sucesso. Falhámos a entrada nos seis primeiros porque havia um grupo de oito equipas muito próximas para ocupar esses seis lugares e falhámos esse grupo por um ou dois pontos. E quando soubemos que já não tínhamos possibilidade de ser campeões, ali no final de fevereiro, a motivação da equipa deixou de existir. A mudança de treinadores não ajudou em nada que as coisas melhorassem.

E a nível individual?
Felizmente correu-me bem e foi uma das melhores temporadas da minha carreira.

Dean Mouhtaropoulos

Apesar disso do insucesso coletivo, marcaste 20 golos e quebraste um recorde pessoal.
Pois foi, a minha época começou no Maccabi Tel Aviv, que estava nas competições europeias e quando fui para o Standard, já tinha feito golos pelo Maccabi. Mas a mudança foi melhor para a minha carreira e era o que eu realmente queria: vir para um campeonato na Europa e o campeonato na Bélgica dava-me a visibilidade que eu queria e motivação todos os dias.

No início da temporada, tinhas estabelecida alguma meta de golos?
O que estabeleci para a minha temporada era tentar ser o mais regular possível, sem lesões e tentar melhorar a cada dia e consegui isso. Sabia que se tentasse ser regular e se conseguisse não ter lesões durante a época, que as coisas iam aparecendo naturalmente. Ajudei a equipa com muito golos, mas infelizmente esses golos e assistências não se traduziram, na maior parte das vezes, em pontos.

Fica um sabor agridoce?
Fica um sabor amargo por não termos conseguido mais. A equipa não estava a jogar bem.

Mesmo assim, foste eleito o melhor jogador do Standard Liège. É especial vencer esse troféu?
Sinceramente prefiro não pensar no individual. Quando no final da temporada, o coletivo não tem sucesso, penso que não é bom nem fica bem realçar o individualismo de um jogador. Isso é bom quando a equipa ganha títulos. Agora o que eu fiz durante a temporada e os meus golos não tem grande importância quando no fim não atingimos os nossos objetivos. Trocaria facilmente qualquer projeção individual por um objectivo coletivo.

NICOLAS LAMBERT

Mas é um reconhecimento que te dá mais motivação?
O reconhecimento que as pessoas têm é sempre bom, mas só me dá mais confiança para continuar a trabalhar e para ter uma boa perspetiva de futuro.

Ficaste apenas atrás de Cristiano Ronaldo como melhor goleador português no estrangeiro. É um motivo de orgulho levares a medalha de prata?
É uma coisa que, muito sinceramente, não dou atenção. Quando falamos do Ronaldo, estamos a falar do melhor jogador do Mundo e ele tem números que são incomparáveis com qualquer outro jogador português. Há também a questão de jogarmos em equipas e campeonatos diferentes. Prefiro afastar-me desse tipo de comparações. Simplesmente sinto-me bem com a temporada que realizei.

Superaste os 14 golos marcados ao serviço do Legia de Varsóvia em 2014/2015. Também eras mais novo. Achas que o amadurecimento pessoal contribuiu para cresceres como jogador?
Sim, no Legia tínhamos um plantel onde havia mais opções de qualidade. Olhando ao plantel que tínhamos, no Legia, eu não jogava com tanta regularidade como joguei no Standard. Quando existe um bom plantel de 20 ou mais jogadores, o treinador tem sempre opção de trocar a equipa e a equipa não sentir muito a falta dos principais jogadores. Aconteceu este ano no Standard… Quando uma equipa fica dependente de um ou outro jogador, é muito difícil atingir os objectivos colectivos. Tal como aconteceu este ano com o Sporting. O Sporting estava extremamente dependente do Bas Dost e isso não é o suficiente.

MIGUEL RIOPA

Quais foram os elogios mais especiais que te fizeram ao longo desta época?
As estatísticas individuais dão sempre confiança a um jogador, mas o ter chegado no último dia do mercado ao Standard Liège onde temos um plantel com muito jogadores de qualidade e eu ter-me assumido como um dos jogadores importantes do clube, é o suficiente para eu me sentir orgulhoso.

Quando chegaste à Bélgica, começaste a marcar golos e chegaste até a tirar uma selfie com os adeptos. Fala-me disso...
[Risos] Foi um momento engraçado. Cheguei à Bélgica no último dia de mercado e só comecei a jogar mais tarde. Perdi imensos jogos no início e o jogo em que fiz a selfie, foi o meu primeiro como titular. Esse jogo foi junto à fronteira com França e tenho vários amigos a viver lá perto. A esse jogo foi um grupo de 15 pessoas para ver e prometi que se eles fossem ver o jogo e se eu marcasse, que ia tirar uma selfie com eles. E assim foi. Foi um momento engraçado.

A partir daí tornaste-te num ídolo para os seguidores do clube. Como é que eles são?
É muito bom sentir-me acarinhado como sou e sentir que os adeptos gostam de mim. Eles são seguidores fervorosos e são a grande força da equipa. A eles fica uma palavra de consolo sobre este ano que foi uma decepção.

Que momento marcante levas desta época?
Lembro-me de um: no nosso grupo da Liga Europa, não conseguimos o apuramento por causa de um golo. Perdemos esse apuramento para o Celta de Vigo e para o Ajax. E foi frustrante. Isso fez mossa no campeonato porque no jogos seguintes perdemos pontos importantes. Sempre que há competições europeias, acabamos por não conseguir o apuramento por causa de um golo e nós ficamos demasiado focados nisso, acabando por prejudicar o campeonato. Houve jogadores que entraram em sub-rendimento, muitas mudanças tácticas e da equipa, outros problemas extra-futebol. Tudo isso prejudicou. Marcante pela negativa é isso: não passar por um golo e o que se seguiu.

Harry Trump

Há algum golo, de todos os que já marcaste, que tenha deixado um carinho especial?
Sinceramente não tenho assim um golo que pense: 'este foi o golo', sabes?

E então, qual é neste momento o teu maior sonho?
Voltar à seleção nacional.

Antecipaste-te à pergunta que já ia fazer, uma vez que com o rendimento que tens tido, é algo inevitável perguntar…
O meu maior objectivo passa por voltar à seleção e tudo farei no meu clube, esteja onde estiver, todos os dias e humildemente para um dia merecer a confiança do nosso selecionador.

Sei que vais ser pai pela segunda vez em breve. É o teu maior troféu desta época?
[Risos] Sim. Olha, respondendo à tua pergunta anterior, as minhas duas filhas são os meus dois maiores golos ao longo desde 10 anos como profissional. São, sem dúvida, as minhas melhores conquistas.

Martin Willetts

Passaste já por inúmeros clubes e países. Aos 28 anos, tens a carreira que idealizaste?
Nós jogadores, quando somos mais novos, idealizamos sempre a nossa carreira de sonho e passar por clubes que sempre quisemos. Mas chega a uma altura em que começas a entender que o futebol nem sempre corre como sonhámos. Nem sempre podes decidir aquilo que é bom para ti, há muita coisa por detrás do futebol que as pessoas não sabem. Sinceramente não posso dizer que tenho a carreira que sempre sonhei. A certeza que tenho é que estou a passar uma boa fase, sinto-me bem fisicamente e estou feliz.

Mas falta algo?
Neste momento falta passar um bom período de férias com a família e não pensar muito no futuro. [Risos] O passado fez-me aprender que nós, no futebol, temos de ser sempre humildes, trabalhar todos os dias, sempre com a mesma motivação para melhorarmos. O melhor, tal como esta época a nível individual, acaba sempre por aparecer. As coisas boas acabam sempre por vir.

Mas fica aí alguma mágoa?
Não, não existe mágoa. Não vale a pena entrar por aí.

Tomaste alguma decisão ao longo da carreira que te arrependeste?
Sim, tomei algumas. [Risos] Não estou a mentir.

Mas aprende-se com isso?
Costuma-se dizer quando erramos e tomamos decisões erradas, serve de exemplo e aprendemos com isso. Posso garantir que sim, aprendi. E bastante. Aprendi muito com o meu passado.

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