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Carvalhal: “Há alturas em que dizemos: 'Hoje é dia de irem para os copos e de se emborracharem”

Antes de ir de férias, Carlos Carvalhal falou com a Tribuna Expresso sobre as duas épocas em Inglaterra - que já "deixou de ser o paraíso dos treinadores" - e explicou por que razão é que a "duríssima" 2ª Liga inglesa, onde lidera o Sheffield Wednesday, é a "quinta maior competição, a nível nacional, da Europa"

Mariana Cabral e Rui Duarte Silva

Carlos Carvalhal está no Sheffield Wednesday, da 2ª divisão inglesa, há duas épocas, depois de também ter passado pelo Al Ahli (Emirados Árabes Unidos), pelo Istanbul BB e pelo Besiktas (ambos da Turquia)

Rui Duarte Silva

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O local era de trabalho - a Tribuna Expresso encontrou Carlos Carvalhal no I Congresso Internacional de Periodização Tática -, mas a conversa começou pelo lazer, já que o treinador português estava prestes a embarcar numa longa viagem à Ásia - de férias, com "uns calções e duas tshirts".

É indispensável para um treinador ter umas férias desligadas do futebol?
Sim. Porque a Championship é um campeonato muito duro. Foram 50 jogos este ano, com alta intensidade e intervalos muito curtos, daí ser uma competição muito dura. Depois o desgaste emocional também é muito grande, porque há muita pressão, o ter de ganhar, o ter ir, no mínimo, ao playoff, para poder subir para a Premier League, depois vemos que houve 18 chicotadas psicológicas há dois anos, 16 chicotadas este ano... Portanto Inglaterra deixou de ser o paraíso dos treinadores. Aquela situação do Wenger é já uma exceção. Isto é uma situação extremamente desgastante, chega-se ao final do ano com muito cansaço. Já estive uns dias aqui em Portugal mas também é tudo menos férias, porque o telefone está sempre a tocar, porque é preciso contratar jogadores, é preciso dispensar jogadores, são os jogos de preparação... Tenho as funções de manager no clube, ou seja, depois do chairman', sou eu que organizo tudo o que diz respeito ao futebol, portanto só é possível tirar uns dias de descanso indo para bem longe e ficando sem telemóveis [risos].

O facto de haver tantos jogos e tão pouco tempo de recuperação entre eles também afeta.
Sim, sim. Tem sido uma aprendizagem muito grande. Os treinadores identificam bem isto que vou dizer: o jogo é uma carga mental violenta para um treinador, em que o dia seguinte é importante para reestabelecer energias e desfocalizar um pouco, se é que isso é possível, mas tentar descomprimir um pouco em relação à competição. Só que na Championship o descanso não existe, porque estás a jogar no sábado e no domingo tens treino de manhã e tens de preparar o jogo de terça, portanto no domingo já estás a recuperar e a preparar, e na segunda preparas em termos estratégicos, no que diz respeito ao trabalho de campo. Depois há o trabalho de vídeo, com os meus colaboradores, de análise dos adversários, de análise da nossa equipa, e ainda vejo sempre dois ou três jogos. Gosto de preparar sempre o jogo seguinte. Assim, entra-se numa situação em que não há sequer um dia para respirar um bocadinho. Estamos sempre com uma em cima da outra. Tem um lado negativo, que é este, do impacto constante, mas isto também se treina e também se habitua - neste momento sinto-me habituado a isto já e até sinto falta quando não tenho. O lado positivo é que quando há um resultado negativo não há tempo sequer para carpir mágoas, porque é tudo seguido e temos de estar logo a preparar outro jogo.

E no meio de tantos jogos quando é que se treina? Só se recupera?
Fundamentalmente tens de criar as tuas ideias no início, fundamentá-las bem para ficares com bons alicerces em termos táticos.

No período pré-competitivo?
Sim, temos de solidificar os nossos princípios do jogo ofensivo, defensivo, transições e lances de bola parada logo aí. Quando há as paragens internacionais, também há que saber fazer um reforço dos pontos que estão menos bem e depois quando entras em competição estás fundamentalmente a recuperar e a pensar no lado estratégico do jogo. Há muitas formas de recuperar e nós recuperamos de uma forma um pouco diferente. Já abandonámos aquela situação de recuperar com um regime de corrida para remover ácido lático. Acho que isso está completamente ultrapassado. Tentamos recuperar com frações de alta intensidade, de curtíssima duração. Ou seja, tentar replicar parcelas do jogo, em alta intensidade, em curtíssima duração. E depois o lado estratégico do jogo, que exacerbamos para nos prepararmos para cada jogo.

A tua metodologia de treino baseia-se nos ensinamentos do professor Vítor Frade?
Tive treinadores que foram muito importantes para ter consistência em determinadas ideias e na parte metodológica o Vítor Frade foi a pessoa mais importante, sem dúvida nenhuma. É uma pessoa que pensa diferente, que é muito avançada no tempo. Acho que o devido valor só lhe será dado daqui a 20 ou 30 anos, só aí é que as pessoas o vão entender.

É engraçado que os alunos dizem sempre que nas primeiras aulas que têm com ele não entendem nada.
Sim, nos primeiros seis meses andamos às aranhas, porque ele fala de tudo menos de futebol. Dá-nos textos para nós refletirmos sobre diversos temas e temos alguma dificuldade em perceber o que é que aquilo tem a ver com futebol - até o dia em que se faz um clique e tudo faz sentido. É uma abordagem inteligente da parte dele, porque nós andamos a patinar, mas mais tarde ou mais cedo conseguimos chegar lá.

Também te consegues ver como "professor Carvalhal", daqui a uns anos?
Não gosto muito. O doutor Sequeira Nunes foi a primeira pessoa que obrigou toda a gente a chamar-me "professor", no Belenenses. "Professor Carvalhal" [risos]. Mas não me sinto muito confortável com isso, para ser sincero. Sou licenciado em educação física mas desde os 12 anos que jogo futebol federado, portanto sou mais do terreno do que outra coisa qualquer.

Ainda há a imagem do 'kick and rush' associado ao futebol inglês, um jogo marcadamente direto e físico. Quando chegaste lá foi fácil convencê-los a jogar de outra forma?
Foi fácil, fácil. Em termos de metodologia é fácil haver uma compreensão e uma adoção total, com entusiasmo por estarem a fazer coisas diferentes.

Nigel Roddis/Getty

Mas não perguntaram se iam correr à mata ou coisa do género?
Não perguntaram porque também não deviam ter grande vontade disso [risos]. Mas para mim e para a imprensa os testemunhos foram sempre elogiosos pela metodologia, pela forma de treinar e estarem preparados. Também ajudou um ou outro virem de Portugal e de Espanha, e um ou outro que já tinham tido treinadores parecidos. Testemunharam que se calhar a nossa forma de treinar é a melhor para preparar uma equipa, portanto não tivemos problemas, ao contrário de outros países onde trabalhei, como a Turquia e a Grécia, por exemplo - e até em Portugal, quando comecei a treinar, porque não dizê-lo? Tem uma explicação: é que nós em Inglaterra não temos a imprensa a preocupar-se com estas questões. Isto não faz parte dos assuntos da imprensa inglesa, que ou vai para os assuntos cor de rosa, ou vai para os resultados desportivos, não entra muito nesse tipo de análise.

Mas na Turquia e na Grécia...
Aí foi mais difícil porque quando tens uma metodologia diferente e veem que não os pões a correr, sempre que há um resultado negativo, mesmo que seja em particulares, é logo porque 'não estás bem fisicamente'. E depois há sempre aqueles jogadores que arranjam problemas, os que normalmente até estão há mais anos no clube e que eventualmente não estão a ser opções, e que se encarregam de falar com os dirigentes e com a imprensa a tentar provocar o caos.

Aconteceu?
Aconteceu connosco, mas felizmente a força do grupo e das ideias são mais fortes do que três ou quatro vozes e as pessoas acabaram por se calar.

E não os pões a correr um bocadinho só para o 'show off', para 'enganar'?
Não, não tenho essa necessidade. Há jogadores que, por questão cultural, gostam de fazer um trabalho extra e não sou inibidor disso. É um trabalho que é como o 'melhoral', nem faz bem nem faz mal. É o que digo aos meus adjuntos [risos]. Há um ou outro que o querem fazer para se sentirem bem e o que eu quero acima de tudo, como treinador, é que os meus jogadores se sintam bem. Quando aquele trabalho não prejudica, não ponho qualquer tipo de restrição. Agora, se o trabalho colide com um dia em que estamos a procurar determinado tipo de contrações musculares, eles já o sabem, porque explicamos que tipo de trabalho têm de fazer, é trabalho orientado. É um espaço de liberdade e um treino que é mais para a cabeça do que propriamente para o físico mas a gente também quer que a cabeça esteja bem.

Não lhes dizes: "Olha, em vez de ires para o ginásio vai sair com a tua namorada"?
Também, também há esse lado. Nós temos essa preocupação de dar um espaço de liberdade máxima tendo em conta a exigência competitiva. Por exemplo, nas paragens internacionais damos sempre três dias de folga aos jogadores porque eles normalmente vêm de sete jogos consecutivos, a jogar de três em três dias. Portanto há alturas em que nós dizemos: 'Hoje é dia de irem para os copos, é dia de se emborracharem, é dia de fazerem o que quiserem para se divertirem'. Incentivamos porque eles também têm de sair da pressão do futebol.

Estás satisfeito com o teu percurso em Inglaterra?
Muito. Acho que o reconhecimento é muito maior em Inglaterra do que aqui. Porque a Championship é realmente um campeonato muito importante, onde na época passada estavam dois treinadores que venceram recentemente a Liga dos Campeões - o Di Matteo e o Rafa Benítez. Tem de ser um campeonato importante. A seguir à Premier League, ao campeonato espanhol, ao campeonato italiano e ao campeonato alemão é a quinta maior competição nacional a nível da Europa - e se calhar do mundo, pelo dinheiro que envolve, pela qualidade dos treinadores, dos jogadores, pelo mediatismo da competição, já é que é transmitida para imensos países - infelizmente para Portugal não é, mas pode ser que seja no futuro. As pessoas entendem que, nesta competição, por ser tão dura, o chegar ao playoff é qualquer coisa de muito bom. Subir de divisão é fantástico, é o melhor, mas chegar a um playoff já é qualquer coisa de muito bom naquela competição. Difícil não é chegar num ano, é manter a equipa em níveis elevados, durante dois anos, como nós conseguimos. Isso é tão difícil que só nós e o Brighton, em dois anos, é que repetimos os seis primeiros lugares - e o Brighton subiu direto. Nesse sentido, há um grande reconhecimento do nosso trabalho, pela sustentação dos resultados e pela qualidade do futebol, e para mim evidentemente isso é uma satisfação muito grande.

Mas não ficas receoso por encalhares no 'quase'?
Não, fico orgulhoso. Foram os penáltis, foi um golo na própria baliza... Mas a meia-final e a final são sempre decididas em questões de pormenor. A base do trabalho não é um jogo, não é um penálti, a base é os 50 jogos que nós fizemos esta época e os 56 que fizemos no ano anterior. Tens de ter um trabalho de qualidade para te manteres num nível muito elevado, sempre com uma exigência máxima, isso é que é a análise que tem de ser feita ao trabalho. No segundo ano, também com expectativas muito altas, porque temos 28 mil adeptos, em média, no estádio e há muitos adeptos 'owls' espalhados pelo mundo. Esse é que é o trabalho que deve ser analisado e é o que nos gratifica, porque queremos melhorar a equipa - e fizemos mais pontos, porque antes tínhamos conseguido um 6º lugar e este ano conseguimos um 4º lugar. Conseguimos fazer na mesma 17 'clean sheets' [jogos sem sofrer golos], eles valorizam muito isso. A qualidade de jogo é apreciada e a equipa é muito respeitada, portanto isso é a maior satisfação para nós. Agora, evidentemente que na próxima época queremos melhorar o 4º lugar, numa competição que vai ser ainda mais dura, porque há 20 equipas a querer subir, em 24. Daquelas que reconheço com potencial para lutar pela subida, são 9 ou 10 equipas, portanto vai ser uma luta muitíssimo dura na próxima época, com expectativas altas.

Chegando aos playoffs, com tantos milhões à mistura - são mais de €100 milhões - consegues dormir à noite?
Nunca pensei nos milhões. No futebol não se pensa nessas consequências. A concentração tem de ser naquilo que nós controlamos - ou tentamos controlar.

Mas no balneário deve ser tema de conversa.
Não, isso é mais assunto de adeptos e imprensa. Claro que sabemos da importância do jogo. A mim se me perguntarem... Tenho um prémio de subida - e é um bom prémio de subida - mas se não me pagarem prémio nenhum quero subir na mesma. Não é o dinheiro que me move, é o futebol. É nisso que nós nos tentamos concentrar. O difícil foi conseguir atingir o playoff em dois anos, porque é uma luta muito grande, com equipas muito apetrechadas. Depois de estares no playoff, há questões de pormenor. No primeiro ano foi 0-1 aos 70 minutos e no segundo ano foram os penáltis. "But we will be back stronger next season" ["voltaremos mais fortes na próxima época], como dizem os ingleses [risos].

Os ingleses gostaram muito de ti, a avaliar pela canção que fizeram com o teu nome. Foi o melhor momento?

Foi muito inesperado. Tinha vivido essa experiência na Turquia, com os adeptos do Besiktas, e foi uma sensação indescritível, foi a primeira vez que ouvi algo com o meu nome. Em Inglaterra, lembro-me perfeitamente que não percebi o que eles estavam a cantar, mas gostei muito da sonoridade. Foi no final do jogo e eu disse mesmo: 'Olha que música gira'. Só quando entrei no autocarro, já depois do jogo, é que percebi, através do Twitter, o que estavam a cantar, e evidentemente é uma satisfação para mim. Continuam a cantar a canção praticamente em todos os jogos e eu não sou um jogador. Não é uma coisa muito comum para um treinador.

Isso demonstra que és mais valorizado em Inglaterra do que em Portugal?
Ali sou. Não é no meu clube, é em Inglaterra, a nível geral. Eu e a minha equipa técnica somos um grupo bastante valorizado no país. Aqueles rumores que andaram à nossa volta sobre o interesse de clubes da Premier... Não tenho empresário nem ninguém a divulgar o meu trabalho, portanto se aquilo surgiu acredito que tenha sido de possível realidade. No ano anterior tive contactos diretos e este ano também tive abordagens para a Premier League. Mas quando chegas ao final da época e tens o capitão de equipa a bater-te à porta, a pedir para falar contigo em nome dos jogadores, para que fiques no clube, se não eles vão ficar muito desapontados... Os adeptos também solicitaram a nossa continuidade, assim como o 'chairman'. Não tinha um único motivo para abandonar o clube, mesmo tendo outras perspectivas.

Mesmo que fosse para Portugal? Falou-se do FC Porto.
Não é pela questão do país. É por estares bem onde estás. És acarinhado por toda a gente, os adeptos cantam o teu nome, os jogadores gostam do teu trabalho, o 'chairman' dá-te total autonomia para poder trabalhar, já que tenho um papel de 'manager' - porquê trocar isto? O cemitério está cheio de pessoas ricas. O Sheffield tem 150 anos de história, somos a primeira equipa técnica estrangeira e estamos creio que em 2º lugar do ranking de média de pontos obtidos na história do clube, entre os imensos treinadores que já teve. Estas coisas não se apagam. Ir para outro clube, para um competição europeia, em que eles já fizeram isso 350 vezes, ou ir para um clube lutar pela manutenção, coisa que já fizeram mil vezes... Estar no Sheffield a marcar história é um grande desafio.