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Jérôme Rothen: “Fiquei desiludido no Euro porque para mim Portugal é como o Brasil: o tipo de equipa que joga sempre bom futebol”

O antigo internacional francês carregou forte e feio contra o futebol de Portugal durante o Euro-2016 mas garante que nos adora. Depois de uma carreira de 18 anos (e uma vitória na Taça das Confederações, já agora) Rothen é agora comentador. Falámos com ele em Moscovo

Lídia Paralta Gomes

FRANCK FIFE/Getty

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Uma das figuras da equipa do Mónaco que em 2004 perdeu a final da Champions com o FC Porto, Jérôme Rothen deixou os relvados há quatro anos e é agora comentador no canal francês SFR Sports. E foi exatamente como comentador que o antigo extremo voltou à nossa órbita há um ano: durante o Euro’2016, disse que Portugal o aborrecia e que não teria hipóteses na final.

Falámos com ele em Moscovo e Rothen fez questão de se explicar, ele que diz adorar Portugal, onde tem muitos amigos. O maior? Pauleta, claro, com quem jogou no Paris Saint-Germain.

Mas há mais: Rothen sabe, por exemplo, o que é vencer uma Taça das Confederações: fê-lo com a seleção francesa, em 2003, em casa, ao lado de Lillian Thuram, Marcel Desailly ou Thierry Henry e acha que Leonardo Jardim é o melhor treinador da liga francesa.

Olá Jérôme, estamos na Taça das Confederações, competição que até tem no seu palmarés.
É verdade, sim, ganhei em 2003.

E esteve também no ano seguinte no Europeu em Portugal. São provas muito distintas?
Sim, são diferentes. O Campeonato do Mundo e da Europa são as duas competições mais importantes que as seleções europeias podem ganhar. A Taça das Confederações aparece entre as duas e há muitos jogadores que preferem não jogar aqui, porque querem estar bem no Mundial. No fundo serve para preparar a competição do ano seguinte. É isso que Portugal está aqui a fazer, a preparar o Mundial do próximo ano e foi isso que a França fez em 2003: na altura preparou o Euro’2004. Acabámos por ganhar em casa e o grupo já era muito parecido àquele que fez o Euro, com duas ou três excepções.

Mas apesar de não ter tanta importância, não deixa de ser um título com a seleção, o que é sempre um orgulho.
Sim, quando ganhas um troféu é sempre um orgulho, seja qual for o troféu. Mas mais ainda quando jogas pela tua seleção. Porque há o orgulho de vestires a camisola do teu país, é incrível. Há jogadores que choram com o hino, é uma emoção muito grande e por isso quando ganhas uma Taça das Confederações, um Campeonato do Mundo ou da Europa é um prazer enorme. E é por isso que Portugal vai fazer tudo para ganhar aqui porque nunca ganharam uam Taça das Confederações e querem que seja uma espécie de continuidade do Campeonato da Europa.

O que pensa desta equipa portuguesa? No Euro foi muito crítico da forma de jogar de Portugal.
Fui um crítico do tipo de jogo de Portugal mas não critiquei só Portugal. Também critiquei a França, que na final não fez nem de perto nem de longe o seu melhor jogo na competição. Mas depois tirei o meu chapéu a Portugal porque conseguiu ganhar o Euro sem precisar forçosamente de jogar bem. Para mim Portugal, tal como o Brasil, por exemplo, é daquele tipo de equipas que jogam sempre bom futebol. E a verdade é que ver Portugal - e bravo, porque ganharam - a jogar assim no Campeonato da Europa desiludiu-me um bocadinho. Mas aconteceu-me o mesmo com a França, atenção!

E espera ficar um bocadinho menos desiludido aqui na Rússia?
Sim, espero que nesta Taça das Confederações Portugal mostre o trabalho feito ao longo deste ano e jogue a um nível superior. No primeiro jogo, contra o México, vi coisas boas, mas outras também menos boas.

O Jérôme foi jogador e sabe como é que estas coisas funcionam. Olhando para Cristiano Ronaldo: com tantas questões fora das quatro linhas, é possível um jogador render a 100% dentro de campo?
Eu acho que o que se passa fora de campo afeta todos os jogadores. Mas há exceções e Ronaldo (como Messi) faz parte delas. Ele sempre conseguiu colocar os assuntos pessoais a um canto. Eu acho que aqui, como é simplesmente mais forte que todos os outros, jogará bem e estará bem na competição. Se Portugal ganhar a Taça das Confederações é porque Ronaldo esteve bem.

Jogou naquele belo Mónaco de 2004, que chegou à final da Champions…
… e perdeu contra o FC Porto [risos]!

O Mónaco voltou de novo aos grandes momentos, com Leonardo Jardim. Que lhe parece o treinador português?
Neste momento é o melhor treinador de França e não é só porque é campeão: mesmo nos anos anteriores ele foi capaz de levar o Mónaco ao topo. Podia não ser 1.º, mas era 2.º ou 3.º. Tem feito belas coisas desde que chegou: chegou há três anos e há três anos que o Mónaco tem resultados. Sem dúvida que é o melhor treinador de França atualmente e espero bem que siga ali até porque eu joguei no Mónaco e continuo muito ligado ao clube, sigo com muita atenção o desempenho da equipa. O trabalho que tem feito é notável e acredito que vai continuar a ser, mesmo que agora vá perder alguns jogadores e provavelmente terá de mudar um pouco a forma como a equipa joga.

Rothen guarda as melhores recordações de Pauleta, com quem jogou no PSG

Rothen guarda as melhores recordações de Pauleta, com quem jogou no PSG

MEHDI FEDOUACH/Getty

Perder jogadores e renovar a equipa é coisa que ele já mostrou que sabe fazer.
Para mim é o ponto forte dele, a forma como consegue potenciar jovens jogadores e a forma como ele torna cada jogador numa peça importante no balneário. Eles são um grupo muito unido, que se dá muito bem, eram um coletivo extraordinário este ano e isso é muito graças ao staff e ao Leonardo Jardim. Os jovens jogadores têm confiança e isso faz com que tenham grandes progressos. A estratégia do Mónaco resultou e é para continuar: penso que a ideia é continuar a comprar jovens jogadores e desenvolvê-los até chegarem ao mais alto nível. Como ele fez com o Bernardo Silva e com muitos franceses que explodiram no Mónaco: Mendy, Lemar, Mbappé, o Bakayoko no centro do terreno e o Sidibé cá mais atrás. É notável.

Foi jogador, agora é comentador. O que é mais fácil?
Ser comentador é mais fácil! É mesmo muito mais fácil porque hoje sou eu que critico! Joguei 18 anos ao mais alto nível e é bom ter a oportunidade de continuar no terreno, de estar ao lado dos jogadores e de falar de futebol, porque o futebol é uma paixão para mim, pá, sou louco por futebol!

Sou louco por futebol. É uma boa frase para terminar, essa.
Sim, sim. Mas olha, é verdade, não tenho mesmo nada contra Portugal. Quando estive lá no Euro’2004 fiquei maravilhado, adorei mesmo. E tenho lá muitos amigos.

Ai sim? Quem?
Olha, o Pauleta. Joguei com ele no Paris Saint-Germain mas já o conhecia antes e guardo muito boas recordações dele dos tempos em Paris. O Pauleta tinha o golo dentro dele, era um jogador excecional.