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O mítico Acácio da Silva: “O meu doping? Um bom café e uma boa posta mirandesa”

Uma das maiores lendas vivas do ciclismo nacional, Acácio da Silva, esteve esta semana em Schengen, na fronteira do Luxemburgo com a França, a convite do ministro do desporto e do primeiro-ministro luxemburguês, para assistir ao arranque da etapa da Volta a França, a prova rainha do cicilismo, onde o ciclista português chegou a vestir a camisola amarela

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Venceu três etapas do Tour, em 1987, 88 e 89 e vestiu de amarelo durante quatro dias. Qual das três etapas foi a mais complicada?
A primeira. É sempre a primeira porque estamos com aquela ânsia de ganhar uma etapa no grande Tour. Não é que seja a mais prestigiosa mas é a que pessoalmente tem mais valor.

Do que se lembra dessa etapa?
Foi a Volta a França que saiu em Berlim e foi na etapa entre Karlsruhe e Estugarda, com mais de 200km, com muito calor, muito abafada. Houve uma fuga de 20/22 corredores e na parte final só sobraram dois, eu e um suíço, Erich Mächler, a quem ganhei num sprint. Foi bonito.

Foi a etapa mais importante da sua vida?
Não, a mais importante foi mesmo aquela que ganhei aqui, no Luxemburgo, em que vesti a camisola amarela. Foi uma dupla vitória, porque vestir a camisola amarela vale mais do que três etapas juntas.

Porque é que não conseguiu manter a amarela mais tempo?
Poucos corredores podem ganhar a Volta a França. Naquela altura perdi a amarela num contra-relógio para o Greg LeMond. É muito difícil guardar a amarela, até porque há um trabalho enorme da equipa, há um grande desgaste e tem de haver grande controle. A equipa tem de estar preparada para ganhar a Volta com um grande campeão. Eu não era o chefe de fila, era o Urs Zimmermann, e tinhamos outros grandes nomes como o Chiappucci, por exemplo.

Ou seja, teve que se sacrificar por causa do chefe de fila?
Sim. temos de sacrificar-nos para o chefe de fila ou para o sprinter da equipa, conforme o percurso de cada dia. É um trabalho em equipa.

Reuters

Olhando hoje para o Tour, mudou muita coisa?
A grande diferença é sobretudo técnica, ao nível do material dos ciclistas. O resto manteém-se, continua a arrastar multidões e a gerar grande entusiasmo. Agora é muito mais rápido. A tática de correr, a tática de preparação é diferente.

Hoje chegam mais bem preparados?
Sem dúvida. Antes chegávamos ao Tour a 80%, hoje chegam a 100%. E isso faz grande diferença. Hoje trabalha-se de uma forma melhor. No meu tempo começávamos a correr em março e era até outubro. Hoje há ciclista que praticamente só fazem a Volta a França. Por isso chegam a 100%. No meu tempo corríamos a Volta a Itália ou a Volta a Espanha e a Volta a França.

Venceu cinco etapas no Giro. Tiveram tanta ou mais importância do que as do Tour?
São coisas diferentes. O Tour é a prova maior que existe no mundo. O Giro, como eu estava em equipas italianas, para eles também é muito importante essa Volta. Aliás, para poder correr a Volta a França tive de sair de Itália.

Porquê?
Porque os italianos naquela altura não gostavam da Volta a França, era muito dura e muito tarde. A meta principal era o Giro.

Qual o ciclista que mais admirava?
Admirei muito o Bernard Hinault, o Greg Lemond, Laurent Fignon e o nosso Joaquim Agostinho, que era um ídolo para mim.

Chegou a correr ao lado dele.
Sim, dois anos. Deu para aprender umas coisas.

O que é que aprendeu?
Fizemos uma Volta à Suiça, corremos quase juntos. Trocámos muitas ideias, porque eu era novo e ele já tinha mais calo.

Há alguma coisa que lhe tenha dito que ficou na memória?
Já foi há muitos anos. Ele era uma pessoa muito aberta, ensinou-me muitas coisas, avisou-me para ter cuidado com os managers das equipas. Por acaso o manager que era dele foi também meu.

O que é que o Acácio faz agora profissionalmente?
Já há 20 anos que sou agente imobiliário, faço promoções e vendo casas aos portugueses e luxemburgueses.

Tem filhos?
Tenho dois. A rapariga tem 10 anos e ele vai fazer oito.

Gostava que ele seguisse as suas pedaladas?
Ainda é muto cedo. Mais tarde, se ele gostar... Mas sinceramente não sei se gostava. Cada vez mais está mais complicado e perigoso.

Mais perigoso porquê?
Por causa das estradas, dos trilhos. Há cada vez mais carros e as estradas não são mais largas.

Pensei que ia falar do doping.
Não é só no ciclismo. Julgo que em todo o desporto a medicina desportiva anda sempre adiantada dois/três anos. Daqui a dois/três anos esses produtos já estão na lista e já há outra coisa. O mundo é feito assim e vai continuar a ser. Haverá sempre atualização dos produtos. A lista das substâncias proibidas cresce todos os anos.

Sentiu muita desilusão quando houve o escândalo do Lance Armstrong ou já estava à espera?
Não era normal, entrava pelos olhos dentro, uma pessoa que está com cancro e depois retorna e faz o que faz... só um superhomem. Era dificil acreditar.

Qual era o seu principal ‘doping”?
Um bom café e uma boa posta mirandesa (risos).

Teve uma carreira de 13 anos. O que foi mais difícil?
A passagem de amador para profissional e ficar lá em cima. Os dois primeiros anos foram difíceis.

Olhando hoje para o ciclismo português, vê algum ciclista que se destaque ou possa destacar mais no futuro?
O ciclismo português tem dez, onze ciclistas bons. O Rui Costa, o Machado, o José Gonçalves, o José Mendes, temos aí uma dúzia deles que podiam fazer uma boa equipa e um bom papel na Volta a França, digo eu.

Acha que se deviam juntar para formar uma equipa?
Isso era a melhor coisa, formar uma equipa portuguesa, como já teve há muito tempo o Sporting, para participar na Volta a França.

Neste momento o único português que temos no Tour é o Tiago Machado. Ele tem alguma hipótese de fazer um brilharete?
É um corredor que tem qualidade para mostrar uma coisa ou outra aqui na Volta, embora ele trabalhe muito para a equipa.

Quando é que o Acácio começou a pedalar mais a sério?
Só aos 18 anos.

O que fez até lá?
Fazia um pouco a mecânica das bicicletas dos meus irmãos que já corriam num clube daqui, o CC Dudelange. Cuidava-lhes das bicicletas.

Nessa altura o que fazia?
Trabalhava na construção de telhados, fazia as caleiras. Quem me ofereceu a primeira bicicleta foi até o meu patrão da altura.

Os seus irmãos nunca brilharam tanto como o Acácio.
O Francisco ainda correu comigo um ano em Itália, mas era mais velho e custou-lhe a entrar no ritmo da equipa.