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As viagens da jogadora mais velha da seleção: “Entre Espanha e Inglaterra, venha o diabo e escolha”

Tem um blogue de viagens, joga na Islândia e é a futebolista mais velha da seleção. Carolina Mendes considera que a estreia de Portugal no Europeu - joga hoje com a Espanha (17h, RTP1) -, por si só já é um feito, por isso, qualquer que seja o resultado, "será sempre positivo"

Alexandra Simões de Abreu

Marcos Borga

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É a jogadora mais velha da seleção.
Infelizmente.

Porque é que diz infelizmente?
Porque é bom e é mau. É bom porque significa que estou a conseguir o mesmo nível já há muito anos. Isso é bom, porque há jogadoras que vão e vêm e há outras, por motivos pessoais ou profissionais, que acabam por desistir da modalidade. Por isso sinto-me privilegiada por ter 29 anos e saber que contam comigo a nível da selecção nacional. Depois é mau porque começamos a ver a idade a passar...

Sente o peso de ser a mais velha?
Não, não [risos].

Costumam praxar as mais novas?
Agora já não. Agora o grupo está mais fechado, já não há jogadoras novas a entrar para serem praxadas. Antes é que fazíamos umas partidas, revirávamos os quartos delas, escondíamos a roupa interior, era engraçado.

Quando e onde é que cresceu mais como jogadora?
A partir do momento em que saí de Portugal, há uns cinco ou seis anos. Senti diferença quando fui para Itália. Senti mesmo uma grande diferença em mim, como jogadora, senti que cresci muito. Quanto mais profissionais e equilibrados são os campeonatos, mais evoluímos. Depois fui para a Rússia e era mais exigente, e depois para a Suécia que era ainda mais exigente. A verdade é que os anos estão a passar e parece que me sinto melhor porque a exigência tem sido mais alta. O nível tem aumentado e sinto-me melhor agora.

O nível na seleção é idêntico ao dos clubes por onde passou?
Sim. E neste momento já temos muitas jogadoras boas em Portugal. Com o Sporting e o Sporting de Braga, há jogadoras que estão a regressar. Mas houve uma altura em que éramos praticamente todas a jogar no estrangeiro.

Em termos de posicionamento em campo, ocupa a mesma posição?
Agora sim. No clube tenho jogado mais no meio campo e agora aqui também comecei a jogar mais no meio-campo, mas há um tempo atrás era avançada na seleção.

Onde é que se sente mais confortável?
Depende dos jogos, mas talvez no meio, gosto de jogar no meio.

Quanto ao nosso grupo, qual a seleção mais difícil de vencer?
Penso que todos os jogos vão ser difíceis. Talvez o menos difícil seja com a Escócia. Agora entre Inglaterra e Espanha...

“Venha o diabo e escolha”?
Sim. Se calhar vamos conseguir adaptarmo-nos melhor ao futebol da Espanha que é idêntico ao nosso, por isso talvez seja mais difícil com a Inglaterra. Por ser um futebol diferente, é aquele futebol direto, com muita força e potência.

A médio está a gostar da experiência de jogar na Islândia

A médio está a gostar da experiência de jogar na Islândia

Marcos Borga

Se tivesse de caracterizar o nosso futebol o que diria?
Que é diferente de todos os outros.

Porquê?
Porque nós temos a nossa identidade. O nosso futebol é mais apoiado, mais de jogar bola no pé, tecnicamente somos jogadoras com mais técnica do que qualquer outra, de outro país.

Então por que tivemos tanta dificuldade de chegar até aqui?
Porque depois não é só a técnica. As outras jogadoras têm mais força, mais potência no choque.

Precisamos de treinar mais o lado físico, mais do que o táctico?
Sim, claro. Elas acabam por se impor por isso mesmo. Também são jogadoras que são praticamente todas profissionais. Acho que agora praticamente todas as jogadoras que vão à selecção são profissionais, mas na altura, durante o apuramento, não.

Na seleção faz-se trabalho de ginásio, de musculação?
Não.

E nos clubes por onde passou fazia?
Sim.

Esse trabalho não se faz na seleção porquê? Porque a equipa técnica não exige, as jogadoras não estão para aí viradas?
Penso que não adianta muito uma jogadora que nunca fez ginásio chegar a um estágio de seleção e ir fazer trabalho de ginásio.

Não ajudava?
Não, acho que não tem muito sentido, porque ou já é uma jogadora que faz esse tipo de trabalho há mais tempo ou então não justifica. Quando são estágios mais curtos, estar a introduzir trabalho de ginásio para jogadoras que nunca fizeram, acho que só vai piorar.

Quando está nos clubes faz sempre trabalho de ginásio e na seleção não?
Não. Mas nos clubes também não faço treino bi-diários como temos feito no estágio da seleção. Cabe aos treinadores dosear o esforço.

Tem muito cuidado com a alimentação?
Sim, não sou obcecada, mas há coisas que não como.

Como por exemplo?
Fritos, refrigerantes.

Carolina tem 29 anos e é a jogadora mais velha da seleção

Carolina tem 29 anos e é a jogadora mais velha da seleção

Marcos Borga

Voltando ao Europeu, o que é que para si será uma prestação aceitável e uma péssima prestação da nossa selecção?
Péssima prestação acho que não vai ser. Independentemente dos resultados, quer sejam positivos ou negativos, acho que nada vai apagar aquilo que já fizemos. Acho que nunca vai ser negativo, nem que seja pela experiência que nós vamos adquirir. Vamos ter que ser fortes e vamos ter de melhorar, mas independentemente do resultado será sempre positivo. Agora, o nosso pensamento vai ser jogo a jogo, não estamos a pensar já na fase seguinte. Talvez um quadro positivo seja passar a fase de grupos. Seria bastante positivo para nós. Muito mau, acho que isso não vai existir.

Perder todos os jogos não seria mau?
Seria mau, mas se pensarmos que a nível do ranking somos a seleção menos cotada... Não podemos pensar que as coisas mudam de um dia para o outro. É a primeira vez que estamos num Europeu, é histórico.

Mas só isso chega?
Claro que não. Por isso o nosso objetivo agora é pensar no primeiro jogo. Depois, pensar no 2º, depois no 3º.

Qual a selecção capaz de ganhar este europeu?
A Alemanha. Ou a Espanha talvez, que tem crescido muito nos últimos anos.

Qual é a sua jogadora de referência?
A Carli Lloyd, que joga nos EUA.

Gostava de jogar nos Estados Unidos?
Sim, gostava.

O futebol surge por acaso ou era algo que sempre quis?
Sempre gostei de jogar futebol. Jogava no recreio. Depois surgiu um convite para ir jogar futebol em Ponte Sor, que ainda é muito distante de Estremoz. Eu aceitei mas na altura também praticava outra modalidade, hóquei em patins, e por isso ia praticamente só ao fim de semana a Ponte de Sor. O treinador vinha buscar-me, eu fazia o jogo e voltava. Nem sequer ia aos treinos. Era um hobby de que gostava.

E quando é que decidiu que queria fazer do futebol a sua vida?
Foi um pouco mais tarde, quando comecei a integrar as seleções nacionais, primeiro as sub-19, com algum sucesso porque conseguíamos alguns apuramentos, e fazer golos. Entretanto fui chamada à selecção A, ainda era muito nova e aí é que tive que optar. Optei pelo futebol e deixei o hóquei em patins. Na altura fui para Barcelona fazer Erasmus num curso de Fisioterapia e fui viver para a casa de uma jogadora na altura, a Sónia Matias, que jogava no Espanhol. Comecei a ver o estilo de vida que elas tinham e que era mesmo aquilo que eu gostava.

Gosta de treinar?
Gosto.

E o curso de fisioterapia como é que está neste momento?
Faltam duas disciplinas.

E é para acabar?
Sim.

Entretanto já andou por Itália, Rússia, Suécia e agora Islândia. De todos estes campeonatos, qual foi aquele a que sentiu mais dificuldade de adaptação?
Não pelo futebol, mas talvez mais pela parte social, foi a Rússia. A comunicação era muito difícil. Depois nenhuma falava inglês, tinha que ter uma tradutora. Mesmo a treinadora para falar comigo tinha que passar sempre pela tradutora.

Estava sozinha?
Na altura havia uma jogadora sueca, vivia com ela, mas depois ela saiu e fiquei sozinha. Custou.

Foi por isso que quis vir embora?
Sim. Mas a nível das condições, era do melhor. Faltava essa parte mais do social.

Qual foi o campeonato que mais gostou de jogar?
Gostei muito do campeonato na Suécia, achei muito forte e estou a gostar muito também do da Islândia. Que é pequeno, começa em maio e vai até setembro, é diferente de todos os outros, e é muito intensivo. Jogamos duas vezes por semana.

Então de setembro a maio o que é que faz?
Pois, tenho de arranjar outra equipa porque é muito tempo sem jogar.

Carolina lançou recentemente um blog chamado "As viagens da Carol"

Carolina lançou recentemente um blog chamado "As viagens da Carol"

Marcos Borga

Entretanto criou um blogue de viagens. Como é que nasceu essa ideia?
É uma ideia recente e surgiu porque a seguir ao futebol uma das minhas paixões é viajar. As pessoas perguntavam-me muito sobre os destinos onde eu já tinha ido. E um dia pensei “vou criar um blogue”, facilita a vida às pessoas que têm curiosidade e vão viajar e não me custa nada fazer. Surgiu assim.

Tem ideia de quantas pessoas já seguem o blogue?
Seguidores não sei, mas já tenho mais de 11 mil visitantes.

Alimenta o blogue diariamente?
Todos os dias às vezes é difícil, há o futebol e agora temos o Europeu e estou mais focada no futebol, mas tento sempre publicar qualquer coisa com frequência, nem que seja uma foto.

De onde vem esse gosto pelas viagens?
Nunca gostei de estar sempre no mesmo sítio. Sempre gostei de viajar e o meu irmão Filipe, que é comissário de bordo, também. Acho que partiu um bocado por influência dele.

É mais velho?
Sim, tem 31 anos. E tenho uma irmã, a Inês, mais nova com 21 anos.

Já viajou por quantos países?
Talvez uns 20 países.

Quantas viagens faz por ano?
Duas, três.

Qual o destino que mais deslumbrante?
Talvez por ser o mais recente, Madagáscar, é espectacular. Foi engraçado porque foi uma viagem de irmãos. Como cada um está para seu canto, juntámo-nos e fomos os três. Foi muito giro.

Carolina não exclui a hipótese de um dia ser treinadora

Carolina não exclui a hipótese de um dia ser treinadora

Marcos Borga

Depois do futebol, o que é que pensa fazer da tua vida? Vai-se dedicar à escrita no blogue e viajar?
Não, porque não dá dinheiro [risos].

Caso contrário era isso que faria?
Exatamente.

Mas há quem consiga viver disso.
Sim, sim. Agora até entrei num concurso da Momondo, fui finalista dos blogues de viagens, mas ainda é muito precoce. Mas sim, se pudesse era isso. Vou tentar agarrar-me ao curso de fisioterapia.

Ser treinadora não está nos planos?
Sim, até porque era uma forma de continuar ligada ao futebol e é isso que eu gosto. Agora não sei se tenho jeito.

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