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Mourinho: “Sou péssimo a escolher equipas, escolho sempre as que estão em ‘big trouble’. Inter, Real, Manchester, todas em ‘big trouble’”

José Mourinho deu-nos cinco minutos do seu tempo e falou do seu tempo de estudante na Faculdade de Motricidade Humana e também de como o tempo o poderá ter mudado ao longo de uma carreira em que conquistou vários títulos, em vários países. Por outro lado, o português assume que escolhe sempre clubes em conjunturas difíceis, em “big trouble”, e que o Manchester United é um deles. “Uma coisa é a história do clube, outra é a atualidade do clube”

Mariana Cabral

ODD ANDERSEN

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No seu tempo de jovem treinador, quem é que lhe deu ‘lições’?
Há 30 anos, mais ou menos, eu saí da faculdade e fui até à Escócia tirar o curso de treinador e tive a sorte de ter encontrado algo um bocadinho adiantado no tempo, comparável a isto que está a acontecer aqui na FMH, que é um número interminável de gente de diferentes países. Na altura aquilo foi feito em regime de internato, ficámos ali dois meses, todos juntos, e, sem termos tido um treinador de primeira linha, como eu sou agora, que tivesse ido lá falar. Obviamente, naquela altura, quando cada um foi para o seu país, a comunicação não continuou com a facilidade com que isso acontece hoje, mas mantivemos contacto e trocávamos ideias e treinos regularmente. Acho que isso foi um momento chave na minha formação, porque saio já da faculdade com uma ideia formada de que é preciso sempre mais e mais e mais e mais para evoluir, e depois entro num curso de treinadores onde encontro este tipo de dinâmica. O caminho tem de ser sempre acharmos que sabemos pouco.

Mas não é possível ensinar futebol, ou é?
Não. Acho que se ensina é a pensar. Ensina-se... não direi analisar, porque isso depende muito de quem o faz, mas acho que as linhas mestras de organização de um pensamento podem ensinar-se. O mais importante é aquilo que tu pensas e, depois, é conseguir operacionalizar aquilo que tu pensas. Não há uma app que te ensine isso, não há um site especializado que te ensine isso, não é a ir ver um determinado treinador a treinar e registar num bloco de notas os exercícios que se fazem. O mais importante são as ideias. Depois, há diferentes modos de pensar. Há treinadores que são muito mais radicais.

Que só querem saber do modo de jogar da própria equipa?
E não só, é no sentido de “estas são as minhas ideias e com estas ideias eu vou até ao fim”. E há outras pessoas, como eu, por exemplo, que acham que se deve fazer... É um bocadinho contraditório, porque as pessoas dizem que não sou humilde. Mas acho que sou humilde neste aspeto. Sou humilde no sentido de dizer que, por vezes, as minhas ideias não são as mais corretas em função de determinado objetivo ou em função do material humano que tenho à minha disposição. Dou-te um exemplo muito claro: há quem diga assim: “As minhas equipas pressionam todas alto.” Eu não digo. Não tenho essa arrogância. Eu digo: “As minhas equipas pressionam de acordo com as características do adversário e de acordo com os meus jogadores.”

Mas este Mourinho não é o mesmo Mourinho que tínhamos no União de Leiria, no FC Porto... Não dá agora uma importância muito maior ao lado estratégico do jogo?
Não sei se é mais estratégico. Para começar, sou péssimo a escolher equipas. Escolho sempre equipas, como se diz em Inglaterra, em “big trouble”. O Inter estava em “big trouble”, o Real Madrid em “big trouble”, o Manchester United em “big trouble”, ou seja, sempre em “big trouble”. E o que é que significa este “big trouble”? Significa que são equipas que querem ganhar, mas estão a milhares de quilómetros de distância de ganhar. Uma coisa é a dimensão do clube e a história do clube e outra coisa é a atualidade do clube. Dou-te um exemplo muito claro: o capitão do Real Madrid [Sergio Ramos] que levantou a Taça no outro dia, e que é agora tricampeão europeu, quando cheguei ao Real Madrid, em 2010, nunca tinha jogado [destaca pausadamente cada palavra] os quartos de final. Não é nem a final nem a meia-final, ele nunca tinha jogado os quartos de final da Champions. Não é? E eu chego agora ao Manchester United e sabes quantos jogadores destes é que foram campeões? Os ‘velhotes’ que estão a acabar e que ainda vêm da era Ferguson. Não sabem o que é ganhar. O que significa que há passos a dar e os passos que se têm de dar são simultaneamente o desejo e a necessidade de que o clube volte a ganhar, mais a qualidade, ou a pouca qualidade, e a pouca experiência dos jogadores que neste momento compõem a equipa. E a tal maneira ‘XPTO’ de jogar. A maneira de ganhar? Estratégia.

O treinador português é agora visto como um dos melhores do mundo, depois do ‘efeito’ Mourinho?
Não sei, não sei. Acho que há treinadores que marcam e que ganham num determinado momento e há outros que ganham num espaço temporal grande. Acho que, no meu caso, ganhar há 14 anos transformou-me num daqueles treinadores que ganha no tempo, que ganha durante uma carreira e não apenas num momento, e acho que eventualmente pode ter criado uma onda de curiosidade, de se querer saber porquê. Pode ter tido uma influência positiva nas oportunidades que começaram a ser dadas a treinadores portugueses. A partir daí, a minha influência é zero e a influência passa a ser daqueles que constroem as suas carreiras noutros países e noutros níveis de exigência. Portanto, acho que sim, acho que eventualmente influenciei a maneira e a curiosidade com que se olhou para os treinadores portugueses, mas a partir desse momento são os treinadores portugueses que têm feito coisas muito boas, permitindo que exista esta aura positiva à volta do treinador português. Como existiu também nos espanhóis, no pós-Guardiola, e nos italianos na primeira geração pós-Sacchi e Trapattoni, e agora pós-Ranieiri, Conte e Ancelotti. Acho que os grandes nomes, em qualquer área, podem ser sempre influências positivas e nunca negativas. Negativas só se se tentarem fazer cópias, tentando insistir para que haja mais. Em Portugal houve uma altura que era...

O “novo Mourinho”.
Era o novo Mourinho, o novo Eusébio, agora se calhar um miúdo faz três golos num jogo e já dizem que é o novo Ronaldo... Acho que as pessoas têm de aprender a respeitar não só aqueles que o são como também aqueles que o querem ser. Porque aqueles que o são estão num patamar diferente e aqueles que o querem ser merecem viver e crescer sem esse tipo de comparação e de pressão.

Leia AQUI como Mourinho preparou a final da Liga Europa contra o Ajax

Entrevista publicada na edição de 10 de junho de 2017 do Expresso

  • As lições do professor Mourinho

    Futebol internacional

    Há maior estratego do que José Mourinho no futebol mundial? O treinador português mostrou que não, ao explicar, ponto por ponto, aos alunos da FMH e à Tribuna Expresso, como é que o Manchester United preparou — e ganhou — a final da Liga Europa ao Ajax (2-0)