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Dolores Silva: "Sempre que entro em campo beijo um crucifixo que era da minha avó"

Tem 100 internacionalizações com a camisola da seleção e é uma das jogadoras mais experientes da equipa que conseguiu colocar Portugal pela primeira vez na fase final de um Europeu de futebol feminino. A seleção nacional estreia-se quarta-feira, frente à Espanha, e antes de partir para a competição que hoje começa na Holanda, Dolores Silva confessa estar impaciente. "Quero é jogar e viver aquele ambiente", diz.

Alexandra Simões de Abreu

Marcos Borga

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Chega ao Europeu em forma?
Sim, tive só uma pequena mazela, uma entorse num jogo treino há duas semanas, mas já está tudo bem.

Foi a primeira vez que este grupo esteve tanto tempo junto, em estágio. O que surpreendeu mais pela positiva?
O grande desafio vai ser a partir de agora, porque nas semanas anteriores sempre tivemos o sábado e o domingo para nos soltar um bocadinho, estar com a família e amigos, distrair um pouco do futebol e recuperar energias. A partir de agora já não vai ser possível, mas espero que estejamos juntas o máximo de tempo porque é sinal que estamos a ir bem na competição. Acho que isso vai ser um desafio para nós, lidar todos os dias com as mesmas pessoas. Se calhar vai haver altos e baixos, mas estou confiante porque o grupo está bastante contente e coeso.

Quais são as suas expectativas?
Jogo a jogo pensar em dar o melhor.

O que será um bom e um mau balanço do Europeu?
Temos consciência das nossas dificuldades e do valor das seleções que vamos defrontar no nosso grupo. Mas pensamos sempre em ganhar quando entramos em campo. É esse o objetivo. Claro que não queremos perder os três jogos. O nosso pensamento é dar o melhor e no final esperemos que as contas nos sorriam.

Das três seleções qual vai ser "o osso mais duro de roer"?
As três são fortes, mas claro que se destaca a Espanha e a Inglaterra. Não vale a pena esconder, são seleções muito bem classificadas a nível de ranking mundial, sobretudo Espanha e Inglaterra que têm desenvolvido muito o futebol feminino, prova disso é que têm tido resultados muito bons contra seleções muito fortes. Diria que essas duas são as que nos vão criar mais dificuldades no grupo, mas claro que não posso tirar a Escócia do baralho.

O primeiro embate é logo com a Espanha. Qual é o seu ponto forte?
Saírem a jogar. São muito objetivas, têm jogadoras com qualidade individual acima da média, que fazem a diferença. Vamos tentar contrariar esse jogo delas, o chamado tic e tac que elas gostam de fazer, anular esses pontos fortes, tentar incomodá-las ao máximo para que elas não se sintam confortáveis no jogo. Até acho bom para nós que o primeiro impacto seja contra a Espanha.

A nível pessoal fez alguma coisa diferente para se preparar para este momento?
Tento controlar-me mais a nível mental e emocional porque esta é uma fase bastante ansiosa, quero que chegue o momento do jogo, quero jogar. Acima de tudo quero jogar.

Faz isso sozinha ou tem ajuda psicológica?
Tinha uma mentora (psicóloga) no clube onde estava e felizmente consigo manter o contacto e ela ajuda-me bastante nesse trabalho. Comecei a ter esse apoio no ano passado e quando estou mais em baixo ou num período mais ansioso ela sabe sempre dizer a coisa certa.

"Acima de tudo quero é jogar. Não me importo de ser lateral."

"Acima de tudo quero é jogar. Não me importo de ser lateral."

Marcos Borga

Jogou seis anos na Alemanha e na próxima época regressa a Portugal para representar o Sp. Braga. É uma grande mudança. Está preparada para esse regresso?
Sei que a nível competitivo vou notar bastante diferença, porque a primeira liga alemã é uma das mais fortes senão a mais forte, mas neste momento achei por bem agarrar-me ao projeto do Sp. Braga, depois logo se vê.

Mas ao nível da seleção essa diferença já não é tão grande, ou é?
A nível de seleção já encontramos uma competitividade grande. Mesmo as jogadores que estão a jogar no campeonato português, além de serem titulares, muitas delas já estiveram fora. Por isso não se sente tanto essa diferença.

O que é que o selecionador Fernando Santos vos disse quando foi ter convosco durante a fase de qualificação para este Europeu?
Desejou-nos boa sorte e disse-nos para acreditarmos porque nada é impossível e eles provaram isso mesmo, que Portugal tem qualidade, basta acreditar em nós próprias e unirmo-nos. Foram palavras que nos marcaram naquele momento e que certamente levamos no nosso pensamento.

Está a contar que ele volte a falar com vocês antes de partirem para a Holanda?
Era giro. Era uma motivação extra. Ele conquistou um feito inédito com a seleção portuguesa.

É crente ou tem algum tipo de superstição?
Sou supersticiosa, confesso.

Explique lá.
Tenho um crucifixo que era da minha avó. Desde que me lesionei lá fora, logo no primeiro ano em que fui jogar para a Alemanha, quando regressei aos relvados a minha tia deu-me esse crucifixo que a minha avó trouxe de Fátima, como forma de proteção e desde então sempre que entro em campo dou-lhe um beijinho. Não sei se é em Deus que acredito porque com tudo o que se passa no mundo, com tantas guerras em nome da religião, fico céptica em relação à religião em si, mas acabo por ter a minha própria crença e o meu próprio Deus.

As fitas na cabeça são outra imagem de marca.Já escolheu as que vai usar no Europeu?
Sim. Já há muitos anos que jogo com o cabelo solto, de fita, e tenho umas sete ou oito dentro de uma bolsa. A que vou usar na Holanda é aquela com que conseguimos o apuramento. É uma fita preta.

"Vou usar na Holanda a mesma fita preta com que conseguimos o apuramento"

"Vou usar na Holanda a mesma fita preta com que conseguimos o apuramento"

Marcos Borga

Tem mais algum tipo de superstição ou ritual?
Gosto de entrar com o pé direito e de me benzer. Gosto de arrumar a mala certinha.

O que é que isso quer dizer?
A toalha fica sempre no mesmo sítio, assim como as cuecas de jogo, o soutien desportivo, as meias de enchimento (que uso sempre as mesmas). Acabo por usar aquelas que me dão sorte, em que fiz bons jogos, até me dar na cabeça e troco.

Há algum tipo de preparação que faça por conta própria, mesmo que o treinador não peça?
Gosto de seguir os jogos das outras seleções. Sempre que posso faço-o. Gosto de estar a par. Tento ver com que onze jogaram, se têm alguém magoado, qual a lista de convocadas, quem está e quem não está.

Qual é a jogadora que mais admira?
Tenho várias. Tenho referências, e sempre tive, portuguesas, nomes como Carla Cristina, Sónia Matias, Edite fernandes, Carla Couto, Sílvia Brunheira, Paula Cristina, foram jogadoras que me marcaram no meu processo de formação. Quando atingimos este feito pensei também muito nelas, porque sei que era algo com que também sonhavam e que nós conseguimos. Foi para elas também. Depois a nível internacional gostava muito da Nadien Kessler, a médio-centro da Alemanha, terminou a carreira como melhor do mundo, depois lesionou-se e retirou-se. Mas tive o privilégio de jogar várias épocas contra ela e achava-a, na minha posição, no meio campo, uma jogadora fenomenal e humilde.

"Desde que me lembro de pensar, que andava sempre atrás de uma bola. Jogava na rua, na escola, com o meu pai."

"Desde que me lembro de pensar, que andava sempre atrás de uma bola. Jogava na rua, na escola, com o meu pai."

Marcos Borga

Quando descobriu que queria ser jogadora de futebol?
Muito cedo. Desde que me lembro de pensar, que andava sempre atrás de uma bola. Jogava na rua, na escola, com o meu pai. Ele próprio adorava que eu estivesse a dar toques com ele na praia, até que surgiu a oportunidade de fazer as captações no Real Massamá, por incentivo do meu pai acabei por ir e ter a felicidade de ficar. A partir daí não pensei noutra coisa.

E os estudos, onde ficaram?
Ficaram como plano B na minha cabeça. Fiz até ao 12º ano. Tive oportunidade com 16 anos de sair do país, mas optei por ficar para acabar o secundário. Depois surgiu a oportunidade de ir para a Alemanha, ao mesmo tempo surgiu a hipótese de ir com bolsa para os EUA, mas assim que soube que a Alemanha estava com interesse nem hesitei.

Estudou na Alemanha?
Quando fui para lá tive de aprender alemão primeiro. Há dois anos como já tinha feito o curso todo de alemão até ao nível que me permitiu ingressar na universidade, consegui entrar para Ciências do Desporto.

Há dois anos como já tinha o curso todo de alemão que me permitia ingressar na universidade, entrei para Ciências do Desporto."

Há dois anos como já tinha o curso todo de alemão que me permitia ingressar na universidade, entrei para Ciências do Desporto."

Marcos Borga

No futuro vê-se a fazer o quê, a ser treinadora?
Ainda não sei. A parte do treino é algo que me fascina e gostava de ter essa experiência, mas cada coisa a seu tempo. Agora em Braga vou tentar fazer já o segundo nível do curso de treinadora, uma vez que consegui o primeiro com a internacionalizações.

A nível de treino nota uma grande diferença naquilo que foram os treinos nas equipas alemãs e aqueles que tem na seleção?
São maneiras de pensar diferentes. Cada treinador tem a sua forma e o seu método de pensar o jogo. Aqui na seleção os professores tentam adequar o treino às nossas necessidades e àquilo que eles acham que é o melhor para o nosso jogo. Aqui trabalha-se mais a tática e a forma de jogar. Nos clubes é mais a parte física, de nos manter bem fisicamente.

No clube era médio, mas na seleção tem treinado a lateral esquerdo. O que prefere?
Não posso dizer (risos)

Porquê?
Acima de tudo quero é jogar. Não me importo de ser lateral. Lá fora também houve jogos em que fui lateral e por necessidade já fiz de central também.

Mas onde se sente mais confortável?
No meio campo.

Tem algum hóbi?
Adoro fazer viagens e conhecer sítios novos.

Qual o sítio que mais gostou de visitar em férias?
Fui recentemente a Minorca em Espanha, e gostei muito. Mas gosto sempre de conciliar com um lado cultural e histórico e estive também em Valência. Gostei muito de Barcelona porque tem as duas vertentes, a cultural e histórica e a balnear. Também gostei muito de Amesterdão, onde fui duas ou três vezes porque ficava a hora e meia de carro do meu primeiro clube na Alemanha. Acho uma cidade muito viva, cheia de cor.