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Scolari concorda com Fernando Santos: “Estou vendo os jogos da seleção e gostando muito. O bonito é ganhar”

Luiz Felipe Scolari falou em exclusivo com a Tribuna Expresso sobre a Taça das Confederações e recordou os tempos à frente da seleção portuguesa, "a melhor das escolhas" que já fez na vida, confessa

Evandro Furoni

Luiz Felipe Scolari liderou Portugal entre 2003 e 2008

FABRICE COFFRINI/GETTY

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Começou a carreira de técnico em 1982, quando o treinador Valmir Louruz, então doente, decidiu dar uma oportunidade para o capitão do CSA. Desde então, Luiz Felipe Scolari - ou "Felipão" - tornou-se um dos técnicos mais vitoriosos da história do futebol. Conquistou duas Libertadores da América, um Campeonato Brasileiro, quatro Taças do Brasil e o Mundial-2002 com a seleção brasileira, que comemora 15 anos neste mês.

Deixou a campeã mundial para comandar Portugal, em 2003, e levou a seleção ao vice-campeonato do Euro-2004 e à quarta posição do Mundial-2006. Como o técnico campeão da última taça das Confederações com o Brasil, sonha que Portugal seja o herdeiro do título. Até por isso, concorda com Fernando Santos: “O bonito é ganhar”.

Começou a carreira de treinador no CSA, onde jogava como central. Poderia contar-nos a história?
Estava terminando minha carreira como atleta e fui para o CSA por seis meses de contrato, levado pelo meu amigo e antigo treinador, Valmir Louruz, e lá conseguimos superar os pontos que estávamos em desvantagem no primeiro turno e sermos campeões. Ele não aceitou permanecer e sugeriu meu nome, pois eu tinha uma boa liderança daquele grupo. Aceitei, já que não iria mais jogar futebol. Começaria então minha carreira numa equipe que conhecia e tinha condições. Foi o que fiz e sempre agradecerei a confiança que aquela equipe e direção tiveram comigo.

De lá, partiu para uma carreira vitoriosa, especialmente no Mundial-2002. Mas o futebol do Brasil era muito questionado naquela altura. Qual foi o foco da preparação daquela equipa?
Para a Copa de 2002, o que fizemos depois da classificação foi organizar um grupo, confiar neste grupo, trabalhar muito com eles e acreditar nestes atletas, mesmo com alguma desconfiança por parte da imprensa.

Naquele elenco, quatro jogadores ganharam ou ganhariam depois o prémio de melhor jogador do mundo [Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Kaká], além de outros jogadores históricos e suas posições, como Cafu e Roberto Carlos. Como administrar o ego de uma equipa com tanto talento?
Administrar craques não é difícil. Administrar quem pensa que é craque é que é mais difícil. Foram grandes companheiros.

Após o título, decide deixar a seleção brasileira e vai para Portugal. Por que decidiu deixar a campeã mundial, e, principalmente, ir treinar a seleção portuguesa?
Deixei a seleção também porque queria mudar uma forma de trabalho dentro da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] e que não foi aceite. Ir a Portugal foi a melhor das escolhas que já fiz na minha vida.

Getty

Ali teve a oportunidade de treinar um jovem Cristiano Ronaldo. Como vê a evolução dele desde aquele tempo? Esperava que ele se tornasse o jogador dominante que é hoje?
Cristiano Ronaldo começou jovem na nossa seleção e continua a evoluir com sua vontade, determinação e ajuda de pessoas que o querem bem. Ele é um dos mais dedicados jogadores de futebol que conheci no futebol. A cada dia se reinventa e vai melhorando sempre.

Gostaria de um dia voltar a treinar em Portugal? Seja a seleção ou uma equipa?
Gosto muito de Portugal, mas acredito que o tempo que vivi como técnico da seleção foi importante e agora é tempo de outros técnicos.

Tem seguido a Taça das Confederações? A equipa é criticada por jogar "feio", mas Fernando Santos diz que "bonito é ganhar". Concorda com essa ideia?
Estou vendo os jogos da seleção e gostando muito. É uma equipe mais madura, joga um bom futebol, com cuidados, mas sempre buscando o gol e os objetivos. Estou gostando mais agora do que o início do Euro. A equipe está jogando bonito e com foco. A imprensa pensa diferente e exprime sua opinião e respeitamos, mas para todos nós técnicos, o bonito é ganhar, e a seleção está ganhando, renovando e chegando aos objetivos traçados pelo seu técnico e atletas. Estou feliz com os resultados e vou seguir torcendo pela seleção. Gostaria que fosse a campeã, pois seria a sequência de vitórias de nós brasileiros e portugueses. [O Brasil, com Scolari como técnico, foi campeão da última edição da Taça das Confederações]

As suas equipas sempre mostraram muita força quando jogam em casa, mas duas das derrotas mais dolorosas da sua carreira, no Euro-2004 e no Mundial-2016, foram com o desafio de ser o país anfitrião. Há um momento em que a pressão de jogar em casa supera a vantagem do apoio dos adeptos?
Todas as derrotas são frustrantes, e é normal que se fale, comente mais quando é no país sede da competição, mas perder jogos e títulos sempre é ruim. Devemos procurar aprender mais com estas derrotas e geralmente é o que fazemos.

Estás agora na China, e já treinou em Uzbesquistão e Oriente Médio. Qual a diferença de treinar nestes países em comparação com os centros mais tradicionais do futebol?
As duas maiores escolas de futebol são a Europa e a América do Sul. China, Kuwait, Arábia Saudita, Uzbequistao, Japão, países em que trabalhei também, são escolas onde eles estão aprendendo muito para chegar a um equilíbrio com as potências. Trabalham arduamente e com o tempo vão estar desenvolvendo uma melhor técnica, melhores atletas, melhores técnicos, melhores metodologias de treinamento e a partir dai começarem a sonhar com um bom equilíbrio.

Atsushi Tomura/Getty