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Alex Hunt, o tenista de um braço só: “Fui eu quem escolheu fazer isto, não me posso queixar”

Cresceu numa pequena vila da Nova Zelândia, numa quinta ainda mais pequena. Aos 18 anos foi para os EUA, estudar e jogar ténis. Decidiu continuar e, no final de maio, tornou-se no primeiro tenista com apenas um braço a pontuar para o ranking ATP. Alex Hunt gostava de chegar ao top-200 e jogar um Grand Slam, mas o que queria mesmo era “inspirar miúdos e mostrar que, aconteça o que acontecer na vida, por mais que enfrentes coisas difíceis, se lutares e tentares, nunca se sabe o que pode acontecer”

Diogo Pombo

ROBERTO SCHMIDT

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Como lidas com as derrotas?
Tento aprender com os jogos que perco. Agora, por exemplo, fui completamente destruído. Estava um pouco nervoso. Acho que, simplesmente, olho para trás, vejo o que fiz de mal e tento corrigir. Penso que tens de jogar para aprender, claro. Aprendes mais sobre ti com as derrotas, mas claro que sabe bem ganhar uns quantos jogos, também [risos].

E como encaras as vitórias?
Não celebro muito, por acaso. Normalmente fico bastante relaxado. Vou até à rede e dou os parabéns ao adversário e essas coisas. Fico muito feliz, obviamente.

Porquê o ténis?
Toda a minha família joga. Os meus pais, os avós dos dois lados, ambos os meus irmãos. Cresci à volta do ténis e quando era criança andava a pegar em raquetes e a atirar bolas. Comecei a jogar e adorei. Também experimentei outros desportos na Nova Zelândia, como o futebol e o críquete. Não sei se conheces críquete [ri-se]. Mas decidi que queria jogar ténis, então fui para uma universidade nos Estados Unidos. Não quis parar quando terminei os estudos, por isso, decidi continuar a jogar.

Lembras-te da primeira vez que jogaste?
Hmm, não faço ideia. Comecei a tocar em bolas e raquetes quando os meus irmãos jogavam, tinha eu dois ou três anos. Talvez tenha jogado o primeiro torneio quando tinhas seis ou sete anos, porque começamos a competir com essa idade. Mas não te consigo dizer quando foi a primeira vez que joguei ténis.

Os miúdos podem ser maus, como sabemos. Quando era novo, eles gozavam contigo por teres apenas um braço?
Nem por isso. Talvez no calor do momento algumas pessoas tenham dito algo, mas, por norma, toda a gente tinha muito respeito. A minha família tratava-me exatamente da mesma maneira em que tratava os meus irmãos, e acho que isso passou para a vida que tinha na escola. Estava sempre a jogar todo o tipo de desportos com os outros miúdos, era igual a eles. Até fazia as competições de natação. Não era muito diferente dos outros e acho que eles me viam como igual.

Foi difícil aprenderes o básico do ténis, quando começaste?
Não, porque sempre cresci a usar a prótese. Os meus pais compraram-me a primeira quando tinha seis ou 12 meses. Era muito pequena, com uma pequena tenaz na ponta [ri-se, de novo]. Ou seja, sempre foi isso que conheci. Se tivesse perdido um braço aos sete anos, por exemplo, teria sido muito mais difícil. Portanto, entrava no court e tentava fazer as coisas à minha maneira, a perceber como as fazer. Hoje em dia, a forma como agarro na raquete, como só tenho uma mão, é um pouco difícil.

Talvez demores uma milésima de segundo mais a mudares a pega da direita para a esquerda.
Até desisti, adotei a mesma pega para as duas bancadas. Há coisas pequenas que são um pouco diferentes, sim.

Os teus treinadores não faziam nada de diferente contigo?
Não, também me tratavam da mesma maneira. Claro que não conseguia fazer flexões como os outros, mas tentava sempre fazer tudo. Normalmente, deixavam-me perceber as coisas ao meu ritmo, à minha maneira. Davam-me umas dicas e ensinavam-me, obviamente, todos os treinadores que tive era muito bons arranjarem novas formas de me ajudarem, sobretudo no ginásio.

Como foi a experiência de estudar e jogar ténis nos EUA?
Venho de uma cidade muito pequena na Nova Zelândia, nunca tive muitos jogadores com quem treinar. Cheguei a um ambiente onde todos os jogadores que lá estavam era melhores do que eu. Era caloiro quando lá cheguei e os outros eram mais velhos. Tinha 18 anos. Era o número seis ou sete na equipa, o último da equipa. Deram exemplos para os quais olhar e pelos quais lutar. Foi espetacular estar numa equipa e jogar por, e com, outras pessoas, em vez de estar sempre a jogar apenas por ti. Adorei a experiência.

Foi duro começares a comparar-te a tipos que jogavam melhor do que tu?
Ao início sentia-me inseguro. Não sabia o que iam pensar de mim por ter apenas um braço e estar a jogar ténis. Não sabia se era bom o suficiente para estar a jogar ali e o que as pessoas iriam pensar. Superei isso passados seis meses, depois de treinar com eles e sentir-me já parte do projeto. A partir daí comecei a ganhar confiança e a jogar melhor. Só que, agora, está tudo a acontecer outra vez, sabes? Acabei a universidade, fui entrando em torneios da ITF e voltei a sair da zona de conforto. Parece que estou a aprender a andar de bicicleta outra vez. Foi uma mudança para mim. Por exemplo, na universidade, quando lá cheguei, estava sempre bastante nervoso, e agora está-me a acontecer de novo.

Há quanto tempo jogas torneios do ITF?
Este é o meu quarto ou quinto, acho eu. Este é o meu terceiro quadro principal. Tenho que me ir habituando.

Mas ficas mais nervoso e ansioso do que ficavas na universidade?
Sim, sem dúvida. No college, ia para o campo um pouco nervoso, mas passava-me. Agora, em torneios Futures, quando recebo um wildcard, fico a pensar demasiado nisso. Crio muita expetativa à minha volta.

Duvidas de ti?
Acho que sim, acho que foi isso que aconteceu hoje [risos]. Depois, com tudo o que tem saído na imprensa e isso tudo, este foi o primeiro torneio que joguei depois disso. Acho que foi muito pesado.

As entrevistas e artigos nos jornais, é demasiado com que lidar?
Não acho que seja demasiado. Para mim, é bom, porque me está a ajudar a concretizar o meu sonho, que, basicamente, é tentar ser uma inspiração para outros miúdos. Se o meu nome está a passar, é incrível. Estou a tentar arranjar alguém para trabalhar comigo e gerir um pouco tudo isto, para que não tenha tanto em que pensar e me possa concentrar no ténis. Mas claro que, por agora, é incrível ter um pouco de atenção mediática, se não a tiver não chego com a mensagem aos miúdos. O meu sonho é ser um jogador à volta do top 200 do ranking, algures por aí. Mas o sonho maior é inspirar as pessoas e mostrar que aconteça o que acontecer na vida, por mais que enfrentes coisas difíceis, se lutares e tentares, nunca se sabe o que pode acontecer.

Essa atenção também te pode ajudar a arranjar patrocinadores. Tens algum?
Não, por enquanto não, mas é esse o objetivo. Acho que ainda conseguir jogar em vários torneios este ano, mas depois tenho de encontrar uma maneira. Os meus pais estão a ajudar-me com dinheiro, porque é muito, muito caro. As contas acumulam-se muito rapidamente. Se jogar este ano e conseguir continuar a jogar, ótimo. Mas tenho que ver se é possível.

Gostas da vida de tenista?
Até agora, adoro. Ter estas aventuras e ver outras partes do mundo é incrível. Nunca tinha vindo a Portugal, por exemplo. Antes estive na Tailândia e parei no Dubai durante dois dias, porque não sou muito bom a viajar e precisei de parar um bocado [ri-se]. Depois vou para Marrocos. Ver tantas culturas diferentes e poder constatar como as pessoas vivem em outras partes do mundo. Se for a algum local mais pobre, onde as pessoas vivem com mais dificuldades, isso faz-me perceber a sorte que tenho. Os meus pais puseram comida na mesa e cresci na Nova Zelândia, onde o estilo de vida é muito agradável. Ir à Ásia abriu-me os olhos, completamente.

Não sentes falta de viajar com alguém?
Fui com alguns amigos à Tailândia e, até agora, tenho estado com alguém que conheço em todos os sítios onde vou. Ali ao fundo está um amigo da universidade, vamos viajar juntos nas próximas cinco semanas, o que é bom. Se não conhecer ninguém, vou tentar falar com as pessoas.

Como é que outros jogadores, nestes torneios, reagem ao facto de só teres um braço?
Não tenho a certeza. Acho que têm alguma vergonha de virem meter conversa e fazer perguntas. Este é o primeiro torneio desde que a minha história começou a sair nos jornais, mas não tenho sentido grande repercussão. Mas, honestamente, nem sei bem. Já houve pessoas que, depois de me verem jogar, vieram ter comigo e disseram “força, continua”, depois de perder. Também recebi mensagens incríveis no Facebook após conseguir o meu primeiro ponto para o ranking ATP.

Qual é a parte mais difícil de ser um tenista?
Provavelmente, os muitos altos e baixos que tens. Num dia podes estar a jogar de forma incrível e, no dia seguinte, tudo desaparece. E acho que as viagens e o estar longe de casa. Eu adoro-o, ao mesmo tempo, porque é uma aventura, mas o outro lado da moeda é que tenho saudades da minha família e dos meus amigos. E dos cães, porque vivemos numa quinta. Mas fui eu quem escolheu fazer isto, não me posso queixar [ri-se bastante].

Nos próximos cinco anos, qual seria a melhor coisa que te podia acontecer?
Ter um ranking alto o suficiente para chegar às pessoas e viver o sonho de que estávamos a falar. E arranjar uns patrocinadores [ri-se outra vez]. Mas a melhor coisa, mesmo, seria jogar num Grand Slam. Bastava ser no Qualifying. Ter a oportunidade de experimentar essa ambiente. Só o facto de estar aqui e ver um tipo que já foi top-60 do mundo [olha para trás e aponta para Frederico Gil, que está a jogar no court onde Alex perdeu] é muito bom.

Imaginas-te a jogar contra um Federer ou um Murray?
A jogar, nem por isso [mais uma gargalhada]. Ver esses jogadores pela televisão faz-te ambicionar ou sonhar, um dia, bater a bola como eles batem. Jogar contra eles é outra história, mas claro que seria fixe.

E a pior coisa que te podia acontecer?
Acho que não há nada de muito mau que me possa acontecer, além de ter uma lesão que me obrigue a parar de jogar. Acho que vou saber quando for altura de desistir do meu sonho. Se nos próximos seis meses me aperceber que não está a correr bem, ou que não vou conseguir arranjar patrocinadores, terei de ver o que faço. Caso não me esteja a divertir o suficiente, vou pendurar a raquete, como costumam dizer.

E essa cicatriz [é grande, por cima do joelho]?
Bom, não tem nada a ver com o ténis. Tem a ver com eu ser uma desgraça. Vivemos numa quinta e, uma vez, estava a conduzir um carro de corrida… Agora tenho de te contar. Havia uma estrada que passava por entre dois postes de eletricidade, que tinha uma curva antes. Tentei passar pela curva a deslizar, em drift, e endireitar o carro mesmo antes de passar entre os postes. Acabei por bater de lado num deles. Antes pensei “Ó não, acho que isto não vai resultar”. Pisei o travão, estraguei tudo e bati.

Gostas de ralis?
O meu irmão é um condutor de ralis na Nova Zelândia. Até eu o fui durante um ano, só que é muito caro. O meu pai até um piloto muito bom e o meu irmão desistiu do ténis para também o ser.

Mas tens jeito para a coisa?
Bom, sou um piloto decente. Costumávamos brincar muito com os outros e conduzi-los em estradas de gravilha, quando éramos novos. Se vais escrever alguma coisa, escreve que apostaria um dólar em mim mesmo para ganhar ao meu irmão [parte-se a rir].

Quem era o melhor jogador de ténis?
Ele era muito bom em júnior. Acho que até era o primeiro ou o segundo do ranking nacional nos sub-12. Só que lesionou-se quando chegou ao liceu e nunca mais jogou a sério desde aí. No escalão júnior era melhor que eu, sem dúvida. Nunca fui incrível nos juniores, era assim-assim. Depois é que comecei a apanhar os outros miúdos da minha idade.

Tens algum treinador na Nova Zelândia?
Sim, até me está a ajudar a gerir um bocado os pedidos da imprensa. É ele que recebe tudo e escolhe. Dá-me um par de entrevistas todas as semanas. Vou tendo algumas conversas por rádio, de vez em quando.

  • Alex só tem um braço e joga ténis contra quem tem dois

    Ténis

    Alex Hunt é um neozelandês que foi o primeiro tenista a conseguir pontuar para o ranking ATP, sob uma condição - ele só tem um braço. Tem 23 anos, joga com uma prótese e esteve no torneio Futures de Torres Vedras. Perdeu à primeira e os medos, as dúvidas e as incertezas, por momentos, voltaram